"O filme "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), em cartaz, "Tinha que Ser Você" em tradução ridícula, com Dustin Hoffman e Emma Thompson discute um tema duro, sem deixar de ser delicado. A história não é um mero romance de um homem e uma mulher que se encontram de forma improvável, já nos 60 anos, quando tudo tende a estar decidido e muito pouco resta a fazer. O filme descreve a vida de dois "losers" (pessoas fracassadas na vida) que se encontram e como eles apostam um no outro.
Uma das qualidades do filme é exatamente ser otimista sem ser brega, coisa rara numa cultura que preza por um otimismo de massa para retardados do tipo: "Confie no seu desejo que vai dar certo". Não, na maioria das vezes, não dá certo, pouco importa o que você fizer.
O filme é uma anatomia do fracasso. Só a coragem pode desafiar o hábito do fracasso. A vida só sorri para os corajosos. Esta é a grandeza de Harvey, quando, aos 45 minutos do segundo tempo, arranca um sorriso da triste mulher envelhecida, até então atolada, como ele, no hábito do fracasso. E apostam numa vida improvável. Vem aos lábios: "Meu Deus, afaste de mim o cálice da covardia!". Enquanto eu tiver coragem, minha alma respira.
A figura do "loser" é insuportável. Antes de tudo porque a maioria da humanidade é "loser" e você de 20 anos poderá ser um "loser" aos 50.
A diferença entre o título em português (romance "sessão da tarde") e o título original (falando da última chance na vida de um homem) revela que a grandiosidade do filme não está exatamente no "amor improvável". Mas na coragem de pessoas maduras enfrentarem o "aconchego" que o hábito pode dar, mesmo que seja o hábito da infelicidade, como diz a personagem de Emma Thompson quando confessa, ao final, mais ou menos assim: "É mais fácil quando me decepciono".
Ele é um homem que sonhava em ser um pianista e virou um criador medíocre de jingles. Separado, sua esposa se casa de novo com um homem bem sucedido, alto e bonito. Há maior tormento para um homem baixinho, feio e pobre do que imaginar sua ex-esposa, gemendo delícias na cama entre as mãos de um homem rico, alto e bonito?
Harvey receberá dois duros golpes. Primeiro, será trocado por um jovem no emprego (ele recebe seu emprego de volta, e sua recusa será a chave de que escolheu mudar de vida); depois, sua filha escolherá o marido da mãe (o tal alto, rico e bonito) para levá-la ao altar -o filme se passa no momento em que ele vai a Londres para o casamento da filha.
Aliás, uma das qualidades do filme é não demonizar a ex-esposa e a filha como se elas fossem aquele tipo de mulher insensível e interesseira que habita os pesadelos dos homens fracassados. Todavia, faz parte do imaginário dos homens fracassados serem abandonados por suas mulheres. Se acreditarmos nas estatísticas, acreditaremos que as mulheres são (quase) sempre insensíveis e cruéis com seus maridos fracassados. Mulheres e filhos não suportam homens fracos e derrotados pela vida. São poucas as opções para os homens: ou o sucesso ou o sucesso.
Ele vive o inferno universal do homem derrotado: pouco dinheiro, competência medíocre, recusa sistemática das mulheres em considerá-lo parceiro. No voo para Londres, quando ele tenta entabular uma conversa com uma loira se ntada ao seu lado, ela o troca pelo travesseiro de forma fulminante.
Ela trabalha no aeroporto de Londres fazendo aquelas pesquisas chatas com os passageiros. Tem coisa mais chata do que ser parado por essas mulheres passadinhas, com o corpo se desmanchando dentro de vestidos foscos, fazendo perguntas pentelhas quando você sai de um voo de 12 horas?
Ela é uma mulher tímida, meio desajeitada, e já naquela idade em que a solidão é seu par. É triste se ver como um iogurte que lentamente atravessa o prazo de validade. Sua mãe, ela mesma trocada pela secretária do marido (eles fugiram para o sul da França), passa o dia atormentando a filha pelo celular.
Com um trabalho idiota, nossa heroína enfrenta a dura verdade de que a maioria das mulheres resseca diante do fracasso amoroso, apesar da propaganda enganosa dizer o contrário. Para as mulheres, os índices de sucesso permanecem monótonos como os desertos: leveza d'alma, beleza das formas.
