abril 01, 2009
março 31, 2009
Saint-Jean-de-Luz e Cibourne
Voltada para o Atlântico, SJ de Luz deve sua prosperidade à atividade de seu porto e a pesca. O seu apogeu ocorreu no século XVII, o seu “siècle d' or”, quando chegou a ser a segunda cidade mais importante da região (depois de Bayonne). A arquitetura e a riqueza dos armadores e comerciantes bascos se refletem na sua arquitetura. Em 1659, o cardeal Mazarin morou 4 meses em SJ de Luz, de onde partia todos os dias para conferências numa ilha próxima à fronteira. Preparava um tratado político entre a França e a Espanha. Esta aliança política franco-espanhola continha uma cláusula de casamento entre o Rei Luiz XIV e a Infanta da Espanha Marie-Thèrese que aconteceu na igreja de SJ de Luz, em 09 de junho de 1660. As casas onde estiveram hospedados o rei, a rainha-mãe e a infanta nos dias que antecederam as bodas reais estão preservadas e constituem um marco importante da história da cidade. Num passeio pelas praias nos deparamos com as fortificações que se estendem até Cibourne e que foram construídas pelo engenheiro do Luiz XIV. O simpático porto estava meio vazio. Provável que estivessem ao mar. Era segunda feira. Desta vez, não vi nenhum monumento aos enfants que lutaram pela Pátria, mas no porto há uma homenagem aos heróis da Resistência. Observei, mais uma vez, a referência, em documentos históricos, às mulheres que foram queimadas por acusação de bruxaria. Comentei sobre as bruxas de Croix de Mouguerre, no domingo, com mulheres daqui com quem conversei.Fiquei sabendo que continuam a existir, praticam seus rituais e fazem curas. "Há as charlatãs",segundo ela. O que siginifica admiitir que existem as autênticas. Fiquei morta de curiosa.
Cibourne é ligada à SJ de Luz. À primeira vista, não dá para saber quando se está numa ou noutra. Cibourne é a cidade onde nasceu MAURICE RAVEL.

Cibourne é ligada à SJ de Luz. À primeira vista, não dá para saber quando se está numa ou noutra. Cibourne é a cidade onde nasceu MAURICE RAVEL.
março 30, 2009
Clint Eastwood
'Gran Torino'
"CLINT EASTWOOD é o melhor cineasta dos EUA. Não vejo nenhum herdeiro de sua coragem. Quase todo mundo teme a opressiva esquerda cultural americana que faz de qualquer pessoa uma vaquinha de presépio. Eastwood é um herdeiro da narrativa trágica norte-americana: enquanto o homem enfrenta sozinho a vastidão do ódio e da indiferença, testemunha os detalhes da beleza solitária de alguns dos seus semelhantes.
A cultura contemporânea é vítima da mania de ver a si mesma como agente do "bem comum" e, neste movimento, acaba por repetir, a exaustão, a ideia de que o homem seja capaz de escapar do destino. Esta posição é presa de uma dedução falsa: (1) sou "progressista" (otimismo social), logo, (2) tenho coragem. A lengalenga politicamente correta, que só agrada aos amantes de clichês (o "outro" é bom, os gays são bons, mães solteiras são legais, a democracia é linda, o multiculturalismo é o Éden), estimula a covardia estética.
Qual destino? Nas palavras do personagem que Eastwood interpreta em "Gran Torino" (um carro modelo 1972, grande objeto de desejo no enredo do filme que carrega seu nome): "o mundo nunca foi justo". Afirmações como estas normalmente são entendidas, pelos amantes dos "clichês de presépio", como sendo contra a liberdade humana.
Nada mais ridículo, quando você está diante de um artista que rompe a ditadura da arte "progressista": Eastwood leva ao limite a consciência trágica de que o ser humano está enredado numa teia que o esmaga, mas nem por isso os valores humanos como coragem, amor, generosidade, valem menos, se você está disposto a enfrentar essa teia.
Esta é a máxima que escapa aos olhos cegos de medo de que, ao final, o homem seja uma paixão inútil. Seríamos nós uma sombra que se bate contra o vento que passa? Já nos "Os Imperdoáveis", Eastwood, relendo o faroeste (estilo estético que trata do mito americano da coragem que se bate com a fronteira do mundo), dizia que, afinal, a razão da transformação de um assassino (com um talento imbatível para matar) em um bom esposo e pai de família era a ausência do álcool.
