junho 08, 2009

IR E VOLTAR

Houve um tempo em que a idéia de viajar era libertária. A “ estrada” simbolizava o “ não lugar”, em que graças ao deslocamento se escapava das regras e convenções. Ainda que viajar tenha perdido grande parte deste significado e, consequentemente, de seu charme, o fato de ir a um lugar distinto do habitual provoca grande expectativa no ânimo de quem viaja.
Mas os tempos são bem outros. Depois que se descobriu no turismo um bom negócio, parece que o mundo inteiro está sempre se deslocando de um lugar para o outro, em bandos, hordas, um “gado” por assim dizer, sob às ordens de um guia. A minha natureza de "ovelhadesgarrada" não se adapta bem a isto.
Mas seja por prazer, fuga ou necessidade, só ou com amigos, viajar segue tendo o seu fascínio. E a viagem começa muito antes. Começa quando escolhemos o (s) destino (s), quer seja um lugar novo a descobrir, o retorno a um já visitado ou mesmo “aquele” para o qual, não importa a razão (já que às vezes nem sabemos), sempre retornamos.
Basta a idéia, o projeto de trocar uma cidade por outra ou de mudar de país , ver uma paisagem diferente, para animar nosso espirito diante do imprevisivel, do novo!
Este impulso ao desconhecido não nos leva a um mero afastamento geográfico, não se vai apenas de um lugar para outro, se vai além, na medida em que viajar nos torna capaz de perceber novas perspectivas, de ver o mundo de outro modo, de adotar um outro ponto de vista ... Vivemos e fazemos coisas que não faríamos, vamos a lugares que no nosso dia a dia não frequentamos, vivemos outras vidas de outros modos que não correspondem ao que fazemos na nossa massacrante e empobrecedora rotina. Viajar permite viver outras vidas não só fora, mas dentro de nós mesmos . O percurso acontece em ambos os universos e o melhor roteiro de que a gente pode se valer é ver pelos olhos dos que ali vivem (ou viveram) as suas vidas: nas ruas, nos cafés, nos passeios, nos parques ou em suas casas. Nem que sejam as vidas de personagens literários, estas também nos levam a uma viagem ao nosso interior....Seja qual for o tipo de viagem ou o motivo que nos leve a partir, uma coisa não falha, para o bem ou para o mal, não regressamos tal como fomos .
Um kir royal para brindar o reencontro com amigas, num café da rive gauche. Linda tarde de um domingo primaveril...

