março 29, 2010

Do lado claro

"Fui passar uns dias em Nova York e deixei crônicas prontas para cobrir minha ausência. Crônicas sobre nada, ou sobre nada muito factual.
O risco disto, claro, é darem um tiro no Papa ou o mundo acabar e não aparecer nenhum comentário seu a respeito. A semana que passei em Nova York foi a do 11 de setembro de 2001.
Logo depois dos atentados comecei a mandar matérias para O GLOBO e para a “Zero Hora” de Porto Alegre sobre o que estava acontecendo sob o meu nariz, mas outros jornais que reproduzem esta coluna não receberam as matérias e continuaram a publicar minhas considerações sobre os hábitos sexuais dos anjos.
Para parte dos meus dezessete leitores, portanto, fui um exemplo extremo de alienação. O planeta em choque e eu muito trá-lá-lá da vida.
No caso acima a alienação foi acidental, e parcial. Há casos em que ela se deve à insensibilidade mesmo, ou a uma inabilidade de entender o momento.
Como a de Maria Antonieta, que na noite do dia em que os revolucionários assaltaram a Bastilha escreveu no seu diário, entre bocejos: “Mais um dia tedioso em que nada aconteceu.”
E há casos em que a alienação — definida como desatenção a um fato ou assunto que domina a atenção de todo o mundo — é voluntária, deliberada e profilática.
Eu não tenho nada a dizer sobre o caso Nardoni, não porque não compartilhe da comoção nacional que ele provocou, mas por autodefesa. Não quero pensar no assunto.
Não quero entrar nesse pântano sulfuroso nem dizer coisas pseudoprofundas sobre os labirintos da alma humana. E prefiro não comentar o teatro de excessos em que se transformou o julgamento e seu entorno. Eu, egoistamente, fora.
Mudando de assunto: minha neta abre os braços e diz “vovô!”, com ponto de exclamação e tudo, sempre que me vê. Como nos vemos várias vezes por dia, é uma emoção multiplicada.
Quando perguntamos que horas são, ela olha o pulso e, invariavelmente, diz “cinco nove”. Não sabemos de onde ela tirou isto, mas, por via das dúvidas, estamos pensando em jogar na dezena. E quando... Eu sei, eu sei. Nada menos interessante do que gracinha de neto contada por avô, para quem não é o avô.
Mas há momentos em que o desinteressante e o sem nenhuma importância servem como refúgio. E você pode se consolar por estar no que a poeta Lara de Lemos, que teve seus dias de escuridão, chamava de “o lado claro do mundo”.

Luiz Fernando Verissimo

Um comentário:

Edson Freitas disse...

Genial é pouco. É linda a forma como ele se refere à neta, a ponto de, quem não é nem tem a menor chance de ser avô um dia, sentir-se o próprio.

Eu queria morrer avô!!!