março 12, 2011

Reconhecido pelo cão

"Quando Ulisses chega enfim à sua casa, ele chega travestido, por Atenas, sob a forma de um velho mendigo. Na soleira da porta de casa estava seu cão, Argo. No momento de sua partida, Argo era um filhote. Agora, velho e pulguento, ele não tem força sequer para ficar em pé. No entanto, quando Ulisses aparece, Argo não tem dúvida. Ele o reconhece e levanta, correndo trôpego em direção ao dono. Ulisses abraça seu cão cheio de pulgas e enfraquecido. O cão morre em seus braços, como quem estivesse apenas à espera de um reencontro.
O cão reconheceu Ulisses, mas sua mulher não. Mesmo tendo recoberto sua forma, isso depois da batalha com os pretendentes que haviam se apossado de sua casa, Penélope não está segura de ter a seu lado Ulisses, o marido pelo qual ela tanto esperou. Na verdade, Penélope precisa de uma prova, ela precisa testar a memória daquele que diz ser seu marido. É por meio da memória que se dará o reconhecimento, a partilha entre o certo e o incerto. Ulisses terá de mostrar que sabe do que, afinal, sua cama é feita. Ele terá de recitar, mais uma vez, as promessas de enraizamento que haviam constituído o leito que ele partilhara com sua mulher. O reconhecimento é, assim, uma recognição que se apoia na capacidade de síntese da memória.
Mas, para o cão, Ulisses não precisou mostrar nada. Para além das aparências, o cão aparece na Odisseia como o único capaz de reconhecer algo como o “ser bruto” de Ulisses. Eis um detalhe que não deveria nos deixar indiferentes. Pois ele nos coloca uma questão: haveria algo em nós que só é reconhecido através dos olhos de um animal? Se nem o amor da mulher que sempre esperou tinha certeza, se apenas o cão tinha certeza, então poderíamos nos perguntar de onde vem a certeza do cão. Pois talvez ele encontrasse sua certeza no resto de animalidade que existe em nós, ou seja, naquilo que para um grego é inumano, naquilo que não porta a imagem do homem.
......"
Nota: Leia a continuação do artigo de Vladimir Safatle  aqui.

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