"Sempre ouvimos que a beleza é subjetiva, que muda de acordo com o tempo, o lugar e o observador. “Ah, na Renascença os homens gostavam de gordinhas”, fala-se, em contraponto à magreza valorizada hoje em dia. Também se diz que a beleza é relativa, comparativa, porque um prédio pode parecer bonito até que outro mais bonito ainda surja ao lado. E que a beleza é uma qualidade decorativa, um atributo de superfície, um dado da anatomia; mulheres em especial gostam de dizer que não fazem questão de homem bonito, que é melhor que ele seja charmoso, interessante, divertido, etc. “Gosto não se discute”, eis a palavra final, quando já existe a certeza de que o outro discorda.
Mas esses lugares-comuns não explicam fenômenos que podemos ver a todo instante, ainda mais num mundo de distâncias reduzidas como o atual. Não me esqueço da cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim que vi num grande telão em uma avenida que estava lotada de chineses e turistas. Como cada delegação era aplaudida pelos compatriotas, pudemos ver que havia gente do mundo todo. De vez em quando, a câmera dava closes em atletas mundialmente famosos ou nem tanto. E quando eram bonitos – eles ou elas – havia um “oooh” generalizado. Combinações harmônicas de volumes proporcionais, traços nítidos e cores viçosas transcendiam características locais e tinham apelo universal.
Por esse motivo, estudiosos de diversas disciplinas tentam há muito tempo definir o que é beleza, encontrar uma espécie de lei que a determine. É o que fazem de novo dois livros recém-publicados em inglês, The Art Instinct, de Denis Dutton, e Beauty, de Roger Scruton. Dutton, editor do ótimo portal Arts & Letters, tenta entender o prazer da beleza à luz da evolução de Darwin. Ele mostra como o design cerebral favorece equilíbrio e movimento e se deixa seduzir por simulações que lhe pareçam informativas e estimulantes, pois somos seres contemplativos: aprendemos pela imitação. Scruton, grande crítico conservador, autor do estudo sobre modernismo The Banquet Years, procura associá-la à racionalidade humana. Queremos partilhar uma experiência alheia de um modo que é ao mesmo tempo ordenado e peculiar e, por isso, nos leva ao exame e autoexame crítico.
Muito do que ambos dizem me parece correto, mas também limitado. Sim, é verdade que há exemplos de beleza humana e artística que ultrapassam gerações, e o simples fato de que resistiram a tantas mudanças de valores é uma prova de que o subjetivismo e o relativismo não bastam. Mas não vamos muito longe se desprezarmos o enorme espectro de estilos que podem conter beleza; ou seja, ela parte de noções como proporcionalidade ou vitalidade, e não chega a elas. O Parthenon ou a Notre-Dame são simétricos, mas os ritmos, espaços e detalhes dão outro grau de expressividade à sua forma geral. Beleza, nem mesmo no rosto humano ou nas artes funcionais, não é o mesmo que perfeição métrica.
Mais importante: arte não se faz só com beleza. Umberto Eco foi feliz em fazer um livro chamado História da Beleza e depois outro História da Feiura. Mulheres pintadas por Picasso com dois olhos do mesmo lado e soltando gases foram e são consideradas feias, mas a linguagem do artista é de uma tal riqueza em si, inclusive ao recorrer a combinações cromáticas e linhas marcantes, que vemos beleza ali. A história da arte está repleta de usos do “mau gosto” para explorar composições inovadoras. Dutton fala em “complexidade” e “seriedade” como virtudes da grande arte, mas novamente são termos enganosos: não há uma simplicidade melódica em Mozart que nos cativa antes de mais nada e não há uma infinidade de obras iconoclastas ou despretensiosas como uma cena de Charlie Chaplin?
