julho 12, 2009

Leitoras


Da observação de ser o tema mulheres lendo recorrente na obra de alguns artistas veio o interesse em colecionar as imagens. Este adendo vem para esclarecer que ao fazer a montagem não achei que podia ser de interesse manter as legendas que identificavam os autores dos quadros. Mesmo porque, ao contrário do que pode parecer, este blog não tem o compromisso de ser informativo...
Assim, restou uma brincadeira: tentar descobrir...reconhecer...adivinhar...
Quem acertar qual é a 'leitora' do Botero ganha um beijo!

J.S. Bach

Cozinha sinfônica

"NAS RECEITAS , temos verbos para cores -alourar, dourar- e adjetivos para texturas e cheiros -cremosas, aveludadas, ásperas, acre, azedo, queimado, bispado. Para audição, bem, o assobio da água para o café fresco, engradado de garrafas chocalhando, pipocas estourando. A receita de frango da minha mãe era auditiva, havia que escutar o frango. "Depois de chiar três vezes, está na hora de colocar a água aos pouquinhos."
Já pensaram nas receitas como partituras? É claro que, pela manhã, qualquer coração esquenta ao ouvir o barulho das panelas, as tampas se entrechocando, tem alguém fazendo o café para você, huuuumm.
O preparo de uma refeição sempre foi uma sinfonia oficiada por uma cozinheira. Hoje, diríamos que é um rap eletrônico, juntando aos antigos instrumentos de percussão, mais o liquidificador, a batedeira, o exaustor, a panela de pressão, a geladeira (a geladeira aqui de casa tem um zunido constante), a campainha avisando que já deram dez minutos.
E o mais estranho é que por mais que a tecnologia nos ajude, e já não podemos viver sem ela, na cabeça de quase todo mundo existe a sinfonia rural, como uma música caipira enfronhada na alma, o crepitar do fogão a lenha, o borbulhar da água fervente, o martelar do bife, a mão do pilão ritmada.
E a cozinha dando para o terreiro, as galinhas ciscando, o galo cantando, o riacho correndo, o sapo coaxando, fogão estalando, cachorro latindo. E desses barulhos nos lembramos com saudade, o garfo batendo as claras, a faca sendo afiada, a pia gorgolejando estrepitosa e engolindo a água com sabão.
O canto do vendedor de rua, olha a laranja Bahia. O vendedor de beiju com a matraca, o afiador de facas, o periquito da sorte, o carrinho de sorvete. Continuaram o caminhão de pamonha. E pela graça de Deus ou de algum governante sensível, o "Pour Elise" do gás se extinguiu. Entraram o elevador, o exaustor, o liquidificador, o processador, o celular indescritível. Existiriam barulhos mais à altura do ser humano e outros que ultrapassam nossa capacidade auditiva e fazem mal?
Na verdade, há sempre ruído na cozinha, porque, apesar de os ingredientes estarem mortos, os cozinheiros estão vivíssimos. Senti isso na pele numa festa de 300 pessoas em que o palco no qual o violonista tocou era junto da cozinha.
Nem todo cuidado do mundo conseguiu evitar a separação dos talheres caindo juntos na pia para a lavagem, os pratos se amontoando e o pouco caso pelo silêncio. O silêncio sim, este galopando para a extinção, desconhecido de todos, como se tanto fizesse o barulho dos talheres e o som do violão, tudo do mesmo naipe.
E uma coisa aprendi nesses longos anos de bufê. Não há nenhum mal no silêncio, no trabalhar em silêncio. Rádio ligado no jogo meio fora da estação, conversas repetidas, gente falando muito alto. Não entendo desse assunto, mas imagino que todos esses barulhos altos e eletrônicos que infestam a cozinha e ainda vêm de fora para dentro, como os aviões, os helicópteros, os carros, não fazem bem ao gosto da farofa.
Claro que deve haver a possibilidade da recuperação do silêncio. É através dele que os sons vão nos surpreender com sua beleza ou escândalo. Vale a pena nos esforçarmos por uma cozinha afinada e, por que não, por uma cabeça e um mundo afinados?
Comecemos simplesmente por discernir os sons, saber escutar, saber calar, exercícios que talvez nos ensinem a recuperar essa arte ou engenharia perdida. E de caderninho na mão, anotando tudo".
NINA HORTA na FSP