Nada mais terrível, para uma cultura "de presépio", do que deduzir a diferença moral da presença ou não de uma mera substância química, ou seja, uma forma de materialismo miserável.
Em "Sobre Meninos e Lobos", ele marcará a diferença entre você ser ou não fraco: o personagem vivido por Tim Robbins é um fraco desde a infância, quando entra no carro dos pedófilos e permanece inseguro sempre, a ponto de escolher uma mulher que o entrega para a morte, enquanto o outro (vivido por Sean Penn), sempre acima de dramas comuns de consciência e que tem a filha assassinada, terá, ao final da trama, na sua deliciosa esposa, a reafirmação de seu valor como homem e pai de suas filhas.
Em "Menina de Ouro", Eastwood, ousadamente, descreve a "vida de uma santa" (a dedicada e generosa pugilista) destruída pela inveja e pelo azar: um golpe baixo a lança a tetraplegia e a eutanásia. Aqui ele toca o máximo da descrição de como o mundo esmaga a virtude e a beleza. Em "Gran Torino", Eastwood interpreta um velho herói da guerra da Coreia, morando entre asiáticos nos EUA. Gangues étnicas cortam o cotidiano do bairro decadente. Seus filhos são interesseiros e desinteressados pelo velho pai viúvo.
Os dois filhos da vizinha vietnamita serão seus parceiros na luta solitária contra a violência interna a comunidade asiática. Essa menina corajosa e esse menino tímido, mas resistente à violência, serão seus verdadeiros herdeiros. O velho herói percebe, sempre nos detalhes, a virtude de ambos e se põe ao lado deles. Eastwood é o velho "conservador" que se revela capaz de superar as "diferenças" em nome da resistência que esses adolescentes oferecem a violência de seus irmãos de sangue. Relendo as velhas cenas de duelos, Eastwood define a essência do heroi: quem quer verdadeiramente vencer o mal, não pode temer a morte. O filme supera o maniqueísmo bobo que a cultura barata da esquerda americana nos obriga a respirar. Para além da falsa oposição entre reacionários e progressistas, o cineasta aponta para o verdadeiro nó da condição humana, hoje e sempre: quem tem coragem de enfrentar o mundo sem ser parte do rebanho?
Ao final, o jovem vietnamita passeia com seu troféu: o Gran Torino, o símbolo da nostalgia de um tempo onde as pessoas sabiam que o destino é sempre imperdoável".
LUIZ FELIPE PONDÉ
"CLINT EASTWOOD é o melhor cineasta dos EUA. Não vejo nenhum herdeiro de sua coragem. Quase todo mundo teme a opressiva esquerda cultural americana que faz de qualquer pessoa uma vaquinha de presépio. Eastwood é um herdeiro da narrativa trágica norte-americana: enquanto o homem enfrenta sozinho a vastidão do ódio e da indiferença, testemunha os detalhes da beleza solitária de alguns dos seus semelhantes.
A cultura contemporânea é vítima da mania de ver a si mesma como agente do "bem comum" e, neste movimento, acaba por repetir, a exaustão, a ideia de que o homem seja capaz de escapar do destino. Esta posição é presa de uma dedução falsa: (1) sou "progressista" (otimismo social), logo, (2) tenho coragem. A lengalenga politicamente correta, que só agrada aos amantes de clichês (o "outro" é bom, os gays são bons, mães solteiras são legais, a democracia é linda, o multiculturalismo é o Éden), estimula a covardia estética.
Qual destino? Nas palavras do personagem que Eastwood interpreta em "Gran Torino" (um carro modelo 1972, grande objeto de desejo no enredo do filme que carrega seu nome): "o mundo nunca foi justo". Afirmações como estas normalmente são entendidas, pelos amantes dos "clichês de presépio", como sendo contra a liberdade humana.
Nada mais ridículo, quando você está diante de um artista que rompe a ditadura da arte "progressista": Eastwood leva ao limite a consciência trágica de que o ser humano está enredado numa teia que o esmaga, mas nem por isso os valores humanos como coragem, amor, generosidade, valem menos, se você está disposto a enfrentar essa teia.
Esta é a máxima que escapa aos olhos cegos de medo de que, ao final, o homem seja uma paixão inútil. Seríamos nós uma sombra que se bate contra o vento que passa? Já nos "Os Imperdoáveis", Eastwood, relendo o faroeste (estilo estético que trata do mito americano da coragem que se bate com a fronteira do mundo), dizia que, afinal, a razão da transformação de um assassino (com um talento imbatível para matar) em um bom esposo e pai de família era a ausência do álcool.
