dezembro 18, 2007

Rylke


Sobre a arte:
"Pois arte é infância. Arte significa saber que o mundo já existe, e fazer um. Não destruir nada do que se encontra, mas simplesmente não achar nada pronto. Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ser sol. Sem que se fale disso, involuntariamente. Nunca ser terminado. Nunca ter o sétimo dia. Nunca ver que tudo é bom. Insatisfação é juventude. Deus era muito velho no início, creio eu. Do contrário, ele não teria parado no fim da tarde do sexto dia. Nem no milésimo dia. Nem hoje ainda. Esse é todo o argumento que tenho contra ele. Que ele pôde se consumir. Que ele achou que seu livro tinha chegado ao fim com os homens, e então pôs de lado a pena e esperou para ver quantas edições teria. Que ele não foi artista, isso é tão triste. Que ele ainda não era artista."



Sobre religião:
"Religião é algo infinitamente simples, simplório. Não é conhecimento, nem conteúdo de nossas emoções (pois todos os conteúdos já foram acrescentados desde o início, onde quer que um ser humano se envolva com a vida). Não é dever, nem renúncia;não é limitação, mas, na perfeita vastidão do universo, ela é uma direção do coração. Assim como um ser humano anda e pode perder-se para a direita e para a esquerda, e tropeçar e cair e levantar-se, e cometer injustiça aqui e sofrer injustiça ali, e ser maltratado aqui e querer mal e maltratar e entender mal alhures, tudo isso se transfere para as grandes religiões e conserva e enriquece nelas o deus que é seu centro. E o homem, ainda vivendo na periferia extrema de tal círculo, pertence a esse centro poderoso ainda que tenha voltado o semblante para ele apenas uma vez, às vésperas da morte. Que o árabe em determinadas horas se volte para o Oriente e se prostre, isso é religião. Dificilmente é “fé”. Não tem um contrário. É um movimento natural dentro de uma existência pela qual o vento de Deus desliza três vezes por dia se somos pelo menos isto: flexíveis" (Cartas do Poeta sobre a Vida)

Numa carta para Lou Salomé:

"Permaneço no escuro como um cego
Porque meus olhos não te encontram mais
A faina turva dos dias para mim
não é mais que uma cortina que te dissimula.
Olho-a, esperando que se erga
esta cortina atrás da qual há minha vida
a substância e a própria lei da minha vida
e, apesar disso, minha morte.
Tu me abraçavas, não por desrazão
mas como a mão do oleiro contra o barro
A mão que tem poder de criação.
Ela sonhava de algum modo modelar
depois se cansou,
se afrouxou
deixou-me cair e me quebrei.
Eras para mim a mais maternal das mulheres,
eras um amigo como são os homens,
eras, a te olhar, mulher realmente, mas também, muitas vezes, criança.
Eras o que conheci de mais terno
e mais duro com que tenho lutado.
Eras a altura que me abençoou
te fizeste abismo e naufraguei."

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