maio 12, 2009
Com diamantes
Em grande evento, na semana passada ocorreu o lançamento de um novo modelo das sandálias havaianas aqui em Paris. Denominado FIT, está “a meio caminho entre seu DNA de base” e um modelo adaptado para ser usado na cidade.Instalado no primeiro andar da principal loja da Galeria Lafayette, um atelier se propõe a, durante dois meses e meio, customisar as sandálias com “diamants”. A customisação dá direito a um par de havaianas a cada ano pois neste caso também, só os diamantes são eternos. Parte dos ganhos será revestido para a Gol de Letra que tem entre seus criadores o Rai.
Se correr o bicho pega... ou come!
"Fazer exercício promove longevidade; já a ingestão de substâncias antioxidantes, como vitaminas, supostamente retardaria o envelhecimento. Mas essas duas opções de quem busca uma vida mais saudável podem ser contraditórias. Um novo estudo mostrou que tomar suplementos vitamínicos depois de fazer exercício pode causar a perda de um dos benefícios do esforço físico.
Um dos efeitos do exercício é melhorar a sensibilidade à insulina e o metabolismo do açúcar no corpo. Mas o exercício também aumenta a formação de moléculas altamente reativas contendo oxigênio, que causariam dano às células.
O novo estudo, publicado hoje no periódico "PNAS", mostra que o exercício ajuda a aumentar a sensibilidade do corpo à insulina justamente pela formação dessas espécies reativas de oxigênio, classificadas na categoria dos radicais livres, contra os quais agem as vitaminas.
"Nossa teoria era que os antioxidantes pudessem bloquear alguns dos efeitos benéficos do exercício, pois sabe-se que o exercício induz um leve estresse oxidativo no músculo", disse à Folha um dos líderes do estudo, C. Ronald Kahn, da Escola Médica de Harvard, nos EUA.
O estudo foi feito na Alemanha com 40 voluntários que fizeram exercícios e tomaram ou não vitaminas C e E.
As doses usadas "foram de 5 a 10 vezes a necessidade diária mínima de vitamina, mas essas doses são comumente usadas por pessoas que tomam suplementos de vitaminas C e E".
O experimento tinha duas partes. Primeiro foram quatro semanas de treinamento físico intenso para metade do grupo.
Metade de cada grupo -com ou sem treinamento prévio- foi então designada para receber ou não o suplemento vitamínico quando de um novo regime de treinamento, do qual todos participaram.
Os voluntários que tomaram os suplementos não tiveram mudança nos seus níveis de oxigênio reativo. Já os que não tomavam as vitaminas revelaram um aumento na formação de radicais livres.
O exercício aumentou a sensibilidade à insulina apenas quando não havia a presença extra dos antioxidantes.
E mesmo os radicais criados pelo exercício não eram tão "livres" assim. O pequeno estresse oxidativo fomentado pelo esforço físico "causou uma resposta adaptativa que promoveu a capacidade de defesa antioxidante endógena", como os autores descreveram no artigo que descreve o experimento."
RICARDO BONALUME NETO na FSP
Um dos efeitos do exercício é melhorar a sensibilidade à insulina e o metabolismo do açúcar no corpo. Mas o exercício também aumenta a formação de moléculas altamente reativas contendo oxigênio, que causariam dano às células.
O novo estudo, publicado hoje no periódico "PNAS", mostra que o exercício ajuda a aumentar a sensibilidade do corpo à insulina justamente pela formação dessas espécies reativas de oxigênio, classificadas na categoria dos radicais livres, contra os quais agem as vitaminas.
"Nossa teoria era que os antioxidantes pudessem bloquear alguns dos efeitos benéficos do exercício, pois sabe-se que o exercício induz um leve estresse oxidativo no músculo", disse à Folha um dos líderes do estudo, C. Ronald Kahn, da Escola Médica de Harvard, nos EUA.
O estudo foi feito na Alemanha com 40 voluntários que fizeram exercícios e tomaram ou não vitaminas C e E.
