abril 17, 2009

A R R I V É E

De coração partido e deixando muitos pedaços em Portugal, estamos em Paris. Fim de tarde, trânsito meio caótico, os parisienses, como em qualquer cidade, tentam retornar para suas casas. A interminável festa sobrevive apenas na fantasia dos que vem de passagem e com a cabeça prenhe de literatura e de cinema.. A vida dos parisienses é mesmo: metro+boulot+dodo (leia-se: metrô, bulô e dodô= metrô, trabalho e cama) . O glamour dos cafés e do eterno ócio é só para alguns, privilegiados e igualmente enfastiados que “bufam” da mesma maneira e encontram sempre alguma coisa de que reclamar.
Largamos as malas em casa e fomos imediatamente ao mercado (que não são super e nem ficam abertos noite afora) , onde presenciamos, à moda francesa (como se nada estivesse acontecendo), uma discussão entre dois africanos que brigavam por um boné. Deu até polícia dentro da loja. Os franceses se mantiveram alheios. E nós também.
Jantamos em casa, depois de eu arrastar alguns móveis. A disposição deles parece sempre seguir a lógica da última pessoa a ocupar o apartamento e que nunca coincide com a minha. Gostaria de ter retornado o espelho para cima da lareira, mas tive medo de não conseguir. Vai ficar o quadro horroroso que colocaram lá e o espelhão acima da minúscula escrivaninha do vestíbulo me incomodando...De novo, uma cadeira em lona vermelha (com cara de Ikea) que trouxe para frente da TV e uma máquina de lavar roupa, cujo manual de instrução é quase um larrousse.
Daqui a pouco terei lido e a faço funcionar. Sempre na cozinha pois não ocorre, nem aos arquitetos novos, pensar num espaço óbvio que é uma área de serviço.
O problema, no momento, pois espero encontrar solução, é o de como me conectar.Estou postando de um lugar público, mas gostaria de estar mesmo era na minha cama....

abril 14, 2009

D.O.C - fora de controle



No passeio do domingo, almoçamos neste restaurante que dizem tratar-se do primeiro restaurante semi-aquático do Douro e que fica na estrada entre a Régua e o Pinhão, um dos percursos mais bonitos do país. O restaurante tem uma esplanada sobre as águas do rio, com vista para os vinhedos e montes de xisto, características paisagísticas da região. Como se pode ver, clicando no título, o lugar é lindo e chic, "cozinha de autor" e outros requintes, mas ao cabo de alguns minutos nos demos conta de que estávamos desconfortáveis no ambiente por conta do nervosismo e da correria dos atendentes. Tensos, desenfreados e barulhentos saiam da cozinha aos tropeções e praticamente corriam entre as mesas. Uma equipe desafinada e mal treinada que não combinava com as pretensões da casa. Resolvemos comunicar ao gerente nosso mal estar e este, para nossa surpresa, chamou alguns até nossa mesa para dizê-los que estávamos incomodados. Foi um tanto constrangedora a sua falta de tato para lidar com a situação mas nos pareceu que deixaram de correr e passaram a agir com mais calma e menos barulho que já era acentuado por uma música num volume inadequado
Enfim, uma ótima cozinha numa paisagem deslumbrante
um com serviço de churrascaria de rodízio. Como se não bastasse, os depósitos de lixo e de material na entrada principal.

abril 13, 2009

POEMA GEOLÓGICO

O Alto Douro ou Alto Douro Vinhateiro é uma área do nordeste de Portugal com mais de 26 mil hectares, classificada pela UNESCO, como Património da Humanidade, na categoria de paisagem cultural. Esta região, banhada pelo Rio Douro, faz parte do chamado Douro Vinhateiro, produz vinho há mais de 2000 anos, entre os quais, o mundialmente célebre vinho do Porto.
"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta." (Miguel Torga, Diário XII - Miguel Torga é o pseudónimo literário do médico Adolfo Correia da Rocha, nascido em S. Martinho de Anta - Trás-os-Montes. “Torga”é uma planta transmontana, urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Tão agarrada à terra quanto ele foi.)

P I N H Ã O

"As margens do Douro cobriram-se de vinha que viriam a originar o fantástico vinho do Porto, mas só a partir de 1678 é que surgiu essa designação por iniciativa dos primeiros ingleses que chegaram à região. O Pinhão tornava-se no inicio do século XX num importante entreposto de Vinhos Finos que escoava o produto até Gaia pelos barcos rabelos. O Vinho do Porto, principal fonte de desenvolvimento desta freguesia do concelho de Alijó, surgiu, quando em 1638, Cristiano Kopke, cidadão alemão, resolveu fundar, no Porto, uma empresa ligada à exportação de vinhos. A região do Alto Douro começou, então, a crescer do ponto de vista vinícola. Os conflitos que ocorreram, no século XVII, entre ingleses e franceses, por causa dos vinhos, permitiram à produção vinícola duriense afirmar-se no mercado britânico, inicialmente com designações “Red Portugal” ou “Lisbon Wine” e, a partir de 1678, como “Vinho do Porto”. O primeiro registo oficial de exportações de vinho pela Alfândega do Porto remonta a 1678, tendo saído de Portugal, nesse ano, 400 pipas de vinho. Nessa época, para além da “Kopke”, faziam já negócio no Douro a “Warre” e a “Croft”."

"Arroz do mesmo"

No retorno do périplo em Braga e Guimarães fomos jantar no Aleixo. Dias atrás andei falando aqui em 'cozinha de fusão '. Hoje, para começo de conversa , devo mencionar a chamada 'cozinha de autor', só para não pensarem que a ignoro, mas me interessa falar de outra cozinha, a tradicional e, no caso, a portuguesa. Conheço poucos, mas a Casa Aleixo, no Porto, me parece o mais adoravelmente conservador dos restaurantes que tenho frequentado ultimamente, o que vejo como uma excentricidade a ter em conta (talvez por ser eu mesma um tanto conservadora nesta área). Situado perto da Estação da Campanhã, o ambiente é muito acolhedor, tem as paredes de pedra cobertas por fotografias, o balcão de mármore e o chão é calçada portuguesa, como a cozinha, onde os sabores são todos inspirados nos pratos típicos. O certo é que no Aleixo não paira qualquer ameaça à nossa estabilidade emocional e gastronómica. Tendo os bolinhos de bacalhau como entrada, para mim as variações tem ficado entre os filetes de pescada ( uma lenda na casa ) ou filetes de polvo “com arroz do mesmo! Como dizem eles: "Resulta e me sabe muito bem!"