abril 03, 2009

Do PORTO

Ontem viajei quase o dia todo. De Biarritz não tem avião direto. Tive que ir a Paris para, a partir de lá, chegar ao Porto. Enquanto esperava no aeroporto estive observando como certas gentes, quando se juntam, são facilmente identificáveis. Por exemplo, quando se está em qualquer rodoviária pretendendo embarcar para Curitiba, facilmente se sabe de onde parte o onibus. É só procurar um "povo" portando os seus travesseiros. Isto mesmo, eles viajam com um travesseiro. Não um qualquer, pequeno, que os acomode melhor na poltrona, eles levam o de sua cama, de todo dia, alguns sujos, uns até interessantes, outros nem tanto. Quando vejo a cena fico observando que o travesseiro também diz quem a pessoa é...
Mas voltando aos portugas. Quando reunidos, eles se comportam 'que nem nós' (refiro-me aos brasileiros mais de cima, pois os germânicos/eslavos do sul são mais disciplinados, adoram fazer filas). Os portugas são conversadores e barulhentos e, ao que parece, não se ligam nos avisos. Assim, foram várias as tentativas de organizar o embarque. Não adiantava dizer que a prioridade era para este ou aquele grupo: os que fizeram check in pela internet, com dificuldades de locomoção, etc. Desatentos (?) tentavam todos entrar ao mesmo tempo. Demorou mas acabou dando certo. Chegamos.
Hoje pela manhã tive contato com uma autêntica portuguesa. Lembrou-me, talvez pelo sotaque luso, sua estreiteza e simplicidade, a personagem do Valter Hugo Mae, escritor vilacondense de quem, não faz tempo, li O Apocalipse dos Trabalhadores. As diaristas (aqui se chamam “mulher a dias”) parecem ter muita coisa em comum , uma delas é gostar de conversar demais e bisbilhotar a vida dos patrões. O normal é que eu debande cedo nos dias previstos para elas aparecerem, mas aqui não me fiz de difíicil. Falou-se de tudo. O rádio, outra coisa de que todas gostam, sempre ligado, como diz um amigo nem um pouco politicamente correto, numa emissora "de pobre". De "espírito", ele tenta remendar. Enquanto já ouvi da minha “vou ir ponhar”, aqui aprendi que quando algo não tem gosto, “não saba a nada”. Conversa vai conversa vem, para dizer da lerdeza de alguém, ela mencionou os alentejanos e, como não entendi, esclareceu que alentejanos só conhecem duas velocidades : devagar e devagarinho. Lembrei-me do que se diz dos baianos...
Depois fui ao centro me encontrar com o ANF para almoçar. Bacalhau, claro! Fiquei batendo pernas, enquanto ele foi cuidar da vida. Lamentei que a câmera estivesse sem bateria. Outra vez usei a do telemóvel.Outro dia trarei fotos mais decentes, pois nesta não se vê nem as paredes da igreja ao fundo que eram todas de azulejo.

março 31, 2009

Saint-Jean-de-Luz e Cibourne


Voltada para o Atlântico, SJ de Luz deve sua prosperidade à atividade de seu porto e a pesca. O seu apogeu ocorreu no século XVII, o seu “siècle d' or”, quando chegou a ser a segunda cidade mais importante da região (depois de Bayonne). A arquitetura e a riqueza dos armadores e comerciantes bascos se refletem na sua arquitetura. Em 1659, o cardeal Mazarin morou 4 meses em SJ de Luz, de onde partia todos os dias para conferências numa ilha próxima à fronteira. Preparava um tratado político entre a França e a Espanha. Esta aliança política franco-espanhola continha uma cláusula de casamento entre o Rei Luiz XIV e a Infanta da Espanha Marie-Thèrese que aconteceu na igreja de SJ de Luz, em 09 de junho de 1660. As casas onde estiveram hospedados o rei, a rainha-mãe e a infanta nos dias que antecederam as bodas reais estão preservadas e constituem um marco importante da história da cidade. Num passeio pelas praias nos deparamos com as fortificações que se estendem até Cibourne e que foram construídas pelo engenheiro do Luiz XIV. O simpático porto estava meio vazio. Provável que estivessem ao mar. Era segunda feira. Desta vez, não vi nenhum monumento aos enfants que lutaram pela Pátria, mas no porto há uma homenagem aos heróis da Resistência. Observei, mais uma vez, a referência, em documentos históricos, às mulheres que foram queimadas por acusação de bruxaria. Comentei sobre as bruxas de Croix de Mouguerre, no domingo, com mulheres daqui com quem conversei.Fiquei sabendo que continuam a existir, praticam seus rituais e fazem curas. "Há as charlatãs",segundo ela. O que siginifica admiitir que existem as autênticas. Fiquei morta de curiosa.
Cibourne é ligada à SJ de Luz. À primeira vista, não dá para saber quando se está numa ou noutra. Cibourne é a cidade onde nasceu MAURICE RAVEL.

