junho 12, 2009

Conversar com gatos



O trecho que transcrevo abaixo é do livro A Elegância do Ouriço ( Muriel Barbery) uma incrível sátira sobre o modo de vida dos moradores de um luxuoso prédio em Paris, sob a perspectiva de uma sábia concierge e de uma genial e rebelde moradora, de 12 anos. O prédio seria o n.7, rue Grenelle. Passando nas proximidades, fui até lá pensando em reconhecer os lugares por onde circulavam as personagens. O prédio fica numa esquina e no térreo está instalada uma boutique Prada. Para cima tem um jeitão de que teve, nos bens tempos, uma concierge que também tinha um gato (com nome de personagem de romance russo), com quem batia altos papos.
Este é o Witold de quem(dizem) eu seria avó...Dá para não conversar com ele?








"PENSAMENTO PROFUNDO Nº 2
O gato neste mundo
Esse totem moderno
E, por intermitência, decorativo


Pelo menos, na nossa casa é assim. Se vocês querem compreender nossa família, basta olhar para os gatos. Nossos dois gatos são gordos odres que comem croquetes de luxo e não têm nenhuma interação interessante com as pessoas. Arrastam-se de um sofá para outro, deixando pêlos por todo lado, e ninguém parece ter entendido que eles não têm o menor afeto por quem quer que seja. O único interesse dos gatos é que são objetos decorativos móveis, um conceito que acho intelectualmente interessante mas que não se aplica aos nossos por terem a barriga grande demais.
Mamãe, que leu todo o Balzac e cita Flaubert em cada jantar, demonstra diariamente o quanto a instrução é um engodo fenomenal. Basta olhar para ela junto com os gatos. Ela tem vaga consciência de seu potencial decorativo, mas se obstina em falar com eles como se fossem pessoas, o que não lhe viria à mente com um abajur ou uma estatueta etrusca. Parece que as crianças acreditam até uma idade bem avançada que tudo o que se mexe tem alma e é dotado de intenção. Mamãe não é mais criança, mas aparentemente não consegue imaginar que Constitution e Parlement tenham tão pouco entendimento quanto o aspirador. Admito que a diferença entre o aspirador e eles é que um gato pode sentir prazer e dor. Mas isso significa que tem mais aptidão para comunicar-se com o humano? De jeito nenhum. Isso deveria apenas nos incitar a tomar certas precauções, como tomamos com um objeto muito frágil. Quando ouço mamãe dizer: "Constitution é uma gatinha muito orgulhosa e ao mesmo tempo muito sensível", enquanto a outra está aboletada no sofá porque comeu demais, acho graça. Mas, se pensamos na hipótese de que o gato tem como função ser um totem moderno, uma espécie de encarnação emblemática e protetora do lar, refletindo com benevolência o que são os membros da casa, isso se torna evidente. Mamãe faz dos gatos o que gostaria que nós fôssemos e que não somos de jeito nenhum. Não há ninguém menos orgulhoso e sensível que os três membros abaixo citados da família Josse: papai, mamãe e Colombe. São completamente frouxos e anestesiados, vazios de emoções.
Em suma, acho que o gato é um totem moderno. Por mais que se diga, por mais que se façam discursos sobre a evolução, a civilização e um monte de palavras em "ção", o homem não progrediu muito desde seus primórdios: continua a crer que não está aqui por acaso e que deuses em sua maioria benevolentes zelam por seu destino."

Um comentário:

Rosa Maria Frota disse...

Zelinha,
Estou curtindo o seu blog e adorando...
Não posso deixar de mencionar que tenho um gato chamado Miguel e é tão lindo quanto esse. Me entende, conversamos e é muito parceiro. Quando tenho enxaqueca fica ao meu lado o tempo todo. Não levanta nem para comer.Parceiro é parceiro...
Grande beijo!