julho 18, 2009

Mente quem disser que não se interessa pela vida dos outros. Sempre gostei de ler confissões, autobiografias, diários, cartas e memórias. Era interessante conhecer o dia a dia dos famosos, saber de suas preocupações, angústias e diiculdades que os faziam gente, gente como nós, os anônimos.
No passado, eram comuns os diários íntimos mesmo de pessoas anônimas. Estes diários eram recheiados de segredos que jamais eram divulgados e, se acontecesse, ficavam restritos à esfera familiar. Tal comportamento rendeu ótimos roteiros de cinema (lembrei As Pontes de Madison...mas tem outros). O que levaria alguém a manter durante anos, às vezes décadas, um diário secreto? Na mitologia, Mnemósine, a deusa grega da memória, a mãe das nove musas, a guardiã do passado, patrocinou a maioria desses diários contra as forças do Letes, o rio do esquecimento.
Em toda minha vida jamais mantive um diário. Nunca tive paciência ou gosto para anotar as banalidades do quotidiano ou reflexões sobre a vida ... Sobre isto não se escrevia. Conversava-se. E muito. De preferência, nos bares da vida, sem necessidade de registrar por escrito a nossa versão dos fatos, relevantes ou não, a nossa visão do mundo e o que íamos fazer com ele ... Não existia a preocupação em não esquecer eventos , nomes, datas, tristezas e alegrias.
Do diário íntimo, trancafiado em gaveta, passou-se ao blog, aberto ao mundo. Através dele, o menos importante dos seres humanos pode despertar o voyeurismo de todos nós. Para quem tem um blog, é leitor de muitos ou as duas coisas, a simples idéia de que existem pessoas completamente desinteressadas por essa contemporânea forma de comunicação, soa estranhíssima.É que o mundo e a própria blogosfera parecem muitas vezes se confundir. Afinal os blogs estão aí, ditando o comportamento, informando, entretendo, irritando...
A possibilidade de interação com o “visitante”, que pode deixar seu comentário no final do post , é um recurso característico dos blogs. E, embora se permita uma enorme liberdade opinativa, o blog tem seu conteúdo sujeito às mesmas regras legais de outras mídias e seu autor sempre pode ser responsabilizado juridicamente pelo que escreve.
Outro aspecto do blog é a ligação que tem com outras fontes de informação disponíveis na rede e, mais intensamente, com outros blogs. Daí a lista de blogs com um link direto para os seus endereços. Tais listas representam um excelente meio de avaliação dos interesses e preferências dentro da blogosfera, com os quais o blogueiro compartilha e revela sua personalidade e ideologia.
Todo este blablabla tem a ver com o fato de haver sido colocado um contador de visitas que tem me feito pensar no que siginifica toda esta brincadeira.....

julho 17, 2009

O diabo usa Prada


"...por uma nova ordem financeira mundial, guiada pela ética, pela dignidade e pela busca do bem comum..."
Então tá!

Canção do amor impossível

" Como não te perderia
se te amei perdidamente
se em teus lábios eu sorvia
néctar quando sorrias
se quando estavas presente
era eu que não me achava
e quando tu não estavas
eu também ficava ausente
se eras minha fantasia
elevada a poesia
se nasceste em meu poente
como não te perderia"
Antonio Cicero
em A Cidade e os Livros

