março 22, 2010

Caravaggio

"Ao menos por uma curiosa nova contabilidade, os 500 anos de domínio extraoficial de Michelangelo na arte italiana terminaram. Quem o destronou foi Caravaggio, que achou tempo para pintar enquanto não estava brigando, perseguindo mulheres (e homens), assassinando um adversário do tênis com uma adaga na virilha, fugindo da polícia ou tendo seu rosto mutilado por um de seus muitos inimigos.
Isso segundo Philip Sohm, historiador da arte na Universidade de Toronto, que estudou o número de escritos (livros, catálogos, estudos acadêmicos) sobre ambos ao longo dos últimos 50 anos. Sohm descobriu que Caravaggio gradualmente, ainda que de forma irregular, superou Michelangelo.
A mudança, mais óbvia desde meados da década de 1980, não significa exatamente que Michelangelo tenha se esvaído da lembrança. A julgar pelas aglomerações na Capela Sistina e na Academia de Florença, onde está o seu "Davi", a popularidade dele não decaiu muito.
Mas a "caravaggiomania", como Sohm a chama, significa não só que os doutorandos em história da arte possam estar com dificuldades para pensar em algo novo para estudar a respeito de Michelangelo. Sugere que toda a tradição clássica na qual Michelangelo foi inserido está se tornando cada vez mais estranha e, portanto, aparentemente menos relevante, até mesmo para muitas pessoas educadas. Seus homens musculosos, atirando os condenados ao inferno ou tentando emergir de espessos blocos de mármore, aspiravam a um ideal abstrato e antiquado de sublime.
Caravaggio, por outro lado, exemplifica o anti-herói moderno, um hiperrealista cuja arte é instantaneamente acessível. Seus meninos desgrenhados, de olhar inocente, lábios carnudos e bumbuns arrebitados dão a impressão de terem caído da cama, e não dos céus. Vulgares em vez de divinos, confinados por uma rígida geometria a espaços escuros e ambíguos, e então recolhidos das sombras por uma luz oracular, seus modelos vêm diretamente das ruas.
O establishment artístico de Roma na virada do século 17, imerso nos frufrus do Maneirismo Tardio, desprezava Caravaggio por causa dos peregrinos sujos e descalços que ele pintou na porta da casa de Maria. Querendo "destruir a pintura", como apontou o artista francês Nicolas Poussin, Caravaggio se conectava às pessoas comuns, aos peregrinos que chegavam eles próprios sujos e descalços a Roma. E, felizmente para Caravaggio, ele também tinha apelo junto a clientes ricos e poderosos.
Mas, quase imediatamente depois da sua morte por causa de uma febre, aos 38 anos, em 1610 em Porto Ercole, ao norte de Roma, sua arte foi desqualificada pelos críticos como sendo um modismo e passou séculos negligenciada, até a sua moderna ressurreição. Especialistas como Bernard Berenson ainda menosprezavam sua obra há um século, quando Lionello Venturi, Roger Fry e Roberto Longhi, entre outros, finalmente recuperaram sua reputação como um protomodernista.
Sohm, que anunciou suas conclusões numa palestra no mês passado em Chicago, analisou publicações, e não o faturamento turístico ou o público nas exposições.
Mas sua pesquisa corrobora provas evidentes para qualquer um, dentro ou fora das academias de arte, que já tenha escolhido lenços em aeroportos italianos, nos quais os motivos do "Baco" ou a cabeça de Golias de Caravaggio se tornaram tão onipresentes quanto os descansos de copo mostrando pedaços da anatomia de Davi ou canecas com a figura de Adão conforme vista no teto da Capela Sistina.
"A única forma de entender a arte antiga é fazê-la participar da nossa própria vida artística", disse Venturi em 1925. O fato de Caravaggio não ter deixado desenhos, cartas, testamento ou inventário, e sim prontuários policiais e da Justiça, faz dele um perfeito teste de Rorschach para as nossas obsessões.
Ele foi "tirado do armário" nos anos 1970 por acadêmicos ligados à questão do gênero, a despeito da ausência de documentos que indicassem que ele fosse gay. Cineastas e romancistas foram atraídos pela vida dele.
Organizadores de exposições inventam qualquer desculpa ("Caravaggio-Bacon", "Caravaggio-Rembrandt") para capitalizar, e obras dele recém-descobertas testam o mercado a cada ano.
Outra retrospectiva de Caravaggio também foi aberta no Quirinale, em Roma: duas dúzias de pinturas, exibidas até 13 de junho em salas escuras e com luzes dirigidas, como se a arte dele precisasse de mais melodrama. Mas as imagens são gloriosas de qualquer maneira. A exposição está lotada.
Numa tarde recente, filas de turistas se apertavam diante dos Caravaggios na igreja de San Luigi dei Francesi e na basílica de Santa Maria del Popolo, alimentando com trocados as luzes com temporizador. Provavelmente foi só coincidência, mas na igreja de Santa Maria sopra Minerva ninguém parava para ver Michelangelo".

MICHAEL KIMMELMAN

Um comentário:

Edson disse...

Lindo lindo. Esse vídeo é belíssimo tb.