Nada mais terrível, para uma cultura "de presépio", do que deduzir a diferença moral da presença ou não de uma mera substância química, ou seja, uma forma de materialismo miserável.
Em "Sobre Meninos e Lobos", ele marcará a diferença entre você ser ou não fraco: o personagem vivido por Tim Robbins é um fraco desde a infância, quando entra no carro dos pedófilos e permanece inseguro sempre, a ponto de escolher uma mulher que o entrega para a morte, enquanto o outro (vivido por Sean Penn), sempre acima de dramas comuns de consciência e que tem a filha assassinada, terá, ao final da trama, na sua deliciosa esposa, a reafirmação de seu valor como homem e pai de suas filhas.
Em "Menina de Ouro", Eastwood, ousadamente, descreve a "vida de uma santa" (a dedicada e generosa pugilista) destruída pela inveja e pelo azar: um golpe baixo a lança a tetraplegia e a eutanásia. Aqui ele toca o máximo da descrição de como o mundo esmaga a virtude e a beleza. Em "Gran Torino", Eastwood interpreta um velho herói da guerra da Coreia, morando entre asiáticos nos EUA. Gangues étnicas cortam o cotidiano do bairro decadente. Seus filhos são interesseiros e desinteressados pelo velho pai viúvo.
Os dois filhos da vizinha vietnamita serão seus parceiros na luta solitária contra a violência interna a comunidade asiática. Essa menina corajosa e esse menino tímido, mas resistente à violência, serão seus verdadeiros herdeiros. O velho herói percebe, sempre nos detalhes, a virtude de ambos e se põe ao lado deles. Eastwood é o velho "conservador" que se revela capaz de superar as "diferenças" em nome da resistência que esses adolescentes oferecem a violência de seus irmãos de sangue. Relendo as velhas cenas de duelos, Eastwood define a essência do heroi: quem quer verdadeiramente vencer o mal, não pode temer a morte. O filme supera o maniqueísmo bobo que a cultura barata da esquerda americana nos obriga a respirar. Para além da falsa oposição entre reacionários e progressistas, o cineasta aponta para o verdadeiro nó da condição humana, hoje e sempre: quem tem coragem de enfrentar o mundo sem ser parte do rebanho?
Ao final, o jovem vietnamita passeia com seu troféu: o Gran Torino, o símbolo da nostalgia de um tempo onde as pessoas sabiam que o destino é sempre imperdoável".
LUIZ FELIPE PONDÉ
Maurice Jarre - uma homenagem
Morreu na madrugada de ontem, em Los Angeles, aos 84 anos, o francês Maurice Jarre, compositor de três trilhas sonoras vencedoras do Oscar, as dos clássicos "Lawrence da Arábia" (1962), "Doutor Jivago" (1965) e "Passagem para a Índia" (1984).
Tema de abertura de "Lawrence Of Arabia" - 1962
Doutor Jivago - Tema de Lara
Clicando no título: Mireille Mathieu - Paris en Colere do filme "Paris brûle--t-il ?". de 1966.
Tema de abertura de "Lawrence Of Arabia" - 1962
Doutor Jivago - Tema de Lara
Clicando no título: Mireille Mathieu - Paris en Colere do filme "Paris brûle--t-il ?". de 1966.
março 29, 2009
AINHOA
A bucólica Ainhoa de tão pequena só tem uma rua que é a estrada que leva a Dancharria, a cidade espanhola onde os franceses vão se divertir, fazer compras - cigarro e bebida principalmente - e ainda retornam de tanque cheio com a gasolina espanhola pela qual também se paga menos.
A maioria das edificações datam dos séculos XVI e XVII, têm a data correspondente em sua suas fachadas e são identiificadas por nomes. Numa delas, a proprietária fez constar a inscrição de que aquela casa não poderia ser vendida, nem dada em garantia, pois havia sido construída com o dinheiro que lhe teria sido enviado da Índia por seu filho (na realidade o dinheiro vinha da América).
Era sábado e havia muita agitação por conta de um casamento. Registramos a foto oficial (vejam a posição que posam!), seguiu-se um barulhento cortejo.