março 30, 2009

Clint Eastwood

'Gran Torino'
"CLINT EASTWOOD é o melhor cineasta dos EUA. Não vejo nenhum herdeiro de sua coragem. Quase todo mundo teme a opressiva esquerda cultural americana que faz de qualquer pessoa uma vaquinha de presépio. Eastwood é um herdeiro da narrativa trágica norte-americana: enquanto o homem enfrenta sozinho a vastidão do ódio e da indiferença, testemunha os detalhes da beleza solitária de alguns dos seus semelhantes.
A cultura contemporânea é vítima da mania de ver a si mesma como agente do "bem comum" e, neste movimento, acaba por repetir, a exaustão, a ideia de que o homem seja capaz de escapar do destino. Esta posição é presa de uma dedução falsa: (1) sou "progressista" (otimismo social), logo, (2) tenho coragem. A lengalenga politicamente correta, que só agrada aos amantes de clichês (o "outro" é bom, os gays são bons, mães solteiras são legais, a democracia é linda, o multiculturalismo é o Éden), estimula a covardia estética.
Qual destino? Nas palavras do personagem que Eastwood interpreta em "Gran Torino" (um carro modelo 1972, grande objeto de desejo no enredo do filme que carrega seu nome): "o mundo nunca foi justo". Afirmações como estas normalmente são entendidas, pelos amantes dos "clichês de presépio", como sendo contra a liberdade humana.
Nada mais ridículo, quando você está diante de um artista que rompe a ditadura da arte "progressista": Eastwood leva ao limite a consciência trágica de que o ser humano está enredado numa teia que o esmaga, mas nem por isso os valores humanos como coragem, amor, generosidade, valem menos, se você está disposto a enfrentar essa teia.
Esta é a máxima que escapa aos olhos cegos de medo de que, ao final, o homem seja uma paixão inútil. Seríamos nós uma sombra que se bate contra o vento que passa? Já nos "Os Imperdoáveis", Eastwood, relendo o faroeste (estilo estético que trata do mito americano da coragem que se bate com a fronteira do mundo), dizia que, afinal, a razão da transformação de um assassino (com um talento imbatível para matar) em um bom esposo e pai de família era a ausência do álcool.
Nada mais terrível, para uma cultura "de presépio", do que deduzir a diferença moral da presença ou não de uma mera substância química, ou seja, uma forma de materialismo miserável.
Em "Sobre Meninos e Lobos", ele marcará a diferença entre você ser ou não fraco: o personagem vivido por Tim Robbins é um fraco desde a infância, quando entra no carro dos pedófilos e permanece inseguro sempre, a ponto de escolher uma mulher que o entrega para a morte, enquanto o outro (vivido por Sean Penn), sempre acima de dramas comuns de consciência e que tem a filha assassinada, terá, ao final da trama, na sua deliciosa esposa, a reafirmação de seu valor como homem e pai de suas filhas.
Em "Menina de Ouro", Eastwood, ousadamente, descreve a "vida de uma santa" (a dedicada e generosa pugilista) destruída pela inveja e pelo azar: um golpe baixo a lança a tetraplegia e a eutanásia. Aqui ele toca o máximo da descrição de como o mundo esmaga a virtude e a beleza. Em "Gran Torino", Eastwood interpreta um velho herói da guerra da Coreia, morando entre asiáticos nos EUA. Gangues étnicas cortam o cotidiano do bairro decadente. Seus filhos são interesseiros e desinteressados pelo velho pai viúvo.
Os dois filhos da vizinha vietnamita serão seus parceiros na luta solitária contra a violência interna a comunidade asiática. Essa menina corajosa e esse menino tímido, mas resistente à violência, serão seus verdadeiros herdeiros. O velho herói percebe, sempre nos detalhes, a virtude de ambos e se põe ao lado deles. Eastwood é o velho "conservador" que se revela capaz de superar as "diferenças" em nome da resistência que esses adolescentes oferecem a violência de seus irmãos de sangue. Relendo as velhas cenas de duelos, Eastwood define a essência do heroi: quem quer verdadeiramente vencer o mal, não pode temer a morte. O filme supera o maniqueísmo bobo que a cultura barata da esquerda americana nos obriga a respirar. Para além da falsa oposição entre reacionários e progressistas, o cineasta aponta para o verdadeiro nó da condição humana, hoje e sempre: quem tem coragem de enfrentar o mundo sem ser parte do rebanho?
Ao final, o jovem vietnamita passeia com seu troféu: o Gran Torino, o símbolo da nostalgia de um tempo onde as pessoas sabiam que o destino é sempre imperdoável".
LUIZ FELIPE PONDÉ

