junho 02, 2009

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FERNANDA E FRANCISCO
"Os aplausos não cessam. Ela já se curvou uma, duas, diversas vezes, e as pessoas não se cansam, aplaudem cada vez mais forte e emocionadamente.
Emoção pouca, se comparada com a dos olhos da mulher no palco, olhos negros que, sobretudo no trecho final da peça, emitiram um fulgor absurdamente cativante e enternecedor.
Finalmente, abraçando a si mesma como se abraçasse cada um dos espectadores que a aplaudem freneticamente na plateia do tradicional Teatro Anchieta, de São Paulo, Fernanda Montenegro deixa a cena.
Deixa a cena sem deixar de ocupar seu lugar, sua cadeira cativa na história do teatro, das artes deste país.
Foi uma hora inteira num monólogo de tirar o fôlego, este "Viver Sem Tempos Mortos", em que Fernanda dá voz a cartas e notas autobiográficas de Simone de Beauvoir (1908-1986), a eterna companheira de Jean-Paul Sartre (1905-1980), ambos pensadores e pioneiros da modernidade contemporânea.
Mais que toda a carga intelectual e emocional e libertária transmitida a partir dos textos de Simone, em sua vida-cruzada em nome da aventura de viver a vida não sendo mulher, mas tornando-se uma, o que fascina naquele palco totalmente escuro é aquela mulher elegantemente magra e iluminada por um único facho de luz.
Como se precisasse, porque ali, e quase sempre quando ela está no palco, bastaria a luz própria de Fernanda Montenegro para iluminar a cena e a constatação irrefutável: aqui se faz o grande teatro.
Uma hora de monólogo, sem titubeios ou gaps, já seria fantástico numa atriz de 80 anos.
Mas o que sobre-encantou a todos, o que fez com que um verdadeiro frisson percorresse toda a plateia, foi a carga de sensibilidade aflorada de quem, com as palavras de Beauvoir, despede-se de um amor de toda uma vida. O relato da morte e do funeral de Sartre marejou os olhos de Fernanda, certamente a sentir a ausência de seu recentemente falecido Fernando Torres.
O clima que se impôs arrebatou a todos os que ali se encontravam, tendo o privilégio de ver e ouvir a maior atriz brasileira. Numa palavra, inesquecível.
Seria de se recomendar a todos o espetáculo, sem dúvida alguma. Mas, pelo menos em São Paulo, a temporada está com todos os ingressos esgotados. No mês de agosto, no entanto, ela volta à cena, no Rio de Janeiro.

*
Rio de Janeiro que remete, agora, a outro gênio, que neste momento de sua carreira alcança a senhoridade como escritor, no domínio do texto de forma tal que exige respeito.
Rio de Janeiro é o cenário da trajetória de um fracasso que dura 100 anos, no relato de um velho moribundo criado e dado à vida pelas palavras do Francisco que coloquei no título para rimar com Fernanda. No caso, Chico Buarque de Hollanda.
Trata-se também de um monólogo, seu "Leite Derramado" (Cia. Das Letras, 195 págs., cerca de R$ 30).
O relato de um velho que, abandonado no leito do hospital público, mescla realidade e fantasia ao rememorar uma vida de perdas, sobretudo da mulher amada, a qual ele busca melancolicamente ao longo de toda sua odisseia, sem deixar claro se ela o abandonou, morreu ou ficou louca.
O que permeia e dá fio condutor à trajetória, no entanto, são os valores morais a que narrador se apega de forma ferrenha, tão idiossincráticos quanto por vezes ridículos.
A família, as posses, o poder político, a autoridade, a classe, o garbo e o glamour. Insistentemente o personagem tenta resgatar estes valores, em situações reais ou imaginária, dentro do seu quadro de visível delírio senil, como se eles pudessem fornecer um mínimo de dignidade à sua morte que se avizinha banal e vazia.
Há um fundo histórico, que vai da República Velha ao tráfico dos morros cariocas, passando pelas lutas libertárias dos anos 60 e pelas transformações descaracterizantes a que foi submetido o Rio de Janeiro.
Mas tudo observado como que por uma lente de distorção, que são as lembranças falhas e confusas do velho, em sua quixotesca tentativa de compor um interminável livro de memórias.
É uma história triste, mas de certa forma encantadora, de um tempo longo (100 anos...) e de uma vida que quase sempre está para acontecer, para vingar, para ser, mas que sucumbe inexoravelmente ao peso de sua própria impotência perante o destino.
Um admirável exercício de literatura."

por Luiz Caversan, para a Folha Online

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