Fui até à igreja que fica dentro do cemitério, situado na "praça" principal onde se encontra inclusive o frontão (a parede onde praticam o esporte mais popular, a petanque basque). Estava havendo uma missa. Compramos um gateau basque e retomamos nosso passeio passando por Cambo, que é a cidade da região que em razão de seu ar puro e tranquilidade, se concentram casas de repouso, asilos.
Que bonitinho! Estavam no terreno ao lado do estacionamento.
A maioria das edificações datam dos séculos XVI e XVII, têm a data correspondente em sua suas fachadas e são identiificadas por nomes. Numa delas, a proprietária fez constar a inscrição de que aquela casa não poderia ser vendida, nem dada em garantia, pois havia sido construída com o dinheiro que lhe teria sido enviado da Índia por seu filho (na realidade o dinheiro vinha da América).
Era sábado e havia muita agitação por conta de um casamento. Registramos a foto oficial (vejam a posição que posam!), seguiu-se um barulhento cortejo.
Fui até à igreja que fica dentro do cemitério, situado na "praça" principal onde se encontra inclusive o frontão (a parede onde praticam o esporte mais popular, a petanque basque). Estava havendo uma missa. Compramos um gateau basque e retomamos nosso passeio passando por Cambo, que é a cidade da região que em razão de seu ar puro e tranquilidade, se concentram casas de repouso, asilos.
Que bonitinho! Estavam no terreno ao lado do estacionamento.
março 28, 2009
Itxassou
A meteo não anunciava tempo bom, o que nos levou a desistir de ir à San Sebastian. Lá pelo meio dia o sol abriu, meio tímido, mas nos animou a um passeio pelos arredores. O destino seria St Jean Pied de Port ....Quem disse que chegamos lá?
No caminho passamos por Itxassou, onde é produzido o romeu e julieta dos bascos: o queijo Ossau-Iraty (de ovelha) + geléia de cerejas pretas. Questões como esta, aqui são levadas muito a sério, nem os carrefours da vida ousam separá-los. No lugar próprio para queijos, se encontra a tal geléia. Inconcebível vendê-los ou comê-los de outro modo!
Por paisagens bucólicas o verde explodia, carneiros pastavam (não tão solenes), casinhas sossegadas, brancas como chantily (segundo a Beatrice) , portas e janelas no, agora inconfundível, vermelho basco...
Prosseguimos nessa estradinha, entre o rio e a montanha, sublinhada por uma linha de ferro por onde passa o trem que leva à St. Jean Peid de Port.
Nossa primeira parada foi no Pas-de-Roland. Às margens do Nive se encontra esta pedra com um buraco que teria sido feito pelo herói para fazer passar as tropas que comandava . Próximo ao buraco há uma “pegada” (enorme!) que ele teria deixado.
O Roland de que se trata, não é ninguém menos do que o sobrinho do Carlos Magno, celebrizado no poema épico - La chanson de Roland - composto no século XI , que conta a batalha travada naquele desfiladeiro. Estes acontecimentos, transmitidos oralmente, foram sendo modificados para adicionar pormenores que não correspondem à realidade histórica, não só para os franceses não ficarem em situação desonrosa, mas no interesse das Cruzadas e da estratégia da reconquista cristã. Uma longa história...
Quando era “criança pequena” conheci a história de Carlos Magno e os Pares de França primeiro na versão dos cordelistas que acrescentam a este que é considerado um dos maiores poemas épicos da Idade Média, elementos da cultura nordestina. Ainda no espírito que me havia lembrado dos cordelistas, estava encantada com o barulho das águas nas pedras quando apareceram estes corajosos fazendo rafting.
Quando era “criança pequena” conheci a história de Carlos Magno e os Pares de França primeiro na versão dos cordelistas que acrescentam a este que é considerado um dos maiores poemas épicos da Idade Média, elementos da cultura nordestina. Ainda no espírito que me havia lembrado dos cordelistas, estava encantada com o barulho das águas nas pedras quando apareceram estes corajosos fazendo rafting.
março 27, 2009
Croix de Mouguerre
Ontem à tardinha fomos a Mouguerre um pequeno povoado situado na margem esquerda do Adour que tem como ponto de atração um promontório de onde se tem uma esplêndida vista de Bayonne e seus arredores. É um caminho rural que se chama Croix de Mouguerre . Lá se encontra uma cruz e um obelisco. O monumento histórico foi construído em honra do Marechal Soult e seus soldados, no lugar que foi palco de batalhas nas guerras napoleônicas. Fiquei interessada na Cruz que, não tendo qualquer relação com os fatos históricos, dá nome ao promontório. Numa placa se lê que aquele lugar já foi denominado Akelarre , a palavra basca que siginifica “lande du sabbat” . No século XVII, a Igreja pretendendo apagar a “sinistra memória” dos sabás que lá aconteciam, fez com que passasse a se chamar Azerilarre que siginifica “lande aux renards”. Não há notícia de nenhuma raposa por lá. A cruz ali colocada pela Igreja tem o objetivo de lembrar que os ritos pagãos pertencem ao passado (?).
