maio 02, 2009

A bunda já não abunda

"Bunda é palavra sonora, vogal, insinuante, simpática, risonha, franca, redonda, provocante, faceira e feminina. Quando eu era menino, ninguém chamava bunda de bumbum. Essa invenção de mau gosto é coisa recente. A bunda abundava plena. As avós mais puritanas a pronunciavam sem vergonha alguma. No diminutivo, quando se referindo às dos netos: injeção na bundinha, caiu de bundinha no chão. E bunda-canástica era brincadeira que todo menino pequeno brincava.
Nos Jogos Intercolegiais, tinha uma menina que jogava vôlei pelo Vera Cruz (ou Damas?) que a gente chamava de Raimunda: "feia de cara, boa de bunda." A bunda vive (ou "se diverte") por conta própria, como nos disse o poeta. E não depende da cara da dona.
Feliz o povo que tem bunda. Os portugueses mesmo não têm. Nem bunda palavra nem bunda propriamente dita. Talvez por isso sejam tão melancólicos. Não têm dança de requebro. Usam uma única palavra (aquela de uma sílaba, palavra seca, áspera, aguda, dura, essa sim, feia) para se referir à parte e ao todo. Para que se avalie a aberração, seria como se chamássemos de amídala tanto o rosto quanto a própria amídala.
Por falta de bunda na língua lá deles, veja só o que disse Manuel Maria Barbosa Du Bocage: "(Era) a dama mais formosa, / E nunca se viu cu de tanta alvura." Fosse brasileiro o gajo, saber-se-ia com precisão a que parte da dama se referia o poeta.
Nádega e região glútea, evidentemente, não valem. Seria o mesmo que chamar a bunda de senhora ou majestade. Assim, quando alguém ouvir a expressão "senhora bunda", saiba que não se trata de saudação cerimoniosa, mas, apenas, do anúncio de uma bela bunda. Uma senhora bunda. Com todo respeito. Ou não.
O poeta Carlos Drummond de Andrade, observador arguto e falso tímido – mineirice de come-quieto – era conhecedor, apreciador e versejador do tema: "A bunda está sempre sorrindo, nunca é trágica. /(...) A bunda são duas luas gêmeas / em rotundo meneio. Anda por si / na cadência mimosa, no milagre / de ser duas em uma, plenamente. / A bunda se diverte / por conta própria. E ama. / (...) Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz / na carícia de ser e balançar. / (...) A bunda é a bunda, / rebunda."
As bundas propriamente ditas, rechonchudas e empinadas, nos foram trazidas pelas negras de etnia banta: angolanas, sobretudo angolanas, cabindas, benguelas, congonesas e moçambicanas. A bunda palavra nos veio da língua delas, o kimbundu: mbunda.
Eu me recuso a chamar bunda de bumbum. Bunda é bunda e bumbum não é nada. É ridículo, apenas. E o pior de tudo é que se diz bumbum como se bunda fosse palavrão. Na verdade, coisa feia é chamar uma bela bunda de..., vocês sabem, não vou mais repetir, nem hoje nem nunca, esse outro nome.
A bunda é afrobrasileira. Que abunde, pois. A bunda é nossa!"
Joca Souza Leão

La Seine ...

recebeu a W com um por de sol en rose.

Primeiro de maio

Em torno da estátua equestre de Joanna d´Arc
Um primeiro de maio com a cara da França: mais de um milhão de pessoas em manifestações por todos os lados. No fim da tarde, presenciamos um cerco da polícia ao Hotel de Ville que estava sendo invadido. Os manifestantes (alguns encapuzados) abriam algumas janelas e colocavam faixas, enquanto gritavam palavras de ordem. O clima era de uma praça de guerra com a polícia equipada com todos oa aparatos. Não esperamos para ver o desfecho...No mesmo lugar estão, permanentemente, faixas e manifestantes protestando a propósito de tudo e de qualquer coisa. Faz uns dias passei lá e como tinha havido eleições na Finlândia, um grande grupo deles se manifestava. Não entendi se contra ou a favor, nem de que ou de quem pois se expressavam em finlandes. Ninguém se acomoda com nada nem " engole" qualquer explicação furada. Aqui o bem estar social está acima da "sagrada" família dos políticos...e nada fica por isto mesmo!

