março 26, 2009

Korrika 16 - Abestia - Betagarri

Desde a minha chegada em Bayonne via cartazes anunciando a Korrika - Ongi etorri lagun espalhados por toda cidade e pelas outras por onde circulei. Passava batida não só por esta mas por muitas outras informações escritas em basco. Até que recebemos um jornal do evento que trazia em sua página central um mapa com o roteiro da corrida. Despertou minha curiosidade o fato de o país basco ali delineado desconhecer as fronteiras políticas entre a Espanha e a França. Observa-se que aos bascos não interessa questões dessa ordem, o que os une é a luta pela preservação de sua cultura e tradições, que passa pelo ensino da língua, objetivo deste evento. Vejam as informações que pude obter:
A Korrika é uma corrida em prol do euskara que percorre todo o País Basco / Euskal Herria, organizada pela Coordenadora de Alfabetização e Euskaldunização , com o objetivo de promover a conscientização relativamente ao euskara, dinamizar o seu uso, e arrecadar fundos para promover o ensino de euskara .
A primeira edição da Korrika se realizou em 1980 entre Oñati (Gipuzkoa) e Bilbau (Bizkaia) . Atualmente é um dos eventos mais importantes em favor do euskara, pelo número de pessoas que consegue aglutinar.
Começa hoje em Tutera (Nafarroa) e durará 11 dias, quando serão percorridos mais de 2000 km por todo o território de Euskal Herria, sem parar em nenhum momento e com a participação de centenas de milhares de pessoas de todas as idades e condições.
Durante a corrida os participantes levam um testemunho que passam de mão em mão, a cada km , em cujo interior há uma mensagem que será lida no final da corrida, no dia 5 de Abril, em Gasteiz (Araba), por uma pessoa importante no euskaldun .

Este é o vídeo oficial da canção da Korrika 16, «Ongi etorri lagun» [Bem-vindo, amigo], com letra de Jon Maia e música e interpretação a cargo dos Betagarri.