É um drama para gente grande, nada a ver com romance adolescente. "Losers" de 60 anos têm a experiência do tempo contra eles, não têm uma segunda chance."
LUIZ FELIPE PONDÉ
junho 29, 2009
junho 26, 2009
Michael Jackson
1958-2009
"Ben, nós dois não precisamos mais procurar
Nós dois achamos o que estávamos procurando
Com um amigo para chamar de meu
Nunca estarei sozinho
E você, meu amigo, verá
Que tem um amigo em mim
Ben, você está sempre correndo aqui e ali
Você sente que não é querido em lugar algum
Se algum dia você olhar para trás
E não gostar do que você achar
Há algo que você deveria saber
Você tem um lugar para ir
Eu costumava dizer "eu" e "eu"
Agora é nós, agora é nós
Ben, a maioria das pessoas mandaria você embora
Eu não escuto uma palavra do que eles dizem
Eles não vêem você como eu vejo
Eu gostaria que eles tentassem
Tenho certeza de que eles pensariam novamente
Se eles tivessem um amigo como o Ben
Como o Ben"
"Ben, nós dois não precisamos mais procurar
Nós dois achamos o que estávamos procurando
Com um amigo para chamar de meu
Nunca estarei sozinho
E você, meu amigo, verá
Que tem um amigo em mim
Ben, você está sempre correndo aqui e ali
Você sente que não é querido em lugar algum
Se algum dia você olhar para trás
E não gostar do que você achar
Há algo que você deveria saber
Você tem um lugar para ir
Eu costumava dizer "eu" e "eu"
Agora é nós, agora é nós
Ben, a maioria das pessoas mandaria você embora
Eu não escuto uma palavra do que eles dizem
Eles não vêem você como eu vejo
Eu gostaria que eles tentassem
Tenho certeza de que eles pensariam novamente
Se eles tivessem um amigo como o Ben
Como o Ben"
Sem regressos nem partidas
“.... chegar e partir
são só dois lados da mesma viagem.
O trem que chega
é o mesmo trem da partida
A hora do encontro
é também despedida
A plataforma dessa estação
é a vida desse meu lugar
é a vida...”
(Encontros e despedidas, Milton Nascimento Fernando Brant)
Não vou dizer que vou ali e já volto, nem que cheguei para ficar. Não sou de despedidas nem de regressos. Chego de vez em quando, para partir quase em seguida. Desta vez, vou para uma temporada que promete ser mais longa....Só isto. Mas esta, digamos, volta (depois de quase vinte anos) é a confirmação de que amizade não dá a mínima para a geografia, de que 'próximo' não significa junto, de que ter um oceano separando não quer dizer estar 'distante'. Tudo é uma questão de afinidade, cumplicidade, compreensão e por que não? de bem-querer. Esta saudável reciprocidade de bons afetos que não exige presença constante nem a sufocante exclusividade do amor ! Sem obrigação ou compromisso, o prazer do (re) encontro e da boa conversa. Meus amigos (as) estão espalhados por todo lado... Infringi a regra de que depois de uma certa idade não se faz novos. Gente muito especial entrou para a minha vida, ultimamente, como se nela nunca tivesse deixado de estar. Desde que desisti do amor (ou ele desistiu de mim), é com amigos(as) que reparto meus afetos, me renovo e me enriqueço, ao mesmo tempo em que tenho me divertido à beça!
Mas houve um momento em que perdi essa perspectiva, quando estive deprimida. Mas saí dessa para descobrir (!) que a vida é rica demais para lhe voltarmos as costas. Ao retomá-la, passei um filtro e eliminei o que (e quem), por qualquer razão, não valia a pena continuar 'carregando'. A vida ficou mais leve, embora, às vezes (poucas), lembre com saudade de certas passagens...
De uns tempos para cá, fiquei ainda mais livre (com tempo) e dei para 'retornar' e a permancer mais demoradamente. O que se entende por 'minha casa' passou a ser, para mim, o lugar onde me encontro. E assim, deixei de ter regressos ou partidas. Entre tantos 'até breve', nenhum destes lugares é para mim mais importante ou melhor. Percebo, no entanto, ser impossível : regressar. Permanecer, criar raiz, ficar plantada passa a ter o mesmo sentido de tédio, monotonia, mesmice, rotina e semgracice...