julho 11, 2009

a palavra e a publicidade

Se você busca a verdade, beba Heineken. A autenticidade está em fumar cigarros Winston. Comprar uma máquina Canon é pura rebeldia. Mas se deseja afirmar sua personalidade use um cartão Visa. E para ser um defensor do meio ambiente é espelhar-se no exemplo da Shell. O texto é de Eduardo Galeano no blog Carta Maior.

"Hoje em dia, a publicidade tem a seu cargo o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo.
“Busque a verdade”: a verdade está na cerveja Heineken.
“Você deve apreciar a autenticidade em todas suas formas”: a autenticidade fumega nos cigarros Winston.
Os tênis Converse são solidários e a nova câmara fotográfica da Canon se chama Rebelde: “Para que você mostre do que é capaz”.
No novo universo da computação, a empresa Oracle proclama a revolução: “A revolução está em nosso destino”. A Microsoft convida ao heroísmo: “Podemos ser heróis”. A Apple propõe a liberdade: “Pense diferente”.
Comendo hambúrgueres Burger King, você pode manifestar seu inconformismo: “Às vezes é preciso rasgar as regras”.
Contra a inibição, Kodak, que “fotografa sem limites”.
A resposta está nos cartões de crédito Diner's: “A resposta correta em qualquer idioma”. Os cartões Visa afirmam a personalidade: “Eu posso”.
Os automóveis Rover permitem que “você expresse sua potência”, e a empresa Ford gostaria que “a vida estivesse tão bem feita” quanto seu último modelo.
Não há melhor amiga da natureza do que a empresa petrolífera Shell: “Nossa prioridade é a proteção do meio ambiente”.
Os perfumes Givenchy dão eternidade; os perfumes dão eternidade; os perfumes Dior, evasão; os lenços Hermès, sonhos e lendas.
Que não sabe que a chispa da vida se acende para quem bebe Coca-Cola?
Se você quer saber, fotocópias Xerox, “para compartilhar o conhecimento”.
Contra a dúvida, os desodorantes Gillette: “Para você se sentir seguro de si mesmo”."

Enquanto fazemos poesia

"UMA VEZ PARTICIPEI de uma mesa redonda em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, em que se discutiu a proposição "Enquanto fazemos poesia não partimos". Trata-se de uma sentença de Hermann Broch, que se encontra no romance "A Morte de Virgílio". Mas ela foi apresentada descontextualizada, de modo que cada qual podia interpretá-la como quisesse. O importante era que essa interpretação pessoal revelasse algo da concepção de poesia de cada um. Foi, de fato, o que ocorreu.
Quanto a mim, concordo com a tese de que "enquanto fazemos poesia não partimos". No contexto em que essa frase se encontra, percebe-se que Broch lamentava o fato de não partirmos quando fazemos poesia, como se dissesse: "Quando fazemos poesia, não chegamos a partir". Pois bem, ao contrário dele, penso que o fato de não partir é exatamente o que faz da poesia o que ela é: uma das dimensões insubstituíveis e, segundo penso, supremas, da experiência humana. Na verdade, creio que não é somente quando fazemos poesia, mas, principalmente, quando a lemos, que não partimos.
Partir quer dizer dividir em partes, separar as partes: e é da noção de separação que vem o sentido de ir embora.
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Normalmente, não damos atenção a objetos que não servem para nada. Por que damos atenção a um poema enquanto poema? Coube a Kant responder a essa pergunta, descrever a beleza como uma finalidade sem fim. O poema enquanto poema é um objeto no qual reconhecemos a forma da finalidade sem, entretanto, reconhecermos o fim, a função que daria o seu conceito. Por isso mesmo, o poema enquanto poema é um objeto que, como diz Kant das ideias estéticas, "constitui uma apresentação da imaginação que dá muita ocasião ao pensamento, sem que nenhum pensamento determinado, nenhum conceito, possa ser-lhe apropriado e que, consequentemente, não é completamente alcançável ou tornado inteligível por nenhuma linguagem".
Sob o domínio da imaginação, o poema provoca o que o autor de "A Crítica do Juízo" chama de livre jogo entre as faculdades do conhecimento: trata-se de um objeto da língua ao qual voltamos, não por razões pragmáticas, mas estéticas, como voltamos a contemplar um quadro ou uma escultura.
Mas um poema é um objeto especial também em outro sentido, evidentemente ligado a esse primeiro. Ocorre que ler um poema é como mergulhar nele em pensamento. O poema é objeto e pensamento ao mesmo tempo. E, ao contrário do que ocorre nos não poemas, no poema não é possível separar o objeto do pensamento ou do sujeito do pensamento. Aquilo que pensa no poema é também a sua materialidade linguística: não apenas os seus significados convencionais, mas os seus significantes: e os significados não se separam, no poema, dos significantes. Nada, nele, se separa de nada; nada se parte; nada parte.
É nesse sentido que eu diria que, enquanto fazemos ou lemos poesia, não partimos".