As doses usadas "foram de 5 a 10 vezes a necessidade diária mínima de vitamina, mas essas doses são comumente usadas por pessoas que tomam suplementos de vitaminas C e E".
O experimento tinha duas partes. Primeiro foram quatro semanas de treinamento físico intenso para metade do grupo.
Metade de cada grupo -com ou sem treinamento prévio- foi então designada para receber ou não o suplemento vitamínico quando de um novo regime de treinamento, do qual todos participaram.
Os voluntários que tomaram os suplementos não tiveram mudança nos seus níveis de oxigênio reativo. Já os que não tomavam as vitaminas revelaram um aumento na formação de radicais livres.
O exercício aumentou a sensibilidade à insulina apenas quando não havia a presença extra dos antioxidantes.
E mesmo os radicais criados pelo exercício não eram tão "livres" assim. O pequeno estresse oxidativo fomentado pelo esforço físico "causou uma resposta adaptativa que promoveu a capacidade de defesa antioxidante endógena", como os autores descreveram no artigo que descreve o experimento."
RICARDO BONALUME NETO na FSP
maio 11, 2009
Echarpes, cachecois e afins
Estive lendo o blog do Daniel Piza onde ele menciona a chegada do outono e os termômetros a menos de 20 graus que dariam lugar ao aparecimento de cachecóis, echarpes, lenços, foulards e xales enrolados no pescoço, de todas as cores, desenhos, tamanhos, tecidos e modos de usar. Segundo ele, (fico espantada de que se ocupe disto) os adereços têm sido típicos da meia-estação nos últimos anos, mas a cada temporada vêm com mais força e variedade e, agora, misturados a roupas leves como sandálias, camisetas e até decotes.
No hemisfério norte, onde a meia estação se encaminha para o verão, não se percebe o uso destes acessórios como modismo, mas como um recurso para proteção do colo e do pescoço. As temperaturas, ainda um tanto baixas nos inícios das manhãs, voltam a cair no fim das tardes cada vez mais longas.
Em comum com o fenômeno que se observa nos trópicos, apenas a multiplicidade de cores, estampas, texturas e modos de usar, uma vez que a necessidade deste acessório está muito longe de poder ser encarada como “ tendência” ou “ estilo”. Para concordar com o que afirmo é só clicar no título desta postagem.
Assim, visto daqui, fica curioso que se considere cobrir o pescoço tão atraente quanto exibir as pernas. Do mesmo modo, não vem ao caso a questão de as mulheres se vestirem para si mesmas ou para os homens. Pode até ser mesmo uma coisa e outra. E daí?
No hemisfério norte, onde a meia estação se encaminha para o verão, não se percebe o uso destes acessórios como modismo, mas como um recurso para proteção do colo e do pescoço. As temperaturas, ainda um tanto baixas nos inícios das manhãs, voltam a cair no fim das tardes cada vez mais longas.
Em comum com o fenômeno que se observa nos trópicos, apenas a multiplicidade de cores, estampas, texturas e modos de usar, uma vez que a necessidade deste acessório está muito longe de poder ser encarada como “ tendência” ou “ estilo”. Para concordar com o que afirmo é só clicar no título desta postagem.
Assim, visto daqui, fica curioso que se considere cobrir o pescoço tão atraente quanto exibir as pernas. Do mesmo modo, não vem ao caso a questão de as mulheres se vestirem para si mesmas ou para os homens. Pode até ser mesmo uma coisa e outra. E daí?
Sutilezas
Desprovida de moralismos falsos, achei curiosa esta notícia do NYT : Um site dos EUA que tem como slogan "a vida é curta, tenha um caso", oferece namoro para casados e já atraiu milhões de assinantes. Na cena do comercial , um casal celebra o aniversário de casamento. Estão em um restaurante à luz de velas, mas a noite não é nada romântica. Na metade do tempo, o marido fala de negócios ao telefone; na outra metade, lança olhares lascivos para a garçonete, usa a faca como espelho para limpar os dentes e sugere que a parceira vai engordar se comer sobremesa. O que ela deve fazer? Partir para o adultério, sugere abertamente.
