Quando era “criança pequena” conheci a história de Carlos Magno e os Pares de França primeiro na versão dos cordelistas que acrescentam a este que é considerado um dos maiores poemas épicos da Idade Média, elementos da cultura nordestina. Ainda no espírito que me havia lembrado dos cordelistas, estava encantada com o barulho das águas nas pedras quando apareceram estes corajosos fazendo rafting.
março 28, 2009
Itxassou
A meteo não anunciava tempo bom, o que nos levou a desistir de ir à San Sebastian. Lá pelo meio dia o sol abriu, meio tímido, mas nos animou a um passeio pelos arredores. O destino seria St Jean Pied de Port ....Quem disse que chegamos lá?
No caminho passamos por Itxassou, onde é produzido o romeu e julieta dos bascos: o queijo Ossau-Iraty (de ovelha) + geléia de cerejas pretas. Questões como esta, aqui são levadas muito a sério, nem os carrefours da vida ousam separá-los. No lugar próprio para queijos, se encontra a tal geléia. Inconcebível vendê-los ou comê-los de outro modo!
Por paisagens bucólicas o verde explodia, carneiros pastavam (não tão solenes), casinhas sossegadas, brancas como chantily (segundo a Beatrice) , portas e janelas no, agora inconfundível, vermelho basco...
Prosseguimos nessa estradinha, entre o rio e a montanha, sublinhada por uma linha de ferro por onde passa o trem que leva à St. Jean Peid de Port.
Nossa primeira parada foi no Pas-de-Roland. Às margens do Nive se encontra esta pedra com um buraco que teria sido feito pelo herói para fazer passar as tropas que comandava . Próximo ao buraco há uma “pegada” (enorme!) que ele teria deixado.
O Roland de que se trata, não é ninguém menos do que o sobrinho do Carlos Magno, celebrizado no poema épico - La chanson de Roland - composto no século XI , que conta a batalha travada naquele desfiladeiro. Estes acontecimentos, transmitidos oralmente, foram sendo modificados para adicionar pormenores que não correspondem à realidade histórica, não só para os franceses não ficarem em situação desonrosa, mas no interesse das Cruzadas e da estratégia da reconquista cristã. Uma longa história...
Quando era “criança pequena” conheci a história de Carlos Magno e os Pares de França primeiro na versão dos cordelistas que acrescentam a este que é considerado um dos maiores poemas épicos da Idade Média, elementos da cultura nordestina. Ainda no espírito que me havia lembrado dos cordelistas, estava encantada com o barulho das águas nas pedras quando apareceram estes corajosos fazendo rafting.
Quando era “criança pequena” conheci a história de Carlos Magno e os Pares de França primeiro na versão dos cordelistas que acrescentam a este que é considerado um dos maiores poemas épicos da Idade Média, elementos da cultura nordestina. Ainda no espírito que me havia lembrado dos cordelistas, estava encantada com o barulho das águas nas pedras quando apareceram estes corajosos fazendo rafting.
março 27, 2009
Croix de Mouguerre
Ontem à tardinha fomos a Mouguerre um pequeno povoado situado na margem esquerda do Adour que tem como ponto de atração um promontório de onde se tem uma esplêndida vista de Bayonne e seus arredores. É um caminho rural que se chama Croix de Mouguerre . Lá se encontra uma cruz e um obelisco. O monumento histórico foi construído em honra do Marechal Soult e seus soldados, no lugar que foi palco de batalhas nas guerras napoleônicas. Fiquei interessada na Cruz que, não tendo qualquer relação com os fatos históricos, dá nome ao promontório. Numa placa se lê que aquele lugar já foi denominado Akelarre , a palavra basca que siginifica “lande du sabbat” . No século XVII, a Igreja pretendendo apagar a “sinistra memória” dos sabás que lá aconteciam, fez com que passasse a se chamar Azerilarre que siginifica “lande aux renards”. Não há notícia de nenhuma raposa por lá. A cruz ali colocada pela Igreja tem o objetivo de lembrar que os ritos pagãos pertencem ao passado (?).