ANTONIO CICERO (trecho de sua coluna da FSP de hoje)

Grávidas


Vi esta foto uns tres meses depois de ela haver sido publicada. Ilustrava a notícia de que estas duas mulheres iam ser mães: uma delas cedeu o óvulo que, uma vez fecundado, foi introduzido na sua companheira. A criança já deve ter nascido. Não fiquei sabendo como registraram o fruto deste amor maior.

A eternidade das paixões

Enfim foi descoberto o segredo da paixão eterna!!!!
É a ativação de um circuito na área tegmentar ventral, uma região do mesencéfalo, no meio da cabeça. Não soa nem um pouco romântico, mas essa descoberta de cientistas de duas universidades americanas, pode ajudar a entender por que alguns relacionamentos duram tanto e outros tão pouco. A área tegmentar ventral é acionada quando algo nos dá prazer. Os pesquisadores detectaram em imagens computadorizadas um pequeno ponto de luz, indicador desse circuito cerebral em atividade, nas pessoas que têm relacionamentos estáveis há pelo menos duas décadas. Pode ser a prova de que não é uma ilusão a paixão que permanece tão intensa quanto no primeiro dia. Mas não basta entender, o próximo passo deveria ser tratar e curar tantos mesencéfalos avariados que circulam por aí. Inclusive o meu!

TRES EM UM

Combinações

Cheguei a conclusão de que minha avó era natureba! Pois. Ela nunca comeu enlatados, embutidos nem congelados. É possível que não tenha morrido (aos 103 anos), sem saber a diferença entre light e diet por que era muito antenada. Não é à toa que uma linha de nutrólogos (ou seriam nutricionistas?) está aconselhando: “ não coma nada que sua avó não reconheceria como comida” . É do que me lembro sempre que estou diante de um saquinho de sopa que virou pó e depois vai retornar a ser sopa! Depois que inventaram que certos alimentos são “funcionais”, estamos às voltas com este combate a um inimigo chamado “radical livre”. Nunca soube de que, nem de quem, mas ele é 'livre'. Vai ver é livre para nos atacar: não mata mas envelhece! O que, no frigir dos ovos - que deixou de ser vilão - é a mesma coisa. Falam de radicais com uma familiaridade, como se o conhecessem muito, enquanto eu não faço e menor idéia de quem seja (“por favor não me apresentem, já conheço muita gente", diria um amigo).
Ao mesmo tempo, somos levadas a ingerir tudo que dizem ser “antioxidante”. O que tem me levado a pensar que seja algo que atua no sentido de que a gente não “ enferruje”. Enferrujar ou oxidar não seriam a mesma coisa? É quase certo que esteja errada, mas prefiro permanecer na minha santa ignorância. Esta cabeça, além de não comportar tanta informação, cuida de não deixar “apagar” o que já tem dentro dela. A propósito de alimentos e esquecimento, me contaram que pimentão é muito bom para a memória. A gente come e passa tres dias se lembrando. Por conta da má digestão....rsrsrsr
Em último caso, recorre-se google, se ele não se acabar antes. Como o mundo andava meio fraco em matéria de desgraças, circulou ontem que estaria havendo uma 'guerra cibernética' entre os EUA e uma das Coreias (não sei qual delas é a “ do mal”). Voltei a lembrar de minha avó e se faria algum sentido para ela esta versão de fim do mundo....
Voltando às comidas, a regra é que para ser “saudável”, não basta ingerir os alimentos certos, temos que saber combiná-los a fim de que os efeitos benéficos de uns não sejam reduzidos ou mal aproveitados.
“Não basta escolher alimentos ricos em certos nutrientes para garantir que eles fiquem à disposição do corpo. Tem que haver as combinações. Alguns nutrientes fazem boas duplas enquanto outras podem prejudicar ou desfavorecer o aproveitamento.“
Espero que consigam ver tudo bonitinho aí no quadros. Os mitos acerca de combinação de alimentos ficam para outra hora....