Depois de Paris

Este é o título do artigo (abaixo) de autoria da DANUZA LEÃO (na FSP de ontem) a partir do livro "Paris, Biografia de uma Cidade".
Ontem, ao desembarcar em São Paulo, após atravessar incólume o oceano (aimeudeus!) e enfrentar a extensa fila da receita/polícia federal (um saco!), fui direto comer pão de queijo! Isto mesmo! Por que frances faz o melhor pão e os melhores queijos mas não "descobre" que juntando se faz esta maravilha? Desfrutado o prazer do pãodequeijo quentinho, o destino inescapável: a livraria (estava seca pelo Chico). Vi o título da biografia de Paris, mas o deixei para outro momento. Devorei o Leite Derramado quase todo entre a espera da conexão e a chegada à Floripa.
Tenho uma tendência para acreditar que sobre Paris já se disse/escreveu tudo. Ao mesmo tempo, correndo o risco de ser contraditória e nada original, afirmo que a cidade é, em todos os sentidos, inesgotável. A minha Paris, como é óbvio, não é a mesma. Um dia, ainda vou contar sobre este caso de amor que mantenho com ela. Enquanto isto não acontece, veja a Paris da Danuza.
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"A primeira frase do livro "Paris, Biografia de uma Cidade" [ed. L&PM, tradução de José Carlos Volcato e Henrique Guerra, 592 págs., R$ 94), de Colin Jones, é "Nunca vemos Paris pela primeira vez; sempre a vemos de novo...".
Isso foi escrito em 1878 por Edmondo de Amicis [escritor italiano], e a cada dia que passa é mais verdade. Quem não conhece Paris por meio dos livros que leu, das fotos e filmes que viu, sobretudo dos sonhos que sonhou?
Pergunte a alguém que nunca viajou qual a cidade que ela mais gostaria de conhecer, e a resposta virá imediata: Paris.
Desde pequena, vivo no Rio de Janeiro, mas não tenho a menor pretensão de dizer que conheço minha cidade. Os parisienses também não conhecem a deles, talvez apenas os guias de turismo a conheçam um pouco.
E a cidade tem tanta história que, para conhecê-la profundamente -ou mesmo superficialmente-, é preciso estudá-la.
Existem moradores que vivem na margem direita do Sena e se orgulham de jamais terem atravessado o rio - e vice-versa. Eu mesma, que tive a sorte de morar na cidade duas vezes -uma por dois anos, a outra por cinco-, conheço pouco Paris.
Como das duas vezes fui para morar, nunca percorri Paris como turista, mas me sinto personagem da música que cantava Josephine Baker -"j'ai deux amours, mon pays et Paris" [tenho dois amores, meu país e Paris]-, e nunca houve uma viagem que eu fizesse que não terminasse na "minha" cidade -o que já aconteceu dezenas de vezes. Seria inimaginável que fosse de outra maneira.
Às vezes passo pouco tempo, e como meu bairro é Saint-Germain-des-Prés, já me peguei dizendo, várias vezes: "dessa vez nem fui à Rive Droite" [margem direita].
E me sinto tão integrada à Rive Gauche [margem esquerda], que, se um dia me proibissem de ir à Rive Droite, eu sofreria um pouco, mas não me faria tão mal assim.
No fundo, muitos dos maiores parisienses são um orgulhoso inglês, um tunisiano ou uma brasileira como eu, e, como todos os verdadeiros parisienses, somos ignorantes de nossa cidade e limitamos nossos comentários a nosso bairro de coração ou aos cais do Sena.
Nossa ligação com a cidade é mais baseada no amor do que no conhecimento.
Meu bairro, minha cidade
Um dos primeiros capítulos do livro de Colin Jones se chama "Dos Primórdios ao Ano Mil". Eu, que modestamente conheci Paris em 1952, não vou chegar nem perto do que diz o autor.
Mas vou falar de coisas que aconteceram no meu bairro que ele talvez desconheça e dar a terrível notícia: Saint-Germain-des-Prés está acabando.
Lembro quando, na esquina da rua de Rennes com o bulevar St. Germain, havia um café que foi demolido e ali surgiu uma drugstore. Foi uma grita geral, mas aos poucos os parisienses foram se acostumando.
A drugstore tinha uma ou duas salas de cinema pequenas, livraria, delicatessen, loja de pequenos presentes de última hora, jornaleiro, fechava às duas horas da manhã e era passagem obrigatória antes de se ir para casa. O tempo passou, Armani comprou o ponto, e outra grita: ninguém precisava de Armani no "quartier" [bairro]. E Saint-Germain, que era um típico pequeno bairro com lojinhas na rua, foi se transformando.
O hotel onde fico sempre, na esquina da rua de Seine com o bulevar Saint-Germain, tinha bem na frente uma peixaria. Fechou. Na pracinha de Saint-Germain, em frente à igreja mais antiga de Paris, que data do século 6º, foi aberta uma loja Louis Vuitton -isso merecia um processo.
A Cartier já está instalada, na rua Saint-Benoît foi aberto um desses detestáveis hotéis butique chamado Bel-Ami, tudo que pode haver de mais moderno no seu pior sentido, e na rua de Buci, um outro, que, de tão moderno e horrendo, dá vontade de chorar.
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Mas vou dar a terrível notícia: Saint-Germain-des-Prés está acabando
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Não é Nova York
A farmácia que fica aberta até tarde no largo do bulevar, rua de Rennes, rua Bonaparte, da última vez que vi estava com algumas prateleiras vazias, um mau sinal; a tradicional Maison de L'Orient et Chine, coberta de tapumes, e, para completar, na esquina da rua des Saint Pères está anunciada num desenho garrafal a próxima abertura de Ralph Lauren.
Essa loja, que combina tão bem na Madison, em Nova York, não podia ficar por lá mesmo e deixar Paris em paz?
Numa cidade que tem, ali pertinho, a Sorbonne, fundada no século 13, é revoltante que coisas como essas aconteçam e desfigurem a cidade mais linda do mundo.
Paris, que em 1962 passou por uma limpeza total e, no lugar de cinza, voltou a ser branca e bege, não deveria ceder assim ao império das grandes marcas, que nem francesas são.
Por volta do ano 2000, houve um movimento em prol de Vieux Paris [Velha Paris], para conservar as velhas construções. O prefeito Bertrand Delanoë quer preservar Paris como ela é e propôs a construção de edifícios de mais de 200 metros de altura nos arredores da cidade, mas uma consulta pública mostrou que os parisienses não concordam com a ideia.
Minha tristeza maior é com o meu bairro; na rua de Seine, no lugar onde existiam, ao lado da peixaria, pequenos comércios, como a "fromagerie", que vendia laticínios e todos os queijos que se possa imaginar (com direito a uma consultoria, se era para comer naquela noite, ou no almoço do dia seguinte), a "cochonerie", com patês e saucissons [embutidos] de todas as procedências, o boulanger [padeiro] da esquina, que foi vendido à cadeia Paul, e por aí vai.
É natural que um pequeno comerciante se sinta tentado a passar seu ponto por um caminhão de dinheiro, sem nem pensar que com isso está ajudando na degradação de sua cidade, mas é triste.
Por enquanto, ainda contamos com a Brasserie Lipp, o Café de Flore, o Deux Magots e as livrarias La Hune e L'Écume des Jours. Mas, se qualquer delas tombar, só nos restará cantar a canção que cantava Juliette Grécco: "Il n'y a plus d'après à Saint-Germain-des-Prés" [não há mais depois em Saint-Germain-des-Prés], pois aí todos nós teremos morrido um pouco."

