abril 06, 2009

De volta às flores


Os amigos do Porto tem floricultura. Volta e meia estou passando lá! Daí as fotos...

Uma tarde de sábado...

Não adianta resistir...
às vezes, estou no foco.
Dele! Que também faz seus ensaios...
A cidade e o rio: O DOURO. Pontes... Mais uma. Fim da tarde, hora do chá no Majestic...
com a Izabel e as muitas lembranças de 'bons tempos' (deles), em Coimbra. Reflexos

A Dúvida

"O FILME a "Dúvida", de John Patrick Shanley, debate uma das questões mais dramáticas da atualidade, a pedofilia. Não se trata, apenas, de um filme sobre os dramas internos a uma igreja católica em processo de modernização em meio ao Concílio Vaticano II. Trata-se sim de um dilacerante debate acerca das rotinas de nosso pensamento moral, que muitas vezes beiram o puro sonambulismo. Os personagens são um padre doce e pra frente, Philip Seymour Hoffman, a diretora e madre superiora antipática e careta, Meryl Streep, um triste aluno negro (estopim da trama), sua mãe e uma jovem freira ingênua. Estamos nos anos 60 -esse mito de revolução que fez das maiores utopias da modernidade um problema de quem transa com quem e quem fuma o que na era de aquários.
Os anos 60, que inventaram bobagens como a figura do "jovem" como agente natural do "avanço", estão representados na trama pela tensão entre o padre legal e a freira opressora. Diga-se de passagem, os tipos funcionam: o padre é alguém que inspira esperança e amor pela humanidade, a madre superiora é mesmo alguém que não temos vontade de dar um bom dia no corredor.
Tudo começa com as suspeitas da jovem freira de que algo esteja ocorrendo entre o padre legal e o menino negro -primeiro e único negro da escola. Uma série de eventos nos leva a uma cascata de dúvidas.
A freira neurótica assume como verdade que o padre mente. Numa armadilha (jogando verde sobre uma suposta transgressão dele na escola anterior de onde saiu "misteriosamente", e colhendo a certeza acerca da vergonha desse "mistério"), a freira dá o xeque-mate, e o padre se demite. Entretanto, não teremos nenhuma prova de que tenha ocorrido algo entre ele e o menino negro.
Sim, o padre legal pode ser um pedófilo. Poderia existir amor ali onde existe pedofilia? Perguntas assim apontam para um dos nossos piores pesadelos. As coisas pioram quando a mãe deixa claro para a feia madre superiora que sabe que o filho tem "uma natureza tal", e que se o padre gosta dele e o está ajudando, e se ele (seu filho) se sente bem com isso, que ela não atrapalhe as chances que seu filho negro tem de ter um diploma de uma escola que abrirá portas em seu futuro. Por que não aproveitar um amor útil? Quantas vezes amor e interesse se misturam numa forma de limites invisíveis?
Quem combate a pedofilia no filme é aquele tipo de pessoa que os preconceituosos de plantão chamariam "a repressora", e não uma ONG de direitos humanos, esta, provavelmente, contrataria qualquer padre legal para rezar missas com rock and roll. Cabe a louca, a nojenta e mal amada fazer o papel da ética.
Difícil esse mundo de adultos, não? Numa das cenas mais bonitas do filme, quando conversa com a jovem freira romântica, o padre amoroso e sincero afirma que o mal da madre superiora é optar pela virtude em detrimento do amor ("kindness", nas palavras do padre). Pergunta ele: não é nossa missão acolher e gerar amor no mundo?
A freira feia é incapaz de imaginar que ele ame o menino sem maldade porque ela não ama ninguém. O amor é quase sempre improvável. O excesso de retidão moral nela a torna cega para a beleza improvável. O excesso de amor, por outro lado, nos lançaria num caos de amor? Lennon estava errado? "All you need is love" seria mais um clichê dos anos 60?
Sendo ela feia, vê a monstruosidade em toda parte, e por isso a enxerga onde outros são enganados pela beleza imunda, assim como gatos facilmente acham ratos pela própria natureza que possuem -analogia "citada pelo roteirista" numa maravilhosa cena na qual a freira afirma "saber reconhecer" gente como o padre.
É claro que o filme não está fazendo uma ode à "pedofilia com amor". Não se apressem almas superficiais, ansiosas por "escândalos de plantão". Voltem ao sono dogmático de suas tumbas. É justamente porque a pedofilia é um pesadelo que o filme é grandioso. Poderá haver, às vezes, um conflito entre o amor e a virtude? Em qual dos dois apostar? Nas palavras da horrorosa madre superiora: "às vezes nos afastamos de Deus (amor) para melhor servi-lo".
É porque o padre é sincero em sua vocação para amar que a trama sai do banal. É porque a madre superiora é alguém aparentemente desprovida de amor, mas que realiza o que entendemos como ético no caso, que estamos diante de uma grande obra.
Pode o amor ser uma face do mal? Mas, tampouco, seria a face da ética sempre bela?"