Saber e sofrer

Dizer que o conhecimento faz sofrer tornou-se habitual. O sofrimento foi ligado à filosofia e à literatura a ponto de que não podemos imaginar um filósofo, ou alguém com cara de sábio em meio a livros, pulando carnaval ou curtindo uma piscina. Isso é um mito. Os filósofos e os escritores são ainda hoje constantemente vistos como pessoas que sofrem por conhecerem a alma humana em sua profundidade inacessível aos demais. Não quer dizer que conheçam a alma, nem que haja nela uma profundidade inacessível. Isto é apenas possível. É, sobretudo, uma crença compartilhada e, como tal, organiza nossa visão de muitas coisas. Nunca saberemos se os filósofos antigos eram todos sofredores, nem se conheciam a alma humana. Sabemos apenas que deixaram seu testemunho, no qual confiamos e com os quais devemos discutir hoje para entender o nosso tempo.
Muitos dos pensadores contribuíram com esta imagem tratando o sofrimento como seu objeto de estudos, como Schopenhauer no século XIX. Outros fizeram de seu próprio sofrimento o objeto de suas filosofias, como Pascal no século XVII. Todos tentaram entender a relação entre conhecimento e sofrimento. Dos antigos, Aristóteles, por exemplo, usou um termo de Hipócrates, a melancolia, para explicar a relação do saber com o sofrimento. Tanto para o filósofo, quanto para o médico, a melancolia era um temperamento que explicava, inclusive, a inclinação intelectual de uma pessoa. Além de elucidar o pêndulo entre a loucura e genialidade que caracterizava alguns indivíduos.
Os mais interessantes, porém, são alguns dos padres filósofos da Idade Média que falavam de um certo “demônio do meio dia” que assolava os monges como um fantasma obsedante. Antes dos filósofos perderem a crença em entidades sobrenaturais devido ao longo processo de secularização que levou ao modo de se viver no ocidente sempre a crer em ciência e tecnologia, o dito demônio era considerado a causa da dispersão na leitura, da insatisfação no convívio dentro do mosteiro, do rancor, do torpor, da vontade de morrer, das fantasias de catástrofe, da preguiça, da indolência, e também da culpa por viver no mesmo lugar sem capacidade de agir e ajudar os outros, ao mesmo tempo que responsável por uma crítica geral a tudo a todos que o cercavam em sua experiência monacal. Era o misto de maldade com desespero, de amor com ódio, de autocrítica com crítica dos outros que caracterizava o quadro melancólico que tanto fazia com que o monge se sentisse um inútil, quanto fazia com que ele se tornasse um escritor, um artista envolvido em ilustrar os livros, um filósofo em busca das verdades próximas ou distantes.
A doença é o que cura
Na verdade, muitos acreditavam que a doença não era ruim. Hugo de São Vítor, por exemplo, falava em uma tristitia utilis, uma tristeza útil. Ela era necessária para a evolução espiritual. Esta idéia pode parecer estranha, mas nos ensina algo para os nossos tempos sombrios. Os monges acreditavam que a doença a que chamavam melancolia carregava em si o seu contrário, uma forma de saúde. Ela era uma espécie de cura.
Neste aspecto não somos diferentes dos monges medievais, só perdemos a capacidade de olhar para o que chamamos sofrimento como se ele fosse apenas um modo de ser e o preço pago quando da descoberta da vida. Mas se o valorizássemos melhor (e não mais) talvez pudéssemos aprender que a condição humana sempre foi a mesma, que não somos diferentes e, portanto, a nossa dor não é diferente. Desde sempre, se nos pensamos como espécie, sofremos. Quem tenta saber mais ou melhor sofre de um novo jeito. Em vez de afundar no lodo da dor emocional, podemos descobrir o potencial de transformação do conhecimento. Que o sofrimento não é o resultado do conhecimento, mas seu ponto de partida... saber pode ser mais a cura e a libertação da dor do que a dor.
Conhecer para quê?
Que pensar nos faz sofrer pode até ser verdade. Tanto quanto pode ser verdade que pensar pode ser um prazer imenso. Quem se ocupa em conhecer a si mesmo e ao mundo sabe que fará a experiência de prazer e desprazer nesta viagem. Os gregos tinham a idéia do phármakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, para explicar a dialética da vida. Ela se aplica ao conhecimento. Podemos sofrer com ele e, do mesmo modo, alegrarmo-nos.
A melancolia antiga é ancestral direta da nossa depressão. O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que vivemos. Queremos resolver tudo pelo conhecimento, mas esquecemos de pensar que o conhecimento é uma saída que deve servir a algo mais do que o mero progresso da ciência. O conhecimento como potencial de saída da infelicidade, mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a busca.
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Márcia Tiburi
Na revista Vida Simples.

março 25, 2009

Encore Bayonne

Quando penso que já vi toda a cidade, cada vez que tomo um caminho diferente sou surpreendida por novas paisagens, descubro ângulos inusitados, prédios e mais portas da antiga cidade. Foi o que aconteceu hoje, ao sair ao encontro da Beatriz e de um amigo para almoçarmos. Para minha tristeza, não levava comigo a máquina fotográfica. Nestes momentos a gente se lembra que um celular que se preza, além de rádio e mp3, tem camêra! ôba! O resultado até que não foi mal. Não dá para legendar as fotos...Vale mencionar que as correntes e roldanas tinham a função de elevar as pontes para impedir o acesso à cidade. Tive o privilégio de no caminho de volta (que foi diferente do que fiz na ida) ter a companhia do Alain Pierre que me guiou e explicou aquelas coisas que só os da terra conhecem. Estivemos num bairro onde estão instalados artesãos, artistas, galerias. Da pequena Igreja de Santo André que fica próxima à Universidade, pouco se aproveita, por deficiência da cãmera, mas seus vitrais e o órgão são lindíssimos, e também a imagem branquinha na N.S. de la Paix.