junho 06, 2009

No sòlo hacemos pasteles, creamos ilusiones

É o que se propõe esta pasteleria que fica aqui perto, na Rambla de les Flors. Dentre outras delícias, além das ilusões que anuncia, faz “o melhor croissant de Barcelona”. Foi o que me disse um amigo daqui e aproveitei todos os dias desta (sempre parece curta!) temporada. O croissant do Escribà realmente não fica a dever aos franceses que, algumas vezes, nem chegam a ser assim tão bons. Hoje, de saída para o aeroporto (o avião parte à noite, mas devo desocupar o apt.), fui tomar o café da manhã lá. Estas fotos (péssimas! reconheço) tinha feito num outro dia. Como hoje não tive mais saco para outras, sugiro apreciar a beleza do lugar. Puro art noveau! clicando no título da postagem.

junho 05, 2009

Els Quatre Gats








Li A Sombra do Vento quase ao mesmo tempo em que estava (re))conhecendo Barcelona. Andei por certas avinguda( s), passeig (s) e carrer(s) (que complicado o catalão!) imaginando cruzar com seus personagens, descobrir o Cemitério dos Livros Esquecidos... Estas "viagens" de quem mergulha num universo onírico que só a leitura proporciona. Sentir-se onde "eles" estiveram ou viveram foi uma experiência renovada no Jogo do Anjo. Não é de estranhar que tenham sido escritos roteiros da Barcelona de Zafón.
Estive ontem no Els Quatre Gats (trecho do livro abaixo). Tomamos "claritas" servidas em pesadas canecas de louça branca. O garçom (simpático demais) promete fechar os olhos, caso alguma seja levada. Não tivemos a menor vontade. Cá para nós, a "leveza" de uma "clara" nem combina com a grossa caneca. Mas é possível que outros gostem...
Este café/bar/restaurante, inaugurado em 12 de junho de 1897, era frequentado, dentre outros, por Picasso que fez ali a sua primeira exposição e desenhou a capa do cardápio que é conservado até hoje.