O sucesso só não foi maior do que a comoção causada entre os defensores da “fidelidade”. Na verdade, um site como este apenas serve a um comportamento já existente e não será um comercial que vai convencer alguém a ter um caso, quem se encarrega disto é o próprio marido. A gente sabe que a maioria das mulheres não busca sexo. Não que sejam santas, mas algumas talvez até se contentem com uma pessoa mais interessante e divertida para jantares, drinks e conversas inteligentes, enquanto a maioria dos homens só quer sexo mesmo. Na França, onde há muita “ infidelidade”, a taxa de preservação de casamentos é muito maior do que a dos EUA com o seguinte detalhe: os franceses são mais sutis, não abrem mão dos jogos de sedução, que são a melhor parte...
O sucesso só não foi maior do que a comoção causada entre os defensores da “fidelidade”. Na verdade, um site como este apenas serve a um comportamento já existente e não será um comercial que vai convencer alguém a ter um caso, quem se encarrega disto é o próprio marido. A gente sabe que a maioria das mulheres não busca sexo. Não que sejam santas, mas algumas talvez até se contentem com uma pessoa mais interessante e divertida para jantares, drinks e conversas inteligentes, enquanto a maioria dos homens só quer sexo mesmo. Na França, onde há muita “ infidelidade”, a taxa de preservação de casamentos é muito maior do que a dos EUA com o seguinte detalhe: os franceses são mais sutis, não abrem mão dos jogos de sedução, que são a melhor parte...
maio 10, 2009
Frasco de perfume de outros tempos
“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.” A frase é do sobrinho Tancredi Falconeri ao tio, o principe Fabrizo Salina — ambos personagens do magnifico romance O Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, duque de Parma. Ninguém enunciou o postulado de forma tão encantadora e impenetrável quanto o ator francês Alain Delon na obra-prima cinematográfica de Luchino Visconti, a história dos tormentos de um príncipe da nobreza siciliana durante a tomada do poder pelos revolucionários do Risorgimento na Sicília.A colônia masculina Eau Sauvage, da Dior, continua igual desde que foi criada pelo perfumista Edmond Roudnistka em 1966. Naquele ano, Alain Delon tinha 31 anos, era considerado o James Dean francês, bonito (beau gosse) como Brigitte Bardot de calças. Desde então, a aparência do ator de 74 anos — quando refere-se a ele mesmo faz como o mito vivo Pelé, na terceira pessoa — mudou muito.
Para que tudo continue como está, ou seja, o clássico Eau Sauvage, mudou o rosto do seu garoto propaganda. Doravante ele é Alain Delon. Mas com uma fotografia do ator feita por Jean-François Périer no balneário de Saint Tropez… em 1966. Algumas mudanças foram feitas na imagem original para adaptar aos novos tempos. Ela perdeu a cor. Virou preto e branco para dar uma ar de nostalgia. O cigarro entre os dedos do galã desapareceu.
A Dior explica a escolha da imagem de Delon para vender o perfume, usado também pelo pai deste blogueiro, que se lembra da fragrância como uma espécie de madalene de Proust: “A imagem não envelheceu, vai nos permitir atrair tanto homens que lembram do Delon na época quanto aos consumidores jovens, seduzidos pelo ar rebelde e irreverente.” Na França, há boa chance de funcionar e além das suas fronteiras? Você sabe quem é o Delon, meu jovem leitor? Se não é o caso, veja O Samurai para começar.
A jogada marqueteira da Dior é alvissareira para ícones destronados pela ação do tempo e chegada de novas beldades. O baú pode conter prosperidade. Condição: não seguir uma moda atual, o puro deleite visual sem nenhum significado além da forma. Delon era bonito, mas tinha conteúdo, mesmo. Hoje, ele equivale a um frasco de perfume de outros tempos."
