
Um amigo enviou-me esta foto, feita em Dublin.
Pouco antes, eu havia revisitado o seu túmulo no Père Lachaise e tinha visto que está, como mostrado no recente filme Paris, je t' aime, todo estampado de beijos, mensagens e flores. Quando de minha visita anterior, ao cemitério, a "vedete" era o Morrison que agora, literalmente, descansa em paz.
O Retrato de Dorian Gray nos vem à cabeça, inevitavelmente, sempre que pensamos em Oscar Wilde.
No romance, o jovem que dá titulo a obra, permanece sempre belo e jovem enquanto que o seu retrato começa a manifestar as feições mais repulsivas de sua consciência. O retrato envelhece enquanto ele permanece eternamente jovem. O retrato sangra enquanto ele apresenta o seu belo rosto à sociedade.
O lado negro de sua alma, que busca ocultar, representa os mais sombrios traços da personalidade humana, não facilmente aceitos por nós, e seria - na linguagem de Jung - a nossa sombra, que tentamos ignorar para viver numa falsa condição de inocência.
Recheada de diálogos memoráveis, que revelam a sarcástica genialidade do autor, a obra revela a nossa tendência de projetar nos outros o que não podemos aceitar em nós mesmos.
As pessoas, como a personagem do romance, incapazes de conviver com suas próprias escolhas, instintos, pensamentos, erros e desejos tendem a projetar nos outros a culpa, com o mesmo cinismo que Adão, no mito bíblico, joga a sua na serpente.
O trabalho com a sombra se inicia com a percepção e a conseqüente - e necessária - aceitação de tudo aquilo que somos.
Este processo de conscientização é lento, gradual, doloroso e exige muita coragem e força de vontade de quem ousar se aventurar para além das máscaras.
É mais cômodo/confortável sermos sempre vítimas, nunca criminosas, sempre inocentes, nunca culpadas, sempre certas, boas, limpas e cordiais.
É mais fácil enxergar nossos demônios nos outros, a fim de que carreguem a culpa por nós.
E é ainda mais fácil, quando retratado em um romance.
"LOUCOS E SANTOS
Escolho meus amigos não pela pele ou outra característica qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos , bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."
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