maio 25, 2009

Camille Claudel

Apesar de todo o seu talento, Camille Claudel tornou-se mais conhecida por suas desventuras que por seu trabalho. Aos 19 anos conheceu Rodin que, embora fosse apenas um pouco mais velho, já era um escultor consagrado. Ele se torna seu mestre e amante. No entanto, ele nunca abandonou a sua primeira amante, com quem chegou a se casar. A tragédia de Camille começa quando Rodin retorna em definitivo ao seu antigo amor. Ela se fecha em seu estúdio e se entrega a uma solidão obsessiva, vivendo em total ruína física e mental. A dor do abandono a fez destruir grande parte de sua produção. Nas tentativas de revê-la Rodin é rechaçado. No seu delírio paranóico ele representava o inimigo perseguidor. Foi internada num hospital psiquiátrico, onde nunca foi visitada pela família que rechaçava o conselho dos médicos para levá-la de volta para casa. Morreu aos 78 anos, esquecida pelo mundo. Esta placa está no imóvel onde ela viveu e trabalhou num curto período de sua vida, em Paris. Os seus trabalhos podem ser vistos clicando no título desta postagem.

"Tabacaria"

...
"não há mais metafísica no mundo senão chocolates", portanto é preciso enxergar o encantamento do chocolate, do cotidiano, ou seja, do "mistério de uma rua cruzada constantemente por gente". Afinal, na falta de inquietantes sinais divinos ou conspiratórios, resta o enigma de nosso desejo. Não é pouca coisa, pois cada um de nós poderia dizer:
"Tenho em mim todos os sonhos do mundo".
(versos de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos - Calligaris).

maio 20, 2009

mutatis mutandis

"Depois de cerca de dez dias na Itália, a Depressão e a Solidão acabam me encontrando. Estou passeando pela Vila Borghese certa tarde, depois de um agradável dia de aula, e o sol está se pondo em tons de dourado acima da Basílica de São Pedro. Sinto–me contente neste cenário romântico, mesmo estando completamente sozinha enquanto todas as outras pessoas no parque estão acariciando um amante ou brincando com uma criança risonha. Mas quando paro e me apoio numa balaustrada para admirar o pôr-do-sol, acabo pensando um pouco demais, e meus pensamentos se tornam sombrio e é então que as duas me encontram.
Aproximam-se de mim, silenciosas e ameaçadoras como detetives particulares, e me cercam; - a Depressão pela esquerda, a Solidão pela direita. Sequer precisam me mostrar seus distintivos. Eu as conheço muito bem. Há anos que temos brincado de gato e rato. Embora eu reconheça que estou surpresa por encontrá-las neste elegante jardim italiano ao entardecer. Elas não combinam com este lugar.
Pergunto a elas:
“Como vocês me encontraram aqui? Quem disse a vocês que eu tinha vindo para Roma?”
A Depressão, sempre bancando a esperta, diz:
“Como assim, você não está feliz em nos ver?”
A Solidão, mais sensível das duas diz:
“Desculpe, mas eu talvez precise seguir a senhora durante toda a sua viagem. É a minha missão.”
“Eu preferiria que você não fizesse isso”, digo-lhe, e ela dá de ombros, quase pedindo desculpas, mas se aproximando ainda mais.
Então elas me revistam. Esvaziam meus bolsos de qualquer alegria que eu estivesse carregando aqui. A Depressão chega a confiscar minha identidade; mas ela sempre faz isso. Então a Solidão começa a me interrogar, coisa que detesto, porque sempre dura horas. Ela é educada, mas implacável, e sempre acaba me encurralando. Pergunta se eu acho que tenho algum motivo para estar feliz. Pergunta porque estou sozinha esta noite, outra vez. Pergunta (embora já tenhamos passado por esse momento interrogatório vezes sem conta) por que não consigo manter um relacionamento, por que arruinei meu casamento, por que estraguei tudo com David, por que estraguei tudo com todos os homens com quem já estive. Pergunta-me onde eu estava na noite em que completei 30 anos, e por que as coisas azedaram tanto desde então. Pergunta por que não consigo me recuperar, e por que não estou nos Estados Unidos, morando em uma bela casa e criando belos filhos, como qualquer mulher respeitável da minha idade deveria fazer. Pergunta porque acho que fugir para a Itália como uma estudante universitária vai me fazer feliz. Pergunta onde acho que vou estar quando ficar velha, se continuar vivendo assim.
Volto a pé para casa esperando conseguir me livrar delas, mas elas continuam a me seguir,essas duas capangas. A Depressão me segura firma pelo ombro e a Solidão me bombardeia com seu interrogatório. Sequer tenho forças para jantar; não quero que elas fiquem me espionando. Também não quero que subam as escadas até o meu apartamento, mas conheço a Depressão, e sei que ela carrega um cassete, então não há como impedi-la de entrar, se ela decidir que quer fazer isso.
“Não é justo vocês virem aqui”, digo à Depressão. “Já paguei vocês. Já cumpri a minha pena lá em Nova York.”
Mas ela simplesmente me dá aquele sorriso sombrio, acomoda-se em minha cadeira preferida e acende um charuto, enchendo o aposento com sua fumaça desagradável. A Solidão olha aquela cena e dá um suspiro, mas em seguida deita-se em minha cama e se cobre com as cobertas, inteiramente vestida, de sapato e tudo. Estou sentindo que vai me obrigar a dormir com ela de novo esta noite."