Correndo o risco de estar me repetindo trago alguns dados de Bayonne.
Situada aos pés dos Pirineus, na costa atlântica, Bayonne tem 45 636 habitantes, no centro de uma aglomeração de 200.000 habitantes. Desfruta de uma situação geográfica excepcional: no coração da velha cidade, em frente ao teatro, a Nive (desce do país basco) e o Adour (rio gascon), se juntam antes de se lançarem no oceano, bem próximo. Célebre pela beleza de suas construções seculares maravilhosamente restauradas, seus diversos cais, museus, castelos e cidadela. Bayonne é famosa também por suas tradições: a feira do presunto,a arte dos artesãos chocolatiers, o festival de teatro, as festas de agosto, as corridas de touros, a pelota basca, o rugby...
À história de Bayonne se tem acesso clicando no título.

março 24, 2009

Topa tudo por dinheiro

Esta é a coluna do Estadão assinada por Daniel Piza (Sinopse), reproduzida em seu blog. Sua opinião corresponde à minha que, por deficiência própria, não está tão bem exposta na postagem da sexta feira que antecedeu à premiação. Como admiro o Piza e gostei da identificação, transcrevo o seu texto :

"23.03.09 - Topa tudo por dinheiro
por Daniel Piza, Seção: cinema 12:17:58.
Que um filme como Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, tenha vencido o Oscar é mau sinal dos tempos. Venceu por motivos óbvios: por ser uma historinha quase surreal de triunfo individual num cenário de pobreza e globalização. Em outras palavras, está muito mais para Hollywood do que para Bollywood. Ao dizer que o rapaz, Jamal, busca o prêmio máximo da gincana não por causa da conta bancária, e sim do amor-eterno-que-resiste-a-tudo, o enredo foi muito mais “América” do que a própria Hollywood tem conseguido ou querido fazer. Quem pensa que o filme ganhou apenas por questão ideológica, por uma espécie de sentimento de compaixão da Era Obama pelos desgarrados do mundo, está errado; ganhou por ser mistura de melodrama e movimento ao gosto do cinemão, sem precisar do mesmo orçamento.
O roteiro chega a constranger de tão forçado. Jamal só tem acesso às respostas porque em algum momento de sua biografia topou casualmente com cada uma delas. Casualmente, não; foi o “destino”... Nessa biografia infanto-juvenil, humilhação pouca é bobagem: ele precisou literalmente mergulhar na merda, e de lá saiu com a foto de seu ídolo pop. Em outra sequência, depois de tentar roubar um pão e ser derrubado do trem em alta velocidade, ele cai – ora, veja que coincidência! – justamente diante do Taj Mahal. “É o paraíso?”, pergunta. Não, não, mas não vai demorar muito. Vi que colegas se gabaram das semelhanças do filme com Cidade de Deus, dizendo que se a votação fosse hoje o filme brasileiro também teria triunfado. Afinal, quem quer ser um colonizado?
Nos filmes indianos típicos, as danças pontuam toda a história, não vêm só nos créditos; a relação amorosa supera os conflitos com participação de outros atores sociais, sendo uma sociedade de castas; os heróis não têm causa. Sim, o filme flui, cria a sensação de suspense, prende a atenção com a ação nas favelas, a beleza da atriz, a fotografia de cores fortes e granuladas, a figura meio Silvio Santos do apresentador de TV. Mas vai ficando cada vez mais afável, tal como o detetive pró-tortura adquirindo sorriso, embora jamais chegue a pintar uma Índia casa-de-bonecas como a da novela brasileira. E isso pode ser tudo, menos um cinema inovador ou sutil ou, vá lá, bem-feito."
("Sinopse")

