"Dias atrás , esperando um voo, ouvi uma expressão que sempre me soa idiota: "Passageiros da melhor idade".
Uso dessa lembrança para responder aos leitores que me escreveram (por conta da coluna do dia 29/06) um tanto revoltados com a dureza do meu tratamento do fenômeno loser (homens e mulheres fracassados na vida, envelhecidos, sem dinheiro, sem amor, sem chances) e de outro fenômeno, o otimismo para retardados. Muitos leitores questionavam meu "direito" de dizer coisas duras assim para as pessoas e que todos têm o "direito a ter esperanças".
A maioria da humanidade é loser. Tanto a arte, quanto seu oposto, a estatística, prova isso. Mas o que seria um programa de otimismo para retardados? Cuidado que você pode, de repente, tropeçar com ele na empresa ou na escola (que horror!), e provavelmente levado a cabo pelo departamento de recursos humanos ou por alguma pedagoga boba apaixonada pela felicidade como produto da educação.
Mas antes, reafirmo: somos todos losers, na medida em que, se tudo está dando certo hoje, a fragilidade da vida (traições, ódios, indiferença, crise financeira, morte) mostrará sua cara. Todavia, a maioria de nós vive isso de modo mais imediato: virtudes são raras, a covardia impera, as competências são escassas (sempre aparece alguém melhor do que você), a inveja corrói as relações, o mercado mata.
A própria paixão que a modernidade tem pela "velocidade" carrega em si o lado negro desta paixão: o risco da aceleração para o vazio é grande e o desejo de permanecer tendo sucesso no mundo contemporâneo tem a consistência de um gás venenoso. Por exemplo, na carreira profissional inventaram uma bobagem chamada "agregar valor a si mesmo" que significa basicamente: não repouse nunca, corra sempre. Ninguém consegue correr sempre, e a experiência humana do envelhecimento fala exatamente do contrário: a vida caminha para o repouso.
A tentativa de negar isso é a palhaçada do termo "melhor idade" para se referir aos idosos, que na realidade não têm valor algum no mundo porque poucos produzem e quase nenhum consome. "Agregar valor a si mesmo" e "melhor idade" são dois exemplos claros do programa de otimismo para retardados.
Faz parte desse programa outro exemplo: a ideia de que exista uma coisa chamada "direito a esperança" e que "respeitar" isso passe pelo perfil obrigatório de um colunista ou de um intelectual. Pelo contrário, quanto melhor for uma reflexão, menos comprometida ela deve ser com um programa de otimismo para retardados. O simples imperativo de associar pensamento à felicidade já é sequela deste programa.
Chamar a última fase da vida de "melhor idade" é um desrespeito ao idoso inteligente. A desvalorização do envelhecimento é consequência inevitável da inaptidão do idoso para responder às demandas do capital e da paixão idiota pela velocidade que falei acima. Sendo o idoso a "encarnação" do passado, e tendo sua experiência valor zero no mercado do mundo, é inevitável que ele sinta que não vale nada.
Contra os idosos hoje em dia há também o fato de que são muitos. Com o grande aumento da quantidade deles, fruto dos avanços da medicina (graças a Deus e às indústrias farmacêuticas, que espero continuem a ser criativas e a ter muito lucro), percebemos que a maioria dos idosos é banal e pouco sábia. Aliás, o efeito das grandes quantidades é sempre este: redução do valor como mercadoria, banalização do conteúdo. Quanto mais idoso existe, menos ele vale no mercado dos homens. Contradição dura esta, não? A vida longa é desejável, mas o resultado é o aumento do estoque de banalidade na forma deformada do corpo humano.
Outro fator a destruir o lugar do idoso no mundo contemporâneo é sua substituição por outros instrumentos de transmissão de conhecimento: internet, mídia, uma escola a cada esquina (mesmo que vagabunda). Esse fenômeno foi chamado de "morte do narrador": ninguém precisa do idoso para "narrar o mundo" e dar sentido a ele. O idoso é ultrapassado, não acompanha as mudanças, é lento, tende ao repouso. De lugar da produção de sentido (o narrador da vida), ele passa a ser o abismo da falta de sentido dela: envelhece, perde funções vitais, é um peso para os seus, ocupa espaço e é inútil.
Sofro com o fato tanto quanto os que "têm esperança". Respiro do mesmo gás. Morrerei do mesmo veneno."