Como se não bastasse a dolorosa certeza de que a viagem da vida, para a qual compramos bilhete só de ida, e em que todos os dias são dias de partida para lugar nenhum, terminará. Que esta, pelo menos, seja sem despedidas!
são só dois lados da mesma viagem.
O trem que chega
é o mesmo trem da partida
A hora do encontro
é também despedida
A plataforma dessa estação
é a vida desse meu lugar
é a vida...”
(Encontros e despedidas, Milton Nascimento Fernando Brant)
Não vou dizer que vou ali e já volto, nem que cheguei para ficar. Não sou de despedidas nem de regressos. Chego de vez em quando, para partir quase em seguida. Desta vez, vou para uma temporada que promete ser mais longa....Só isto. Mas esta, digamos, volta (depois de quase vinte anos) é a confirmação de que amizade não dá a mínima para a geografia, de que 'próximo' não significa junto, de que ter um oceano separando não quer dizer estar 'distante'. Tudo é uma questão de afinidade, cumplicidade, compreensão e por que não? de bem-querer. Esta saudável reciprocidade de bons afetos que não exige presença constante nem a sufocante exclusividade do amor ! Sem obrigação ou compromisso, o prazer do (re) encontro e da boa conversa. Meus amigos (as) estão espalhados por todo lado... Infringi a regra de que depois de uma certa idade não se faz novos. Gente muito especial entrou para a minha vida, ultimamente, como se nela nunca tivesse deixado de estar. Desde que desisti do amor (ou ele desistiu de mim), é com amigos(as) que reparto meus afetos, me renovo e me enriqueço, ao mesmo tempo em que tenho me divertido à beça!
Mas houve um momento em que perdi essa perspectiva, quando estive deprimida. Mas saí dessa para descobrir (!) que a vida é rica demais para lhe voltarmos as costas. Ao retomá-la, passei um filtro e eliminei o que (e quem), por qualquer razão, não valia a pena continuar 'carregando'. A vida ficou mais leve, embora, às vezes (poucas), lembre com saudade de certas passagens...
De uns tempos para cá, fiquei ainda mais livre (com tempo) e dei para 'retornar' e a permancer mais demoradamente. O que se entende por 'minha casa' passou a ser, para mim, o lugar onde me encontro. E assim, deixei de ter regressos ou partidas. Entre tantos 'até breve', nenhum destes lugares é para mim mais importante ou melhor. Percebo, no entanto, ser impossível : regressar. Permanecer, criar raiz, ficar plantada passa a ter o mesmo sentido de tédio, monotonia, mesmice, rotina e semgracice...
Como se não bastasse a dolorosa certeza de que a viagem da vida, para a qual compramos bilhete só de ida, e em que todos os dias são dias de partida para lugar nenhum, terminará. Que esta, pelo menos, seja sem despedidas!
junho 25, 2009
Veja esta!
Era só o que faltava! Mas é tanta gente a me pedir o que seria o "meu endereço". Como cogito não retonar para ele (diga-se en passant custa o dobro deste), resolvi ficar atenta ao que existe de oferta por lá. Estas são imagens de um studio bem situado, na rue Guisarde, "no coração de Saint Germain". A proprietária é brasileira e o aluga durante os meses que passa no Brasil (?). Encontrei o “anúncio” no blog Conexão Paris.
O studio fica no quinto andar, sem elevador, é "pequeno e aconchegante", com a "limpeza tipo brasileira o que quer dizer, muito limpo". No fundo (ou seria frente?) tem um cantinho- cama, uma pequena mesa para as refeições (pelo visto qdo aberta a porta não abre) , um cantinho- cozinha ( micro ondas, forno e duas placas elétricas). Banheiro com banheira antiga, para ficar de molho recuperando das andanças e das cinco escadas ... A locação mensal: 900 euros. Para saber mais, inclusive o preço por quinzena ou por semana, o contato com a proprietária é através do email: marcia@carrilho.net. Taí a "dica" !



