junho 18, 2009
junho 16, 2009
MIL FOLHAS
O problema de comer o mil folhas do Jacques Genin é que nunca mais seremos os mesmos...Como gostar de outros depois desta experiência? Ele faz parte da lista dos melhores chocolateiros de Paris e é conhecido por servir o melhor millefeuille de chocolate do mundo.
Além dos prazeres gourmands, podemos nos dedicar aos prazeres estéticos pois a casa de chá é um lugar lindo e de tão atrapalhado que estava o serviço(naquele dia?) tivemos tempo até para discutir sobre tirar ou manter as cortinas vermelhas de veludo... Foram muitas divagações até alguém (seria o próprio?) nos atender. Decidido que a cortina deveria ser mantida (venceu o argumento do Quim) e já bem descansados da caminhada até o 133 rue de Turrene (não é tão no "coração" do Marais), retomamos mais felizes a flanerie daquela inesquecível tarde. Nas fotos da série "Paris comigo" não consegui incluir a Bea e o Quim que estavam com a gente. Dommage!



Além dos prazeres gourmands, podemos nos dedicar aos prazeres estéticos pois a casa de chá é um lugar lindo e de tão atrapalhado que estava o serviço(naquele dia?) tivemos tempo até para discutir sobre tirar ou manter as cortinas vermelhas de veludo... Foram muitas divagações até alguém (seria o próprio?) nos atender. Decidido que a cortina deveria ser mantida (venceu o argumento do Quim) e já bem descansados da caminhada até o 133 rue de Turrene (não é tão no "coração" do Marais), retomamos mais felizes a flanerie daquela inesquecível tarde. Nas fotos da série "Paris comigo" não consegui incluir a Bea e o Quim que estavam com a gente. Dommage!
junho 15, 2009
CAMA SUJA
"NO FUNDO, desconfio muito dessa coisa de ética. Antes de tudo porque a palavra "ética" é como "energia", cabe em qualquer lugar. Ética profissional, ética no amor, ética com a natureza, ética na cama. Falando especificamente de cama, quanto mais suja, melhor. Quando ouço alguém falar em nome da ética, fujo.
Prefiro mentirosos inseguros. Os hábitos civilizados dependem mais da mentira do que da verdade.
Claro que não se trata de desprezar a sólida tradição da ética na filosofia: Aristóteles e sua ética das virtudes e do caráter; Kant e sua busca insaciável por regras universais de comportamento; ou os utilitaristas ingleses e os céticos escoceses, e a sensibilidade de ambos para com os limites psicológicos da moral presente no reconhecimento do horror ao sofrimento e da preponderância do hábito e dos afetos sobre ideais abstratos de "bem" ou de "justiça" como verdadeiros critérios da vida moral.
Por exemplo, o que vem a ser "ética no amor"? Dizer pra ela que está gorda? Ou dizer pra ele que seu desempenho está abaixo de seus outros amantes? Ou seja: é dizer sempre a verdade?
Outro tipo que me põe correndo é gente bem resolvida com seus afetos. Só confio em quem enlouquece de ciúme, em quem perde a cabeça quando sua mulher ou seu marido está conversando com alguém do sexo oposto com cara de quem achou um espécime interessante na festa. Aceitar que sua mulher ou seu marido está a fim de outra pessoa e ficar de bem com isso é papo de gente imatura. Ou de quem, na verdade, não ama. Amar é ficar fora de si ou ficar bem consigo mesmo porque não ama mais. Não existe gente bem resolvida, só gente indiferente.
Todavia, com o tempo e as frustrações, a maioria de nós chega à triste conclusão de que é mais feliz quem é mais indiferente.
Aliás, a partir de determinada idade, achar alguém interessante é tarefa para deuses. Com o tempo, temos a impressão que só existem três tipos de pessoas com três tipos de problemas básicos. Suas vidas são comuns; seus anseios, banais; seus desejos, mesquinhos.
Cheias de amores malsucedidos, quanto mais experiência amorosa, mais previsível.
