Desde sempre a alma francesa flutua nas suas águas.Dizem que uma simples olhada para o rio em Paris revela o que está acontecendo na França: se não transborda no Ano Novo é porque os fazendeiros sofreram com a seca, se em abril corre rápido, está alto e cor de chocolate é porque a temporada de esqui foi excelente, se as barcaças estão carregadas de cascalho, a construção civil está em alta. Quando a França está alegre o Sena é o palco das comemorações e dos fogos de artifício. Pode-se avaliar a leva de turistas contando as cabeças nos bateaux-mouches. O modo como a polícia começou a pilotar as lanchas de patrulha, foi o termômetro para se saber o quanto a França estava viciada nos seriados americanos.
Como era de se esperar, a França tem um Dictionaire Etymologique des Noms de Rivières et de Montagnes onde se encontram onze linhas para dizer, resumidamente, que ninguém sabe muito bem, mas Seine teria evoluído de uma palavra gaulesa que significava coleante, ou tranqüilo, ou ambos.
O Sena é mais que lindo!!!. Inspira poetas e impressionistas, mas é também a personagem principal da vida de 10 milhões de pessoas, na medida em que 3/4 da água potável dos parisienses vem dele e nele se esvaem a grande parte de seus venenos industriais e esgotos.

Conhecer bem Paris, tem de começar pelo Sena. Connaître, sugere uma familiaridade que afeta a alma.Para ter isto em Paris, você precisa de algum tempo junto ao Sena.Deve-se começar uma caminhada (isto mesmo, a pé) pela Petit Pont, ali próxima da Notre Dame. Um pouco mais abaixo, a melhor vista de todas fica na Pont des Arts , uma ponte para pedestres (a minha preferida) que sai do Institut de France, sede da glória literária, e vai até o Louvre, o templo da arte.

Nada traduz melhor Paris e o Sena como a Île de Saint-Louis, possivelmente a ilha mais linda do mundo. É certo que os gostos variam muito. Antes de fazer sua lista, faça um passeio por suas ruas numa manhã de domingo, quando as lojas já abriram mas as multidões ainda não chegaram. Vai ficar sabendo do que estou falando...

Paris num domingo, quando as flores estão acordadas e os parisienses ainda dormem é de uma beleza paralisante.

Cada tulipa vermelha parece uma pincelada cuidadosa numa tela gigantesca. Andar de uma ponte para outra saboreando cada detalhe da paisagem, pela Rive Gauche alcançar a Pont d’ Iena e olhar para trás: a cidade, ainda quase deserta e maravilhosa, amanhecendo sob uma luz cor de rosa que, até então, não acreditava existir!
Foi assim que a vi pela primeira vez. De tão deslumbrada, me esquecera de que estava na Cidade Luz e que a rayonnement dos franceses emana exatamente dos rosas, laranjas e dos lampejos cintilantes do sol refletidos no Sena.
Com o tempo, a gente vai descobrindo alguns segredos. Como em relação à França, o truque é não olhar para o rio muito de perto. Dar alguns passos para trás, deixar a lenda e o romance turvarem a realidade transformando-a num vôo impressionista. É uma experiência que não se repete em nenhum outro lugar. Quando o sol começa a descer, um bom lugar para sentir isto é perto da Tour Eiffel ou no Les Invalides, onde há bastante espaço aberto na água para refletir os tons de rosa e de laranja. Ao escurecer, na Pont Sully as luzes do quai viram ouro na canal encrespado por todos os tipos de hélice.
Dia e noite, vêem-se barcos cheios de turistas. Uma tentação a qual não se deve resistir é embarcar num bateau-mouche , para se convencer de que, realmente, a história da França aconteceu au bord de la Seine... Têm esse nome desde que os primeiros barcos, construídos em Lyon, no século passado, tinham motores que zumbiam feito as moscas do rio, mouches.

Por dois mil anos o Sena foi o canal alimentar de uma nação que leva sua alimentação a sério. Os grãos iam rio acima, carregamentos de vinho rio abaixo.
Hoje viajam pelas estradas e ferrovias , mas as peniches ainda passam a intervalos regulares. Cada uma traz pintado na proa um nome (talvez o de quem seu dono gosta ou deseja) e, embora parecidas, trazem alguns toques particulares: uma mulher com um vestido que já foi muito lavado, varre o convés; um carro pequeno ocupa o convés de popa ou o vento que acaricia as pétalas de gerânio num vaso....
Se o Sena tem um biógrafo, é Monet. O rio foi por ele retratado, desde o estuário até a periferia de Paris. Escritores não chegaram nem perto de fazer isto no papel. Flaubert viveu à margem do Sena a vida inteira, Hugo e Zola passavam anos em diferentes partes dele. Nenhum dedicou ao rio mais do que papéis de figurante em seus romances. Maupassant fez o melhor que pôde. Num diário descreve como ficou espantado ao observar Monet pintando:“ Eu o vi capturar um jorro cintilante de luz e prendê-la num mar de fogos amarelos “ .

O poder do rio está no feitiço que ele cria. Anos atrás um escritor perguntou para um clochard que estava embaixo da ponte por que tantos mendigos acampavam naquele lugar. – Nós nos sentimos mais em casa, aqui – respondeu ele. – Os sonhos têm mais distinção.
Atualmente, uma Paris inesperada surge quando a olhamos mais de perto. Desabrigados amontoam-se e não são os famosos clochards (vagabundos adoráveis que esmolavam trocados, como estilo de vida). São gente perdida de uma sociedade que caminha para a crise e o naufrágio econômico e que se agarra à vida com unhas e dentes. Pichações visíveis do rio revelam atitudes que evoluem para um novo niilismo....
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