O sexo da vovó

"No interior do Brasil nasciam os quatro rios do Jardim do Éden de Adão e Eva e, como cantou o filho Chico com as lições que aprendeu do pai, Sérgio, não havia pecado do lado de baixo do Equador. O mundo repressor e reprimido cristão só lambia, então, a beira da praia. Não entrava terra adentro. Lá bem longe, embrenhando-se mata adentro, corria a história, havia uma terra generosa em riquezas, prazeres e eterna juventude. Nem um nem dois, foram muitos os europeus que, fugindo da repressão, sumiram no sertão, morrendo ou virando “índios”. A ilusão, porém, não haveria de durar. A cultura da cana, a descoberta do ouro e a consequente extensão dos braços do Estado escravista e da Igreja para os interiores da terra carregou junto os olhos punitivos dos padres e dos soldados. O Brasil que era o Éden, o paraíso na Terra, ficou cada vez mais distante, restrito ao folclore, ao Carnaval, aos anúncios do Ministério do Turismo. O prazer ficou lá longe, ora longe no espaço, ora longe no tempo.
Num mundo que foi ficando cada vez mais repressor e reprimido, nos acostumamos a ver o prazer real com desconfiança e a cultivar uma ideia abstrata de prazer inalcançável, porque distante e irreal. O melhor lugar do mundo, você já ouviu muitas vezes, nunca é o aqui e agora. É aquela nostalgia típica dos mais velhos, que não se cansam de repetir como eram melhores as coisas no tempo deles, mesmo que no tempo deles não achassem as coisas tão boas assim. Uma nostalgia, de qualquer forma, com um razoável poder de contaminação, e acabamos acreditando, muitas vezes, que o amor antes era mais verdadeiro, os relacionamentos mais duradouros, o sexo mais intenso, que o LP era melhor que o MP3. Será que as coisas “antes”, “lá longe”, eram mesmo melhores? Será que um tempo em que as mulheres eram obrigadas a casar virgens era melhor que hoje? É curioso como convivem, lado a lado, como as duas faces da mesma moeda fatalista, as ideias de que as coisas sempre melhoram e a ideia de que elas sempre pioram. Nem uma coisa nem outra, a verdade é que as coisas mudam.
A sexualidade e os prazeres a ela ligados, por exemplo, foram muito mais livres até o século 18 do que no século 19 e primeira metade do 20 quando, como escreveu Michel Foucault, foram aprisionados no cárcere privado do matrimônio burguês. A partir daí, especialmente após os anos 60, voltaram a ser gradativamente liberados. Ou seja, é difícil negar que a nossa vida sexual é melhor que a dos nossos avós. O que também não quer dizer grande coisa, pois a vida sexual de nossos avós foi das piores de todos os tempos. E não há garantias de que daqui para a frente as coisas irão automaticamente evoluir; a história não acabou, nunca andou em linha reta e não vai fazer isso agora.
Como hoje, em todas as épocas conviveram as forças da repressão e da liberação. Os olhares severos e vigilantes dos padres e dos soldados do rei podem ter sido trocados pela visão científica e politicamente correta dos médicos e dos policiais do colesterol, do cigarro e do bafômetro, mas o fato é que hoje, como antes, há sempre alguém dizendo a você o que pode e o que não pode, o que é prazer lícito e saudável e o que não é. E também, como sempre, tem gente que não se conforma e continua a procurar os quatro rios do Éden do prazer sem pecados, só que agora não se entra mais sertão adentro para isso (até porque hoje no sertão só há soja, gado, cana e Brasília). E como agora pelo menos a diversidade é respeitada, os quatro rios do Éden podem estar, para alguns, no Nepal, na ioga e no sexo tântrico. Para outros, numa conexão de internet rápida levando a um intenso, real e verdadeiro sexo virtual. Para outros, ainda. bem, você pegou a ideia."

André Caraumuru
na Trip - Prazer

julho 14, 2009

Hinos da França


Le 14 juillet en France ! Não hesite em clicar e escutar! O outro hino. Um hino ao amor...

julho 12, 2009

Leitoras


Da observação de ser o tema mulheres lendo recorrente na obra de alguns artistas veio o interesse em colecionar as imagens. Este adendo vem para esclarecer que ao fazer a montagem não achei que podia ser de interesse manter as legendas que identificavam os autores dos quadros. Mesmo porque, ao contrário do que pode parecer, este blog não tem o compromisso de ser informativo...
Assim, restou uma brincadeira: tentar descobrir...reconhecer...adivinhar...
Quem acertar qual é a 'leitora' do Botero ganha um beijo!