O studio fica no quinto andar, sem elevador, é "pequeno e aconchegante", com a "limpeza tipo brasileira o que quer dizer, muito limpo". No fundo (ou seria frente?) tem um cantinho- cama, uma pequena mesa para as refeições (pelo visto qdo aberta a porta não abre) , um cantinho- cozinha ( micro ondas, forno e duas placas elétricas). Banheiro com banheira antiga, para ficar de molho recuperando das andanças e das cinco escadas ... A locação mensal: 900 euros. Para saber mais, inclusive o preço por quinzena ou por semana, o contato com a proprietária é através do email: marcia@carrilho.net. Taí a "dica" !



Amores e mudanças
"QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.
Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?
Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.
Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.
O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.
Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.
O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.
Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.
Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.
Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".
O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.
No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.
Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas."
CONTARDO CALLIGARIS
Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?
Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.
Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.
O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.
Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.
O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.
Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.
Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.
Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".
O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.
No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.
Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas."
CONTARDO CALLIGARIS
junho 24, 2009
Bach in Brazil - Camerata Brazil
Este CD maravilhoso atravessou o oceano duas vezes: uma para ir e outra para voltar de Portugal. Recebi de presente de um amigo querido na semana passada e foi a "trilha sonora" que embalou a minha viagem à Curitiba. No tempo do vinil se dizia que alguém quase "fura o disco" de tanto que ouviu. Foi o caso. Neste momento ele está a caminho de Fortaleza, onde estará à minha espera. Coloquei o link do cliquemusic que vc. acessa pelo título desta postagem e pode ouvir um pouco de cada uma das outras músicas que compõem o disco. Só um gostinho de tudo que ele tem de bom!
junho 23, 2009
Foulard
Dicas de como usar lenço de forma bem chic, ainda que não seja um Hermés. Uma das tarefas que considero das mais difíceis e que as francesas BCBG (pronuncia-se bêcêbêgê), que não ligam para modismos e detestam vulgaridade, dominam com muita maestria e naturalidade. A propósito esta expressão, que reune as iniciais de Bon Chic Bon Genre, está se tornando pejorativa e vem sendo empregada no sentido de burguesa boba e sem imaginação. Sem contar as novas versões engraçadas como beau cul belle gueule (bela bunda bela cara) e beau chequier beau gosse (belo cheque belo rapaz). Mas isto já é outra estória. As imagens reduzidas não permitem ver bem os detalhes de como usar o lenço, mas clicando no título são visíveis imagens em tamanhos maiores. Se tiver tempo, dê um passeio na Hermés e veja a beleza.












Privacidade Zero
No fim do ano passado perdi (ou roubaram) o meu celular. Com ele, se foi minha agenda, mensagens, (as de natal ainda não respondidas), fotos e músicas. Minha avó não acreditaria.Naquela coisinha minúscula tinha tudo isto e também um telefone! Na véspera, o meu contrato de fidelidade tinha completado um ano, o que me daria direito à troca por outro mais completo (que tivesse rádio!). Cancelei no momento em que dei pela falta e no dia seguinte fui fazer a substituição. Começou que fiquei com o mesmo número, apesar de o chip ser outro. Se era possível, ótimo!!! Pouco a pouco fui refazendo a minha agenda. Cada dia (na praia), ia fazendo um pouco a partir da agenda de papel de que nunca me desfiz. Uma trabalheira, mas tudo podia ser pior.... E foi. Um belo dia, sem que soubesse como, nem porque, na minha agenda os telefone estavam duplicados. A diferença é que os “novos” traziam o código da operadora, o que é só um detalhe. Mas não ficou por aí. Mais tarde, apareceram os arquivos que acreditava terem desaparecido com o aparelho extraviado. E mais. Vieram as mensagens que me foram enviadas entre o momento do extravio/ cancelamento e a aquisição do novo aparelho. Para isto também não encontrei explicação....O que se pode concluir é que as empresas de telefonia armazenam nossos dados pessoais. E, naquela ciscunstância, eles me foram devolvidos.... Sem contar que a operadora sabe sempre onde estamos. Cada vez que mudei de país, recebi um torpedo da operadora dizendo que estava comigo em .....