Bobagem essa coisa de dizer sempre a verdade. Coisa de gente que não conhece gente e pior, gente que não gosta de gente. Nesse assunto, não existem imperativos categóricos (leis morais universais à la Kant). Aliás, o grande filósofo alemão Kant era muito bom de filosofia, mas não entendia nada de como as pessoas cheiram ou suspiram.
Por exemplo, tirem o pudor do amor e do sexo, e eles desaparecem. A simples suspeita de que o inferno te espera por culpa de tua fraqueza torna o amor e o sexo dádivas das deusas. Como se com elas deitássemos às escondidas. Por isso minha desconfiança visceral com as bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado.
Já disse antes que confio mais no fígado do que no cérebro, hoje diria que confio mais na alma afogada nas secreções do desejo do que na higiene das santas e honestas. Não há nenhum dos dois (sexo e amor) se não existir a ameaça da condenação. O medo aqui é como uma saia curta que esconde, entre as pernas, uma alma ansiosa. A banalidade da nudez contemporânea é a prova cabal contra o discurso dos afetos bem resolvidos. Neste sentido, os medievais, aliás, como numa série de outras coisas (o leitor dirá "sempre desconfiei que este colunista fosse um medieval"), sabiam mais do que nós, bobos da razão.
Qualquer boa literatura romântica medieval sabe que amor e sexo estão intimamente ligados ao inferno nas paixões. Ninguém ama no paraíso, argumento final contra a salvação. Mesmo na Bíblia, no Cântico dos Cânticos, aquele livro considerado pela tradição judaica como o mais sagrado dos livros sagrados, encontramos a advertência da amada, a heroína da narrativa: "filhas de Jerusalém não despertem o amor de seu sono... a paixão é um inferno".
Mulheres sempre foram vistas como especialistas no amor, talvez pela imagem ancestral de que nunca foram seres iludidos pela razão, mas sempre torturadas pelo desejo. Para mim está é a maior das provas de que cegos são os homens que as veem como inferiores.
Divago, dirá meu caro leitor. Sim, divago, mas não deliro. Como se num voo, do alto, contemplasse homens e mulheres vagando por um continente abandonado, fugindo da própria sombra. Pessoalmente vejo a ética como o combate supremo do homem com o animal que o devora."
LUIZ FELIPE PONDÉ na FSP de hoje
Prefiro mentirosos inseguros. Os hábitos civilizados dependem mais da mentira do que da verdade.
Claro que não se trata de desprezar a sólida tradição da ética na filosofia: Aristóteles e sua ética das virtudes e do caráter; Kant e sua busca insaciável por regras universais de comportamento; ou os utilitaristas ingleses e os céticos escoceses, e a sensibilidade de ambos para com os limites psicológicos da moral presente no reconhecimento do horror ao sofrimento e da preponderância do hábito e dos afetos sobre ideais abstratos de "bem" ou de "justiça" como verdadeiros critérios da vida moral.
Por exemplo, o que vem a ser "ética no amor"? Dizer pra ela que está gorda? Ou dizer pra ele que seu desempenho está abaixo de seus outros amantes? Ou seja: é dizer sempre a verdade?
Outro tipo que me põe correndo é gente bem resolvida com seus afetos. Só confio em quem enlouquece de ciúme, em quem perde a cabeça quando sua mulher ou seu marido está conversando com alguém do sexo oposto com cara de quem achou um espécime interessante na festa. Aceitar que sua mulher ou seu marido está a fim de outra pessoa e ficar de bem com isso é papo de gente imatura. Ou de quem, na verdade, não ama. Amar é ficar fora de si ou ficar bem consigo mesmo porque não ama mais. Não existe gente bem resolvida, só gente indiferente.
Todavia, com o tempo e as frustrações, a maioria de nós chega à triste conclusão de que é mais feliz quem é mais indiferente.
Aliás, a partir de determinada idade, achar alguém interessante é tarefa para deuses. Com o tempo, temos a impressão que só existem três tipos de pessoas com três tipos de problemas básicos. Suas vidas são comuns; seus anseios, banais; seus desejos, mesquinhos.