Podemos ter um instinto de beleza que nos diz, por exemplo, que a estátua de Borba Gato na Avenida Santo Amaro é um horror – proporções grotescas, execução tosca, rigidez involuntária –, o que não impede que alguém diga que a acha bonita ou interessante (cada louco com sua mania, etc). No entanto, é mais fácil estabelecer critérios objetivos para dizer o que não é bonito do que o que é. Como a beleza precisa sempre trazer o tom da surpresa, como quando se vê alguém bonito entrar numa sala ou quando reentramos em Chartres, ela não pode ser reduzida a uma fórmula, biológica ou idealista. É justamente por isso que podemos nos situar no contexto da época para ver como aquela nova modalidade de prazer estético surgiu. Se beleza pudesse ser facilmente encontrada, não a procuraríamos tanto. Procurar é belo.
A ARTE DE EXPOR (1)
Realismo é outra dessas palavras complicadas, que de tão usadas perdem seu sentido. Andando pela mostra O Realismo, cheia de obras-primas francesas do Masp, D’Orsay e da Coleção Berardo de Lisboa, além de alguns paralelos brasileiros, verificamos isso mais uma vez. O termo designa obras que se aproximam da realidade exterior tal como é, que tentam retratá-la de um modo mais fotográfico ou então com alguma intenção de observação social. É o que temos, por exemplo, nas paisagens de Corot, nos retratos de Courbet ou na Família Dubourg, de Fantin-Latour. Mas nenhum artista é 100% realista, nenhum jamais pretendeu captar imagem como uma câmera – mesmo antes de existirem câmeras! Ou você acha mesmo que a Mulher Nua com Cão não foi uma cena montada e adaptada por Courbet? Nem mesmo uma fotografia é neutramente objetiva.
E, claro, existem muitos realismos. Os impressionistas foram acusados de contrariar a noção de arte (e do belo) como registro perfeccionista da realidade, mas seu gesto era realista não só na aproximação às cenas corriqueiras em vez das míticas ou históricas, mas sobretudo na tentativa de captar a natureza fragmentária e cambiante da luz. Acontece, porém, que a mostra se expande para exemplos de Van Gogh, Picasso e até surrealismo e abstracionismo, como se qualquer vestígio de representação literal significasse realismo. Seja como for, realistas ou não, há diversas pinturas belas e inéditas para ver no Masp, como as de Rousseau, Soutine e Balthus.
A ARTE DE EXPOR (2)
Também parte do Ano da França no Brasil, vi a exposição de Léger na Pinacoteca. Não tem muitos exemplos de sua melhor fase, embora o paralelo com Tarsila seja importante para reduzir um pouco as aclamações locais à originalidade dela. O destaque são as ilustrações que Léger fez para livros de poesia, onde solta seu gosto pela linguagem gráfica, que nas pinturas muitas vezes se amarra numa composição quase clássica em sua necessidade de preencher o espaço com a geometria de formas industriais. O curioso é que Tarsila leva isso para paisagens bucólicas, como se fossem pôsteres graciosos. Vejo conservadores – que detestam qualquer exemplar de arte abstrata e conceitual – exaltando Vik Muniz até por contraste, já que suas obras lidam com figuras tradicionais em tratamento pop. Esse tratamento inclui alimentos como chocolate e parece se basear no velho discurso sobre a questão do consumo que vira ele mesmo, discurso, um objeto de consumo... Mas ninguém vai ver Daniel Senise na Estação Pinacoteca. Sim, são pinturas austeras demais, que muitas vezes não ultrapassam o jogo visual da profundidade. Em alguns momentos, porém, ele cria forte sensação de estranhamento, com deslocamentos de perspectiva que lembram os vazios de De Chirico e camadas de textura que remetem à melancolia de Kiefer. Nem sempre a boa arte tem alcance universal."
Daniel Piza ("Sinopse" no Estadão)
maio 19, 2009
maio 18, 2009
Sobre homens e cabelo
Nunca ninguém explicou tão bem! 'HOMEM TEM QUE SER TRATADO IGUAL CABELO!' Num dia a gente prende, no outro solta, num dia a gente alisa, no outro enrola. Dá uma cortada quando precisa.Numa semana a gente amacia, na outra é só jogar de lado e ele fica ótimo!