Maurice Jarre - uma homenagem

Morreu na madrugada de ontem, em Los Angeles, aos 84 anos, o francês Maurice Jarre, compositor de três trilhas sonoras vencedoras do Oscar, as dos clássicos "Lawrence da Arábia" (1962), "Doutor Jivago" (1965) e "Passagem para a Índia" (1984).

Tema de abertura de "Lawrence Of Arabia" - 1962

Doutor Jivago - Tema de Lara
Clicando no título: Mireille Mathieu - Paris en Colere do filme "Paris brûle--t-il ?". de 1966.

março 29, 2009

AINHOA


A bucólica Ainhoa de tão pequena só tem uma rua que é a estrada que leva a Dancharria, a cidade espanhola onde os franceses vão se divertir, fazer compras - cigarro e bebida principalmente - e ainda retornam de tanque cheio com a gasolina espanhola pela qual também se paga menos.
A maioria das edificações datam dos séculos XVI e XVII, têm a data correspondente em sua suas fachadas e são identiificadas por nomes. Numa delas, a proprietária fez constar a inscrição de que aquela casa não poderia ser vendida, nem dada em garantia, pois havia sido construída com o dinheiro que lhe teria sido enviado da Índia por seu filho (na realidade o dinheiro vinha da América).
Era sábado e havia muita agitação por conta de um casamento. Registramos a foto oficial (vejam a posição que posam!), seguiu-se um barulhento cortejo.
Fui até à igreja que fica dentro do cemitério, situado na "praça" principal onde se encontra inclusive o frontão (a parede onde praticam o esporte mais popular, a petanque basque). Estava havendo uma missa. Compramos um gateau basque e retomamos nosso passeio passando por Cambo, que é a cidade da região que em razão de seu ar puro e tranquilidade, se concentram casas de repouso, asilos.

Que bonitinho! Estavam no terreno ao lado do estacionamento.

março 28, 2009

Itxassou

A meteo não anunciava tempo bom, o que nos levou a desistir de ir à San Sebastian. Lá pelo meio dia o sol abriu, meio tímido, mas nos animou a um passeio pelos arredores. O destino seria St Jean Pied de Port ....Quem disse que chegamos lá? No caminho passamos por Itxassou, onde é produzido o romeu e julieta dos bascos: o queijo Ossau-Iraty (de ovelha) + geléia de cerejas pretas. Questões como esta, aqui são levadas muito a sério, nem os carrefours da vida ousam separá-los. No lugar próprio para queijos, se encontra a tal geléia. Inconcebível vendê-los ou comê-los de outro modo! Por paisagens bucólicas o verde explodia, carneiros pastavam (não tão solenes), casinhas sossegadas, brancas como chantily (segundo a Beatrice) , portas e janelas no, agora inconfundível, vermelho basco... Prosseguimos nessa estradinha, entre o rio e a montanha, sublinhada por uma linha de ferro por onde passa o trem que leva à St. Jean Peid de Port. Nossa primeira parada foi no Pas-de-Roland. Às margens do Nive se encontra esta pedra com um buraco que teria sido feito pelo herói para fazer passar as tropas que comandava . Próximo ao buraco há uma “pegada” (enorme!) que ele teria deixado. O Roland de que se trata, não é ninguém menos do que o sobrinho do Carlos Magno, celebrizado no poema épico - La chanson de Roland - composto no século XI , que conta a batalha travada naquele desfiladeiro. Estes acontecimentos, transmitidos oralmente, foram sendo modificados para adicionar pormenores que não correspondem à realidade histórica, não só para os franceses não ficarem em situação desonrosa, mas no interesse das Cruzadas e da estratégia da reconquista cristã. Uma longa história...

Quando era “criança pequena” conheci a história de Carlos Magno e os Pares de França primeiro na versão dos cordelistas que acrescentam a este que é considerado um dos maiores poemas épicos da Idade Média, elementos da cultura nordestina. Ainda no espírito que me havia lembrado dos cordelistas, estava encantada com o barulho das águas nas pedras quando apareceram estes corajosos fazendo rafting.