Ainda no tema, a Faculdade Multidisciplinar do BAB- Campus da Nive promove neste sábado , o evento La sorcellerie au Pays Basque. No programa conferência de um mestre sociólogo, de um professor de basco e do autor do livro 'Bruxaria, o que esconde a fumaça das fogueiras de 1609', Claude Labat, seguida de uma releitura do processo, 400 anos depois. E para encerrar, uma visita temática ao Museu Basque, em torno das obras de Gonzalez de la Peña (foto). Pelo visto, o tema ainda é palpitante por aqui. Não dá para dizer que as bruxas não estão soltas.
(clique o título para saber mais)
Caindo a noite e a temperatura, fui para o carro. As fotos são da Beatriz!
março 26, 2009
Korrika 16 - Abestia - Betagarri
Desde a minha chegada em Bayonne via cartazes anunciando a Korrika - Ongi etorri lagun espalhados por toda cidade e pelas outras por onde circulei. Passava batida não só por esta mas por muitas outras informações escritas em basco. Até que recebemos um jornal do evento que trazia em sua página central um mapa com o roteiro da corrida. Despertou minha curiosidade o fato de o país basco ali delineado desconhecer as fronteiras políticas entre a Espanha e a França. Observa-se que aos bascos não interessa questões dessa ordem, o que os une é a luta pela preservação de sua cultura e tradições, que passa pelo ensino da língua, objetivo deste evento. Vejam as informações que pude obter:
A Korrika é uma corrida em prol do euskara que percorre todo o País Basco / Euskal Herria, organizada pela Coordenadora de Alfabetização e Euskaldunização , com o objetivo de promover a conscientização relativamente ao euskara, dinamizar o seu uso, e arrecadar fundos para promover o ensino de euskara .
A primeira edição da Korrika se realizou em 1980 entre Oñati (Gipuzkoa) e Bilbau (Bizkaia) . Atualmente é um dos eventos mais importantes em favor do euskara, pelo número de pessoas que consegue aglutinar.
Começa hoje em Tutera (Nafarroa) e durará 11 dias, quando serão percorridos mais de 2000 km por todo o território de Euskal Herria, sem parar em nenhum momento e com a participação de centenas de milhares de pessoas de todas as idades e condições.
Durante a corrida os participantes levam um testemunho que passam de mão em mão, a cada km , em cujo interior há uma mensagem que será lida no final da corrida, no dia 5 de Abril, em Gasteiz (Araba), por uma pessoa importante no euskaldun .
Este é o vídeo oficial da canção da Korrika 16, «Ongi etorri lagun» [Bem-vindo, amigo], com letra de Jon Maia e música e interpretação a cargo dos Betagarri.
A Korrika é uma corrida em prol do euskara que percorre todo o País Basco / Euskal Herria, organizada pela Coordenadora de Alfabetização e Euskaldunização , com o objetivo de promover a conscientização relativamente ao euskara, dinamizar o seu uso, e arrecadar fundos para promover o ensino de euskara .
A primeira edição da Korrika se realizou em 1980 entre Oñati (Gipuzkoa) e Bilbau (Bizkaia) . Atualmente é um dos eventos mais importantes em favor do euskara, pelo número de pessoas que consegue aglutinar.
Começa hoje em Tutera (Nafarroa) e durará 11 dias, quando serão percorridos mais de 2000 km por todo o território de Euskal Herria, sem parar em nenhum momento e com a participação de centenas de milhares de pessoas de todas as idades e condições.
Durante a corrida os participantes levam um testemunho que passam de mão em mão, a cada km , em cujo interior há uma mensagem que será lida no final da corrida, no dia 5 de Abril, em Gasteiz (Araba), por uma pessoa importante no euskaldun .
Este é o vídeo oficial da canção da Korrika 16, «Ongi etorri lagun» [Bem-vindo, amigo], com letra de Jon Maia e música e interpretação a cargo dos Betagarri.