As empresas de cartão de crédito também seguem o nosso rastro. Aconteceu de sair de Curitiba pela manhã, abastecer o carro, almoçar pelo meio do caminho e fazer compras em outra cidade. Chegando em Floripa no mesmo dia, recebi uma ligação do cartão de crédito pedindo a confirmação de que eu tinha passado em tal e tal cidade e se estava em Florianópolis, onde tinha jantado. Não sei se “controlam” aleatoriamente, o certo é que aquele foi o meu dia de ser monitorada. Foi como se usando o cartão eu tivesse deixado pegadas. “Para minha segurança e proteção” eles precisavam confirmar a minha passagem por aqueles locais. Não perdi o sono por isto. É como funciona o mundo e é nele que estou vivendo. Mas não tenho dúvida de que nossos padrões e hábitos de consumo alimentam um banco de dados valioso. É provável que saibam se, e quando, irei viajar novamente e para onde. Devem saber, por exemplo, que não frequento motéis, não uso roupa de grife, não fiz uma plástica e que não tenho idade para encarar uma troca de senha. Isto não!
Na internet, por sua vez, o Google seria quem mais vasculha nossos movimentos. E vai mais longe: censura! Um blog muito interessante, crítico e criativo, que faz parte da minha lista (veja no pé da página), teve o seu nome suprimido e substituído por uma advertência. Isto porque algum hipócrita, que deve ler o blog todo dia mordendo os dedos de inveja, denunciou. Ao acessar o blog aparece:"Alguns leitores deste blog entraram em contato com o Google porque acreditam que o conteúdo do blog é questionável. Em geral, o Google não revisa nem endossa o conteúdo deste ou de qualquer outro..." E pergunta se a gente quer continuar. Pode e deve continuar! A censura ao blog não tem qualquer fundamento. Enquanto isto, pornografia, pedofilia e um monte de lixo que a estupidez humana não cansa de produzir, circula livremente na web. O Google ocupa o primeiro lugar entre as empresas que mais coletam dados sobre as nossas atividades online e que utilizam os dados sobre nossos comportamentos para transformá-los em conhecimento e informação estratégica em várias áreas: política, medicina, relacionamento e até segurança nacional.
Responder tudo que a gente quer saber não ia mesmo sair de graça...
As empresas de cartão de crédito também seguem o nosso rastro. Aconteceu de sair de Curitiba pela manhã, abastecer o carro, almoçar pelo meio do caminho e fazer compras em outra cidade. Chegando em Floripa no mesmo dia, recebi uma ligação do cartão de crédito pedindo a confirmação de que eu tinha passado em tal e tal cidade e se estava em Florianópolis, onde tinha jantado. Não sei se “controlam” aleatoriamente, o certo é que aquele foi o meu dia de ser monitorada. Foi como se usando o cartão eu tivesse deixado pegadas. “Para minha segurança e proteção” eles precisavam confirmar a minha passagem por aqueles locais. Não perdi o sono por isto. É como funciona o mundo e é nele que estou vivendo. Mas não tenho dúvida de que nossos padrões e hábitos de consumo alimentam um banco de dados valioso. É provável que saibam se, e quando, irei viajar novamente e para onde. Devem saber, por exemplo, que não frequento motéis, não uso roupa de grife, não fiz uma plástica e que não tenho idade para encarar uma troca de senha. Isto não!
Na internet, por sua vez, o Google seria quem mais vasculha nossos movimentos. E vai mais longe: censura! Um blog muito interessante, crítico e criativo, que faz parte da minha lista (veja no pé da página), teve o seu nome suprimido e substituído por uma advertência. Isto porque algum hipócrita, que deve ler o blog todo dia mordendo os dedos de inveja, denunciou. Ao acessar o blog aparece:"Alguns leitores deste blog entraram em contato com o Google porque acreditam que o conteúdo do blog é questionável. Em geral, o Google não revisa nem endossa o conteúdo deste ou de qualquer outro..." E pergunta se a gente quer continuar. Pode e deve continuar! A censura ao blog não tem qualquer fundamento. Enquanto isto, pornografia, pedofilia e um monte de lixo que a estupidez humana não cansa de produzir, circula livremente na web. O Google ocupa o primeiro lugar entre as empresas que mais coletam dados sobre as nossas atividades online e que utilizam os dados sobre nossos comportamentos para transformá-los em conhecimento e informação estratégica em várias áreas: política, medicina, relacionamento e até segurança nacional.
Responder tudo que a gente quer saber não ia mesmo sair de graça...
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