Fala a verdade...Cabelo dá trabalho...
Mas que mulher consegue viver careca?
Comédia de época
No original Easy Vertue, aqui Un mariage de rêve é uma inspirada comédia que se passa nos anos 30, com um humor à froid (como dizem aqui) 100% ingles, cheio de réplicas cortantes e gags burlescas, que privilegia os detalhes do lindo cenário de uma casa de campo inglesa. Bonito desde as imagens e música da abertura, termina com um belo e dramático tango, que amarra bem o seu final. Un rêve!
maio 17, 2009
Sobre pães e outras
Um povo que come pão no café da manhã, no almoço e no jantar tem mesmo que valorizar os seus artisans boulangers . La Ville de Paris promove todo ano o Grand Prix de la Baguette e premia com 4000 euros o vencedor. A festa acontece em março e este ano o vencedor foi Franck Tombarel de 38 anos que, além de boulanger, é pâtissier no Le Grenier de Félix.O pão é festejado por toda a França numa festa que acontece no meio do mês de maio. Segundo eles, a idéia é “ fazer 7 dias de honras a este produto são, natural e que acompanha, cotidianamente, cada uma de nossas refeições”. Assim, a Fête du Pain começa na segunda feira que precede o dia 16 de maio, dia de Saint-Honoré , patrono dos padeiros, e termina no domingo seguinte . Este ano o evento acontece entre os dias 11 e 17. Cada padeiro põe cartazes anunciando sua participação e anima sua padaria ao seu gosto: faz promoções, degustações, visitas aos fornos, confecção de uma especialidade...
O pão daqui tem qualidades nutricionais excepcionais. Um estudo sobre a sua composição nutricional recomenda o consumo diário de 250 gr em média. Os nutricionistas aconselham aumentar o consumo dos glicidios complexos, contidos no pão, para evitar a obesidade. O consumo da quantidade recomendada de pão (na França) por dia retarda o retorno da sensação de fome e, sem nos darmos conta, diminuimos o consumo de açucar e gorduras!
Ah! tem mais uma coisa. Aqui, não é qualquer pessoa que pode ser chamado “boulanger” nem qualquer venda de pão pode ser considerada padaria. O uso do nome é regulamentado e só pode ser utilizado por quem é profissional e assegura a fabricação tradicional do pão no mesmo lugar da venda.
Ainda no tema padaria: quando estou na fila (que anda rapidissima) fico escutando aquele festival de “bonjour”, “merci”, “au revoir” e “bonne journée” ( repetidos maquinalmente, mas considerados uma sagrada questão de politesse), enquanto observo - já sem espanto - que, em meio a tanta civilização, a mão que recebe o dinheiro é a mesma que pega nos pães e en passant, faz carinho no chien da cliente que, enquanto a madame conversa, fuça e baba no pão que ela recebeu, invariavelmente, desembrulhado. Como não é caso para a vigilância sanitária, vou para casa feliz comer o meu croissant, com sabor de euros.
Em tempo: o que disse acima, não se aplica ao croissant. Que engorda!
maio 16, 2009
"A vida é um demorado adeus"
S'IL FALLAIT LE FAIRE
Esta é a música com a qual a PATRICIA KAAS vai concorrer pela França , logo mais à noite, no EUROVISION 2009 que este ano acontece em Moscou.
Mesmo sem ter ouvido todas as concorrentes, não estou pondo fé...
maio 15, 2009
Fim de semana
Noite dos Museus
Amanhã dezesseis de maio, dez dos quatorze museus da Ville de Paris estarão abertos das 18 hs à meia noite para oferecer aos visitantes a oportunidade de ver, gratuitamente, não só as coleções, mas também as exposições temporárias.