Do Blog do Antonio Ribeiro, de Paris
maio 09, 2009
Vingança normanda
Mont-Saint-Michel
O Mont-Saint-Michel foi um lugar de peregrinação ao longo da Idade Média. Hoje, mil e trezentos anos depois de sua fundação, desde que passamos a combater nossos “dragões” com outras armas, o culto ao arcanjo São Miguel anda meio em baixa. Ainda assim, o lugar continua sendo muito visitado
O chamado “turismo de massa” ( maior indústria da França) traz, nos 365 dias do ano, centenas de ônibus com gente de todas as procedências e idades. Milhares de pessoas, pouco interessadas em sua história, armadas com câmerass digitais se atropelam pelas estreitas ruelas, entre lojas de souvenirs e outras “armadilhas”.
A visita à abadia não é acessível à qualquer "joelho”. Decidi poupar o meu. Afinal não tinha nenhuma promessa para pagar.
Os restaurantes, antes do menu, anunciam a vista para a baía, cujas marés se encarregam de modificar a paisagem, garantindo o espetáculo. Ontem a previsão era de que a maré encheria a partir das 18 hs. O fenômeno não importa mais no isolamento da Abadia como em outros tempos.

Atrás de nosso hotel passava o rio e da sacada de nosso quarto se tinha vista para a abadia e, em primeiro plano, uma eclusa.
O chamado “turismo de massa” ( maior indústria da França) traz, nos 365 dias do ano, centenas de ônibus com gente de todas as procedências e idades. Milhares de pessoas, pouco interessadas em sua história, armadas com câmerass digitais se atropelam pelas estreitas ruelas, entre lojas de souvenirs e outras “armadilhas”.
maio 08, 2009
maio 07, 2009
Ahmadinejad e Foucault
"O PRESIDENTE do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, adiou sua visita ao Brasil. Melhor assim. Ele é uma das figuras mais sinistras da praça política mundial: uma encarnação do ódio assassino como solução para o fato de que sempre há outros que vivem, pensam e sentem de uma maneira diferente da nossa.
Há um problema no Oriente Médio? Simples, basta acabar com os judeus e aniquilar o Estado de Israel. Isso lhe lembra algo que já aconteceu? Não se preocupe: o genocídio é uma invenção sionista. Há iranianos que pulam a cerca? Simples, basta massacrar as adúlteras, mesmo que tenham sido estupradas. Há iranianos homossexuais? Eventualmente, "tinha" - já não tem mais. E por aí vai, para todos os dissidentes, externos e internos.
Ultimamente, em Genebra, quando Ahmadinejad falou, os diplomatas ocidentais deixaram a sala. Os brasileiros apenas emitiram uma nota de repúdio. Três razões:
1) O Irã é um bom comprador no Oriente Médio, e dinheiro não tem cheiro. Discordo desse argumento neoliberal: o dinheiro tem cheiro, sim, sobretudo quando vem numa mala de carniças.
2) Ahmadinejad extrapola porque está em campanha e se endereça à sua base eleitoral. Quer dizer que ele se sustenta numa base que pensa como ele? Pior ainda.
3) Campeão da coexistência de diferenças (étnicas, religiosas e infelizmente econômicas), o Brasil pode ser um valioso mediador de conflitos. Ótimo, mas o que significa mediar? Por uma limitação da qual não quero me desfazer, eu não consigo ponderar os problemas do mundo sem pensar nos indivíduos. E, conversando com Ahmadinejad, seria assombrado pela visão de uma mulher tremendo de medo, num porão, incapaz de invocar seu deus porque, segundo lhe ensinaram, ele está inteiramente com um grupo de barbudos que, sentados no quarto de cima, tomam chá e decidem quando ela será apedrejada. É um pensamento que me dá nojo.
Reli os artigos que Michel Foucault escreveu para o "Corriere della Sera", durante duas viagens ao Irã, em 1978, no começo da "Revolução" Iraniana (em "Dits et Ecrits vol. 2, 1976-1983", Gallimard, e, em inglês, "Foucault and the Iranian Revolution", University of Chicago).