Ainda no tema, a Faculdade Multidisciplinar do BAB- Campus da Nive promove neste sábado , o evento La sorcellerie au Pays Basque. No programa conferência de um mestre sociólogo, de um professor de basco e do autor do livro 'Bruxaria, o que esconde a fumaça das fogueiras de 1609', Claude Labat, seguida de uma releitura do processo, 400 anos depois. E para encerrar, uma visita temática ao Museu Basque, em torno das obras de Gonzalez de la Peña (foto). Pelo visto, o tema ainda é palpitante por aqui. Não dá para dizer que as bruxas não estão soltas.
(clique o título para saber mais)
Caindo a noite e a temperatura, fui para o carro. As fotos são da Beatriz!
março 26, 2009
Korrika 16 - Abestia - Betagarri
Desde a minha chegada em Bayonne via cartazes anunciando a Korrika - Ongi etorri lagun espalhados por toda cidade e pelas outras por onde circulei. Passava batida não só por esta mas por muitas outras informações escritas em basco. Até que recebemos um jornal do evento que trazia em sua página central um mapa com o roteiro da corrida. Despertou minha curiosidade o fato de o país basco ali delineado desconhecer as fronteiras políticas entre a Espanha e a França. Observa-se que aos bascos não interessa questões dessa ordem, o que os une é a luta pela preservação de sua cultura e tradições, que passa pelo ensino da língua, objetivo deste evento. Vejam as informações que pude obter:
A Korrika é uma corrida em prol do euskara que percorre todo o País Basco / Euskal Herria, organizada pela Coordenadora de Alfabetização e Euskaldunização , com o objetivo de promover a conscientização relativamente ao euskara, dinamizar o seu uso, e arrecadar fundos para promover o ensino de euskara .
A primeira edição da Korrika se realizou em 1980 entre Oñati (Gipuzkoa) e Bilbau (Bizkaia) . Atualmente é um dos eventos mais importantes em favor do euskara, pelo número de pessoas que consegue aglutinar.
Começa hoje em Tutera (Nafarroa) e durará 11 dias, quando serão percorridos mais de 2000 km por todo o território de Euskal Herria, sem parar em nenhum momento e com a participação de centenas de milhares de pessoas de todas as idades e condições.
Durante a corrida os participantes levam um testemunho que passam de mão em mão, a cada km , em cujo interior há uma mensagem que será lida no final da corrida, no dia 5 de Abril, em Gasteiz (Araba), por uma pessoa importante no euskaldun .
Este é o vídeo oficial da canção da Korrika 16, «Ongi etorri lagun» [Bem-vindo, amigo], com letra de Jon Maia e música e interpretação a cargo dos Betagarri.
A Korrika é uma corrida em prol do euskara que percorre todo o País Basco / Euskal Herria, organizada pela Coordenadora de Alfabetização e Euskaldunização , com o objetivo de promover a conscientização relativamente ao euskara, dinamizar o seu uso, e arrecadar fundos para promover o ensino de euskara .
A primeira edição da Korrika se realizou em 1980 entre Oñati (Gipuzkoa) e Bilbau (Bizkaia) . Atualmente é um dos eventos mais importantes em favor do euskara, pelo número de pessoas que consegue aglutinar.
Começa hoje em Tutera (Nafarroa) e durará 11 dias, quando serão percorridos mais de 2000 km por todo o território de Euskal Herria, sem parar em nenhum momento e com a participação de centenas de milhares de pessoas de todas as idades e condições.
Durante a corrida os participantes levam um testemunho que passam de mão em mão, a cada km , em cujo interior há uma mensagem que será lida no final da corrida, no dia 5 de Abril, em Gasteiz (Araba), por uma pessoa importante no euskaldun .