Biodiversidade parisiense
No momento em que a primavera está no seu apogeu, a cidade faz a Festa da Natureza, convidando a todos para descobrir ou redescobrir as suas riquezas naturais e renovar os fortes laços com o meio ambiente. A programação é tão variada e interessante que, mesmo não podendo comparecer, vale dar uma olhada (clicando no título da postagem).Observo não se tratar de pretexto para promover educação ambiental (eles estão muito além) mas de conhecer os pássaros, abelhas, borboletas e insetos que aqui habitam.
Amanhã dezesseis de maio, dez dos quatorze museus da Ville de Paris estarão abertos das 18 hs à meia noite para oferecer aos visitantes a oportunidade de ver, gratuitamente, não só as coleções, mas também as exposições temporárias.Biodiversidade parisiense
No momento em que a primavera está no seu apogeu, a cidade faz a Festa da Natureza, convidando a todos para descobrir ou redescobrir as suas riquezas naturais e renovar os fortes laços com o meio ambiente. A programação é tão variada e interessante que, mesmo não podendo comparecer, vale dar uma olhada (clicando no título da postagem).Observo não se tratar de pretexto para promover educação ambiental (eles estão muito além) mas de conhecer os pássaros, abelhas, borboletas e insetos que aqui habitam.
AIDS Hilfe Wien
maio 13, 2009
A Paris qui dort
Paris qui dort é um curta metragem frances realizado por René Clair, em 1925. É a experiência vivida pelo guarda noturno da torre Eiffel que ao despertar descobre uma Paris completamente abandonada. Somente cinco pessoas passeiam pela cidade deserta. O filme tem 33 minutos e pode ser acessado pelo título desta postagem. Apaixonados por Paris e por cinema vão adorar...
Comer com os olhos
Por incrível que pareça, considerando o número de vezes que estive aqui, não comi senão com os olhos, desta que é a mais antiga e mais linda pâtisserie da cidade. As minhas fotos não fazem justiça, clique no título para ver muito mais e melhor, inclusive a história. Como não existe espaço, nela se compra para levar (a emporter). Detalhe: a rua Montergueil é uma rua de pedestres, muito animada, que funciona como marché, onde se pode comprar de tudo. Acontece que a gente não sai de casa para ir fazer feira, apenas frequenta os simpáticos cafés/restaurantes e come a beleza da Stohrer com os olhos.
Eu estou me lixando para você, leitor
"Se eu digo isso o jornal me despede; se um comerciante tem essa atitude, ele vai à falência; se um pai de santo, ministro, rabino ou sacerdote repete o mote, ele faz suas orações sozinho e não salva ninguém; se um professor adota esse credo, ele não merece dar cursos; do mesmo modo que um médico, um juiz, um policial, um engenheiro e um advogado deixariam morrer os doentes, perderiam o senso de justiça, do limite e da eficiência.
Seria o fim deste nosso mundo chamado de moderno, e olha que eu estou apenas mencionando as profissões mais estabelecidas.
Quando um membro do Parlamento, um servidor público importantíssimo e privilegiado porque representa uma massa de desejos e esperanças de uma região do país diz que está “se lixando para a opinião pública”, como fez o deputado federal Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, ele não fala apenas uma triste verdade; ele revela a nossa ignorância do que é viver numa sociedade democrática e liberal. O credo do “estou me lixando” não é privilégio do deputado gaúcho, mas da hierarquia existente entre os que têm poder e nós, as pessoas comuns.
Ela foi dita por Sérgio Moraes, mas está implantada no imenso vazio existente entre as formalidades — as tais instituições e leis, que vão resolver tudo e são feitas por ideologias, governos e decretos — e as crenças e práticas antigas que ainda comandam com força o nosso sistema. A questão não é a de denunciar a clara arrogância do parlamentar, o problema é tomá-la como um claro sintoma da total separação entre o lado de lá e o de cá do balcão. Pois quando parlamentares se lixam para a opinião pública eles perdem a consciência de que foram por ela eleitos!