J.S. Bach

Cozinha sinfônica

"NAS RECEITAS , temos verbos para cores -alourar, dourar- e adjetivos para texturas e cheiros -cremosas, aveludadas, ásperas, acre, azedo, queimado, bispado. Para audição, bem, o assobio da água para o café fresco, engradado de garrafas chocalhando, pipocas estourando. A receita de frango da minha mãe era auditiva, havia que escutar o frango. "Depois de chiar três vezes, está na hora de colocar a água aos pouquinhos."
Já pensaram nas receitas como partituras? É claro que, pela manhã, qualquer coração esquenta ao ouvir o barulho das panelas, as tampas se entrechocando, tem alguém fazendo o café para você, huuuumm.
O preparo de uma refeição sempre foi uma sinfonia oficiada por uma cozinheira. Hoje, diríamos que é um rap eletrônico, juntando aos antigos instrumentos de percussão, mais o liquidificador, a batedeira, o exaustor, a panela de pressão, a geladeira (a geladeira aqui de casa tem um zunido constante), a campainha avisando que já deram dez minutos.
E o mais estranho é que por mais que a tecnologia nos ajude, e já não podemos viver sem ela, na cabeça de quase todo mundo existe a sinfonia rural, como uma música caipira enfronhada na alma, o crepitar do fogão a lenha, o borbulhar da água fervente, o martelar do bife, a mão do pilão ritmada.
E a cozinha dando para o terreiro, as galinhas ciscando, o galo cantando, o riacho correndo, o sapo coaxando, fogão estalando, cachorro latindo. E desses barulhos nos lembramos com saudade, o garfo batendo as claras, a faca sendo afiada, a pia gorgolejando estrepitosa e engolindo a água com sabão.
O canto do vendedor de rua, olha a laranja Bahia. O vendedor de beiju com a matraca, o afiador de facas, o periquito da sorte, o carrinho de sorvete. Continuaram o caminhão de pamonha. E pela graça de Deus ou de algum governante sensível, o "Pour Elise" do gás se extinguiu. Entraram o elevador, o exaustor, o liquidificador, o processador, o celular indescritível. Existiriam barulhos mais à altura do ser humano e outros que ultrapassam nossa capacidade auditiva e fazem mal?
Na verdade, há sempre ruído na cozinha, porque, apesar de os ingredientes estarem mortos, os cozinheiros estão vivíssimos. Senti isso na pele numa festa de 300 pessoas em que o palco no qual o violonista tocou era junto da cozinha.
Nem todo cuidado do mundo conseguiu evitar a separação dos talheres caindo juntos na pia para a lavagem, os pratos se amontoando e o pouco caso pelo silêncio. O silêncio sim, este galopando para a extinção, desconhecido de todos, como se tanto fizesse o barulho dos talheres e o som do violão, tudo do mesmo naipe.
E uma coisa aprendi nesses longos anos de bufê. Não há nenhum mal no silêncio, no trabalhar em silêncio. Rádio ligado no jogo meio fora da estação, conversas repetidas, gente falando muito alto. Não entendo desse assunto, mas imagino que todos esses barulhos altos e eletrônicos que infestam a cozinha e ainda vêm de fora para dentro, como os aviões, os helicópteros, os carros, não fazem bem ao gosto da farofa.
Claro que deve haver a possibilidade da recuperação do silêncio. É através dele que os sons vão nos surpreender com sua beleza ou escândalo. Vale a pena nos esforçarmos por uma cozinha afinada e, por que não, por uma cabeça e um mundo afinados?
Comecemos simplesmente por discernir os sons, saber escutar, saber calar, exercícios que talvez nos ensinem a recuperar essa arte ou engenharia perdida. E de caderninho na mão, anotando tudo".
NINA HORTA na FSP