maio 20, 2009

mutatis mutandis

"Depois de cerca de dez dias na Itália, a Depressão e a Solidão acabam me encontrando. Estou passeando pela Vila Borghese certa tarde, depois de um agradável dia de aula, e o sol está se pondo em tons de dourado acima da Basílica de São Pedro. Sinto–me contente neste cenário romântico, mesmo estando completamente sozinha enquanto todas as outras pessoas no parque estão acariciando um amante ou brincando com uma criança risonha. Mas quando paro e me apoio numa balaustrada para admirar o pôr-do-sol, acabo pensando um pouco demais, e meus pensamentos se tornam sombrio e é então que as duas me encontram.
Aproximam-se de mim, silenciosas e ameaçadoras como detetives particulares, e me cercam; - a Depressão pela esquerda, a Solidão pela direita. Sequer precisam me mostrar seus distintivos. Eu as conheço muito bem. Há anos que temos brincado de gato e rato. Embora eu reconheça que estou surpresa por encontrá-las neste elegante jardim italiano ao entardecer. Elas não combinam com este lugar.
Pergunto a elas:
“Como vocês me encontraram aqui? Quem disse a vocês que eu tinha vindo para Roma?”
A Depressão, sempre bancando a esperta, diz:
“Como assim, você não está feliz em nos ver?”
A Solidão, mais sensível das duas diz:
“Desculpe, mas eu talvez precise seguir a senhora durante toda a sua viagem. É a minha missão.”
“Eu preferiria que você não fizesse isso”, digo-lhe, e ela dá de ombros, quase pedindo desculpas, mas se aproximando ainda mais.
Então elas me revistam. Esvaziam meus bolsos de qualquer alegria que eu estivesse carregando aqui. A Depressão chega a confiscar minha identidade; mas ela sempre faz isso. Então a Solidão começa a me interrogar, coisa que detesto, porque sempre dura horas. Ela é educada, mas implacável, e sempre acaba me encurralando. Pergunta se eu acho que tenho algum motivo para estar feliz. Pergunta porque estou sozinha esta noite, outra vez. Pergunta (embora já tenhamos passado por esse momento interrogatório vezes sem conta) por que não consigo manter um relacionamento, por que arruinei meu casamento, por que estraguei tudo com David, por que estraguei tudo com todos os homens com quem já estive. Pergunta-me onde eu estava na noite em que completei 30 anos, e por que as coisas azedaram tanto desde então. Pergunta por que não consigo me recuperar, e por que não estou nos Estados Unidos, morando em uma bela casa e criando belos filhos, como qualquer mulher respeitável da minha idade deveria fazer. Pergunta porque acho que fugir para a Itália como uma estudante universitária vai me fazer feliz. Pergunta onde acho que vou estar quando ficar velha, se continuar vivendo assim.
Volto a pé para casa esperando conseguir me livrar delas, mas elas continuam a me seguir,essas duas capangas. A Depressão me segura firma pelo ombro e a Solidão me bombardeia com seu interrogatório. Sequer tenho forças para jantar; não quero que elas fiquem me espionando. Também não quero que subam as escadas até o meu apartamento, mas conheço a Depressão, e sei que ela carrega um cassete, então não há como impedi-la de entrar, se ela decidir que quer fazer isso.
“Não é justo vocês virem aqui”, digo à Depressão. “Já paguei vocês. Já cumpri a minha pena lá em Nova York.”
Mas ela simplesmente me dá aquele sorriso sombrio, acomoda-se em minha cadeira preferida e acende um charuto, enchendo o aposento com sua fumaça desagradável. A Solidão olha aquela cena e dá um suspiro, mas em seguida deita-se em minha cama e se cobre com as cobertas, inteiramente vestida, de sapato e tudo. Estou sentindo que vai me obrigar a dormir com ela de novo esta noite."

Do livro Comer, rezar, amar, de Elizabeth Gilber

Um comentário:

Anônimo disse...

Esse texto é mesmo bárbaro!
Lala