Como um médico pode se lixar para um doente, um professor para um aluno, um vendedor para seu cliente e um deputado para a opinião pública se, em todos os casos, esses são papéis sociais complementares que existem em total interdependência, já que ser médico implica enfermos, ensinar supõe um aprender, e não há venda sem compra; tal como ser um representante do povo aciona automaticamente a ideia de um representado: o próprio povo.
Esse representado cujo espírito ou índole (ou “vontade geral” como disse Rousseau) forma o que nós, democratas e modernos, chamamos entre outras coisas “opinião pública”, esse quarto ou quinto poder em qualquer democracia liberal; esse sistema nebuloso que tem todos os defeitos mas que, quando opera com liberdade, se caracteriza pela constante renovação de seus valores. Esses valores inatingíveis como liberdade, igualdade e fraternidade. Essas causas perdidas em perpétua busca de encarnação institucional e política.
Não se precisa ir a Locke, a Rousseau ou a Weber para descobrir que a legitimidade se faz justamente na relação que o sistema representativo moderno esconde e revela. Revela-se no processo eleitoral quando os candidatos se dizem pais, protetores ou representantes do povo, o qual, num mercado dos candidatos, escolhe os de sua preferência. E esconde-se nas rotinas parlamentares nas quais esse laço deve ser renovado e honrado na busca de leis, causas e projetos que façam avançar a vida dos representados.
A menos que se reinterprete, como sempre fazemos no Brasil, o liberalismo pelo viés aristocrático mal resolvido, vigente na sociedade, e se admita que a investidura num cargo público conceda ao investido a propriedade deste cargo como ocorre nas aristocracias. Nelas, a legitimidade está apenas do lado da nobreza que, por direito divino, é definida como superior à plebe, mas cuja obrigação seria dela “cuidar”, como tem redescoberto o nosso populismo. A nobreza, porém, perde legitimidade quando o laço de honra, de obrigação e de honestidade que deve marcar os seus laços com a plebe não é levado a sério. Ou seja, quando ela faz como o deputado e se lixa para a opinião pública. Maria Antonieta e os Luíses não se lixavam, mas davam pão e circo para o povo. Sabiam que, entre governantes e a opinião pública deveria haver algo mais do que descaso, insulamento político e arrogância aristocrática.
Nas democracias, se o laço entre representantes e representados tornase tênue, instala-se um processo de ilegitimidade. Ora, esse lixar-se para a opinião pública revela o tamanho da crise de legitimidade que decorre da aristocratização dos governantes, ao lado de uma sociedade redemocratizada pela livre iniciativa, por um mercado cheio de energia e por uma moeda estável: um único dinheiro que vale a mesma coisa para todos.
Num Brasil onde todos pagam uma enormidade de impostos e, com eles, os salários de todos os governantes, vai ficando cada vez mais intolerável ter câmara, parlamentos, ministérios e executivos aristocratizados com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Mais: vai ficando impossível verificar que é a sociedade que trabalha para o Estado e não o justo oposto.
É duro observar uma súcia majoritariamente incompetente (com alguns criminosos em seu meio) viver como nobres e milionários, tendo, além de tudo, o desplante de declarar que nós, a opinião pública, nada temos com eles."
ROBERTO DAMATTA - no Globo de hoje
Seria o fim deste nosso mundo chamado de moderno, e olha que eu estou apenas mencionando as profissões mais estabelecidas.
Quando um membro do Parlamento, um servidor público importantíssimo e privilegiado porque representa uma massa de desejos e esperanças de uma região do país diz que está “se lixando para a opinião pública”, como fez o deputado federal Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, ele não fala apenas uma triste verdade; ele revela a nossa ignorância do que é viver numa sociedade democrática e liberal. O credo do “estou me lixando” não é privilégio do deputado gaúcho, mas da hierarquia existente entre os que têm poder e nós, as pessoas comuns.