Do livro Comer, rezar, amar, de Elizabeth Gilber

A fábrica de sonhos


No Museu de Arte Moderna acontece uma bela retrospectiva da obra de Giorgio de Chirico (1888-1978). São 160 pinturas esculturas, obras gráficas e documentos que retratam a carreira deste artista italiano fora do comum que criou a “ pintura metafísica” . Instalou-se em Paris em 1914 e através de seu amigo Apolinaire (de quem ele fez o retrato) foi introduzido no círculo de pintores e escritores como Picasso, Derain, Léger, Braque, Max Jacob..., ou seja, foi apresentado à “turma” (ops! esta foi muito antiga) . Paris, assim como Roma. também inspirou suas pinturas oníricas carregadas de símbolos que nos levam a uma “ viagem” a um universo paraleo e atemporal , carregado de melancolia e solidão.

Viver um grande amor


Ontem assisti Je l´ aimais da “ talentosa” cineasta Zabou Breitman que já fez outros filmes de sucesso : “ Se souvenir de belles choses” e “ L´ homme de sa vie”. Não vi (ainda) nenhum dos dois, mas com estes títulos me pergunto se o atual Je l` aimais (adaptado de um romance de Anna Gavalda que está nas vitrines com capa de cena do filme) não seria um pouco de cada um deles. Daniel Auteil no papel do “pai de família” que, pretendendo consolar a sua nora que passa por um péssimo momento, conta para ela a história de um antigo, intenso e doloroso amor a que ele renunciou e hoje se diz “ morto”. Contada em flash-backs, a história do fraco e covarde que se nega a viver o grande amor para não romper um fracassado casamento, tinha tudo para ser banal. O que a salva deste lugar comum é o sofrimento dele. Nunca num filme vi o sofrimento masculino sendo mostrado num grau tão acentuado. Sabe daquele de querer morrer? Quem viveu sabe a que me refiro ...
Saí do filme pensando num mosaico de situações vividas não só por mim ... Por que um grande amor, por uma razão ou outra, não se concretiza? Ou ele só é “ grande” porque não é viável? Ou tem razão o poetinha, “ um grande amor só é bem grande se for triste”? Do contrário, é qualquer outra coisa, às vezes até boa, outras nem tanto, mas não um grande amor...Segui divagando pelas ruas, aqui, onde, em algum tempo, uma vez, pensei haver encontrado este tal de grande amor...