Cheias de amores malsucedidos, quanto mais experiência amorosa, mais previsível.
Bobagem essa coisa de dizer sempre a verdade. Coisa de gente que não conhece gente e pior, gente que não gosta de gente. Nesse assunto, não existem imperativos categóricos (leis morais universais à la Kant). Aliás, o grande filósofo alemão Kant era muito bom de filosofia, mas não entendia nada de como as pessoas cheiram ou suspiram.
Por exemplo, tirem o pudor do amor e do sexo, e eles desaparecem. A simples suspeita de que o inferno te espera por culpa de tua fraqueza torna o amor e o sexo dádivas das deusas. Como se com elas deitássemos às escondidas. Por isso minha desconfiança visceral com as bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado.
Já disse antes que confio mais no fígado do que no cérebro, hoje diria que confio mais na alma afogada nas secreções do desejo do que na higiene das santas e honestas. Não há nenhum dos dois (sexo e amor) se não existir a ameaça da condenação. O medo aqui é como uma saia curta que esconde, entre as pernas, uma alma ansiosa. A banalidade da nudez contemporânea é a prova cabal contra o discurso dos afetos bem resolvidos. Neste sentido, os medievais, aliás, como numa série de outras coisas (o leitor dirá "sempre desconfiei que este colunista fosse um medieval"), sabiam mais do que nós, bobos da razão.
Qualquer boa literatura romântica medieval sabe que amor e sexo estão intimamente ligados ao inferno nas paixões. Ninguém ama no paraíso, argumento final contra a salvação. Mesmo na Bíblia, no Cântico dos Cânticos, aquele livro considerado pela tradição judaica como o mais sagrado dos livros sagrados, encontramos a advertência da amada, a heroína da narrativa: "filhas de Jerusalém não despertem o amor de seu sono... a paixão é um inferno".
Mulheres sempre foram vistas como especialistas no amor, talvez pela imagem ancestral de que nunca foram seres iludidos pela razão, mas sempre torturadas pelo desejo. Para mim está é a maior das provas de que cegos são os homens que as veem como inferiores.
Divago, dirá meu caro leitor. Sim, divago, mas não deliro. Como se num voo, do alto, contemplasse homens e mulheres vagando por um continente abandonado, fugindo da própria sombra. Pessoalmente vejo a ética como o combate supremo do homem com o animal que o devora."
LUIZ FELIPE PONDÉ na FSP de hoje
junho 13, 2009
junho 12, 2009
Caindo de amores
Nesta entrevista o psicanalista Jean-Bertrand Pontalis usa Freud, Proust e Woody Allen para discutir o sentido da paixão e do prazer na arte e na vida contemporânea .
Pontalis, 83, é autor de livros como "Entre o sonho e a dor" , "Vocabulário da Psicanálise" e "Elles".
PERGUNTA - Quando "caímos de amores" por alguém, iniciamos uma história?
JEAN-BERTRAND PONTALIS - Penso que sim. Gosto muito desse verbo, apaixonar-se ["tomber amoureux", literalmente "cair de amor"], que, entretanto, é menos forte que no inglês, no qual caímos no amor ["fall in love"]. É uma queda. Ficamos muito felizes quando isso acontece mas também sobressaltados. O que está acontecendo comigo, o que vai acontecer comigo? Para onde caímos?
Ou, melhor dizendo, de onde caímos? Caímos de nós mesmos, caímos fora de nós mesmos, caímos no outro. Até a alienação, como Swann [personagem de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust], que cai no ciúme, na inquietação, na preocupação permanente, na busca, na investigação: o ser amado se torna totalmente impossível de ser apreendido, o "ser de fuga", como diz Proust.
Ou então é a outra parte de nós mesmos que se exprime...
Assim, um de meus personagens começa a vigiar a mulher que ele ama, a desconfiar dela, a segui-la como um detetive... É um outro que nos é revelado dentro de nós mesmos. Como quando escrevemos: não sabíamos que sabíamos aquilo.
PERGUNTA - Para o sr., contudo, falar de amor é fazer o elogio do amor.