Ela foi dita por Sérgio Moraes, mas está implantada no imenso vazio existente entre as formalidades — as tais instituições e leis, que vão resolver tudo e são feitas por ideologias, governos e decretos — e as crenças e práticas antigas que ainda comandam com força o nosso sistema. A questão não é a de denunciar a clara arrogância do parlamentar, o problema é tomá-la como um claro sintoma da total separação entre o lado de lá e o de cá do balcão. Pois quando parlamentares se lixam para a opinião pública eles perdem a consciência de que foram por ela eleitos!
Como um médico pode se lixar para um doente, um professor para um aluno, um vendedor para seu cliente e um deputado para a opinião pública se, em todos os casos, esses são papéis sociais complementares que existem em total interdependência, já que ser médico implica enfermos, ensinar supõe um aprender, e não há venda sem compra; tal como ser um representante do povo aciona automaticamente a ideia de um representado: o próprio povo.
Esse representado cujo espírito ou índole (ou “vontade geral” como disse Rousseau) forma o que nós, democratas e modernos, chamamos entre outras coisas “opinião pública”, esse quarto ou quinto poder em qualquer democracia liberal; esse sistema nebuloso que tem todos os defeitos mas que, quando opera com liberdade, se caracteriza pela constante renovação de seus valores. Esses valores inatingíveis como liberdade, igualdade e fraternidade. Essas causas perdidas em perpétua busca de encarnação institucional e política.
Não se precisa ir a Locke, a Rousseau ou a Weber para descobrir que a legitimidade se faz justamente na relação que o sistema representativo moderno esconde e revela. Revela-se no processo eleitoral quando os candidatos se dizem pais, protetores ou representantes do povo, o qual, num mercado dos candidatos, escolhe os de sua preferência. E esconde-se nas rotinas parlamentares nas quais esse laço deve ser renovado e honrado na busca de leis, causas e projetos que façam avançar a vida dos representados.
A menos que se reinterprete, como sempre fazemos no Brasil, o liberalismo pelo viés aristocrático mal resolvido, vigente na sociedade, e se admita que a investidura num cargo público conceda ao investido a propriedade deste cargo como ocorre nas aristocracias. Nelas, a legitimidade está apenas do lado da nobreza que, por direito divino, é definida como superior à plebe, mas cuja obrigação seria dela “cuidar”, como tem redescoberto o nosso populismo. A nobreza, porém, perde legitimidade quando o laço de honra, de obrigação e de honestidade que deve marcar os seus laços com a plebe não é levado a sério. Ou seja, quando ela faz como o deputado e se lixa para a opinião pública. Maria Antonieta e os Luíses não se lixavam, mas davam pão e circo para o povo. Sabiam que, entre governantes e a opinião pública deveria haver algo mais do que descaso, insulamento político e arrogância aristocrática.
Nas democracias, se o laço entre representantes e representados tornase tênue, instala-se um processo de ilegitimidade. Ora, esse lixar-se para a opinião pública revela o tamanho da crise de legitimidade que decorre da aristocratização dos governantes, ao lado de uma sociedade redemocratizada pela livre iniciativa, por um mercado cheio de energia e por uma moeda estável: um único dinheiro que vale a mesma coisa para todos.
Num Brasil onde todos pagam uma enormidade de impostos e, com eles, os salários de todos os governantes, vai ficando cada vez mais intolerável ter câmara, parlamentos, ministérios e executivos aristocratizados com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Mais: vai ficando impossível verificar que é a sociedade que trabalha para o Estado e não o justo oposto.
É duro observar uma súcia majoritariamente incompetente (com alguns criminosos em seu meio) viver como nobres e milionários, tendo, além de tudo, o desplante de declarar que nós, a opinião pública, nada temos com eles."
ROBERTO DAMATTA - no Globo de hoje
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