Este é o vídeo oficial da canção da Korrika 16, «Ongi etorri lagun» [Bem-vindo, amigo], com letra de Jon Maia e música e interpretação a cargo dos Betagarri.
Saber e sofrer
Dizer que o conhecimento faz sofrer tornou-se habitual. O sofrimento foi ligado à filosofia e à literatura a ponto de que não podemos imaginar um filósofo, ou alguém com cara de sábio em meio a livros, pulando carnaval ou curtindo uma piscina. Isso é um mito. Os filósofos e os escritores são ainda hoje constantemente vistos como pessoas que sofrem por conhecerem a alma humana em sua profundidade inacessível aos demais. Não quer dizer que conheçam a alma, nem que haja nela uma profundidade inacessível. Isto é apenas possível. É, sobretudo, uma crença compartilhada e, como tal, organiza nossa visão de muitas coisas. Nunca saberemos se os filósofos antigos eram todos sofredores, nem se conheciam a alma humana. Sabemos apenas que deixaram seu testemunho, no qual confiamos e com os quais devemos discutir hoje para entender o nosso tempo.
Muitos dos pensadores contribuíram com esta imagem tratando o sofrimento como seu objeto de estudos, como Schopenhauer no século XIX. Outros fizeram de seu próprio sofrimento o objeto de suas filosofias, como Pascal no século XVII. Todos tentaram entender a relação entre conhecimento e sofrimento. Dos antigos, Aristóteles, por exemplo, usou um termo de Hipócrates, a melancolia, para explicar a relação do saber com o sofrimento. Tanto para o filósofo, quanto para o médico, a melancolia era um temperamento que explicava, inclusive, a inclinação intelectual de uma pessoa. Além de elucidar o pêndulo entre a loucura e genialidade que caracterizava alguns indivíduos.
Os mais interessantes, porém, são alguns dos padres filósofos da Idade Média que falavam de um certo “demônio do meio dia” que assolava os monges como um fantasma obsedante. Antes dos filósofos perderem a crença em entidades sobrenaturais devido ao longo processo de secularização que levou ao modo de se viver no ocidente sempre a crer em ciência e tecnologia, o dito demônio era considerado a causa da dispersão na leitura, da insatisfação no convívio dentro do mosteiro, do rancor, do torpor, da vontade de morrer, das fantasias de catástrofe, da preguiça, da indolência, e também da culpa por viver no mesmo lugar sem capacidade de agir e ajudar os outros, ao mesmo tempo que responsável por uma crítica geral a tudo a todos que o cercavam em sua experiência monacal. Era o misto de maldade com desespero, de amor com ódio, de autocrítica com crítica dos outros que caracterizava o quadro melancólico que tanto fazia com que o monge se sentisse um inútil, quanto fazia com que ele se tornasse um escritor, um artista envolvido em ilustrar os livros, um filósofo em busca das verdades próximas ou distantes.
A doença é o que cura
Na verdade, muitos acreditavam que a doença não era ruim. Hugo de São Vítor, por exemplo, falava em uma tristitia utilis, uma tristeza útil. Ela era necessária para a evolução espiritual. Esta idéia pode parecer estranha, mas nos ensina algo para os nossos tempos sombrios. Os monges acreditavam que a doença a que chamavam melancolia carregava em si o seu contrário, uma forma de saúde. Ela era uma espécie de cura.
Neste aspecto não somos diferentes dos monges medievais, só perdemos a capacidade de olhar para o que chamamos sofrimento como se ele fosse apenas um modo de ser e o preço pago quando da descoberta da vida. Mas se o valorizássemos melhor (e não mais) talvez pudéssemos aprender que a condição humana sempre foi a mesma, que não somos diferentes e, portanto, a nossa dor não é diferente. Desde sempre, se nos pensamos como espécie, sofremos. Quem tenta saber mais ou melhor sofre de um novo jeito. Em vez de afundar no lodo da dor emocional, podemos descobrir o potencial de transformação do conhecimento. Que o sofrimento não é o resultado do conhecimento, mas seu ponto de partida... saber pode ser mais a cura e a libertação da dor do que a dor.
Conhecer para quê?
Que pensar nos faz sofrer pode até ser verdade. Tanto quanto pode ser verdade que pensar pode ser um prazer imenso. Quem se ocupa em conhecer a si mesmo e ao mundo sabe que fará a experiência de prazer e desprazer nesta viagem. Os gregos tinham a idéia do phármakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, para explicar a dialética da vida. Ela se aplica ao conhecimento. Podemos sofrer com ele e, do mesmo modo, alegrarmo-nos.