Foucault me ensinou a enxergar a mão furtiva do poder, mesmo nas sociedades aparentemente "livres". Como foi que ele escreveu uma apologia entusiasta do que já prometia ser um regime totalitário como poucos na história?
No sábado passado, neste espaço, Antônio Cicero também voltou a esses escritos de Foucault -talvez inspirado pela visita iminente. Cicero argumentou que o relativismo libertário (a ideia de que não temos o direito de julgar regimes de verdade diferentes do nosso) levou Foucault a defender um fundamentalismo que não reconhece nenhuma verdade que não seja a dele. Concordo. O relativismo só faz sentido se ele for uma exceção à sua própria regra: todos os regimes de verdade são respeitáveis, salvo os que não respeitam a verdade dos outros.
Mas o que mais me impressionou, relendo Foucault, foi que, naquelas viagens, ele não ouviu nenhuma voz de dissenso. Só percebeu a perfeita unanimidade de um povo desejoso de se refundar "espiritualmente", além de suas diferenças políticas. Talvez ele tenha saído de Paris já decidido a encontrar, na "Revolução" Iraniana, o protótipo de uma nova esperança coletiva.
Aparentemente, vale também para Foucault: sermos indivíduos é uma tarefa árdua, que suscita a nostalgia permanente de uma coletividade em que poderíamos, enfim, descansar. Algo assim: que venha a "vontade geral" com a qual sonhava Rousseau e nos permita renunciar por um tempo a nossas responsabilidades singulares!
Pois bem, Ahmadinejad nos lembra que a "vontade geral" se constrói sempre sobre os cadáveres dos que não concordam.
Foucault achava que a psicanálise, levando-nos a falar sobre os desejos sexuais, abre a porta para que o poder se insinue em nossa vida privada. Pode ser, mas, para mim, o legado irrenunciável da psicanálise é sobretudo a necessidade de pensar nas pessoas uma por uma, sem ilusões e entusiasmos coletivos, ou seja, sem esquecer aquela mulher que, no porão, ainda está esperando para saber a que horas será apedrejada.
Presidente Lula, caso Ahmadinejad seja reeleito e venha ao Brasil, na hora da foto oficial, peço-lhe, por favor, que o senhor pense nessa mulher e se abstenha de sorrir."
CONTARDO CALLIGARIS
Há um problema no Oriente Médio? Simples, basta acabar com os judeus e aniquilar o Estado de Israel. Isso lhe lembra algo que já aconteceu? Não se preocupe: o genocídio é uma invenção sionista. Há iranianos que pulam a cerca? Simples, basta massacrar as adúlteras, mesmo que tenham sido estupradas. Há iranianos homossexuais? Eventualmente, "tinha" - já não tem mais. E por aí vai, para todos os dissidentes, externos e internos.
Ultimamente, em Genebra, quando Ahmadinejad falou, os diplomatas ocidentais deixaram a sala. Os brasileiros apenas emitiram uma nota de repúdio. Três razões:
1) O Irã é um bom comprador no Oriente Médio, e dinheiro não tem cheiro. Discordo desse argumento neoliberal: o dinheiro tem cheiro, sim, sobretudo quando vem numa mala de carniças.
2) Ahmadinejad extrapola porque está em campanha e se endereça à sua base eleitoral. Quer dizer que ele se sustenta numa base que pensa como ele? Pior ainda.
3) Campeão da coexistência de diferenças (étnicas, religiosas e infelizmente econômicas), o Brasil pode ser um valioso mediador de conflitos. Ótimo, mas o que significa mediar? Por uma limitação da qual não quero me desfazer, eu não consigo ponderar os problemas do mundo sem pensar nos indivíduos. E, conversando com Ahmadinejad, seria assombrado pela visão de uma mulher tremendo de medo, num porão, incapaz de invocar seu deus porque, segundo lhe ensinaram, ele está inteiramente com um grupo de barbudos que, sentados no quarto de cima, tomam chá e decidem quando ela será apedrejada. É um pensamento que me dá nojo.