LUIZ FELIPE PONDÉ na FSP

abril 05, 2009

Há sempre um livro a espera

Não mencionei ainda o que tem sido viajar levando o mínimo. Quem me conhece sabe que não costumo ter muita bagagem e, como não “vou às compras”, volto quase do mesmo tamanho. As concessões tem sido para os livros, mas acabo optando por enviá-los pelo correio na melhor tarifa que me faz recebê-los muitos meses depois.
De uns tempos para cá, descobri os voos low coast e não tenho mais me deslocado de trem. O lado bom é que se gasta menos tempo e quase o mesmo dinheiro. O lado negativo e que está me levando a reconsidderar esta opção (já me pareceu das melhores), é o limite de bagagem.
Sem haver chegado a fase de decidir o que fazer com os livros, tive que enviar parte de meus affaires para Paris e outros estarão a me esperar em Barcelona.
Assim, “ vou me arrumar” significa trocar o tenis pelo sapato (único) e os óculos por um que combine com os brincos. Ponho batom e vupt! estou pronta . Mais do que sempre, posso responder à pergunta se já estou arrumada, com “estou conformada”. De fato, estou conforme o clima (ainda meio frio) e a circunstância, mas absolutamente enjoada das minhas roupas.
Andei dando uma voltinha com a jaqueta preta (linda e cheirosa) do meu amigo. Mas não devo abusar...
Comecei a escrever pelo título pretendendo falar dos livros que me acompanham ou me esperam e dos que me fazem esperar ....Ainda dá para voltar a eles.
JUREI, de pés juntos, que ia evitar entrar em livrarias. Como promessas
e juramentos foram feitos para ser quebrados....La légende noire de l' Espagne de autoria de Joseph Pérez, é um livro de história cuja leitura está contribuindo para reduzir ( um pouco), a minha ignorância com relação à Espanha e melhorando o meu entendimento acerca de sua reputação. Nutri, durante grande parte de minha vida um certo preconceito ( sempre a ignorância! ), pela Espanha a quem via somente como inquisitorial e obscurantista...
O livro que estava a minha espera no Porto, acompanhado de um lindo cartão com flor e mensagem de boas vindas, O ÚLTIMO BANDEIRANTE é um romance de Pedro Pinto que se passa “ em terras do Brasil”, no século XVII e tem Raposo Tavares como protagonista. Voltarei a comentar a respeito dele. (resenha clicando no título)

Delicadas relações

Conhecer alguém e ir com a cara dela, acontece com todo mundo. Esta incompreensível primeira impressão é uma obra do nosso cérebro que funciona igualmente no sentido inverso. Ou seja, podem ser acionados “alarmes” que nos dizem para manter distância. Esta avaliação, segundo a neurociência, é tão precisa e consistente quanto a impressão positiva que alguém possa nos causar. Cada um de nós dá valor a características diferentes fazendo com que, eventualmente, a gente não se importe com determinadas “qualidades negativas” de uma pessoa recém-conhecida. Por outro lado, podemos considerá-las tão indesejáveis, ao ponto de inviabilizar a impressão positiva que esta pessoa possa nos ter causado. Não adianta querer entender estas coisas do córtex cerebral. O certo é que funcionam assim. Ontem, por exemplo, conheci uma pessoa em relação a quem meu cerébro emitiu ondas positivas...
No entanto, nem todas relações passam por esta "avaliação" que nos leva a gostar, ou não, de alguém à primeira vista. Excluídos os parentes, que a gente nunca escolhe, uma relação delicada, que se pretende definitiva e pressupõe uma empatia, muitas vezes inexistente, é a dos padrinhos/madrinhas e seus afilhados (as).
Não é de estranhar que eu esteja a pensar nisto uma vez que aqui(em Portugal) se comemora hoje o dia dos padrinhos. A tradição dos católicos se recorda da entrada triunfal de Jesus Cristo na Velha Jerusalém, onde o saudavam com ramos. No final da cerimônia da benção dos ramos que são feitos de palmeira e alecrim, estes são entregues pelos afilhados aos padrinhos e, em troca, recebem as amêndoas de Páscoa. Modernamente, os afilhados oferecem flores aos padrinhos, em lindos arranjos, o que faz a alegria das floriculturas!!! Esta foto é da Flores, a nova loja do Joaquim. Muito chic!