julho 09, 2009

Rebelião


Uma muito jovem estlista francesa inspriou-se na sua avó de 82 anos para criar a grife The Old Ladies Rebellion que foi mostrada em Londres e Paris, em desfiles por modelos entre 60 e 80 anos. Todas lindas e chiques, o que inclui cabelos brancos, rugas e até uma bengala de vez em quando, desconstruindo um paradigma de que a beleza só pertence aos jovens. Veja o desfile completo clicando no título.
Com o crescimento da populações de velhinhos (segundo o IBGE um quinto da população dentro de 40 anos) o mundo todo vai ter que aprender a lidar com os efeitos da passagem do tempo pois esta gente não vai querer ficar à margem. Segundo meu geriatra, a velhice começa aos 80.Portanto meninas, nada de saias abaixo dos joelhos, chinelos baixinhos e calçolas bege....

julho 08, 2009

Signes - "l'Esprit du bleu"


Coreografia:Carolyn Carlson -"Signes": Kader Belarbi & Marie-Agnès Gillot

Calvário nas manchetes

Faz uns bons anos que desliguei a TV e rádio que toca notícias . Dos jornais leio(on line) cadernos de cultura, lazer, arte ou entretenimento (vou além apenas em busca de certas colunas já conhecidas de quem ler o blog). Vendo as capas das revistas semanais, na fila do supermercado, tive medo dos "fantasmas"! A propósito de revistas, a Vida Simples deste mes está ótima! Para os viciados em JN e afins, devo ter me tornado uma alienada, para dizer o menos, considerando suas expressões quando me ouvem dizer que não sei do que estão falando. Os mais atentos sabem que, se não “ vivo nas estrelas”, o que já andei dizendo por aqui, ou não vejo a vida completamente en rose, estou quase chegando lá... Mas quando estou tendente a começar a pensar que talvez esteja sendo um tanto radical, me deparo com este texto do Ruy Castro (na FSP).
"Há poucas semanas, fomos esmagados pela história da menina Sophie, de quatro anos, torturada e agredida durante um ano por sua tia até morrer, desnutrida e cheia de hematomas, ossos quebrados e lesões internas, num hospital em Caxias, RJ. É de se perguntar se e quando terminará o calvário das crianças no Brasil. Porque, pelo noticiário, não há motivo para otimismo. Veja algumas manchetes, todas dos últimos dias.
"Polícia prende padre suspeito de violentar criança de quatro anos em escola de São Paulo." "Mãe tenta matar filha por suspeitar de gravidez em Belo Horizonte (MG)." "STJ nega liberdade a padre acusado de violentar três meninas em Rio Grande (RS)." "Polícia prende suspeito, mas não identifica jovem morta (em São Paulo)." "Descaso de médico no Miguel Couto causa morte de bebê (no Rio)."
"Promotora denuncia oito por violência sexual contra dois adolescentes em Paulo de Faria (SP)." "Crianças de até quatro anos são exploradas na Lapa -menores vendem balas de madrugada enquanto mulheres as supervisionam (no Rio)." "Ladrão mata executiva na frente do neto no Butantã -vítima ia estacionar e tirar o neto de quatro anos de dentro do carro; ela levou um tiro na testa (em São Paulo)."
"Juiz do trabalho é acusado de exploração sexual infantil ao promover orgias com crianças no município de Tefé (AM)." "Mulher é suspeita de ter enterrado criança viva -bebê foi achado em saco plástico, em quintal de casa em Angra dos Reis (RJ)." "ONU critica STJ por não punir sexo pago com menor -entidade repudia endosso a decisão da Justiça (de Mato Grosso do Sul) e alerta para o perigoso precedente aberto."
Não importa o que digam os números, nenhuma criança está a salvo no Brasil. Tudo conspira contra ela: a pobreza, o crime, os pais e, às vezes, a lei."

