janeiro 04, 2008

TORNATORE - A desconhecida


“La sconosciuta”
V.Carreira
"Chato como eu só e azarado também quando se trata de localização no cinema ou no teatro, tive receio antes de se apagarem as luzes, pois as senhoras à minha frente pareciam dispostas a falar durante o filme, já que lembravam – não pude deixar de ouvir – as suas dificuldades na escola em tenra idade com línguas estrangeiras.
Qual o quê? Giuseppe Tornatore as manteve caladas o filme todo.
E não só a elas, eu – cinéfilo amador e chorão até não mais poder no cinema – também me calei e por duas horas só fiz sofrer em silêncio, sem palavras e sem lágrimas fáceis.
O espectador que espera mais um exercício de lirismo exacerbado, a exemplo do que acontece em “Cinema Paradiso” , “Malena” e afins, esqueça. O espectador de lágrimas insistentes, como eu, não espere um roteiro onírico e doce.
Para usar um verbo do qual não gosto, mas que decididamente está na moda, o filme impacta, sim “impacta”.(Ainda que eu prefira o adjetivo). Vá lá: o mais novo filme de Tornatore é impactante. E, cuidado, a sinopse do jornalzinho ou da gazeta da sua cidade pode levá-lo ao erro ou, o que é pior, fazer com que você deixe de vê-lo, afinal eles dirão apenas que uma migrante ucraniana vai a Itália em busca de uma vida melhor e acaba prostituindo-se. Mon Dieu, que poder de síntese e que desinteresse – diria eu – pela obra de Tornatore, que, mal ou bem, já nos emocionou com seu metacinema.
Não deixe de conhecer essa, infelizmente talvez comum nesse mundo cão, “desconhecida”.
Do tráfico de escravas brancas para a prostituição todos já ouvimos falar e, infelizmente, como a maioria das mazelas desse mundo pós-moderno e globalizado, o tema já não surpreende, mas a finalidade para a qual será usada a escrava Irena vai estarrecer, ah vai!
A respeito da humilhação e da discriminação vividas pelos imigrantes numa Europa desejosa de braçais e paradoxalmente xenófoba já lemos ou, azaradamente, já presenciamos ao vivo e com matizes não tão belos. Mas que dizer da cena do supermercado, da relação do porteiro com a serviçal estrangeira ou da seleção de domésticas realizada pela mãe de Tea? É impactante, é estarrecedor.
Que volta e meia lugares exóticos e recônditos ou mesmo do centro do mundo nos oferecem boas atrizes muito já se disse e já se viu no cinema, porém a jovem camaleônica, linda por vezes, assustadoramente repulsiva por outras, Kseniya Rappoport, a Irena, faz muito mais que isso: ela surpreende, assusta e emociona. Fria como a temperatura da Itália que o filme nos mostra, má como a vida sói moldar algumas pessoas às vezes, decidida como um duro soldado, incisiva como aqueles que sabem exatamente o que querem, ela conquista o espectador – o que não é tarefa fácil, dado seu passado, mostrado em rápidos e desesperadores “flashes-backs”. O filme, sem dúvida, é impactante, estarrecedor, surpreendente e desesperador.
E apesar da concessão final do roteiro, não se iluda, futuro espectador de “La sconosciuta”, a sensação que fica – e incrível – sem lágrimas fáceis, é de náuseas como se você mesmo tivesse levado todos os chutes que literal e metaforicamente Irena recebeu pela vida afora.
Deixe de lado esse simplismo do encarregado das sinopses e acompanhe a trajetória de Irena. Ucraniana, sim; migrante, também; prostituta, também – e que preguiça de ver se fosse só isso, que “déjà vu” seria, mas o filme é muito mais."

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O que disse o diretor:
Candidato italiano a uma vaga no Oscar-2008, "A Desconhecida" é um thriller sobre uma escrava sexual ucraniana que foge de seus captores italianos e ruma ao norte do país, onde tenta se aproximar da filha adotiva de uma família rica.
"Por anos pensei nessa história. É algo que me atraiu profundamente essa figura extraordinária e misteriosa de mulher, que conheceu só a humilhação e, com a mesma linguagem da violência que sofreu, decide dar novo significado à própria existência".
Mas a protagonista não é uma heroína qualquer.Se Tornatore busca, num primeiro momento, despertar compaixão pela personagem que sofreu nas mãos de estupradores e cafetões, engata, depois, a marcha à ré ao mostrá-la como a forasteira perigosa que se infiltrou entre os italianos de bem.
"Seria estúpido confundir a minha história como uma tomada de posição contra a política da União Européia. Eu queria apenas mostrar a obsessão de uma mulher que se rebela e faz de tudo para reaver a maternidade", diz Tornatore, rebatendo críticos que viram no enredo um manifesto antiimigração. "Mas a quem quiser uma leitura política do filme, diria que é uma apologia à tolerância, sobre o respeito aos direitos e sentimentos de todos os desconhecidos que nos cercam cotidianamente."
Embora não tenha abandonado o olhar emotivo que o celebrizou, Tornatore admite que este é um filme mais hollywoodiano. As reviravoltas constantes e um roteiro que despreza a verossimilhança mostram que a mudança de rota não foi fácil.
Sobre a chance de ganhar mais uma vez o Oscar, em fevereiro do ano que vem, Tornatore diz que não faz filmes pensando nos prêmios, embora os considere "maravilhosos acidentes de percurso".

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