dezembro 08, 2008

ADAMASTOR VOLTOU

O 'estranho homem puro' cai de pau no mês de dezembro.

"Adamastor é "o estranho homem puro", um personagem que o cronista Antônio Maria, coleguinha aqui do GLOBO nos anos 50, tirava da máquina de escrever quando estava cansado de legislar sobre a Humanidade na primeira pessoa. Era o alter ego furioso do cronista, o momento em que este não agüentava mais a mediocridade reinante e soltava os bichos para vociferar contra tudo. A hora de soltar os bofes, clamar por um mundo menos atrelado à afetação, à bobice e ao fingimento. Adamastor ia na contramão do pensar correto. Acabava falando verdades que Maria não tinha coragem de assinar na primeira pessoa.
Adamastor detesta dezembro, por exemplo, o mês em que todos simulam uma fraternidade ausente o ano inteiro. Ele acha cego intrigante, desconfia de mudos (não têm palavra) e se já não gosta de velho durante o ano inteiro, sempre emperrando a circulação na catraca do metrô, move caça especial ao símbolo maior do Natal. Acha que Papai Noel é o lobo em pele de cordeiro da temporada. Já fez escândalo em shopping por suspeitar que o "bom velhinho", fotografando na praça de alimentação com os filhos das mamães que tinham consumido acima de R$ 200, era um desses pedófilos da internet.
O homem é fogo. Nem tente acalmá-lo com essa história de "vamos com calma, vamos dar as mãos, é a data máxima da cristandade".
Aí mesmo que ele sobe nas tamancas e bate o bumbo. Detesta essa falsa amabilidade de fim de ano, esses amigos ocultos que presenteiam com meias e CDs. É capaz de pegar um punhado de castanhas e jogar na cara de quem lhe desejar um próspero ano novo. Ele grita de volta: "Eu me chamo Adamastor, Próspero é o nome disso aqui" — e, como se inspirado pelo "sifu" do Lula, faz um gesto lamentável pelo qual, desde já, nos desculpamos com o prezado leitor e prometemos apagar na próxima edição.
Eu encontrei o homem semana passada, ali na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro, e ele vibrava com os preços das nozes e avelãs, inflacionados pela alta do dólar.
Acha que assim todos desistem de imitar países que passam as festas no frio e comem com menos empáfia. Adamastor odeia comida de ceia de Natal. Só não deposita mais fervor na luta contra o peru à Califórnia porque guarda o melhor de sua fúria santa contra o vocabulário típico de dezembro.
Se ele perceber que o interlocutor vai fazer aquela frase cheia de salamaleques pseudoafetivos que termina no "tudo de bom para você e a sua família", o estranho homem puro começa a simular uma convulsão só para não ter que ouvir o purgante semântico até o fim.
Se alguma telefonista atende dizendo "Boas festas, em que posso ser útil?" — ele, num acesso da Síndrome da Índole Pura, desliga imediatamente.
Seu único juiz é a própria sensibilidade, e não há nada mais sensível em seu corpo seco, cheio de sardas, as mãos sempre para trás, precavidas contra qualquer cumprimento, do que o ouvido. Está com 79 anos, as deficiências auditivas inevitáveis, mas não usa Vienatone.
O que ouve já lhe basta e dói o suficiente. Percebeu que os clichês do mês de dezembro são quase uma língua à parte, uma meia dúzia de frases feitas em que as pessoas se apóiam para afirmar quão ricas de bons valores elas são.
A essas auto-afirmações de boa alma cristã, com todo seu pieguismo de novela ("Graças a Deus, passo Natal com a minha nora!"), Adamastor devota ódio mais puro que as águas do Rio Carioca que cortam Laranjeiras.
Ah, os senhores robustos garantindo que não querem ganhar nada, pois tendo saúde estão ricos! Ah, os sabichões de dezembro sempre dizendo "Vamos ver se esse governo toma vergonha ano que vem e ouve o povo".
Ah, os cariocas aproveitando a deixa para dizer "Vamos deixar passar essas festas de Natal, de Ano Novo, e a gente conversa sobre aquele negócio mais adiante".
Ah, aquelas madames sempre dizendo "Como o ano passou num piscar de olhos!" Adamastor gostaria que dezembro passasse mais rápido ainda e o poupasse das mensagens de fim de ano da Globo, dos anjinhos em cima da árvore da Lagoa, dos jornais cobrindo a Missa do Galo na Catedral e da mensagem em 147 línguas do Papa na Praça do Vaticano.
Ele acha tudo uma grande promoção da Casa & Vídeo para limpar os estoques. Evita confraternização de escritório porque não sabe do que seria capaz se o chefe convocasse todos para uma oração desejando que no final do próximo ano todos estivessem juntos novamente para repetir aquela corrente.
Encontrei o Adamastor naquela esquina da Barata com Siqueira, mas foi muito por acaso, e ele quase me escapa. O estranho homem puro de Copacabana tranca-se em casa em dezembro.
Naquele dia tinha saído para comprar jornal e estava absolutamente órfão, pois acabara de saber que a "Tribuna de Imprensa" não circularia mais. Achava que o jornal da Rua do Lavradio era o último bastião contra o Natal e todas essas rabanadas da alma gordurosa que andam por aí.
Adamastor ia naquele jeito de andar apressado que desenvolveu para fugir de dezembro e de seus gestos "humanitários".
Teme ser agarrado pelo casaco — ele sente muito frio nesses dias — e ser requisitado para contribuir com os livros de ouro do comércio de bairro. Diz que, embora os cronistas tenham piorado muito desde a morte do Antonio Maria, em 1964, vai assinar O GLOBO.Mas só em janeiro. Não quer colaborar com a caixinha do entregador da assinatura, outra praga de dezembro. Economiza uns cobres no bolso e poupa os ouvidos de mais um "tudo de bom para o senhor".
Antes de se mandar com a bisnaga do pão embrulhada embaixo do braço, Adamastor deu seu único sorriso. Do jeito que a crise vai, acha que não haverá Natal em 2009
."

Joaquim Ferreira dos Santos - O GLOBO de hoje

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