LUIZ FELIPE PONDÉ
na FSP de hoje
julho 06, 2009
julho 05, 2009
A eternidade e o desejo
"A eternidade e o desejo são duas coisas tão parecidas, que ambas se retratam com a mesma figura. Os Egípcios nos seus jeroglíficos e antes deles os caldeus para representar a eternidade pintaram um O: porque a figura circular não tem princípio, nem fim; e isto é ser eterno. O desejo ainda teve melhor pintor que é a natureza. Todos os que desejam, se o afecto rompeu o silêncio e do coração passou á boca, o que pronunciam naturalmente é O (.)e como a natureza em um O deu ao desejo a figura da eternidade, e a arte em outro O deu à eternidade a figura do desejo; não há desejo, se é grande, que na tardança e na duração não tenha muito de eterno." (Antonio Vieira - Sermão de N.Senhora do Ó) Os personagnes de Ines Pedrosa neste romance intitulado A eternidade e o desejo percorrem os mesmos lugares visitados no século XVII pelo jesuíta Padre Antônio Vieira. Para ela “Vieira não foi apenas nem sobretudo um padre. Foi um magistral escritor e orador, um pioneiro dos direitos humanos e um bom diplomata, embora nem sempre acertasse nas causas e nos apoios. (...) Era um voluntário da ingenuidade, como costumam ser as pessoas que nascem com a mania de melhorar o mundo”.
No romance, entremeado em negrito de citações dos seus Sermões , a historiadora e professora universitária portuguesa Clara viaja para o Brasil acompanhada de um amigo que lhe empresta a visão das coisas e das cores, para seguir as pegadas de Antonio Vieira. Regressa à Bahia, onde há tempos perdeu a visão e um amor e, inspirada pelos seus contrastes, encanta-se pelo candomblé e seus orixás.
Além da oportunidade de conhecer alguns trechos dos Sermões, não me despertou qualquer interesse ou gosto pela leitura. Nada.
julho 04, 2009
Delicatessen
"Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.
Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais."
Hilda Hilst
Texto extraído do jornal “Correio Popular”, de Campinas-SP, de 01/03/1993.
Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais."
Hilda Hilst
Texto extraído do jornal “Correio Popular”, de Campinas-SP, de 01/03/1993.
Longa vida
Se por um lado existem modernidades que adoto imediatamente e chego a pensar em como pude viver sem elas, sou muito resistente a certas outras ....Foi da Austrália que veio esta invenção : em vez de garrafa de vidro e rolha, o vinho sai direto da caixa. A vantagem seria que, para beber, basta abrir a torneirinha que o vinho sai sem que o ar entre(só falta ter ao lado um canudo de copo de plástico!) e assim “o vinho pode durar cerca de um mês fora da geladeira, sem perder suas características aromáticas.... “ A embalagem seria boa para vinhos jovens, de consumo imediato, que não ganham nada com o envelhecimento. Como dizem os franceses, para os que vão morrer de sua própria morte num tempo breve.
Acho uma bobagem esta aura criada, ultimamente, em torno do consumo de vinho. Beber vinho e comer pão a humanidade faz há séculos, mas é que não se pode deixar de valorizar certos rituais. No caso do vinho, não dá para dispensar o momento da abertura da garrafa, o inconfundível som da rolha ao ser sacada, o seu cheiro, o “dar um tempo” para o vinho “oxigenar”, sentir o bouquet...Estes pequenos gestos fazem parte do prazer de compartilhar uma garrafa. Melhor ainda se acompanhado de um bom repas (ou até de um dicumê). Não venha me dizer que é frescura cheirar rolha...rsrsrs. Mas só vou até aí, não fico lambendo borda de taça comentando sobre o "aveludado" do vinho...É que tomar um bom vinho bem acompanhado(a) - o vinho e eu - é um daqueles momentos de prazer que não valem pelo que “duram”. Não importa se dentro ou fora da geladeira.
Embalagem “longa-vida” fica melhor mesmo para leite.
julho 01, 2009
F a c h a d a s
Quase um mês que voltei de Barcelona...”cidade feiticeira que nos rouba a alma sem nos darmos conta”. Depois disto já me aconteceram tantas coisas...