Saber e sofrer
Dizer que o conhecimento faz sofrer tornou-se habitual. O sofrimento foi ligado à filosofia e à literatura a ponto de que não podemos imaginar um filósofo, ou alguém com cara de sábio em meio a livros, pulando carnaval ou curtindo uma piscina. Isso é um mito. Os filósofos e os escritores são ainda hoje constantemente vistos como pessoas que sofrem por conhecerem a alma humana em sua profundidade inacessível aos demais. Não quer dizer que conheçam a alma, nem que haja nela uma profundidade inacessível. Isto é apenas possível. É, sobretudo, uma crença compartilhada e, como tal, organiza nossa visão de muitas coisas. Nunca saberemos se os filósofos antigos eram todos sofredores, nem se conheciam a alma humana. Sabemos apenas que deixaram seu testemunho, no qual confiamos e com os quais devemos discutir hoje para entender o nosso tempo.
Muitos dos pensadores contribuíram com esta imagem tratando o sofrimento como seu objeto de estudos, como Schopenhauer no século XIX. Outros fizeram de seu próprio sofrimento o objeto de suas filosofias, como Pascal no século XVII. Todos tentaram entender a relação entre conhecimento e sofrimento. Dos antigos, Aristóteles, por exemplo, usou um termo de Hipócrates, a melancolia, para explicar a relação do saber com o sofrimento. Tanto para o filósofo, quanto para o médico, a melancolia era um temperamento que explicava, inclusive, a inclinação intelectual de uma pessoa. Além de elucidar o pêndulo entre a loucura e genialidade que caracterizava alguns indivíduos.
Os mais interessantes, porém, são alguns dos padres filósofos da Idade Média que falavam de um certo “demônio do meio dia” que assolava os monges como um fantasma obsedante. Antes dos filósofos perderem a crença em entidades sobrenaturais devido ao longo processo de secularização que levou ao modo de se viver no ocidente sempre a crer em ciência e tecnologia, o dito demônio era considerado a causa da dispersão na leitura, da insatisfação no convívio dentro do mosteiro, do rancor, do torpor, da vontade de morrer, das fantasias de catástrofe, da preguiça, da indolência, e também da culpa por viver no mesmo lugar sem capacidade de agir e ajudar os outros, ao mesmo tempo que responsável por uma crítica geral a tudo a todos que o cercavam em sua experiência monacal. Era o misto de maldade com desespero, de amor com ódio, de autocrítica com crítica dos outros que caracterizava o quadro melancólico que tanto fazia com que o monge se sentisse um inútil, quanto fazia com que ele se tornasse um escritor, um artista envolvido em ilustrar os livros, um filósofo em busca das verdades próximas ou distantes.
A doença é o que cura
Na verdade, muitos acreditavam que a doença não era ruim. Hugo de São Vítor, por exemplo, falava em uma tristitia utilis, uma tristeza útil. Ela era necessária para a evolução espiritual. Esta idéia pode parecer estranha, mas nos ensina algo para os nossos tempos sombrios. Os monges acreditavam que a doença a que chamavam melancolia carregava em si o seu contrário, uma forma de saúde. Ela era uma espécie de cura.
Neste aspecto não somos diferentes dos monges medievais, só perdemos a capacidade de olhar para o que chamamos sofrimento como se ele fosse apenas um modo de ser e o preço pago quando da descoberta da vida. Mas se o valorizássemos melhor (e não mais) talvez pudéssemos aprender que a condição humana sempre foi a mesma, que não somos diferentes e, portanto, a nossa dor não é diferente. Desde sempre, se nos pensamos como espécie, sofremos. Quem tenta saber mais ou melhor sofre de um novo jeito. Em vez de afundar no lodo da dor emocional, podemos descobrir o potencial de transformação do conhecimento. Que o sofrimento não é o resultado do conhecimento, mas seu ponto de partida... saber pode ser mais a cura e a libertação da dor do que a dor.
Conhecer para quê?
Que pensar nos faz sofrer pode até ser verdade. Tanto quanto pode ser verdade que pensar pode ser um prazer imenso. Quem se ocupa em conhecer a si mesmo e ao mundo sabe que fará a experiência de prazer e desprazer nesta viagem. Os gregos tinham a idéia do phármakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, para explicar a dialética da vida. Ela se aplica ao conhecimento. Podemos sofrer com ele e, do mesmo modo, alegrarmo-nos.