A melancolia antiga é ancestral direta da nossa depressão. O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que vivemos. Queremos resolver tudo pelo conhecimento, mas esquecemos de pensar que o conhecimento é uma saída que deve servir a algo mais do que o mero progresso da ciência. O conhecimento como potencial de saída da infelicidade, mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a busca.
--------------------------------------------------------------------------------
Márcia Tiburi
Na revista Vida Simples.
Muitos dos pensadores contribuíram com esta imagem tratando o sofrimento como seu objeto de estudos, como Schopenhauer no século XIX. Outros fizeram de seu próprio sofrimento o objeto de suas filosofias, como Pascal no século XVII. Todos tentaram entender a relação entre conhecimento e sofrimento. Dos antigos, Aristóteles, por exemplo, usou um termo de Hipócrates, a melancolia, para explicar a relação do saber com o sofrimento. Tanto para o filósofo, quanto para o médico, a melancolia era um temperamento que explicava, inclusive, a inclinação intelectual de uma pessoa. Além de elucidar o pêndulo entre a loucura e genialidade que caracterizava alguns indivíduos.
Os mais interessantes, porém, são alguns dos padres filósofos da Idade Média que falavam de um certo “demônio do meio dia” que assolava os monges como um fantasma obsedante. Antes dos filósofos perderem a crença em entidades sobrenaturais devido ao longo processo de secularização que levou ao modo de se viver no ocidente sempre a crer em ciência e tecnologia, o dito demônio era considerado a causa da dispersão na leitura, da insatisfação no convívio dentro do mosteiro, do rancor, do torpor, da vontade de morrer, das fantasias de catástrofe, da preguiça, da indolência, e também da culpa por viver no mesmo lugar sem capacidade de agir e ajudar os outros, ao mesmo tempo que responsável por uma crítica geral a tudo a todos que o cercavam em sua experiência monacal. Era o misto de maldade com desespero, de amor com ódio, de autocrítica com crítica dos outros que caracterizava o quadro melancólico que tanto fazia com que o monge se sentisse um inútil, quanto fazia com que ele se tornasse um escritor, um artista envolvido em ilustrar os livros, um filósofo em busca das verdades próximas ou distantes.
A doença é o que cura
Na verdade, muitos acreditavam que a doença não era ruim. Hugo de São Vítor, por exemplo, falava em uma tristitia utilis, uma tristeza útil. Ela era necessária para a evolução espiritual. Esta idéia pode parecer estranha, mas nos ensina algo para os nossos tempos sombrios. Os monges acreditavam que a doença a que chamavam melancolia carregava em si o seu contrário, uma forma de saúde. Ela era uma espécie de cura.
Neste aspecto não somos diferentes dos monges medievais, só perdemos a capacidade de olhar para o que chamamos sofrimento como se ele fosse apenas um modo de ser e o preço pago quando da descoberta da vida. Mas se o valorizássemos melhor (e não mais) talvez pudéssemos aprender que a condição humana sempre foi a mesma, que não somos diferentes e, portanto, a nossa dor não é diferente. Desde sempre, se nos pensamos como espécie, sofremos. Quem tenta saber mais ou melhor sofre de um novo jeito. Em vez de afundar no lodo da dor emocional, podemos descobrir o potencial de transformação do conhecimento. Que o sofrimento não é o resultado do conhecimento, mas seu ponto de partida... saber pode ser mais a cura e a libertação da dor do que a dor.
Conhecer para quê?
Que pensar nos faz sofrer pode até ser verdade. Tanto quanto pode ser verdade que pensar pode ser um prazer imenso. Quem se ocupa em conhecer a si mesmo e ao mundo sabe que fará a experiência de prazer e desprazer nesta viagem. Os gregos tinham a idéia do phármakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, para explicar a dialética da vida. Ela se aplica ao conhecimento. Podemos sofrer com ele e, do mesmo modo, alegrarmo-nos.
A melancolia antiga é ancestral direta da nossa depressão. O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que vivemos. Queremos resolver tudo pelo conhecimento, mas esquecemos de pensar que o conhecimento é uma saída que deve servir a algo mais do que o mero progresso da ciência. O conhecimento como potencial de saída da infelicidade, mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a busca.
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Márcia Tiburi
Na revista Vida Simples.
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