maio 05, 2009

A Orelha do Van Gogh

"Um dos mais célebres dramas da história da arte que vem alimentando há mais de dois séculos o mito do gênio maldito e a loucura como elemento fundamental da pintura moderna pode ser pura lorota. Ela resume-se no que vai a seguir. Depois de calorosa discussão entre várias que travou com o pintor Paul Gauguin (1848–1903), em estado mental frágil e consciente de que seu sonho de criar uma comunidade de artistas em Arles era utopia irrealizável, Vincent Van Gogh (1853–1890) se auto-mutilou. Na noite do 23 de dezembro de 1888, no auge de crise depressiva, o pintor pós-impressionista holandês decepou a sua orelha esquerda com uma navalha.
Hans Kaufmann e Rita Wildergans, historiadores alemães do Museu de Arte de Bâle, na Suíça, acabam de publicar Van Goghs Ohr, Paul Gauguin und der Packt des Schweigens (A orelha de Van Gogh, Paul Gaugin e o pacto de silêncio), resultado de uma investigação feita durante 10 anos. O livro sustenta um golpe de sabre de Gaugin, excelente esgrimista, como causa do ferimento, presente em famosos — e caríssimos — auto-retratos de Van Gogh (veja a ilustração deste post). O holandês ruivo teria mantido silêncio para proteger o amigo cujo irmão, era seu galerista. Isto explicaria o retorno precipitado de Gauguin de Arles à Paris, depois de responder de forma coerente à um interrogatório enquanto Van Gogh divagou nas respostas à polícia.
A versão dominante até hoje, largamente baseada no testemunho de Gauguin, publicado no livro Avante et Aprés (Antes e Depois) publicado em 1903. Ele dá conta de que a discussão entre os artistas, a terceira em menos de 24 horas, se deu por questões acadêmicas. Van Gogh afirmava que se poderia criar através da fantasia e Gauguin rebatia vigorosamente. Para o francês, o processo criativo só era possível através da natureza. O pano de fundo do debate era os princípios da criação de uma eventual uma escola artística, uma espécie novo Pont-Aven sob o sol e cores do sul francês. Os historiadores alemães passaram pente fino nos relatórios da polícia e os confrontaram com notas de jornais locais da época. Eles sugerem que a causa da pendenga foi bem mais trivial: briga por mulher, a prostituta Raquel.
A navalha de Van Gogh nunca foi encontrada. O sabre de Gauguin teria sido jogado no rio Rhône. O holandês jamais confirmou a auto-mutilação. O francês tampouco presenciou o suposto ocorrido. Sabe-se que o lóbulo, enrolado em papel jornal, foi entregue a uma prostituta que preveniu a polícia. “Para se livrar de Van Gogh, que implorava ficar quando estavam em frente a casa de tolerância que frequentavam, Gaguin brandiu o sabre e a orelha caiu, não se sabe se o gesto foi acidental ou voluntário”, diz Kaufmann. “Depois, os protagonistas juraram nada dizer”, completa.
Van Gogh adorava Gauguin. Queria o amigo como parceiro no projeto de uma coletividade de artistas onde seriam fundadores. O francês via diferente: “Vincent ficou excessivamente brusco e barulhento e depois, silencioso.” Em 1992, o médico Wilfred Arnold, chegou à conclusão de que a doença de Van Gogh, mais que uma origem psicológica, procedia de uma descompensação de enzimas, a Porfiria Aguda Intermitente — AIP, na siga em inglês. Sete meses depois do caso da orelha decepada, Van Gogh suicidou-se. Gauguin refugiou-se no nas Ilhas Marquesas, morreu só e sifilítico."

Do Blog do Antonio Ribeiro, de Paris
(clique no título para ler mais)

3 comentários:

Anônimo disse...

Zélia, não conheces um filme que conta essa história? Acho que se chama Sede de Viver {Lust for Life). É um drama e tanto. Um beijo grande! TL

Uma certa idade... disse...

Esta cena do filme Sede de Viver , dirigido por Vincent Minnelli, em 1956, com Kirk Douglas no papel nunca ninguem viu.

Anônimo disse...

Na verdade, vi foi uma versão modern[os]a, mais um remake. Beijos. TL