A melancolia antiga é ancestral direta da nossa depressão. O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que vivemos. Queremos resolver tudo pelo conhecimento, mas esquecemos de pensar que o conhecimento é uma saída que deve servir a algo mais do que o mero progresso da ciência. O conhecimento como potencial de saída da infelicidade, mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a busca.
--------------------------------------------------------------------------------
Márcia Tiburi
Na revista Vida Simples.
Muitos dos pensadores contribuíram com esta imagem tratando o sofrimento como seu objeto de estudos, como Schopenhauer no século XIX. Outros fizeram de seu próprio sofrimento o objeto de suas filosofias, como Pascal no século XVII. Todos tentaram entender a relação entre conhecimento e sofrimento. Dos antigos, Aristóteles, por exemplo, usou um termo de Hipócrates, a melancolia, para explicar a relação do saber com o sofrimento. Tanto para o filósofo, quanto para o médico, a melancolia era um temperamento que explicava, inclusive, a inclinação intelectual de uma pessoa. Além de elucidar o pêndulo entre a loucura e genialidade que caracterizava alguns indivíduos.
Os mais interessantes, porém, são alguns dos padres filósofos da Idade Média que falavam de um certo “demônio do meio dia” que assolava os monges como um fantasma obsedante. Antes dos filósofos perderem a crença em entidades sobrenaturais devido ao longo processo de secularização que levou ao modo de se viver no ocidente sempre a crer em ciência e tecnologia, o dito demônio era considerado a causa da dispersão na leitura, da insatisfação no convívio dentro do mosteiro, do rancor, do torpor, da vontade de morrer, das fantasias de catástrofe, da preguiça, da indolência, e também da culpa por viver no mesmo lugar sem capacidade de agir e ajudar os outros, ao mesmo tempo que responsável por uma crítica geral a tudo a todos que o cercavam em sua experiência monacal. Era o misto de maldade com desespero, de amor com ódio, de autocrítica com crítica dos outros que caracterizava o quadro melancólico que tanto fazia com que o monge se sentisse um inútil, quanto fazia com que ele se tornasse um escritor, um artista envolvido em ilustrar os livros, um filósofo em busca das verdades próximas ou distantes.
A doença é o que cura
Na verdade, muitos acreditavam que a doença não era ruim. Hugo de São Vítor, por exemplo, falava em uma tristitia utilis, uma tristeza útil. Ela era necessária para a evolução espiritual. Esta idéia pode parecer estranha, mas nos ensina algo para os nossos tempos sombrios. Os monges acreditavam que a doença a que chamavam melancolia carregava em si o seu contrário, uma forma de saúde. Ela era uma espécie de cura.
Neste aspecto não somos diferentes dos monges medievais, só perdemos a capacidade de olhar para o que chamamos sofrimento como se ele fosse apenas um modo de ser e o preço pago quando da descoberta da vida. Mas se o valorizássemos melhor (e não mais) talvez pudéssemos aprender que a condição humana sempre foi a mesma, que não somos diferentes e, portanto, a nossa dor não é diferente. Desde sempre, se nos pensamos como espécie, sofremos. Quem tenta saber mais ou melhor sofre de um novo jeito. Em vez de afundar no lodo da dor emocional, podemos descobrir o potencial de transformação do conhecimento. Que o sofrimento não é o resultado do conhecimento, mas seu ponto de partida... saber pode ser mais a cura e a libertação da dor do que a dor.
Conhecer para quê?
Que pensar nos faz sofrer pode até ser verdade. Tanto quanto pode ser verdade que pensar pode ser um prazer imenso. Quem se ocupa em conhecer a si mesmo e ao mundo sabe que fará a experiência de prazer e desprazer nesta viagem. Os gregos tinham a idéia do phármakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, para explicar a dialética da vida. Ela se aplica ao conhecimento. Podemos sofrer com ele e, do mesmo modo, alegrarmo-nos.
A melancolia antiga é ancestral direta da nossa depressão. O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que vivemos. Queremos resolver tudo pelo conhecimento, mas esquecemos de pensar que o conhecimento é uma saída que deve servir a algo mais do que o mero progresso da ciência. O conhecimento como potencial de saída da infelicidade, mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a busca.