PONTALIS - Um elogio da diferença -da diferença sexual. O outro é verdadeiramente o outro. É o outro que pode descobrir o que temos de outro em nós mesmos, nossa própria feminilidade, talvez.
Uma das grandes contribuições da psicanálise é manter a idéia da bissexualidade psíquica, ao mesmo tempo em que afirma a diferença entre os sexos. Somos bissexuados e anatomicamente diferentes do outro sexo. A anatomia é o destino!
PERGUNTA - Quando nos apaixonamos, nos aproximamos dos animais ou nos distanciamos deles?
PONTALIS - Nós nos distanciamos. Aliás, o sexual não está obrigatoriamente em jogo nesse momento. Inversamente, se você sente o desejo irreprimível de transar com uma garota, não necessariamente está apaixonado por ela.
PERGUNTA - Seu livro é extremamente masculino. Poderia igualmente intitular-se "Nós".
PONTALIS - Nós, com elas, contra elas etc. Não posso assumir o ponto de vista de uma mulher. Mas é justamente esse um dos temas do livro: o homem não tem acesso ao gozo da mulher. Ao mistério dos mistérios.
PERGUNTA - Ou seja, como você pode ter certeza de que ela gozou?
PONTALIS - Exatamente. É claro que existem alguns sinais "objetivos", contrações vaginais, o que eu sei disso? Que, além disso, pode ser histérica. Mas só podemos imaginar o que ela sente. Dizem sempre que é mais localizado no homem e mais geral na mulher, mas isso é vago. O gozo feminino é irrepresentável, logo, de certa maneira, inimaginável. "O que deseja a mulher?", pergunta Freud, que, contudo, tinha o ar de saber um pouco sobre isso. Mas o que pede o homem? Para mim, a diferença vem da mãe. Um garotinho tem dificuldade em ligar a mãe e a mulher.
Tentamos explicar as coisas, falamos dos corpos, do desejo, do ciúme com relação ao pai, mas é uma maneira de organizar nosso desconhecimento.
A pergunta que não quer calar é: com o que sonham nossas mães? Como quando o narrador observa Albertine dormindo e se indaga: como ter acesso a seu pensamento, a seu desejo? Para onde eles a conduzem? Eis o inapreensível: a parte feminina da mãe.
PERGUNTA - Com o passar do tempo, a capacidade de amar diminui, assim como o resto?
PONTALIS - A libido pode se enfraquecer, mas ela se desloca para outros lugares, para o trabalho, a criação, o poder, pois uma das grandes descobertas de Freud é que a libido não está ligada unicamente ao sexo.
Somos apaixonados em qualquer idade. O resto não decorre, necessariamente... [o poeta Paul] Valéry dizia que um velhote apaixonado é "sem pé nem cabeça". Mas nem por isso ele deixa de se apaixonar.
PERGUNTA - Por que nos apaixonamos por esta e não por aquela?
PONTALIS - É uma pergunta impossível de responder e que nos fazemos freqüentemente em relação aos outros. O que ele vê nela? Ela não tem nada de especial! E ele, o único que poderia responder, tem a capacidade de julgamento falseada por seu amor.
Dito isso, você pode muito bem não ser cegado pelo amor, pode enxergar os defeitos do objeto amado, pode enxergar nele o que os outros ignoram e amá-lo apesar de seus defeitos, até mesmo por seus defeitos. Sou o único a saber disso, sou eu quem a descobriu, eu gosto disso. Não existe cegueira, mas superestimação e, mais ainda, idealização: ela é então a dama do trovador. O amor torna-se casto.
PERGUNTA - O amor precede a cegueira ou vem depois dela?
PONTALIS - Em "A Anatomia da Melancolia", Robert Burton (1577-1640) diz: "O amante é obcecado por ela: seu rosto doce, seus olhos, seus atos, seus gestos, suas mãos, seus pés, suas palavras, sua altura, sua largura, sua profundidade e todas as suas outras dimensões são, desse modo, revistas, medidas e registradas pelo astrolábio de suas fantasias". Essa palavra chamou minha atenção. Haveria dentro de nós um aparelho que orienta nossa travessia. Se, então, eu não puder responder à pergunta "o que ele vê nela?", é porque não tenho acesso a esse astrolábio de suas fantasias. Não tenho realmente acesso ao meu, tampouco. A escolha não é realmente voluntária e não é nem sequer fixa: ela é móvel, como nossas fantasias.