Last chance for love


Acontece por aqui Le printemps du cinema. São 7 salas com filmes variados, ao preço único de 3,50 euros. O lado ruim: os europeus dublam os filmes. Em cidades que tem um maior número de salas é possível encontrar alguma onde passe a versão original (com legendas).
Mesmo assim, fomos ver LAST CHANCE FOR LOVE (o título oiginal foi mantido). Uma charmosa comédia romântica, estrelada por ninguém menos que Emma Tomphson e Dustin Hofman . Numa simpática Londres, um pianista americano que lá estava para o casamento de sua filha reencontra o amor. Tudo embalado naquela filosofia de que é preciso viver plenamente o momento presente! Faço severas restrições a filmes dublados. Não são convincentes. A artificialidade das falas, a versão que nem sempre é boa e neste caso, a voz que dublava a Emma Thompson era insuportável....
Mas tem quem goste... É impressão minha ou, ultimamente, as comédias românticas tem protagonistas (pares românticos) cada vez mais velhos?

março 22, 2009

Pranzo di Ferragosto

Domingo é dia de marché em Anglet. As feiras livres (não só aqui no país basco, na provence funciona da mesma maneira) acontecem em cidades diferentes, em dias alternados uma vez que estas são muito pequenas e muito próximas. Nelas se encontra “ de um tudo”, com destaque para os produtos regionais (no caso, bascos), que são vendidos pelos próprios produtores. Ao contrário do que à primeira vista se pode pensar, isto não os torna mais baratos. A inexistência da intermediação é substituída pela “origem” garantida e qualificada, que passa a ser um valor agregado.
Compramos legumes para as nossas sopas (dieta que resolvemos adotar para o jantar, sem muito fanatismo, desde que retornamos do tour gastrônomico pelo Périgord) e degustamos, lá mesmo, ostras frescas que são servidas acompanhadas de vinho branco. E para alimentar a alma, os livros! Oferecidos, sem distinção, a 2 euros! Sempre registro como livros aqui custam muito menos, seja qual for a comparação que se faça!
Mesmo sendo uma insensatez, tendo em vista que ainda vou me deslocar muito (de avião) até pegar o caminho de casa, comprei Au bonheur des Dames do Zola ( “O Paraíso das Damas”) , pelo qual estive meio atraída, no fim do ano passado. Agora vou ter oportunidade de lê-lo no original o que, não tenham dúvida, faz uma grande diferença!
A temperatura caiu bastante. Almoçamos numa brasserie às margens do Nive (afluente do Adur) e viemos para casa até a hora de pegar um cineminha .
Acabamos de chegar do cinema. Foi uma ótima escolha. O filme foi muito bem recebido pela crítica e ganhou vários prêmios em festivais, inclusive em Veneza, no ano passado. Tendo como tema principal a terceira idade num cenário onde a comédia é sinônimo de temas adolescentes, Pranzo di Ferragosto é tão irresistível e delicioso que lembra as antigas comédias italianas, com um detalhe importante: o quarteto de atrizes-não atrizes é maravilhoso. Como não sei qual o título que recebeu no Brasil, estou postando, além do trailer, o site oficial que vc tem acesso clicando o título.
(O título em frances: O jantar de 15 de agosto)

março 21, 2009

S Á B A D O


O golfo de Biscaia fica situado entre a costa norte da Espanha e a costa sudoeste da França. Estas praias estão entre Biarritz e Hendaye na fronteira com a Espanha, mas seus nomes bascos são tão compicados...

P R I M A V E R A






O N T E M

Ontem não visitei St Jean de Luz. Fui protelando para depois de meio dia, argumentando (para meus botões) que St Jean estará onde sempre esteve, acabei ficando. Não fui para lugar nenhum. É para o que serve não ter compromisso com nada nem com ninguém. Só para isto. O que não é uma grande vantagem.
Fiquei lendo os jornais em que, fora as mesmices de sempre, tinha a coluna que postei (abaixo), a propósito da controvertida figura que foi o Clodovil e, de quebra, comenta o monólogo do meu queridinho Contardo, que acaba de estrear em Sampa.