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Márcia Tiburi
Na revista Vida Simples.
março 25, 2009
Encore Bayonne
Quando penso que já vi toda a cidade, cada vez que tomo um caminho diferente sou surpreendida por novas paisagens, descubro ângulos inusitados, prédios e mais portas da antiga cidade. Foi o que aconteceu hoje, ao sair ao encontro da Beatriz e de um amigo para almoçarmos. Para minha tristeza, não levava comigo a máquina fotográfica. Nestes momentos a gente se lembra que um celular que se preza, além de rádio e mp3, tem camêra! ôba! O resultado até que não foi mal. Não dá para legendar as fotos...Vale mencionar que as correntes e roldanas tinham a função de elevar as pontes para impedir o acesso à cidade. Tive o privilégio de no caminho de volta (que foi diferente do que fiz na ida) ter a companhia do Alain Pierre que me guiou e explicou aquelas coisas que só os da terra conhecem. Estivemos num bairro onde estão instalados artesãos, artistas, galerias. Da pequena Igreja de Santo André que fica próxima à Universidade, pouco se aproveita, por deficiência da cãmera, mas seus vitrais e o órgão são lindíssimos, e também a imagem branquinha na N.S. de la Paix. Correndo o risco de estar me repetindo trago alguns dados de Bayonne.
Situada aos pés dos Pirineus, na costa atlântica, Bayonne tem 45 636 habitantes, no centro de uma aglomeração de 200.000 habitantes. Desfruta de uma situação geográfica excepcional: no coração da velha cidade, em frente ao teatro, a Nive (desce do país basco) e o Adour (rio gascon), se juntam antes de se lançarem no oceano, bem próximo. Célebre pela beleza de suas construções seculares maravilhosamente restauradas, seus diversos cais, museus, castelos e cidadela. Bayonne é famosa também por suas tradições: a feira do presunto,a arte dos artesãos chocolatiers, o festival de teatro, as festas de agosto, as corridas de touros, a pelota basca, o rugby...
À história de Bayonne se tem acesso clicando no título.
março 24, 2009
Topa tudo por dinheiro
Esta é a coluna do Estadão assinada por Daniel Piza (Sinopse), reproduzida em seu blog. Sua opinião corresponde à minha que, por deficiência própria, não está tão bem exposta na postagem da sexta feira que antecedeu à premiação. Como admiro o Piza e gostei da identificação, transcrevo o seu texto :
"23.03.09 - Topa tudo por dinheiro
por Daniel Piza, Seção: cinema 12:17:58.
Que um filme como Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, tenha vencido o Oscar é mau sinal dos tempos. Venceu por motivos óbvios: por ser uma historinha quase surreal de triunfo individual num cenário de pobreza e globalização. Em outras palavras, está muito mais para Hollywood do que para Bollywood. Ao dizer que o rapaz, Jamal, busca o prêmio máximo da gincana não por causa da conta bancária, e sim do amor-eterno-que-resiste-a-tudo, o enredo foi muito mais “América” do que a própria Hollywood tem conseguido ou querido fazer. Quem pensa que o filme ganhou apenas por questão ideológica, por uma espécie de sentimento de compaixão da Era Obama pelos desgarrados do mundo, está errado; ganhou por ser mistura de melodrama e movimento ao gosto do cinemão, sem precisar do mesmo orçamento.
O roteiro chega a constranger de tão forçado. Jamal só tem acesso às respostas porque em algum momento de sua biografia topou casualmente com cada uma delas. Casualmente, não; foi o “destino”... Nessa biografia infanto-juvenil, humilhação pouca é bobagem: ele precisou literalmente mergulhar na merda, e de lá saiu com a foto de seu ídolo pop. Em outra sequência, depois de tentar roubar um pão e ser derrubado do trem em alta velocidade, ele cai – ora, veja que coincidência! – justamente diante do Taj Mahal. “É o paraíso?”, pergunta. Não, não, mas não vai demorar muito. Vi que colegas se gabaram das semelhanças do filme com Cidade de Deus, dizendo que se a votação fosse hoje o filme brasileiro também teria triunfado. Afinal, quem quer ser um colonizado?