PERGUNTA - Por que devemos nos esforçar para agradar?
PONTALIS - Não agradamos - atraímos. É a imantação da qual fala Burton. Em outras palavras, buscamos fazer o outro sair de si. Como um ator. Não estou dizendo que fazemos de conta. Não é algo artificial, pensado. Mas é esse o princípio.
PERGUNTA - Somos desiguais na capacidade de amar, de gozar, de sofrer?
PONTALIS - Com certeza, assim como somos desiguais em nossa capacidade de sonhar.
PERGUNTA - Quando amamos, somos um ou dois?
PONTALIS - Essa fusão com freqüência é ilusória. Como diz [o cineasta] Woody Allen: "Que noite de amor maravilhosa! Éramos apenas um: eu". Queremos nos fundir no outro, desde que seja em nosso próprio benefício.
Em todo caso, não é bom ter sido amado demais, ter certeza demais disso. Freud dizia que tinha tanta certeza de ser amado por sua mãe que isso o tornou conquistador por toda a vida. Ao mesmo tempo, isso pode ser paralisante. Se satisfazemos plenamente a nossa mãe, ficamos paralisados com os outros. O que o amor tem de bom é que ele nunca nos satisfaz totalmente. As mulheres às vezes acreditam que podem ser plenamente satisfeitas. Talvez essa idéia de vazio preenchido.
Talvez elas o sejam durante a gravidez? Vemos algumas que estão num estado de realização total. Mas o amor, a sexualidade sempre têm algo de inacabado. Freud diz ainda: existe na pulsão algo que resiste à satisfação plena. Não à satisfação, mas à satisfação completa.
PERGUNTA - Quando alguém ainda não fez amor, é um virgem ou um cabaço? PONTALIS - Um garoto é um cabaço, uma garota é uma virgem. Talvez por causa de Maria. Ser virgem é uma escolha. Ao passo que ser cabaço é uma fatalidade. O orgulho do descabaçado. Eu sou alguém, eu não sou mais qualquer um.
PERGUNTA - Por falar nisso, o que é "ir longe demais"?
PONTALIS - É temer que tudo possa voltar a ser banal. Muitas vezes sinto esse desejo de deixar as coisas como estão, de ser casto. Por medo de que tudo desabe.
PERGUNTA - O sr. reserva palavras terríveis para o amor que se queixa.
PONTALIS - É a queixa do doente, não a do grande doente, mas, sim, a do hipocondríaco: sinto dor aqui, sinto dor ali. O mundo é injusto, porque ela não me ama, ela me trai, ela é inacessível. É o narcisismo: isso não quer dizer "por que ela não me ama como deveria?", mas "como eu mereço"! Sendo que ela ainda gosta desse imbecil! A raiva, nesses casos, ainda supera muitas coisas. É melhor.
PERGUNTA - Podemos nos apaixonar por uma pessoa que nos faz bem ou nos faz mal. Não sabemos por que o dado cai desse lado ou daquele lado?
PONTALIS - É verdade. O amor cai sobre você, independentemente de qualquer projeto, de qualquer plano. É como uma travessia: vai fazer sol ou cairá uma tempestade? Às vezes um único objeto amado dá os dois resultados: apenas aquele que faz você sofrer pode curá-lo de seu sofrimento. O remédio está no mal. Assim como "eu te amo" também significa que você lança suas garras sobre alguém. Você é minha presa. É tanto uma declaração de amor quanto uma declaração de guerra.
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Esta entrevista concedida a JACQUES DRILLON saiu na "Nouvel Observateur". . Tradução de Clara Allain.
Pontalis, 83, é autor de livros como "Entre o sonho e a dor" , "Vocabulário da Psicanálise" e "Elles".
PERGUNTA - Quando "caímos de amores" por alguém, iniciamos uma história?