Voltei a impregnar-me dela e de seus segredos, através dos olhos do Zafón e dos cenários dos seus romances mostrados no 'Guia' de Sergi Doria (adquiri no Porto e enviei pelo correio para cá). Um percurso fascinante entre a cidade real e a romanesca, neste livro que o autor explica como não sendo um tratado de literatura nem um guia turístico e tampouco um ensaio histórico. O Guia da Barcelona de Carlos Ruiz Zafón é um passeio guiado pelo olhar do escritor através de seus romances: Marina, A Sombra do Vento e o Jogo do Anjo. Já mencionei a Barcelona de Zafón em postagens anteriores - Els Quatre Gats - foi uma delas.
Estas imagens de Barcelona são outras. Na verdade são fachadas que fotografei a partir do onibus, de longe e, quase sempre, em movimento. Não guardam qualquer relação com as imagens do livro que traz oito emocionantes roteiros que vão do obscuro Cemitérios dos Livros Esquecidos (a quem interessar, Calle Arco del Teatro) às estreitas escadas do Raval e à praça do Bairro Gótico; pelos palácios e mercearias à sombra de Santa Maria del Mar aos jardins da Ciudadela. Livros malditos, memórias de defuntos e maravilhas modernistas. Ruas, edifícios e avenidas na Barcelona dos mistérios.
O Cemitérios dos Livros Esquecidos ("onde vão parar apenas aqueles volumes que alguém de verdade quer guardar"), ao mesmo tempo que é um mito literário de Barcelona é uma imagem de amor à leitura: “ Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Neste lugar os livros que já ninguém recorda, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar às mãos de um noovo leitor , um novo espírito...”
Se é verdade que somos aquilo que comemos, podemos dizer o mesmo em relação à literatura? Somos o que lemos? Conforme nossas afinidades, ao ler um bom romance, nosso mundo passa a ser representado nas vozes dos personagens? Há, por outro lado, os que asseguram que a literatura "cura tudo". “No romance cabe tudo...a única coisa exigível é que a história nos agarre e esqueçamos assim os ponteiros desse relógio que marca, implacável, o tedium vitae”. Me deixo “ agarrar” de vez em quando e recomendo vivamente aos amigos que o façam. Será só prazer. Sem qualquer efeito colateral desagradável.
Voltei a impregnar-me dela e de seus segredos, através dos olhos do Zafón e dos cenários dos seus romances mostrados no 'Guia' de Sergi Doria (adquiri no Porto e enviei pelo correio para cá). Um percurso fascinante entre a cidade real e a romanesca, neste livro que o autor explica como não sendo um tratado de literatura nem um guia turístico e tampouco um ensaio histórico. O Guia da Barcelona de Carlos Ruiz Zafón é um passeio guiado pelo olhar do escritor através de seus romances: Marina, A Sombra do Vento e o Jogo do Anjo. Já mencionei a Barcelona de Zafón em postagens anteriores - Els Quatre Gats - foi uma delas.
Estas imagens de Barcelona são outras. Na verdade são fachadas que fotografei a partir do onibus, de longe e, quase sempre, em movimento. Não guardam qualquer relação com as imagens do livro que traz oito emocionantes roteiros que vão do obscuro Cemitérios dos Livros Esquecidos (a quem interessar, Calle Arco del Teatro) às estreitas escadas do Raval e à praça do Bairro Gótico; pelos palácios e mercearias à sombra de Santa Maria del Mar aos jardins da Ciudadela. Livros malditos, memórias de defuntos e maravilhas modernistas. Ruas, edifícios e avenidas na Barcelona dos mistérios.
O Cemitérios dos Livros Esquecidos ("onde vão parar apenas aqueles volumes que alguém de verdade quer guardar"), ao mesmo tempo que é um mito literário de Barcelona é uma imagem de amor à leitura: “ Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Neste lugar os livros que já ninguém recorda, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar às mãos de um noovo leitor , um novo espírito...”
Se é verdade que somos aquilo que comemos, podemos dizer o mesmo em relação à literatura? Somos o que lemos? Conforme nossas afinidades, ao ler um bom romance, nosso mundo passa a ser representado nas vozes dos personagens? Há, por outro lado, os que asseguram que a literatura "cura tudo". “No romance cabe tudo...a única coisa exigível é que a história nos agarre e esqueçamos assim os ponteiros desse relógio que marca, implacável, o tedium vitae”. Me deixo “ agarrar” de vez em quando e recomendo vivamente aos amigos que o façam. Será só prazer. Sem qualquer efeito colateral desagradável.
junho 30, 2009
Pina Bausch
Ela morreu hoje, aos 68 anos. Como coreógrafa tratou muito dos instintos primitivos do ser humano. Seus movimentos eram agressivos e anticlássicos."Não me interesso em como as pessoas se movem, mas o que as movem" é uma de suas mais representativas falas. Foi a tradução mais perfeita da música dissonante de Stravinsky e seguidores, embora tenha feito trabalhos mais líricos e até fado. É dela aquele balé com que Almodovar termina o filme Fale com Ela.