Foi difícil ir até o fim...Se, além da podridão da política, é disto que fico sem saber,volto correndo para o meu mundinho.

julho 07, 2009

Das escolhas do inconsciente

"A inesgotável sucessão de escândalos políticos nos faz pensar que muitos de nossos homens públicos se vêem como grãos-senhores que se dão ao direito de saquear o tesouro nacional para constituir fortunas pessoais e sustentar familiares, serviçais, apaniguados e agregados. Quando confrontados com seus desmandos, abusos e crimes, ficam mortalmente ofendidos e posam de injustiçados.
É que o conceito de accountability, de importância fundamental nas democracias mais avançadas, parece não existir por aqui. Todo político do Primeiro Mundo sabe que deverá prestar contas, a seus eleitores, do poder que lhe foi por eles delegado. É isso a accountability.
Um bom exemplo desse estado de coisas nos deu Sarney recentemente. No epicentro dos escândalos do Senado, ao se defender das acusações que sobre ele incidem, Sarney afirmou que sua "biografia" é sua salvaguarda. Mas não é justamente sua biografia o que o condena? Se pensarmos em termos de accountability, que prestação de contas poderia ele apresentar a seus eleitores, se a realidade expõe a todos os péssimos índices de desenvolvimento do Estado no qual por quase quatro décadas tem exercido um anacrônico poder senhorial?
Frente a isso, somos levados a pensar que, numa democracia como a nossa, é baixo o nível dos políticos e uma grande maioria do eleitorado é despreparada, ignora seus direitos e se posta frente ao político de forma subserviente, implorando favores, avalizando a imagem de grão-senhor que os políticos se dão.
Poder-se-ia pensar que o problema da escolha de maus políticos é decorrência do subdesenvolvimento característico de nossas plagas e que uma melhor escolaridade muito faria por nosso processo eleitoral.
Isso é parcialmente verdadeiro, pois logo lembramos que eleitores com boa escolaridade e nível de informação política, como os do Primeiro Mundo, também fazem péssimas escolhas, elegendo políticos desqualificados e de reputação duvidosa. As reeleições de Bush e Berlusconi são exemplos recentes. Assim constatamos que se a educação e a informação são necessárias para que os eleitores possam fazer boas escolhas políticas, isso não é o suficiente. A escolha do eleitor é permeada por uma forte irracionalidade que perturba a desejada objetividade. Embora isso possa nos surpreender, não deveria, pois é o que ocorre com todo e qualquer ato humano.
É aí onde a psicanálise pode dizer algo.
Para a compreensão dos motivos irracionais - ou seja, inconscientes - na escolha dos eleitores, é fundamental a leitura de Psicologia de Grupo e Análise do Ego, de Freud. Ali ele diz que o líder, pessoalmente identificado com uma forte figura paterna, ocupa efetivamente o lugar de pai na fantasia grupal, e o próprio grupo se vê como um bando de irmãos a ser comandado por esse pai poderoso de quem demanda amor e proteção. Os membros do grupo colocam o líder como um ideal do ego compartilhado por todos, condição que os une numa forte identificação entre si.
Essa configuração psíquica é tão generalizada que Freud a usa para estabelecer que os homens se dividem em duas categorias: a dos líderes, francamente minoritária, e a dos liderados, amplamente majoritária.