No jantar da véspera, tinha ouvido uma descriçao tão apaixonada das “corridas” que, se fosse temporada, ia fazer tudo para comparecer a uma plaza de toros . Nunca teve qualquer significado para mim as cenas que até hoje só vi no cinema ou, en passant, na TVE. Nunca alcancei o sentido que podia existir num "espetáculo" que fascinava pessoas como Picasso, Hemingway (cujas narrações, para mim, não foram tão envolventes) ou aqueles anônimos (a maioria homens) que se vê nos bares “temáticos” em Madri. Vidrados nas telas das TVs, estrategicamente posicionadas, me levavam a pensar como os homens tem mesmo certos comportamentos esquisitos....
Mas a emocionante descrição das corridas a que me refiro foi feita por uma mulher. É certo que não se tratava de qualquer mulher, nem de uma mulher qualquer, a se referir à corrida de toros como uma luta ferrenha e mortal “entre a razâo e a emoção”. E ela o fazia com tanta empolgação que só não consegui abstrair que os envolvidos eram um homem e um touro, porque a presença do sangue, muito sangue, não era omitida, mas a emoção se sobrepunha a tudo!
Foi um momento único, daqueles que merecia ter sido gravado. Não foi uma simples conversa. Coisa rara de acontecer, me mantive calada diante da expressiva descrição e a riqueza de simbologias e significados extraídos daquilo que para muitos não passa de uma brutalidade.
Para que não se perca na memória, registro que o assunto derivou para as corridas quando falávamos de filhos e emoções e ao que elas podem nos levar.

março 20, 2009

C L O D O V I L

"Não se fazem mais machos como Clodovil
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Com o estilista talvez tenha morrido também o estereótipo do gay maldoso, folclórico e efeminado
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NUNCA IMAGINEI que fosse reunir os nomes de Contardo Calligaris e Clodovil em um mesmo texto, mas a vida quis que, no dia do enterro do costureiro transformado em apresentador e deputado, eu atendesse ao gentil convite do colunista e psicanalista para assistir à sua estreia como dramaturgo, em "O Homem da Tarja Preta", um monólogo interpretado pelo ator baiano Ricardo Bittencourt no qual Contardo derruba a tiros de canhão os estereótipos sobre a libido masculina.
Não é uma peça fácil para os homens. O personagem de Bittencourt é dono de uma identidade sexual ambígua e isso parece deixar os machos na plateia um tanto alvoroçados. O sujeito ao meu lado, por exemplo, ficou tão tenso com o que acontecia no palco que passou o tempo todo embrulhando furiosamente um papel de bala barulhento. Pensei muito em Clodovil durante a peça e em como ele teria reagido à desconstrução do papel do macho efetuada por Calligaris.
Conhecia Clô a vida inteira e, para mim, ele fazia o tipo machão de quebrar o bar inteiro. Explico: quando eu tinha lá os meus 11, 12 anos, mr. Hernandes morava a dois quarteirões da minha casa, mais precisamente na esquina das ruas Oliveira Pimentel e Henrique Martins, no Jardim Paulista.
O cruzamento dessas ruas era palco diário de trombadas de automóvel. E, toda vez que havia uma colisão, ele saía na rua, quase sempre de robe de chambre, para esculachar os motoristas. A vizinhança inteira conhecia o expediente e todo mundo morria de medo dele. Mas não eu ou os meus amigos. As batidas eram tão constantes que, quando não tínhamos nada melhor para fazer, nós estacionávamos a bicicleta na calçada e ficávamos lá sentados esperando para ver o próximo show de Clodovil. Devo ter assistido de camarote a uma meia dúzia de pitis, que terminavam sempre com a nossa salva de palmas e com o estilista nos colocando para correr. Hoje, a gente sabe que não existem apenas héteros, gays e "inativos" e que a sexualidade humana apresenta uma variedade bem maior do que todos os modelos das coleções criadas por Clodovil reunidos. Mas, naquela época, era preciso ter peito para se expor como ele. Pois veja como são as coisas. Embora não hesitasse em se apresentar como homossexual, Clodovil não lidou bem com o fato de ser gay. Nos últimos tempos, dizia que, dada a escolha, ele teria optado por "nascer homem", como se tivesse nascido, sei lá eu, petúnia ou beterraba.
Líder do movimento gay no Brasil, o excelente Luiz Mott afirmou que Clodovil "foi um gay alienado, exibicionista e que desperdiçou sua inteligência e sua audácia em favor de um projeto de vida furado, completamente ultrapassado e elitista". Longe de mim contestar o projeto de vida de quem quer que seja.
Acho que Mott foi muito duro com Clô ao tecer esse julgamento.
Mas concordo que, com o estilista talvez tenha morrido também aquele estereótipo do gay maldoso, folclórico e efeminado de outros tempos. O do homem que sofreu tanto na infância por ser "diferente" que passou o resto da vida descontando nos outros.
Como antídoto contra esse destino trágico, pela graça de Deus hoje existem peças como "O Homem da Tarja Preta", de Contardo Calligaris."