Reli os artigos que Michel Foucault escreveu para o "Corriere della Sera", durante duas viagens ao Irã, em 1978, no começo da "Revolução" Iraniana (em "Dits et Ecrits vol. 2, 1976-1983", Gallimard, e, em inglês, "Foucault and the Iranian Revolution", University of Chicago).
Foucault me ensinou a enxergar a mão furtiva do poder, mesmo nas sociedades aparentemente "livres". Como foi que ele escreveu uma apologia entusiasta do que já prometia ser um regime totalitário como poucos na história?
No sábado passado, neste espaço, Antônio Cicero também voltou a esses escritos de Foucault -talvez inspirado pela visita iminente. Cicero argumentou que o relativismo libertário (a ideia de que não temos o direito de julgar regimes de verdade diferentes do nosso) levou Foucault a defender um fundamentalismo que não reconhece nenhuma verdade que não seja a dele. Concordo. O relativismo só faz sentido se ele for uma exceção à sua própria regra: todos os regimes de verdade são respeitáveis, salvo os que não respeitam a verdade dos outros.
Mas o que mais me impressionou, relendo Foucault, foi que, naquelas viagens, ele não ouviu nenhuma voz de dissenso. Só percebeu a perfeita unanimidade de um povo desejoso de se refundar "espiritualmente", além de suas diferenças políticas. Talvez ele tenha saído de Paris já decidido a encontrar, na "Revolução" Iraniana, o protótipo de uma nova esperança coletiva.
Aparentemente, vale também para Foucault: sermos indivíduos é uma tarefa árdua, que suscita a nostalgia permanente de uma coletividade em que poderíamos, enfim, descansar. Algo assim: que venha a "vontade geral" com a qual sonhava Rousseau e nos permita renunciar por um tempo a nossas responsabilidades singulares!
Pois bem, Ahmadinejad nos lembra que a "vontade geral" se constrói sempre sobre os cadáveres dos que não concordam.
Foucault achava que a psicanálise, levando-nos a falar sobre os desejos sexuais, abre a porta para que o poder se insinue em nossa vida privada. Pode ser, mas, para mim, o legado irrenunciável da psicanálise é sobretudo a necessidade de pensar nas pessoas uma por uma, sem ilusões e entusiasmos coletivos, ou seja, sem esquecer aquela mulher que, no porão, ainda está esperando para saber a que horas será apedrejada.
Presidente Lula, caso Ahmadinejad seja reeleito e venha ao Brasil, na hora da foto oficial, peço-lhe, por favor, que o senhor pense nessa mulher e se abstenha de sorrir."
CONTARDO CALLIGARIS
maio 06, 2009
O triunfo dos porcos
"Fantasiamos há muito tempo a nossa própria destruição coletiva; nossa histeria é incurável
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DESISTI DE fazer terapia no dia em que comecei a sentir-me culpado por não me sentir culpado. O analista esperava confissões pungentes sobre horrores vários e infantis. Nada tinha para lhe dizer. E essa ausência de esqueletos no armário começou a alimentar uma angústia sem nome. Eu era um caso dramático de ansiedade por falta de ansiedade.
Ainda sou. E assim se entende o meu estado de espírito sempre que o ano avança e não existe nenhum apocalipse pronto para exterminar a raça humana. Os meses passavam: janeiro, fevereiro, março. E as autoridades mundiais não lançavam gritos lancinantes sobre uma doença, uma anomalia técnica, um vírus descontrolado e mortal. Nem sequer um espirro! Sei do que falo. Vocês, leitores, também. Nos últimos dez, 15 anos, praticamente não tivemos sossego. Basta consultar "Scared to Death", um livro notável que Christopher Booker e Richard North publicaram recentemente no Reino Unido.
Antes mesmo do século 21 começar, os perigos estavam nas vacas e na carne delas. A doença tinha nome divertido ("doença da vaca louca") e consequências menos divertidas: uma doença neurológica degenerativa e incurável que prometia condenar meio milhão de seres humanos a uma morte precoce e terrível.
