julho 12, 2009

Cozinha sinfônica

"NAS RECEITAS , temos verbos para cores -alourar, dourar- e adjetivos para texturas e cheiros -cremosas, aveludadas, ásperas, acre, azedo, queimado, bispado. Para audição, bem, o assobio da água para o café fresco, engradado de garrafas chocalhando, pipocas estourando. A receita de frango da minha mãe era auditiva, havia que escutar o frango. "Depois de chiar três vezes, está na hora de colocar a água aos pouquinhos."
Já pensaram nas receitas como partituras? É claro que, pela manhã, qualquer coração esquenta ao ouvir o barulho das panelas, as tampas se entrechocando, tem alguém fazendo o café para você, huuuumm.
O preparo de uma refeição sempre foi uma sinfonia oficiada por uma cozinheira. Hoje, diríamos que é um rap eletrônico, juntando aos antigos instrumentos de percussão, mais o liquidificador, a batedeira, o exaustor, a panela de pressão, a geladeira (a geladeira aqui de casa tem um zunido constante), a campainha avisando que já deram dez minutos.
E o mais estranho é que por mais que a tecnologia nos ajude, e já não podemos viver sem ela, na cabeça de quase todo mundo existe a sinfonia rural, como uma música caipira enfronhada na alma, o crepitar do fogão a lenha, o borbulhar da água fervente, o martelar do bife, a mão do pilão ritmada.
E a cozinha dando para o terreiro, as galinhas ciscando, o galo cantando, o riacho correndo, o sapo coaxando, fogão estalando, cachorro latindo. E desses barulhos nos lembramos com saudade, o garfo batendo as claras, a faca sendo afiada, a pia gorgolejando estrepitosa e engolindo a água com sabão.
O canto do vendedor de rua, olha a laranja Bahia. O vendedor de beiju com a matraca, o afiador de facas, o periquito da sorte, o carrinho de sorvete. Continuaram o caminhão de pamonha. E pela graça de Deus ou de algum governante sensível, o "Pour Elise" do gás se extinguiu. Entraram o elevador, o exaustor, o liquidificador, o processador, o celular indescritível. Existiriam barulhos mais à altura do ser humano e outros que ultrapassam nossa capacidade auditiva e fazem mal?
Na verdade, há sempre ruído na cozinha, porque, apesar de os ingredientes estarem mortos, os cozinheiros estão vivíssimos. Senti isso na pele numa festa de 300 pessoas em que o palco no qual o violonista tocou era junto da cozinha.
Nem todo cuidado do mundo conseguiu evitar a separação dos talheres caindo juntos na pia para a lavagem, os pratos se amontoando e o pouco caso pelo silêncio. O silêncio sim, este galopando para a extinção, desconhecido de todos, como se tanto fizesse o barulho dos talheres e o som do violão, tudo do mesmo naipe.
E uma coisa aprendi nesses longos anos de bufê. Não há nenhum mal no silêncio, no trabalhar em silêncio. Rádio ligado no jogo meio fora da estação, conversas repetidas, gente falando muito alto. Não entendo desse assunto, mas imagino que todos esses barulhos altos e eletrônicos que infestam a cozinha e ainda vêm de fora para dentro, como os aviões, os helicópteros, os carros, não fazem bem ao gosto da farofa.
Claro que deve haver a possibilidade da recuperação do silêncio. É através dele que os sons vão nos surpreender com sua beleza ou escândalo. Vale a pena nos esforçarmos por uma cozinha afinada e, por que não, por uma cabeça e um mundo afinados?
Comecemos simplesmente por discernir os sons, saber escutar, saber calar, exercícios que talvez nos ensinem a recuperar essa arte ou engenharia perdida. E de caderninho na mão, anotando tudo".
NINA HORTA na FSP

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