JEAN-BERTRAND PONTALIS - Penso que sim. Gosto muito desse verbo, apaixonar-se ["tomber amoureux", literalmente "cair de amor"], que, entretanto, é menos forte que no inglês, no qual caímos no amor ["fall in love"]. É uma queda. Ficamos muito felizes quando isso acontece mas também sobressaltados. O que está acontecendo comigo, o que vai acontecer comigo? Para onde caímos?
Ou, melhor dizendo, de onde caímos? Caímos de nós mesmos, caímos fora de nós mesmos, caímos no outro. Até a alienação, como Swann [personagem de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust], que cai no ciúme, na inquietação, na preocupação permanente, na busca, na investigação: o ser amado se torna totalmente impossível de ser apreendido, o "ser de fuga", como diz Proust.
Ou então é a outra parte de nós mesmos que se exprime...
Assim, um de meus personagens começa a vigiar a mulher que ele ama, a desconfiar dela, a segui-la como um detetive... É um outro que nos é revelado dentro de nós mesmos. Como quando escrevemos: não sabíamos que sabíamos aquilo.
PERGUNTA - Para o sr., contudo, falar de amor é fazer o elogio do amor.
PONTALIS - Um elogio da diferença -da diferença sexual. O outro é verdadeiramente o outro. É o outro que pode descobrir o que temos de outro em nós mesmos, nossa própria feminilidade, talvez.
Uma das grandes contribuições da psicanálise é manter a idéia da bissexualidade psíquica, ao mesmo tempo em que afirma a diferença entre os sexos. Somos bissexuados e anatomicamente diferentes do outro sexo. A anatomia é o destino!
PERGUNTA - Quando nos apaixonamos, nos aproximamos dos animais ou nos distanciamos deles?
PONTALIS - Nós nos distanciamos. Aliás, o sexual não está obrigatoriamente em jogo nesse momento. Inversamente, se você sente o desejo irreprimível de transar com uma garota, não necessariamente está apaixonado por ela.
PERGUNTA - Seu livro é extremamente masculino. Poderia igualmente intitular-se "Nós".
PONTALIS - Nós, com elas, contra elas etc. Não posso assumir o ponto de vista de uma mulher. Mas é justamente esse um dos temas do livro: o homem não tem acesso ao gozo da mulher. Ao mistério dos mistérios.
PERGUNTA - Ou seja, como você pode ter certeza de que ela gozou?
PONTALIS - Exatamente. É claro que existem alguns sinais "objetivos", contrações vaginais, o que eu sei disso? Que, além disso, pode ser histérica. Mas só podemos imaginar o que ela sente. Dizem sempre que é mais localizado no homem e mais geral na mulher, mas isso é vago. O gozo feminino é irrepresentável, logo, de certa maneira, inimaginável. "O que deseja a mulher?", pergunta Freud, que, contudo, tinha o ar de saber um pouco sobre isso. Mas o que pede o homem? Para mim, a diferença vem da mãe. Um garotinho tem dificuldade em ligar a mãe e a mulher.
Tentamos explicar as coisas, falamos dos corpos, do desejo, do ciúme com relação ao pai, mas é uma maneira de organizar nosso desconhecimento.
A pergunta que não quer calar é: com o que sonham nossas mães? Como quando o narrador observa Albertine dormindo e se indaga: como ter acesso a seu pensamento, a seu desejo? Para onde eles a conduzem? Eis o inapreensível: a parte feminina da mãe.
PERGUNTA - Com o passar do tempo, a capacidade de amar diminui, assim como o resto?
PONTALIS - A libido pode se enfraquecer, mas ela se desloca para outros lugares, para o trabalho, a criação, o poder, pois uma das grandes descobertas de Freud é que a libido não está ligada unicamente ao sexo.
Somos apaixonados em qualquer idade. O resto não decorre, necessariamente... [o poeta Paul] Valéry dizia que um velhote apaixonado é "sem pé nem cabeça". Mas nem por isso ele deixa de se apaixonar.
PERGUNTA - Por que nos apaixonamos por esta e não por aquela?
