
Eis um drama universal !
Acumular dezenas de livros não lidos sem perder a pose nem o desejo de comprar outros é um dos apanágios dos ilustrados. Mesmo quem lê muito rápido, sofre com o acúmulo de livros ao seu redor.
Desde que comecei este blog tenho lido menos. Nestes tempos de leituras interrompidas ou inexistentes, me deparo com o livro Comment Parler des Livres que l' on n' a pas Lus?
Poder falar sobre livros que não lemos talvez seja um sonho mais disseminado que o de ter lido todos os livros importantes publicados até hoje.
Seu autor, Pierre Bayard de insincero não pode ser acusado. No prefácio admite ler pouco, por falta de tempo e interesse, e confessa ter dado aulas e palestras sobre obras em que nunca pôs os olhos. E vai além, se diz “...investido da missão de salvar a humanidade das profundas neuroses semeadas pelo fetiche livresco....”. Vale dizer, do sentimento de culpa e humilhação que costuma afligir os que - como eu - não leram os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, os 17 tomos da Comédia Humana, de Balzac; as quase mil páginas de Ulisses, de James Joyce; as 800 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann; as quase 400 páginas de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; as mais de mil páginas de Guerra e Paz, de Tolstoi , dentre outros
A seus alunos (e também aos filhos), Bayard ensinou a sua "prática indisciplinada da leitura": primeiro, examinar a capa e a lombada do livro; depois, ler a primeira frase, passar os olhos nas passagens cruciais, e monitorar tudo o que a seu respeito é dito e publicado" .
A cultura, segundo ele, não depende apenas (ou nada) do que podemos apreender de um livro em particular, mas da capacidade de "situar"o livro num contexto de relações com outros livros.
Não se trata de um elogio da não-leitura, mas sim de uma espécie de conhecimento “secreto” a respeito do que vale a pena ser lido, quando, e como...
Com esta postagem, pondo em prática os seus ensinamentos, vivo a experiência de falar de um livro que não li!
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