Trecho de A SOMBRA DO VENTO, de Carlos Ruiz Zafón
DIAS DE CINZA
"Um segredo vale o quanto valem aqueles dos quais temos de guardá-lo. Ao acordar, meu primeiro impulso foi contar sobre a existência do Cemitério dos Livros Esquecidos ao meu melhor amigo. Tomás Aguilar era um amigo de escola que dedicava seu tempo livre e seu talento a inventar uns aparatos bastante engenhosos mas de pouca aplicação, como o dardo aerostático e o pião dínamo. Ninguém melhor do que Tomás para dividir comigo aquele segredo. Sonhando acordado, eu imaginava meu amigo Tomás e eu munidos de lanternas e bússola, prestes a desvendar os segredos daquela catacumba bibliográfica. Logo, lembrando-me da promessa, decidi que as circunstâncias aconselhavam o que, nos romances de intriga policial, denomina-se outro modus operandi. Ao meio-dia, abordei meu pai para questioná-lo sobre aquele livro e sobre Julián Carax, que no meu entusiasmo tinha imaginado célebres no mundo inteiro. Meu plano era juntar toda a sua obra e lê-la de cabo a rabo em mais ou menos uma semana. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que meu pai, livreiro com tradição e bom conhecedor dos catálogos editoriais, nunca tinha ouvido falar de A Sombra do Vento ou de Julián Carax. Intrigado, meu pai examinou a página com os dados da edição.
— Segundo se diz aqui, este exemplar faz parte de uma edição de 2.500 exemplares, impressa em Barcelona por Cabestany Editoriales, em dezembro de 1935.
— Você conhece essa editora?
— Fechou há muitos anos. Mas a edição original não é esta, mas outra, de novembro do mesmo ano, só que impressa em Paris... A editora é Galliano & Neuval. Não a conheço.
— Então, o livro é uma tradução? — perguntei, desconcertado.
— Não menciona que o seja. Pelo que se vê aqui, o texto é original.
— Um livro em espanhol, editado primeiro na França?
— Não será a primeira vez, com os tempos que correm — acrescentou o meu pai. — Talvez Barceló possa ajudar-nos.
Gustavo Barceló era um antigo amigo de meu pai, dono de uma lúgubre livraria na rua Fernando, que comandava a nata do grêmio dos livreiros de sebo. Estava perpetuamente colado a um cachimbo apagado que soltava eflúvios de mercado persa, e se descrevia a si mesmo como um último romântico. Barceló sustentava que na sua descendência havia um parentesco distante com lorde Byron, embora ele fosse natural de Caldas de Montbuy. Talvez com vontade de ressaltar esta conexão, Barceló vestia-se invariavelmente ao estilo de um dândi do século XIX, usando fular, sapatos de verniz branco e um monóculo sem grau, que, segundo as más línguas, não tirava nem na intimidade do toalete. Na realidade, o parentesco mais significativo era o de seu progenitor, um industrial que enriquecera por meios mais ou menos escusos, em fins do século XIX. Segundo explicou meu pai, Gustavo Barceló era tecnicamente rico, e aquela livraria era mais paixão que negócio. Ele amava os livros sem reservas e, embora negasse categoricamente, se alguém entrasse na livraria e se apaixonasse por um exemplar cujo preço não pudesse custear, o rebaixava até onde fosse necessário, ou inclusive o presenteava, se considerasse que o comprador era um leitor com tradição e não uma mariposa amadora. Fora essas peculiaridades, Barceló possuía uma memória prodigiosa e um pedantismo que não desmerecia em porte ou sonoridade, mas se havia alguém que sabia a respeito de livros raros, era ele. Naquela tarde, após fechar a loja, meu pai sugeriu que fôssemos até o café Els Quatre Gats na rua Montsió, onde Barceló e seus comparsas mantinham uma tertúlia bibliófila sobre poetas malditos, línguas mortas e obras-primas abandonadas à mercê das traças.
Els Quatre Gats ficava bem perto de casa e era, de toda Barcelona, um dos meus lugares preferidos. Ali se conheceram os meus pais em 32, e eu em parte atribuía meu ingresso na vida aos encantos daquele velho bar. Dragões de pedra vigiavam a fachada encravada num cruzamento de sombras, e seus lampiões a gás congelavam o tempo e as lembranças. Lá dentro, as pessoas se fundiam no eco de outras épocas. Contadores, sonhadores e aprendizes de gênio compartilhavam a mesa com o fantasma de Pablo Picasso, Isaac Albéniz, Federico García Lorca ou Salvador Dalí. Ali, qualquer pobre-coitado podia sentir-se por alguns minutos uma figura histórica, pelo preço de um expresso.
— Ora, Sempere — exclamou Barceló ao ver entrar meu pai —, o filho pródigo. A que se deve esta honra?
— A honra o senhor deve ao meu filho Daniel, que acaba de fazer uma descoberta.
— Pois venham sentar-se conosco, que esta efeméride precisa ser comemorada — exclamou Barceló.
— Efeméride? — perguntei em voz baixa ao meu pai.
— Barceló se exprime sempre com palavras esdrúxulas — respondeu meu pai, cochichando. — Não diga nada, que ele fica zangado.
Os colegas de tertúlia abriram um lugar na roda e Barceló, que gostava de dar uma de interessante, insistiu em convidar-nos.
— Que idade o rapaz tem? — inquiriu Barceló, me olhando de esguelha.
— Quase 11 anos — declarei.
Barceló sorriu, como se, secretamente, caçoasse de mim.
— Ou seja, dez. Não coloque mais anos, energúmeno, que a vida já se encarregará disso.
Vários dos colegas de tertúlia murmuraram sua concordância. Barceló fez sinais para um garçom que, pela aparência, estava à beira de ser declarado monumento histórico, para que viesse anotar os pedidos.
— Um conhaque do bom para o meu amigo Sempere, e para o rebento um leite morno, pois precisa crescer. Ah, e traga mais presunto, mas que não seja como o de antes, hein, pois para borracha já temos a Pirelli, rugiu o livreiro.
O garçom assentiu e partiu, arrastando os pés e a alma.
— É o que eu digo — comentou o livreiro. — Como pode haver trabalho?
Se em nosso país as pessoas não se aposentam nem depois da morte. Veja o Cid. Não há solução.
Barceló saboreou seu cachimbo apagado, o olhar aquilino examinando com interesse o livro que eu trazia nas mãos. Apesar da sua fachada cômica e de tanto falatório, Barceló sabia cheirar uma boa presa como um lobo cheira sangue.
— Deixe ver — disse Barceló, fingindo desinteresse. — Que me trazem vocês?
Dirigi o olhar para o meu pai. Ele assentiu. Sem mais preâmbulos, entreguei o livro a Barceló. O livreiro segurou-o com mão experiente. Seus dedos de pianista rapidamente exploraram a textura, a consistência e o estado. Exibindo seu sorriso florentino, Barceló localizou a página de créditos e a inspecionou com intensidade policial pelo espaço de um minuto. Os demais o observavam em silêncio, como se esperassem um milagre ou uma licença para respirar de novo.
— Carax. Interessante — murmurou, com tom impenetrável. Estendi de novo a mão para recuperar o livro. Barceló franziu o cenho, mas o devolveu com um sorriso glacial.
— Onde o encontrou, rapaz?
— É um segredo — retruquei, sabendo que meu pai devia estar sorrindo por dentro.
Barceló franziu a testa e desviou o olhar para o meu pai.
— Amigo Sempere, porque é o senhor e por todo o apreço que lhe tenho e em honra à ampla e profunda amizade que nos une como a irmãos, vamos deixar em 40 pesetas e não se discute mais."