Freud faz tal afirmação numa correspondência trocada com Einstein em 1932, patrocinada pela Liga das Nações (atual ONU), que convidava cidadãos notáveis para refletirem sobre problemas de interesse geral. No caso específico, o tema era a guerra. Freud especula sobre o que determina a intensidade da destrutividade de um indivíduo e de como isso se refletiria numa postura pacifista ou belicista.
Ao propor as duas categorias de homens, líderes e liderados, posições determinadas por estruturas psíquicas inconscientes, Freud parece dizer que, independentemente do regime político, a grande maioria dos homens deseja ser comandada, ficando numa posição de dependência reveladora da persistência de desejos infantis por um pai forte e poderoso, a quem se sacrifica a independência e a autonomia em troca da proteção. Essa estrutura fantasmática sustenta e alimenta também a importância social da religião.
O reconhecimento da dimensão inconsciente do psiquismo faz com que a escolha democrática fique bastante problematizada. Por um lado, pelo infantilismo regressivo que alimenta o desejo de ser comandado por um pai forte e onipotente. Por outro, pela loucura "adulta" da ideologia, cujo exemplo mais cabal - como bem apontou Marx em A Ideologia Alemã - é a religião, alimentando idealizações e negações quase delirantes frente à realidade.
A tudo isso ainda se deve acrescentar o discurso político, que visa essencialmente à conquista e manutenção do poder, para tanto manipulando pessoas e fatos.
O diálogo entre Freud e Einstein estava centrado em como a pulsão de morte determinaria uma maior destrutividade nos lideres, fazendo-os assumir uma atitude belicista. Embora a guerra permaneça no panorama mundial, ela não tem a amplitude e urgência daquele momento. Em nossos tempos de "paz", a destrutividade (pulsão de morte) de muitos líderes assume uma feição menos bélica, mais "civil" e se expressa como corrupção.
A voracidade com que os políticos organizam negociatas e se apoderam do bem público em detrimento da coletividade é uma manifestação predatória e fanática do poder. É expressão de um narcisismo maligno que desrespeita a coletividade e coloca multidões na miséria e no desamparo.
Políticos corruptos, eleitores despreparados, discursos mentirosos que visam exclusivamente o poder, interferência de aspectos regressivos infantis na escolha de homens públicos, a alienação das ideologias - mesmo assim, com tudo isso, não podemos desanimar com a democracia.
Ela é uma conquista e deve ser defendida a qualquer preço. A melhor forma de defendê-la é não idealizá-la, é reconhecer suas falhas e dificuldades e nos empenhar para superá-las.
Devemos lutar para que os eleitores se apropriem de seus direitos civis, possam eleger políticos honestos e capazes e que saibam reconhecer a diferença entre a escolha objetiva de um representante político e a fantasia de reencontrar a proteção perdida de um pai onipotente.
Talvez seja necessário reafirmar tudo isso, pois não poucas vezes tenho ouvido pessoas se declararem completamente desiludidas com nossa realidade política e, como forma de protesto, planejarem a anulação de seus votos nas próximas eleições."

Sérgio Telles é psicanalista e autor, entre outros, de Visita às Casas de Freud e Outras Viagens (Casa do Psicólogo, 2006)
Do Estadão on line .

GUARDIANS

A genialidade consiste muitas vezes em mudar o ponto de vista. O fotógrafo Andy Freeberg percorreu os museus russos e em vez de fotografar as obras de arte, fotografou aquelas pessoas invisíveis que vigiam as salas, como se fizessem parte de outra obra de arte. O resultado são estas imagens maravilhosas que se pode ver clicando no título.