Lembro-me bem: imagens de vacas trémulas, a dançar o twist; a matança de milhares delas, com ou sem sintomas; e os criadores de gado arruinados. Muitos optaram pelo suicídio. Pobrezinhos. Ainda hoje está por provar que a encefalopatia espongiforme bovina seja a causa da doença de Creutzfeldt-Jacob nos seres humanos.
Veio o milênio. E, com o milênio, vieram novos perigos. Não de origem animal. Mas humana. Ou, se preferirem, tecnológica. Na virada de 1999 para 2000, um "bug" informático iria paralisar as cidades, os transportes, o sistema bancário e financeiro. Aviões cairiam do céu. Milhões de doentes não resistiriam à paragem das máquinas. Os países mais desenvolvidos gastaram US$ 300 bilhões de dólares (estimativa conservadora) para evitarem o colapso. Quando a meia-noite soou, o mundo, inexplicavelmente, continuou. Suspirou-se de alívio. Ou de desilusão? Os suspiros duraram pouco tempo. Se a humanidade resistira ao "bug" informático, não iria sobreviver à "gripe das aves". A Organização Mundial de Saúde garantia que 7 milhões de pessoas estavam condenadas. As Nações Unidas, não contentes com 7 milhões, falavam já em 150 milhões. Especialistas vários preferiam dizer 350 milhões. Moral da história?
Morreram 200 pessoas, sobretudo na Ásia rural, onde a pobreza e a desnutrição não ajudam. Morreram incomparavelmente menos pessoas do que as vítimas normais que a gripe normal provoca todos os anos, em todos os países do mundo.
Eis a verdade: andamos há muito tempo a fantasiar a nossa própria destruição coletiva. São as vacas. As aves. O "bug" informático. A pneumonia atípica. A catástrofe ecológica e climatérica que nos espera. Ou, para sermos mais atuais, uma gripe de origem suína e mexicana que, nas palavras de Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial de Saúde, coloca toda a humanidade em risco. Que essa "gripe suína" esteja sobretudo confinada ao México, pouco importa. Que as vítimas do México sejam praticamente insignificantes quando comparadas com as vítimas regulares de gripe regular, também não. E que os infectados fora do México estejam a responder aos medicamentos disponíveis, muito menos. A realidade dos fatos não altera a nossa histeria. E não altera porque a nossa histeria é profunda e incurável. Hoje, vivemos mais. Hoje, vivemos melhor. Mas apesar disso, ou sobretudo por causa disso, entramos em pânico sempre que a morte, ou mesmo a mera possibilidade da morte, ameaça o nosso único deus: o corpo, o nosso corpo, e a "Religião da Saúde" que substituiu todas as outras teologias tradicionais. Tememos a nossa destruição física. Mas, como em qualquer temor, recriamos e até desejamos essa mesma destruição, como se isso redimisse a radical solidão dos homens de hoje. Tão modernos que somos. E tão entediados que nos sentimos.
Um conselho: nada nesta vida se faz sem perseverança. Quem sabe? Se desejarmos muito que algo aconteça, talvez um dia alguém lá cima se lembre de responder às nossas preces."
JOÃO PEREIRA COUTINHO
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DESISTI DE fazer terapia no dia em que comecei a sentir-me culpado por não me sentir culpado. O analista esperava confissões pungentes sobre horrores vários e infantis. Nada tinha para lhe dizer. E essa ausência de esqueletos no armário começou a alimentar uma angústia sem nome. Eu era um caso dramático de ansiedade por falta de ansiedade.
Ainda sou. E assim se entende o meu estado de espírito sempre que o ano avança e não existe nenhum apocalipse pronto para exterminar a raça humana. Os meses passavam: janeiro, fevereiro, março. E as autoridades mundiais não lançavam gritos lancinantes sobre uma doença, uma anomalia técnica, um vírus descontrolado e mortal. Nem sequer um espirro! Sei do que falo. Vocês, leitores, também. Nos últimos dez, 15 anos, praticamente não tivemos sossego. Basta consultar "Scared to Death", um livro notável que Christopher Booker e Richard North publicaram recentemente no Reino Unido.