Os normalopatas
"A TIMIDEZ É doença? Uma amiga minha acredita que sim e procurou ajuda especializada. Entrou numa consulta de psiquiatria e, como normalmente acontece, nunca mais de lá saiu. Um ano depois, e algumas sessões depois, existem progressos: ela consegue estar num "evento social" e conversar "naturalmente" com as pessoas em volta. A terapia ajudou (muito). A medicação ajudou (muitíssimo): um coquetel de antidepressivos e ansiolíticos que a obrigaram a sair da concha e a conhecer o mundo.
Escutei tudo isso ao almoço e não pude deixar de pensar como o mundo é um local estranho. Tempos houve em que certos comportamentos pessoais eram parte da diversidade humana. Uma pessoa tímida era simplesmente uma pessoa tímida. Uma pessoa expansiva era simplesmente uma pessoa expansiva. Nem todos podemos ser borboletas. Alguns acordam para o mundo e descobrem, ao contrário do que Kafka dizia, que os pequenos insectos também têm o seu encanto.
Gradualmente, a psiquiatria começou a ter uma palavra sobre o assunto, procurando "regular" ou "normalizar" a variedade de que somos feitos. Não é preciso ter lido Foucault para acreditar nessa história, até porque o radicalismo de Foucault não ajuda e só atrapalha. Basta olhar em volta.
Basta olhar para amigos tímidos, ou então para crianças hiperativas (ou deliciosamente preguiçosas), e encontrar neles um potencial doente, um potencial demente, a exigir intervenção psicofármica. Uma parte da medicina moderna acredita na ideia, pessoalmente aberrante, de que deve existir um padrão de "equilíbrio comportamental" para definir um ser humano harmonioso, realizado e feliz.
O problema é que poucos correspondem ao padrão. Depois desse almoço, regressei a casa, disposto a investigar o crime. E então encontrei, por feliz coincidência, o relato precioso da última reunião da American Psychiatric Association, em São Francisco. Segundo parece, essa vetusta agremiação de luminárias discutiu as últimas alterações ao manual de referência da especialidade, o "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder". Publicado desde 1952, e revisto de década em década, o manual pretende agora incluir novas "doenças" mentais, em sintonia com o espírito do tempo. Exemplos? Vários.
Para começar, existem "doenças" relacionadas à alimentação. É o caso da "binge-eating disorder" e da "night-eating syndrome". Em linguagem de gente, a primeira refere-se a uma compulsão excessiva para comer mais do que o estritamente necessário; a segunda pretende diagnosticar, e tratar, o gosto perverso por assaltar a geladeira depois da meia-noite. Mas a lista de novas "doenças" não fica por aqui.
O vício pela internet e pelo e-mail ("internet addiction"); o gosto por vários parceiros sexuais, em sucessão ou em simultâneo ("sex addiction"); a compulsão "terapêutica" por compras ("compulsive shopping"); a fúria incontrolada e muitas vezes injustificada ("embitterment disorder"); o preconceito perante a "diferença" ("pathological bias"); e mesmo a tendência idiossincrática para colecionar materiais diversos ("pathological hoarding"), nada escapa à inquisição psiquiátrica.
Leio esse admirável cardápio e sorrio de espanto. Ou de medo. Ou de ambos. Razão simples: de acordo com a bíblia da psiquiatria mundial, eu sou objectivamente um demente. Nada que surpreenda os meus leitores mais regulares, é certo. Muitos menos as pessoas que partilham a minha existência.
Mas algo me surpreende. Eu nunca imaginei que a minha gula (diária e noturna); os meus acessos de fúria (justificados ou não); os meus recorrentes preconceitos (contra políticos, adolescentes ou feministas); os meus desportos mais íntimos (que não incluem a monotonia); a forma criminosa como gasto fortunas (em camisas, sapatos, ternos); e a minha tendência para guardar obsessivamente os mais ridículos objetos (jornais antigos, próteses, peças de lingerie alheias), fosse motivo para tratamento médico especializado.