junho 04, 2009

CASA AMATLLER

A Casa Amatller, projetada por Josep Puig i Cadafalch, foi construída entre 1890 e 1900. De inspiração gótica foi encomendada pela família Amatlleruna, da antiga burguesia catalã.





(Não pretendo dar destaque a temas específicos e muito menos informações sobre roteiros de viagens. Este blog continua sendo o registro do que vejo, penso, escuto, leio, ou lembro, do que me deslumbra ou espanta. Se tem estado com esta “ cara”, ultimamente, é por eu estar passando uns tempos fora do meu quarto, mas já estou voltando para lá ...)
Em Barcelona tem um percurso que não se pode deixar de fazer a pé. Saindo da Praça Calatunya caminhar pelo Passeig de Gracia, olhando atentamente para cima, para baixo e para os lados, para não perder os maravilhosos detalhes das obras modernistas: postes de luz, calçamento, grades, portas, ferragens e mobiliário, que representam os melhores exemplos do modernismo catalão. Sem contar os edifícios, claro!
A Art Noveau que assumiu diversas traduções: Jugendstil, na Alemanha; Secessão, na Aústria; Modem Style, na Inglaterra e em cada um desses países adquiriu características próprias, na Espanha, se chamou Modernismo. Não se encontra nada similar ao Modernismo de Barcelona que tem nos arquitetos Puig i Cadafalch, Domènech i Montaner e Antoní Gaudí seus maiores expoentes.
Num só trecho do Passeig d Gracia se encontra obra de cada um deles.