PONTALIS - É uma pergunta impossível de responder e que nos fazemos freqüentemente em relação aos outros. O que ele vê nela? Ela não tem nada de especial! E ele, o único que poderia responder, tem a capacidade de julgamento falseada por seu amor.
Dito isso, você pode muito bem não ser cegado pelo amor, pode enxergar os defeitos do objeto amado, pode enxergar nele o que os outros ignoram e amá-lo apesar de seus defeitos, até mesmo por seus defeitos. Sou o único a saber disso, sou eu quem a descobriu, eu gosto disso. Não existe cegueira, mas superestimação e, mais ainda, idealização: ela é então a dama do trovador. O amor torna-se casto.
PERGUNTA - O amor precede a cegueira ou vem depois dela?
PONTALIS - Em "A Anatomia da Melancolia", Robert Burton (1577-1640) diz: "O amante é obcecado por ela: seu rosto doce, seus olhos, seus atos, seus gestos, suas mãos, seus pés, suas palavras, sua altura, sua largura, sua profundidade e todas as suas outras dimensões são, desse modo, revistas, medidas e registradas pelo astrolábio de suas fantasias". Essa palavra chamou minha atenção. Haveria dentro de nós um aparelho que orienta nossa travessia. Se, então, eu não puder responder à pergunta "o que ele vê nela?", é porque não tenho acesso a esse astrolábio de suas fantasias. Não tenho realmente acesso ao meu, tampouco. A escolha não é realmente voluntária e não é nem sequer fixa: ela é móvel, como nossas fantasias.
PERGUNTA - Por que devemos nos esforçar para agradar?
PONTALIS - Não agradamos - atraímos. É a imantação da qual fala Burton. Em outras palavras, buscamos fazer o outro sair de si. Como um ator. Não estou dizendo que fazemos de conta. Não é algo artificial, pensado. Mas é esse o princípio.
PERGUNTA - Somos desiguais na capacidade de amar, de gozar, de sofrer?
PONTALIS - Com certeza, assim como somos desiguais em nossa capacidade de sonhar.
PERGUNTA - Quando amamos, somos um ou dois?
PONTALIS - Essa fusão com freqüência é ilusória. Como diz [o cineasta] Woody Allen: "Que noite de amor maravilhosa! Éramos apenas um: eu". Queremos nos fundir no outro, desde que seja em nosso próprio benefício.
Em todo caso, não é bom ter sido amado demais, ter certeza demais disso. Freud dizia que tinha tanta certeza de ser amado por sua mãe que isso o tornou conquistador por toda a vida. Ao mesmo tempo, isso pode ser paralisante. Se satisfazemos plenamente a nossa mãe, ficamos paralisados com os outros. O que o amor tem de bom é que ele nunca nos satisfaz totalmente. As mulheres às vezes acreditam que podem ser plenamente satisfeitas. Talvez essa idéia de vazio preenchido.
Talvez elas o sejam durante a gravidez? Vemos algumas que estão num estado de realização total. Mas o amor, a sexualidade sempre têm algo de inacabado. Freud diz ainda: existe na pulsão algo que resiste à satisfação plena. Não à satisfação, mas à satisfação completa.
PERGUNTA - Quando alguém ainda não fez amor, é um virgem ou um cabaço? PONTALIS - Um garoto é um cabaço, uma garota é uma virgem. Talvez por causa de Maria. Ser virgem é uma escolha. Ao passo que ser cabaço é uma fatalidade. O orgulho do descabaçado. Eu sou alguém, eu não sou mais qualquer um.
PERGUNTA - Por falar nisso, o que é "ir longe demais"?
PONTALIS - É temer que tudo possa voltar a ser banal. Muitas vezes sinto esse desejo de deixar as coisas como estão, de ser casto. Por medo de que tudo desabe.
PERGUNTA - O sr. reserva palavras terríveis para o amor que se queixa.