Prometo marcar consulta. E prometo emergir das sessões um homem novo: vegetariano, ambientalista, tolerante, multicultural e, no duplo sentido da palavra, com espírito de missionário.
No mundo moderno em que vivemos, a única doença tolerável é mesmo a normalopatia."
JOÃO PEREIRA COUTINHO na FSP
Escutei tudo isso ao almoço e não pude deixar de pensar como o mundo é um local estranho. Tempos houve em que certos comportamentos pessoais eram parte da diversidade humana. Uma pessoa tímida era simplesmente uma pessoa tímida. Uma pessoa expansiva era simplesmente uma pessoa expansiva. Nem todos podemos ser borboletas. Alguns acordam para o mundo e descobrem, ao contrário do que Kafka dizia, que os pequenos insectos também têm o seu encanto.
Gradualmente, a psiquiatria começou a ter uma palavra sobre o assunto, procurando "regular" ou "normalizar" a variedade de que somos feitos. Não é preciso ter lido Foucault para acreditar nessa história, até porque o radicalismo de Foucault não ajuda e só atrapalha. Basta olhar em volta.
Basta olhar para amigos tímidos, ou então para crianças hiperativas (ou deliciosamente preguiçosas), e encontrar neles um potencial doente, um potencial demente, a exigir intervenção psicofármica. Uma parte da medicina moderna acredita na ideia, pessoalmente aberrante, de que deve existir um padrão de "equilíbrio comportamental" para definir um ser humano harmonioso, realizado e feliz.
O problema é que poucos correspondem ao padrão. Depois desse almoço, regressei a casa, disposto a investigar o crime. E então encontrei, por feliz coincidência, o relato precioso da última reunião da American Psychiatric Association, em São Francisco. Segundo parece, essa vetusta agremiação de luminárias discutiu as últimas alterações ao manual de referência da especialidade, o "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder". Publicado desde 1952, e revisto de década em década, o manual pretende agora incluir novas "doenças" mentais, em sintonia com o espírito do tempo. Exemplos? Vários.
Para começar, existem "doenças" relacionadas à alimentação. É o caso da "binge-eating disorder" e da "night-eating syndrome". Em linguagem de gente, a primeira refere-se a uma compulsão excessiva para comer mais do que o estritamente necessário; a segunda pretende diagnosticar, e tratar, o gosto perverso por assaltar a geladeira depois da meia-noite. Mas a lista de novas "doenças" não fica por aqui.
O vício pela internet e pelo e-mail ("internet addiction"); o gosto por vários parceiros sexuais, em sucessão ou em simultâneo ("sex addiction"); a compulsão "terapêutica" por compras ("compulsive shopping"); a fúria incontrolada e muitas vezes injustificada ("embitterment disorder"); o preconceito perante a "diferença" ("pathological bias"); e mesmo a tendência idiossincrática para colecionar materiais diversos ("pathological hoarding"), nada escapa à inquisição psiquiátrica.
Leio esse admirável cardápio e sorrio de espanto. Ou de medo. Ou de ambos. Razão simples: de acordo com a bíblia da psiquiatria mundial, eu sou objectivamente um demente. Nada que surpreenda os meus leitores mais regulares, é certo. Muitos menos as pessoas que partilham a minha existência.
Mas algo me surpreende. Eu nunca imaginei que a minha gula (diária e noturna); os meus acessos de fúria (justificados ou não); os meus recorrentes preconceitos (contra políticos, adolescentes ou feministas); os meus desportos mais íntimos (que não incluem a monotonia); a forma criminosa como gasto fortunas (em camisas, sapatos, ternos); e a minha tendência para guardar obsessivamente os mais ridículos objetos (jornais antigos, próteses, peças de lingerie alheias), fosse motivo para tratamento médico especializado.
Prometo marcar consulta. E prometo emergir das sessões um homem novo: vegetariano, ambientalista, tolerante, multicultural e, no duplo sentido da palavra, com espírito de missionário.
No mundo moderno em que vivemos, a única doença tolerável é mesmo a normalopatia."
JOÃO PEREIRA COUTINHO na FSP
Assinar:
Postagens (Atom)