maio 01, 2009

Divagações

Ao me instalar aqui, acreditava que (como nas vezes anteriores), teria acesso a uma rede aberta, ainda que “ não segura” de internet. Resolvidas as questões domésticas, liguei o laptop e tentei me conectar. Não tive sucesso. Como era noite, deixei o assunto para o dia seguinte. Tive que resolver algumas pendências e ir ao aeroporto receber a minha amiga. Chegada do Brasil com o natural cansaço de uma noite de vôo e a defasagem de fuso-horário, saímos para o que seria o seu almoço e o meu jantar, seguido daquele primeiro contato com a cidade (para mim, o Sena é obrigatório). Os dias já estão longos . O por do sol acontece em torno das 9 horas.... Ah! como sinto não experimentar mais certas emoções. Deslumbramento é uma delas (não consigo recuperar esta sensação que, como tantas outras, se perderam). Voltamos para casa passando pela pirâmide do Louvre que fotografei naquele crepúsculo que nem ouso descrever (v.posts anteriores).
A impossibilidade de conexão era mencionada como um problema menor e só passou a ter um maior siginficado pela necessidade que as pessoas tem de enviar notícias “para casa”. Um referencial temporariamente (?) perdido: “casa” . Faz um tempo que estou tentando definir o que e onde devo considerar “ minha casa” . Hoje é aqui. Como foi, ultimamente, Floripa, Curitiba, Bayonne, Matosinhos... Como será Barcelona e depois Fortaleza....
Então, não sendo para se comunicar com a “ casa”, por que me faz falta a internet? Nunca estive sequestrada, presa, isolada num claustro ou numa UTI, nem perdida na floresta nem vagando em um barco à deriva, mas são estas situações que me ocorrem diante da sensação de isolamento por não ter conexão.
Pronto falei! que não venham agora me apontar os nomes das síndromes e as terapias aplicáveis. Estou longe de ficar como a da fotografia. Acalmem-se!
Não sou dependente de notícias. Dos jornais leio somente determinados colunistas. Leio muitos blogs de jornalistas, escritores, publicitários e de mortais comuns que também pensam e tem o que dizer. A propósito de blogs, aqui na França, cada político tem o seu. Afinal, além de serem alfabetizados, eles têm compromissos com os que os elegeram, a quem prestam contas de seus atos. Através de seus blogs são acompanhados e respondem as questões que lhes são colocadas.
Bom, sem conexão, fica difícil até sair de casa. É preciso ligar a TV e esperar um boletim da Meteo. Vamos para onde? Programações, horários, ingressos estão na internet. Não se vê mais uma revistinha que se chamava Pariscope que trazia tudo isto....
Tenho uma pendência no La Poste. Um collis que não chegava e que foi entregue sabedeus a quem. Só se resolve pela internet. Vamos a Giverny? Quais os horários do trem e o dia da semana que a Fundação Monet não abre? Só se sabe pela internet....
E para não ir mais longe. A clé internet que comprei para me conectar é recarregável (pago por hora). O atendente da SFR diz para fazer pela internet . Ora, só posso recarregar quando terminam os créditos que devem ser pagos na boutique SFR e com os créditos zerados como posso acessar para recarregar? Eles sempre ficam impacientes diante deste questionamento. Outro dia uma atendente me passou para o colega, dizendo que eu a levara ao seu limite... Até onde vai a burrice humana ou o quanto não se quer pensar, deixando tudo por conta das máquinas? Ontem, tive um rasgo típico de velhinha, dei um beijo na bochecha do rapazinho que compreendeu imediatamente a situação e recarregou a clé, sem maiores explicações...

abril 30, 2009

Encanto de jarra...

e suas múltiplas funções. Inclusive a de espelho!

Qualquer imagem...


Tulherias
Champs de Mars
Porto do Sena

No escuro

Como toda cidade grande, Paris tem seus lugares insólitos e/ou bizarros. Um deles me pareceu dos mais ...(não esquecendo, bien sûr, os que são impublicáveis). Imagine jantar na escuridão total, ser guiada ao entrar e ser servida por uma equipe de non-voyants! Isto mesmo, cegos! O restaurante propõe esta experiência inédita com o objetivo de ressaltar os outros sentidos. O “conceito” já fez escola em Londres, Moscou e Varsóvia. Quem se interessar, é clicar no título.

abril 26, 2009

Couples

Domingo passado, nas andanças por Montmartre, encontrei Couples (Casais ) - as mais célebres histórias de amor (Bárbara Sichtermann). Entre os casais, estão Rimbaud e Verlaine, Gerturde Stein e Alice Toklas, Lou Salomé e Rainer Maria Rilke passando por casais mais convencionais, nem Adão e Eva foram esquecidos. O livro, ricamente ilustrado, traz casais históricos ou fictícios, criados pela literatura, poesia, ópera ou cinema que demonstram toda a aventura e incertitudes do amor.
Neste momento, leio a respeito da descoberta de um arqueólogo que alardeia que Cleópatra e Marco Antonio foram enterrados juntos. O adeus de Marco Antonio à Cleópatra celebrizado por Shakespeare foi imortalizado no cinema – por Elizabeth Taylor e o seu eterno Marco Antonio e muitas vezes marido Richard Burton.
Cleópatra morreu faz 2.039 anos. Foi a última rainha do Egito e mãe do filho único do homem mais poderoso do seu tempo, Julio Cesar. Depois de seu assassinato, teve mais três filhos com Marco Antonio. Foi a maternidade que lhe assegurou o trono de um reino decadente mas a sua fama perdura por atributos distintos dos que fazem grandes os personagens históricos. Bela e sedutora, ao saber da morte de Marco Aurélio teria induzido uma serpente venenosa a morder-lhe o seio. Na verdade, não se sabe se suicidou-se, foi feita prisioneira ou se foi assassinada. O certo é que, como as mulheres inteligentes, Cleópatra era perigosa e valeu-se da promiscuidade e virilidade para conseguir reconciliar culturas distintas e seus interesses. Morreu por amor, como uma Julieta qualquer.
Tragédias da paixão acompanharam e inspiraram a humanidade. Cleópatra, ao que tudo indica, foi protagonista de uma das mais famosas. Agora cabe à arqueologia a tarefa de fornecer provas para transformar a lenda em realidade. A eventual descoberta seria o maior achado arqueológico desde 1923, quando foi encontrada a múmia do Faraó Tutancamon com seus 3.500 pertences intactos.

La Defense

Este centro econômico, onde se encontram as sedes de muitas empresas francesas e multinacionais, centros comerciais etc., está situado no subúrbio de Paris, no prolongamento do axe historique que começa no Louvre, prossegue pelos Champs-Élysées, Arco do Triunfo, se projeta até à ponte de Neuilly e termina no Grande Arche. Nem o colorido das esculturas (a da foto é Miró), a água dançante da fonte ou a singeleza do corrossel quebram a aridez do ambiente vitrificado. Na área residencial a população é de imigrantes, na maioria árabes.