Dorothy Lamour e Lupiscinica


Ednardo cantando Dorothy Lamour de Petrúcio Maia Fausto Nilo e Lupiscínica de Petrúcio Maia Augusto Pontes

La Boqueria

Este festival de cores (e sabores) são imagens do Mercado São José (La Boqueria) que fica bem próximo de nosso apartamento, aqui em Barcelona, e é onde fazemos nossas compras.

junho 02, 2009

Recomendados

FERNANDA E FRANCISCO
"Os aplausos não cessam. Ela já se curvou uma, duas, diversas vezes, e as pessoas não se cansam, aplaudem cada vez mais forte e emocionadamente.
Emoção pouca, se comparada com a dos olhos da mulher no palco, olhos negros que, sobretudo no trecho final da peça, emitiram um fulgor absurdamente cativante e enternecedor.
Finalmente, abraçando a si mesma como se abraçasse cada um dos espectadores que a aplaudem freneticamente na plateia do tradicional Teatro Anchieta, de São Paulo, Fernanda Montenegro deixa a cena.
Deixa a cena sem deixar de ocupar seu lugar, sua cadeira cativa na história do teatro, das artes deste país.
Foi uma hora inteira num monólogo de tirar o fôlego, este "Viver Sem Tempos Mortos", em que Fernanda dá voz a cartas e notas autobiográficas de Simone de Beauvoir (1908-1986), a eterna companheira de Jean-Paul Sartre (1905-1980), ambos pensadores e pioneiros da modernidade contemporânea.
Mais que toda a carga intelectual e emocional e libertária transmitida a partir dos textos de Simone, em sua vida-cruzada em nome da aventura de viver a vida não sendo mulher, mas tornando-se uma, o que fascina naquele palco totalmente escuro é aquela mulher elegantemente magra e iluminada por um único facho de luz.
Como se precisasse, porque ali, e quase sempre quando ela está no palco, bastaria a luz própria de Fernanda Montenegro para iluminar a cena e a constatação irrefutável: aqui se faz o grande teatro.
Uma hora de monólogo, sem titubeios ou gaps, já seria fantástico numa atriz de 80 anos.
Mas o que sobre-encantou a todos, o que fez com que um verdadeiro frisson percorresse toda a plateia, foi a carga de sensibilidade aflorada de quem, com as palavras de Beauvoir, despede-se de um amor de toda uma vida. O relato da morte e do funeral de Sartre marejou os olhos de Fernanda, certamente a sentir a ausência de seu recentemente falecido Fernando Torres.
O clima que se impôs arrebatou a todos os que ali se encontravam, tendo o privilégio de ver e ouvir a maior atriz brasileira. Numa palavra, inesquecível.
Seria de se recomendar a todos o espetáculo, sem dúvida alguma. Mas, pelo menos em São Paulo, a temporada está com todos os ingressos esgotados. No mês de agosto, no entanto, ela volta à cena, no Rio de Janeiro.

*
Rio de Janeiro que remete, agora, a outro gênio, que neste momento de sua carreira alcança a senhoridade como escritor, no domínio do texto de forma tal que exige respeito.
Rio de Janeiro é o cenário da trajetória de um fracasso que dura 100 anos, no relato de um velho moribundo criado e dado à vida pelas palavras do Francisco que coloquei no título para rimar com Fernanda. No caso, Chico Buarque de Hollanda.
Trata-se também de um monólogo, seu "Leite Derramado" (Cia. Das Letras, 195 págs., cerca de R$ 30).
O relato de um velho que, abandonado no leito do hospital público, mescla realidade e fantasia ao rememorar uma vida de perdas, sobretudo da mulher amada, a qual ele busca melancolicamente ao longo de toda sua odisseia, sem deixar claro se ela o abandonou, morreu ou ficou louca.
O que permeia e dá fio condutor à trajetória, no entanto, são os valores morais a que narrador se apega de forma ferrenha, tão idiossincráticos quanto por vezes ridículos.
A família, as posses, o poder político, a autoridade, a classe, o garbo e o glamour. Insistentemente o personagem tenta resgatar estes valores, em situações reais ou imaginária, dentro do seu quadro de visível delírio senil, como se eles pudessem fornecer um mínimo de dignidade à sua morte que se avizinha banal e vazia.
Há um fundo histórico, que vai da República Velha ao tráfico dos morros cariocas, passando pelas lutas libertárias dos anos 60 e pelas transformações descaracterizantes a que foi submetido o Rio de Janeiro.
Mas tudo observado como que por uma lente de distorção, que são as lembranças falhas e confusas do velho, em sua quixotesca tentativa de compor um interminável livro de memórias.
É uma história triste, mas de certa forma encantadora, de um tempo longo (100 anos...) e de uma vida que quase sempre está para acontecer, para vingar, para ser, mas que sucumbe inexoravelmente ao peso de sua própria impotência perante o destino.
Um admirável exercício de literatura."

por Luiz Caversan, para a Folha Online