abril 03, 2009

Do PORTO

Ontem viajei quase o dia todo. De Biarritz não tem avião direto. Tive que ir a Paris para, a partir de lá, chegar ao Porto. Enquanto esperava no aeroporto estive observando como certas gentes, quando se juntam, são facilmente identificáveis. Por exemplo, quando se está em qualquer rodoviária pretendendo embarcar para Curitiba, facilmente se sabe de onde parte o onibus. É só procurar um "povo" portando os seus travesseiros. Isto mesmo, eles viajam com um travesseiro. Não um qualquer, pequeno, que os acomode melhor na poltrona, eles levam o de sua cama, de todo dia, alguns sujos, uns até interessantes, outros nem tanto. Quando vejo a cena fico observando que o travesseiro também diz quem a pessoa é...
Mas voltando aos portugas. Quando reunidos, eles se comportam 'que nem nós' (refiro-me aos brasileiros mais de cima, pois os germânicos/eslavos do sul são mais disciplinados, adoram fazer filas). Os portugas são conversadores e barulhentos e, ao que parece, não se ligam nos avisos. Assim, foram várias as tentativas de organizar o embarque. Não adiantava dizer que a prioridade era para este ou aquele grupo: os que fizeram check in pela internet, com dificuldades de locomoção, etc. Desatentos (?) tentavam todos entrar ao mesmo tempo. Demorou mas acabou dando certo. Chegamos.
Hoje pela manhã tive contato com uma autêntica portuguesa. Lembrou-me, talvez pelo sotaque luso, sua estreiteza e simplicidade, a personagem do Valter Hugo Mae, escritor vilacondense de quem, não faz tempo, li O Apocalipse dos Trabalhadores. As diaristas (aqui se chamam “mulher a dias”) parecem ter muita coisa em comum , uma delas é gostar de conversar demais e bisbilhotar a vida dos patrões. O normal é que eu debande cedo nos dias previstos para elas aparecerem, mas aqui não me fiz de difíicil. Falou-se de tudo. O rádio, outra coisa de que todas gostam, sempre ligado, como diz um amigo nem um pouco politicamente correto, numa emissora "de pobre". De "espírito", ele tenta remendar. Enquanto já ouvi da minha “vou ir ponhar”, aqui aprendi que quando algo não tem gosto, “não saba a nada”. Conversa vai conversa vem, para dizer da lerdeza de alguém, ela mencionou os alentejanos e, como não entendi, esclareceu que alentejanos só conhecem duas velocidades : devagar e devagarinho. Lembrei-me do que se diz dos baianos...
Depois fui ao centro me encontrar com o ANF para almoçar. Bacalhau, claro! Fiquei batendo pernas, enquanto ele foi cuidar da vida. Lamentei que a câmera estivesse sem bateria. Outra vez usei a do telemóvel.Outro dia trarei fotos mais decentes, pois nesta não se vê nem as paredes da igreja ao fundo que eram todas de azulejo.

março 31, 2009

Saint-Jean-de-Luz e Cibourne


Voltada para o Atlântico, SJ de Luz deve sua prosperidade à atividade de seu porto e a pesca. O seu apogeu ocorreu no século XVII, o seu “siècle d' or”, quando chegou a ser a segunda cidade mais importante da região (depois de Bayonne). A arquitetura e a riqueza dos armadores e comerciantes bascos se refletem na sua arquitetura. Em 1659, o cardeal Mazarin morou 4 meses em SJ de Luz, de onde partia todos os dias para conferências numa ilha próxima à fronteira. Preparava um tratado político entre a França e a Espanha. Esta aliança política franco-espanhola continha uma cláusula de casamento entre o Rei Luiz XIV e a Infanta da Espanha Marie-Thèrese que aconteceu na igreja de SJ de Luz, em 09 de junho de 1660. As casas onde estiveram hospedados o rei, a rainha-mãe e a infanta nos dias que antecederam as bodas reais estão preservadas e constituem um marco importante da história da cidade. Num passeio pelas praias nos deparamos com as fortificações que se estendem até Cibourne e que foram construídas pelo engenheiro do Luiz XIV. O simpático porto estava meio vazio. Provável que estivessem ao mar. Era segunda feira. Desta vez, não vi nenhum monumento aos enfants que lutaram pela Pátria, mas no porto há uma homenagem aos heróis da Resistência. Observei, mais uma vez, a referência, em documentos históricos, às mulheres que foram queimadas por acusação de bruxaria. Comentei sobre as bruxas de Croix de Mouguerre, no domingo, com mulheres daqui com quem conversei.Fiquei sabendo que continuam a existir, praticam seus rituais e fazem curas. "Há as charlatãs",segundo ela. O que siginifica admiitir que existem as autênticas. Fiquei morta de curiosa.
Cibourne é ligada à SJ de Luz. À primeira vista, não dá para saber quando se está numa ou noutra. Cibourne é a cidade onde nasceu MAURICE RAVEL.