julho 06, 2009

Gás venenoso

"Dias atrás , esperando um voo, ouvi uma expressão que sempre me soa idiota: "Passageiros da melhor idade".
Uso dessa lembrança para responder aos leitores que me escreveram (por conta da coluna do dia 29/06) um tanto revoltados com a dureza do meu tratamento do fenômeno loser (homens e mulheres fracassados na vida, envelhecidos, sem dinheiro, sem amor, sem chances) e de outro fenômeno, o otimismo para retardados. Muitos leitores questionavam meu "direito" de dizer coisas duras assim para as pessoas e que todos têm o "direito a ter esperanças".
A maioria da humanidade é loser. Tanto a arte, quanto seu oposto, a estatística, prova isso. Mas o que seria um programa de otimismo para retardados? Cuidado que você pode, de repente, tropeçar com ele na empresa ou na escola (que horror!), e provavelmente levado a cabo pelo departamento de recursos humanos ou por alguma pedagoga boba apaixonada pela felicidade como produto da educação.
Mas antes, reafirmo: somos todos losers, na medida em que, se tudo está dando certo hoje, a fragilidade da vida (traições, ódios, indiferença, crise financeira, morte) mostrará sua cara. Todavia, a maioria de nós vive isso de modo mais imediato: virtudes são raras, a covardia impera, as competências são escassas (sempre aparece alguém melhor do que você), a inveja corrói as relações, o mercado mata.
A própria paixão que a modernidade tem pela "velocidade" carrega em si o lado negro desta paixão: o risco da aceleração para o vazio é grande e o desejo de permanecer tendo sucesso no mundo contemporâneo tem a consistência de um gás venenoso. Por exemplo, na carreira profissional inventaram uma bobagem chamada "agregar valor a si mesmo" que significa basicamente: não repouse nunca, corra sempre. Ninguém consegue correr sempre, e a experiência humana do envelhecimento fala exatamente do contrário: a vida caminha para o repouso.
A tentativa de negar isso é a palhaçada do termo "melhor idade" para se referir aos idosos, que na realidade não têm valor algum no mundo porque poucos produzem e quase nenhum consome. "Agregar valor a si mesmo" e "melhor idade" são dois exemplos claros do programa de otimismo para retardados.
Faz parte desse programa outro exemplo: a ideia de que exista uma coisa chamada "direito a esperança" e que "respeitar" isso passe pelo perfil obrigatório de um colunista ou de um intelectual. Pelo contrário, quanto melhor for uma reflexão, menos comprometida ela deve ser com um programa de otimismo para retardados. O simples imperativo de associar pensamento à felicidade já é sequela deste programa.
Chamar a última fase da vida de "melhor idade" é um desrespeito ao idoso inteligente. A desvalorização do envelhecimento é consequência inevitável da inaptidão do idoso para responder às demandas do capital e da paixão idiota pela velocidade que falei acima. Sendo o idoso a "encarnação" do passado, e tendo sua experiência valor zero no mercado do mundo, é inevitável que ele sinta que não vale nada.
Contra os idosos hoje em dia há também o fato de que são muitos. Com o grande aumento da quantidade deles, fruto dos avanços da medicina (graças a Deus e às indústrias farmacêuticas, que espero continuem a ser criativas e a ter muito lucro), percebemos que a maioria dos idosos é banal e pouco sábia. Aliás, o efeito das grandes quantidades é sempre este: redução do valor como mercadoria, banalização do conteúdo. Quanto mais idoso existe, menos ele vale no mercado dos homens. Contradição dura esta, não? A vida longa é desejável, mas o resultado é o aumento do estoque de banalidade na forma deformada do corpo humano.
Outro fator a destruir o lugar do idoso no mundo contemporâneo é sua substituição por outros instrumentos de transmissão de conhecimento: internet, mídia, uma escola a cada esquina (mesmo que vagabunda). Esse fenômeno foi chamado de "morte do narrador": ninguém precisa do idoso para "narrar o mundo" e dar sentido a ele. O idoso é ultrapassado, não acompanha as mudanças, é lento, tende ao repouso. De lugar da produção de sentido (o narrador da vida), ele passa a ser o abismo da falta de sentido dela: envelhece, perde funções vitais, é um peso para os seus, ocupa espaço e é inútil.
Sofro com o fato tanto quanto os que "têm esperança". Respiro do mesmo gás. Morrerei do mesmo veneno."

LUIZ FELIPE PONDÉ
na FSP de hoje