PONTALIS - É a queixa do doente, não a do grande doente, mas, sim, a do hipocondríaco: sinto dor aqui, sinto dor ali. O mundo é injusto, porque ela não me ama, ela me trai, ela é inacessível. É o narcisismo: isso não quer dizer "por que ela não me ama como deveria?", mas "como eu mereço"! Sendo que ela ainda gosta desse imbecil! A raiva, nesses casos, ainda supera muitas coisas. É melhor.
PERGUNTA - Podemos nos apaixonar por uma pessoa que nos faz bem ou nos faz mal. Não sabemos por que o dado cai desse lado ou daquele lado?
PONTALIS - É verdade. O amor cai sobre você, independentemente de qualquer projeto, de qualquer plano. É como uma travessia: vai fazer sol ou cairá uma tempestade? Às vezes um único objeto amado dá os dois resultados: apenas aquele que faz você sofrer pode curá-lo de seu sofrimento. O remédio está no mal. Assim como "eu te amo" também significa que você lança suas garras sobre alguém. Você é minha presa. É tanto uma declaração de amor quanto uma declaração de guerra.
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Esta entrevista concedida a JACQUES DRILLON saiu na "Nouvel Observateur". . Tradução de Clara Allain.
F I C A R
A ética dos encontros descartáveis é um artigo da analista junguiana, jornalista e terapeuta sexual, Silvia Graubart, publicado na revista Mente & Cérebro, de março de 2007, que vc acessa clicando o título da postagem.
Bom mesmo é namorar!
Bom mesmo é namorar!
Conversar com gatos
Este é o Witold de quem(dizem) eu seria avó...Dá para não conversar com ele?
"PENSAMENTO PROFUNDO Nº 2
O gato neste mundo
Esse totem moderno
E, por intermitência, decorativo
Pelo menos, na nossa casa é assim. Se vocês querem compreender nossa família, basta olhar para os gatos. Nossos dois gatos são gordos odres que comem croquetes de luxo e não têm nenhuma interação interessante com as pessoas. Arrastam-se de um sofá para outro, deixando pêlos por todo lado, e ninguém parece ter entendido que eles não têm o menor afeto por quem quer que seja. O único interesse dos gatos é que são objetos decorativos móveis, um conceito que acho intelectualmente interessante mas que não se aplica aos nossos por terem a barriga grande demais.
Mamãe, que leu todo o Balzac e cita Flaubert em cada jantar, demonstra diariamente o quanto a instrução é um engodo fenomenal. Basta olhar para ela junto com os gatos. Ela tem vaga consciência de seu potencial decorativo, mas se obstina em falar com eles como se fossem pessoas, o que não lhe viria à mente com um abajur ou uma estatueta etrusca. Parece que as crianças acreditam até uma idade bem avançada que tudo o que se mexe tem alma e é dotado de intenção. Mamãe não é mais criança, mas aparentemente não consegue imaginar que Constitution e Parlement tenham tão pouco entendimento quanto o aspirador. Admito que a diferença entre o aspirador e eles é que um gato pode sentir prazer e dor. Mas isso significa que tem mais aptidão para comunicar-se com o humano? De jeito nenhum. Isso deveria apenas nos incitar a tomar certas precauções, como tomamos com um objeto muito frágil. Quando ouço mamãe dizer: "Constitution é uma gatinha muito orgulhosa e ao mesmo tempo muito sensível", enquanto a outra está aboletada no sofá porque comeu demais, acho graça. Mas, se pensamos na hipótese de que o gato tem como função ser um totem moderno, uma espécie de encarnação emblemática e protetora do lar, refletindo com benevolência o que são os membros da casa, isso se torna evidente. Mamãe faz dos gatos o que gostaria que nós fôssemos e que não somos de jeito nenhum. Não há ninguém menos orgulhoso e sensível que os três membros abaixo citados da família Josse: papai, mamãe e Colombe. São completamente frouxos e anestesiados, vazios de emoções.
Em suma, acho que o gato é um totem moderno. Por mais que se diga, por mais que se façam discursos sobre a evolução, a civilização e um monte de palavras em "ção", o homem não progrediu muito desde seus primórdios: continua a crer que não está aqui por acaso e que deuses em sua maioria benevolentes zelam por seu destino."
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