Nos filmes indianos típicos, as danças pontuam toda a história, não vêm só nos créditos; a relação amorosa supera os conflitos com participação de outros atores sociais, sendo uma sociedade de castas; os heróis não têm causa. Sim, o filme flui, cria a sensação de suspense, prende a atenção com a ação nas favelas, a beleza da atriz, a fotografia de cores fortes e granuladas, a figura meio Silvio Santos do apresentador de TV. Mas vai ficando cada vez mais afável, tal como o detetive pró-tortura adquirindo sorriso, embora jamais chegue a pintar uma Índia casa-de-bonecas como a da novela brasileira. E isso pode ser tudo, menos um cinema inovador ou sutil ou, vá lá, bem-feito."
("Sinopse")
"23.03.09 - Topa tudo por dinheiro
por Daniel Piza, Seção: cinema 12:17:58.
Que um filme como Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, tenha vencido o Oscar é mau sinal dos tempos. Venceu por motivos óbvios: por ser uma historinha quase surreal de triunfo individual num cenário de pobreza e globalização. Em outras palavras, está muito mais para Hollywood do que para Bollywood. Ao dizer que o rapaz, Jamal, busca o prêmio máximo da gincana não por causa da conta bancária, e sim do amor-eterno-que-resiste-a-tudo, o enredo foi muito mais “América” do que a própria Hollywood tem conseguido ou querido fazer. Quem pensa que o filme ganhou apenas por questão ideológica, por uma espécie de sentimento de compaixão da Era Obama pelos desgarrados do mundo, está errado; ganhou por ser mistura de melodrama e movimento ao gosto do cinemão, sem precisar do mesmo orçamento.
O roteiro chega a constranger de tão forçado. Jamal só tem acesso às respostas porque em algum momento de sua biografia topou casualmente com cada uma delas. Casualmente, não; foi o “destino”... Nessa biografia infanto-juvenil, humilhação pouca é bobagem: ele precisou literalmente mergulhar na merda, e de lá saiu com a foto de seu ídolo pop. Em outra sequência, depois de tentar roubar um pão e ser derrubado do trem em alta velocidade, ele cai – ora, veja que coincidência! – justamente diante do Taj Mahal. “É o paraíso?”, pergunta. Não, não, mas não vai demorar muito. Vi que colegas se gabaram das semelhanças do filme com Cidade de Deus, dizendo que se a votação fosse hoje o filme brasileiro também teria triunfado. Afinal, quem quer ser um colonizado?
Nos filmes indianos típicos, as danças pontuam toda a história, não vêm só nos créditos; a relação amorosa supera os conflitos com participação de outros atores sociais, sendo uma sociedade de castas; os heróis não têm causa. Sim, o filme flui, cria a sensação de suspense, prende a atenção com a ação nas favelas, a beleza da atriz, a fotografia de cores fortes e granuladas, a figura meio Silvio Santos do apresentador de TV. Mas vai ficando cada vez mais afável, tal como o detetive pró-tortura adquirindo sorriso, embora jamais chegue a pintar uma Índia casa-de-bonecas como a da novela brasileira. E isso pode ser tudo, menos um cinema inovador ou sutil ou, vá lá, bem-feito."
("Sinopse")
Last chance for love
Acontece por aqui Le printemps du cinema. São 7 salas com filmes variados, ao preço único de 3,50 euros. O lado ruim: os europeus dublam os filmes. Em cidades que tem um maior número de salas é possível encontrar alguma onde passe a versão original (com legendas).
Mesmo assim, fomos ver LAST CHANCE FOR LOVE (o título oiginal foi mantido). Uma charmosa comédia romântica, estrelada por ninguém menos que Emma Tomphson e Dustin Hofman . Numa simpática Londres, um pianista americano que lá estava para o casamento de sua filha reencontra o amor. Tudo embalado naquela filosofia de que é preciso viver plenamente o momento presente! Faço severas restrições a filmes dublados. Não são convincentes. A artificialidade das falas, a versão que nem sempre é boa e neste caso, a voz que dublava a Emma Thompson era insuportável....