Antes mesmo do século 21 começar, os perigos estavam nas vacas e na carne delas. A doença tinha nome divertido ("doença da vaca louca") e consequências menos divertidas: uma doença neurológica degenerativa e incurável que prometia condenar meio milhão de seres humanos a uma morte precoce e terrível.
Lembro-me bem: imagens de vacas trémulas, a dançar o twist; a matança de milhares delas, com ou sem sintomas; e os criadores de gado arruinados. Muitos optaram pelo suicídio. Pobrezinhos. Ainda hoje está por provar que a encefalopatia espongiforme bovina seja a causa da doença de Creutzfeldt-Jacob nos seres humanos.
Veio o milênio. E, com o milênio, vieram novos perigos. Não de origem animal. Mas humana. Ou, se preferirem, tecnológica. Na virada de 1999 para 2000, um "bug" informático iria paralisar as cidades, os transportes, o sistema bancário e financeiro. Aviões cairiam do céu. Milhões de doentes não resistiriam à paragem das máquinas. Os países mais desenvolvidos gastaram US$ 300 bilhões de dólares (estimativa conservadora) para evitarem o colapso. Quando a meia-noite soou, o mundo, inexplicavelmente, continuou. Suspirou-se de alívio. Ou de desilusão? Os suspiros duraram pouco tempo. Se a humanidade resistira ao "bug" informático, não iria sobreviver à "gripe das aves". A Organização Mundial de Saúde garantia que 7 milhões de pessoas estavam condenadas. As Nações Unidas, não contentes com 7 milhões, falavam já em 150 milhões. Especialistas vários preferiam dizer 350 milhões. Moral da história?
Morreram 200 pessoas, sobretudo na Ásia rural, onde a pobreza e a desnutrição não ajudam. Morreram incomparavelmente menos pessoas do que as vítimas normais que a gripe normal provoca todos os anos, em todos os países do mundo.
Eis a verdade: andamos há muito tempo a fantasiar a nossa própria destruição coletiva. São as vacas. As aves. O "bug" informático. A pneumonia atípica. A catástrofe ecológica e climatérica que nos espera. Ou, para sermos mais atuais, uma gripe de origem suína e mexicana que, nas palavras de Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial de Saúde, coloca toda a humanidade em risco. Que essa "gripe suína" esteja sobretudo confinada ao México, pouco importa. Que as vítimas do México sejam praticamente insignificantes quando comparadas com as vítimas regulares de gripe regular, também não. E que os infectados fora do México estejam a responder aos medicamentos disponíveis, muito menos. A realidade dos fatos não altera a nossa histeria. E não altera porque a nossa histeria é profunda e incurável. Hoje, vivemos mais. Hoje, vivemos melhor. Mas apesar disso, ou sobretudo por causa disso, entramos em pânico sempre que a morte, ou mesmo a mera possibilidade da morte, ameaça o nosso único deus: o corpo, o nosso corpo, e a "Religião da Saúde" que substituiu todas as outras teologias tradicionais. Tememos a nossa destruição física. Mas, como em qualquer temor, recriamos e até desejamos essa mesma destruição, como se isso redimisse a radical solidão dos homens de hoje. Tão modernos que somos. E tão entediados que nos sentimos.
Um conselho: nada nesta vida se faz sem perseverança. Quem sabe? Se desejarmos muito que algo aconteça, talvez um dia alguém lá cima se lembre de responder às nossas preces."
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Bons e maus odores
Primeiro fomos a Galerie Lafayette e só depois ao Le Grand Café Capucines. Ficou impossível suportar o mau cheiro das lindas recepcionistas e dos garçons. Em que pese a ótima cozinha, a cada vez que se aproximavam de nossa mesa tínhamos que prender a respiração. Mas deixavam o rastro...Impregnadas de bons perfumes, ficamos mais sensíveis aos maus odores. Lamentavelmente, não é lenda a fama de que eles não tomam banho...




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