BARBARA GANCIA na FSP de hoje

B i a r r i t z





Em 1855, a espanhola Eugênia de Montijo ganhou do marido, o imperador Napoleão 3º, um palácio voltado para o mar (visível na primeira foto). Desde então, Biarritz tem sido ponto de encontro da nobreza européia, de famosos e de turistas de todo o mundo, que desfilam pelas ruas tranqüilas aproveitando a beleza natural e as tradições que surgiram da convivência entre franceses e espanhóis. Biarritz fica a pouco menos de uma hora da divisa com a Espanha, na porção francesa do País Basco.
Na Idade Média eram as baleias que invadiam as suas águas calmas e o local era um pequeno porto habitado por nativos craques no manuseio de arpões que até o século 17 eram usados na matança de baleias, principal sustento dos pescadores. O óleo era usado como combustível e liga para construções, os ossos iam para a confecção de cercas e móveis e parte da carne era usada em receitas da região.
Foi no começo de 1800 que a cidade começou a ganhar notoriedade e um dos primeiros grandes nomes a freqüentar Biarritz foi Victor Hugo que escreveu em 1843: "É um povoado branco, de telhados vermelhos e janelas verdes, construído sobre um pequeno monte gramado".
Onze anos mais tarde, o imperador Napoleão 3º deu início à construção de sua residência de verão, o Palais (hoje transformado em hotel) presenteado a sua mulher para que ela pudesse ouvir o som das ondas, desfrutar da beleza da paisagem e também dos benefícios do clima.
Guiada pela curiosidade (ou talvez pela inveja), parte da realeza européia acabou construindo seus palacetes: os reis da Bélgica, de Portugal e da Espanha, além de príncipes russos, poloneses e lordes ingleses. No século 20, na cidade foram instalados cassinos e casas de espetáculos. Mesmo depois da Segunda Guerra, continuou atraindo a elite de várias partes do mundo, além de estrelas do cinema. Rita Hayworth, Frank Sinatra, Gary Cooper e Bing Crosby eram figurinhas carimbadas. .
Chega de dar uma de guia!
Ao contrário dos espanhóis (lembrei-me deles pois ontem estavam por aqui aproveitando o dia de São José que é feriado na Espanha), os franceses não fazem o que nós chamamos de happy hour. Saem do trabalho direto para casa e, se retornam, é bem mais tarde, para um solene jantar. Ontem fomos ao cair da tarde para Biarritz e tínhamos a intenção de ficar um pouco por lá, mas quando o comércio fechou a cidade ficou deserta e todos os bares/cafés vazios.
Valeu pelo lindo coucher du soleil que podia ter sido melhor registrado, caso não tivesse deixado para lembrar do dispositivo para fazer fotos no crepúsculo, somente ao chegar em casa...!