Mas tem quem goste... É impressão minha ou, ultimamente, as comédias românticas tem protagonistas (pares românticos) cada vez mais velhos?
março 23, 2009
março 22, 2009
Pranzo di Ferragosto
Domingo é dia de marché em Anglet. As feiras livres (não só aqui no país basco, na provence funciona da mesma maneira) acontecem em cidades diferentes, em dias alternados uma vez que estas são muito pequenas e muito próximas. Nelas se encontra “ de um tudo”, com destaque para os produtos regionais (no caso, bascos), que são vendidos pelos próprios produtores. Ao contrário do que à primeira vista se pode pensar, isto não os torna mais baratos. A inexistência da intermediação é substituída pela “origem” garantida e qualificada, que passa a ser um valor agregado.
Compramos legumes para as nossas sopas (dieta que resolvemos adotar para o jantar, sem muito fanatismo, desde que retornamos do tour gastrônomico pelo Périgord) e degustamos, lá mesmo, ostras frescas que são servidas acompanhadas de vinho branco. E para alimentar a alma, os livros! Oferecidos, sem distinção, a 2 euros! Sempre registro como livros aqui custam muito menos, seja qual for a comparação que se faça!
Mesmo sendo uma insensatez, tendo em vista que ainda vou me deslocar muito (de avião) até pegar o caminho de casa, comprei Au bonheur des Dames do Zola ( “O Paraíso das Damas”) , pelo qual estive meio atraída, no fim do ano passado. Agora vou ter oportunidade de lê-lo no original o que, não tenham dúvida, faz uma grande diferença!
A temperatura caiu bastante. Almoçamos numa brasserie às margens do Nive (afluente do Adur) e viemos para casa até a hora de pegar um cineminha .
Acabamos de chegar do cinema. Foi uma ótima escolha. O filme foi muito bem recebido pela crítica e ganhou vários prêmios em festivais, inclusive em Veneza, no ano passado. Tendo como tema principal a terceira idade num cenário onde a comédia é sinônimo de temas adolescentes, Pranzo di Ferragosto é tão irresistível e delicioso que lembra as antigas comédias italianas, com um detalhe importante: o quarteto de atrizes-não atrizes é maravilhoso. Como não sei qual o título que recebeu no Brasil, estou postando, além do trailer, o site oficial que vc tem acesso clicando o título.
(O título em frances: O jantar de 15 de agosto)
Compramos legumes para as nossas sopas (dieta que resolvemos adotar para o jantar, sem muito fanatismo, desde que retornamos do tour gastrônomico pelo Périgord) e degustamos, lá mesmo, ostras frescas que são servidas acompanhadas de vinho branco. E para alimentar a alma, os livros! Oferecidos, sem distinção, a 2 euros! Sempre registro como livros aqui custam muito menos, seja qual for a comparação que se faça!
Mesmo sendo uma insensatez, tendo em vista que ainda vou me deslocar muito (de avião) até pegar o caminho de casa, comprei Au bonheur des Dames do Zola ( “O Paraíso das Damas”) , pelo qual estive meio atraída, no fim do ano passado. Agora vou ter oportunidade de lê-lo no original o que, não tenham dúvida, faz uma grande diferença!
A temperatura caiu bastante. Almoçamos numa brasserie às margens do Nive (afluente do Adur) e viemos para casa até a hora de pegar um cineminha .
Acabamos de chegar do cinema. Foi uma ótima escolha. O filme foi muito bem recebido pela crítica e ganhou vários prêmios em festivais, inclusive em Veneza, no ano passado. Tendo como tema principal a terceira idade num cenário onde a comédia é sinônimo de temas adolescentes, Pranzo di Ferragosto é tão irresistível e delicioso que lembra as antigas comédias italianas, com um detalhe importante: o quarteto de atrizes-não atrizes é maravilhoso. Como não sei qual o título que recebeu no Brasil, estou postando, além do trailer, o site oficial que vc tem acesso clicando o título.
(O título em frances: O jantar de 15 de agosto)
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