março 07, 2009

Rua das Etnias

A inauguração da Rua 24 Horas aconteceu dias depois da minha chegada à Curitiba. A primeira festa a que compareci na cidade foi num 14 juillet em que a data francesa foi comemorada numa festa em que as pessoas dançavam na Rua, toda decorada com as cores da França. Tive uma ótima impressão. Aquele povo dançando ao som das músicas francesas, como até então só tinha visto no cinema. Mas ficou por aí...


"A Rua 24 Horas de Curitiba foi inaugurada com muita festa e disposição para que se transformasse em mais um ponto de referência da cidade. Realmente, aos poucos tornou-se um lugar de bom chope e muita conversa. Carecia de banheiros acessíveis, não oferecia recursos adequados para pessoas deficientes, mas isso não impediu, por exemplo, que os deficientes auditivos definissem aquele como sendo um local de reunião informal, o que acontecia com regularidade.
Por motivos que desconhecemos a Rua 24 Horas foi sendo abandonada. O policiamento precário e virando opção de grupos menos simpáticos ao povo mais do que conservador de Curitiba, caiu na desgraça da população mandante. A falta de cuidados com a manutenção fez o resto, levando a administração municipal a anunciar seu fechamento para reformas, algo anunciado até hoje em dois cartazes nas duas entradas principais. Lá vemos que a Rua “será” fechada em 10 de setembro de 2007 para reformas. Nada informa quando será reinaugurada.
Ouvimos do presidente da URBS, durante seu depoimento sobre a URBS na Câmara Municipal de Curitiba na tarde de 3 de março passado, a hipótese de mudar sua função. Uma idéia em discussão seria fazê-la a “Rua das Etnias”. Nada errado para as elites curitibanas, tão ciosas de suas origens. Incomoda, entretanto, o cheiro de racismo e a possibilidade dos “estrangeiros” mais recentes de se competir com aqueles que exibem a honra de serem descendentes dos primeiros que chegaram por aqui, deslocando os povos indígenas que viviam nessa terra. Pior ainda, a ênfase em detalhes biológicos e culturais perigosos.
Desconfiamos, acima de tudo, de preconceitos que deveríamos evitar. Eric Hobsbawm denuncia, explica, relata, demonstra em seus livros o que significou o nacionalismo tribal que passou a dominar a humanidade conduzida pelos grandes proprietários de terra e palácios europeus, assustados com os movimentos revolucionários de 1848 e a Comuna de Paris, o socialismo que surgia com força. Fala, inclusive, do terrorismo mais do que atual, escatológico, criado pelos ambientalistas quando dezenas de milhões de seres humanos vivem como refugiados políticos. Para não esquecermos o que foram aqueles tempos das raças puras, filmes recentes mostram o lado tenebroso do nazismo.
Vemos o receio de se revitalizar a Rua 24 Horas. Não estaria nisso um pouco da síndrome da Rua Castro, tão bem mostrada no filme “Milk – A voz da Igualdade”, título que talvez fosse melhor se falasse em voz da liberdade? Era idéia corrente entre os curitibanos referir-se a esse logradouro como lugar de homossexuais e prostitutas. E se fosse? Nada mais lógico, pois pensando apenas em termos percentuais Curitiba deve ter gente com opções sexuais e profissionais diferentes capazes de encher algumas ruas tão pequenas quanto aquela travessa.
Está na hora da capital paranaense ser mais democrática, livre. Infelizmente a tradição da cidade não era muito simpática. A Boca era lugar de agressões verbais a quem não agradasse aqueles que lá paravam para seus momentos de lazer e ...
Tradições, etnias, muitos costumes e comportamentos cheiram a vícios tribais e inquisitoriais. Vamos reinaugurar a Rua 24 Horas sem lhe impor padrões culturais? A liberdade é importante demais para se perder em meio a preconceitos mal confessados."
João Carlos Cascaes
http://liberdadesempreco.blogspot.com/

março 06, 2009

O carro dos meus sonhos

SAÚDE MENTAL

"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto.
E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico...
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, dentro do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakovski suicidou-se...
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, previsíveis, sempre iguais, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou...
Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.
Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores.
O funcionamento dos computadores, como todos sabem, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra se denomina software, "equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito, como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", e o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco faz-se necessário chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele...
Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal.
Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios (o hardware) tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música! Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade...
Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos, do Faustão e do Gugu Liberato...
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, só então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram... "

Rubem Alves

março 05, 2009

" dizem que choveu"


Alguém consegue imaginar algo mais sutil e maravilhoso de se ouvir:
“Obrigado por este fim de semana delicioso. Dizem que choveu.”
Eu devia ter postado esta frase na segunda... Um monte de gente, por estas alturas do meu campeonato, ainda ia ficar imaaginando maravilhas. Mas não se iludam, é só uma faxina que andei fazendo nos meus guardados e não queria que esta se perdesse.
Como fiquei inspirada, trouxe esta música ...

Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé

Hilda Hilst musicada por Zeca Baleiro

Canto II por Veronica Sabino


Canto IX por Monica Salmaso

A mis 95 años


Encontrei o blog A mis 95 años desta espanhola de 97 anos. Vale a pena dar uma olhada. Muito interessante...significa que, salvo acidente de percurso, poderei blogar ainda por muitos anos (risos).
Até hoje, quase 1,5 milhão de pessoas, de todos os cantos do mundo, já visitaram o espaço de Maria Amelia ao qual se pode chegar através deste: clicando o título.
Para minha grande inveja, ela sabe usar o Facebook! ;-)

Lideranças e castelos

"O VALE DE Aosta, na Itália, sobe, a partir do Canavese (a região da cidade de Ivrea), até o Mont Blanc.
Dos dois lados do vale, abre-se uma série de vales menores, que acabam em outras montanhas geralmente impérvias. Uma delas oferece um passo laborioso, mas que sempre foi praticável: é o Grande São Bernardo (hoje entre a Itália e a Suíça).
Há quem diga que, pelo Grande São Bernardo, transitou o Exército de Anibal, em 217 antes de Cristo. Com certeza, 160 anos depois, foi pelo Grande São Bernardo que passaram as legiões de César a caminho da Gália. O passo foi usado por Carlos Magno, no ano 800, voltando para França depois de ter sido coroado em Milão. Mas, sobretudo, durante séculos, ele foi o caminho escolhido por cada tipo de horda a fim de saquear e estuprar um pouco mais ao sul.
Eram "bárbaros" do norte ou Saracenos (futuros Otomanos), descidos de algum navio Deus sabe onde e errantes pela Europa; alguns deles, apesar de neve e frio, instalaram-se no ponto mais alto do caminho, cobrando pedágios exorbitantes. Ao redor do ano 1000, eles foram derrotados, e foi construído, lá em cima, um mosteiro que, desde então, assiste os que se aventuram por aquelas bandas nos meses do inverno (os monges criaram a raça de cachorros São Bernardo, especialistas em procurar peregrinos perdidos no gelo).
Lembrei-me dessa história numa viagem recente, em que, atravessado o túnel do Mont Blanc, desci até Torino. Repeti uma brincadeira com a qual, criança, enganava o tempo, sentado no banco traseiro do carro: tentava contar, ao longo da estrada, as fortificações ou suas ruínas. São muitas, algumas bem antigas. Ora, os exércitos invasores que desceram por aquele caminho foram poucos. Fora talvez Anibal, só houve a descida de Napoleão, em 1800. No mais, foram bandos -grandes ou pequenos.
Igual, as fortificações não barravam o caminho: exércitos e bandos podiam facilmente desviar. Então, por que erguer torres e castelos? Desde criança, inventei uma explicação, que meus amigos medievalistas parecem confirmar. Naqueles séculos perigosos, as pequenas comunidades viviam arrancando sua subsistência à terra e sem poder recorrer a ninguém que as defendesse quer seja pela distância (fazer o quê? Mandar alguém correndo para Torino?), quer seja pela incerteza dos laços (a quem caberia proteger a gente: ao bispo de Aosta? Ao emperador, na PQP?). Quem tivesse um mínimo de meios e braços construía uma torre; enxergar de longe a chegada dos saqueadores significava ganhar o tempo para esconder a família, os bichos e os grãos para semear no ano seguinte. Na torre e na fortificação era também possível se fechar, esperando a horda passar; claro, os vizinhos acorreriam, pedindo e obtendo asilo.
Alguns donos de torres, convencidos de que pode valer a pena arriscar a vida para evitar uma humilhação, encontrariam a coragem de se armar e resistir o suficiente para que a horda do dia preferisse seguir em frente e espoliar outra vila. Pois bem, as elites aristocráticas nasceram assim, de baixo para cima, não por decreto imperial. Certo, mais tarde, um dos valentes decidiu, por exemplo, responder ao apelo de uma cruzada (talvez mais para se vingar dos bandos de Saracenos do que para reconquistar a terra santa) e acabou ganhando um título de algum soberano. Mas, isso, só mais tarde.
Em suma, mais de mil anos atrás, liderar significou ter a coragem de proteger os indefesos (essa é, aliás, a ética cavalheiresca originária), e as fortificações serviam para isso. Só depois é que os líderes passaram a exigir "compensações" por sua liderança (impostos, privilégios etc.): as fortificações, de repente, serviram também para defender o aristocrata contra seus próprios sujeitos, caso eles se rebelassem.
Mas essa época também passou (em termos). Veio (e ainda dura) o tempo dos castelos kitsch, que servem para esbanjar e intimidar: "Olhe o tamanho de meus muros, pasme com minha riqueza. Inveje-me, obedeça e faça reverência". Caso não tenha ficado claro, essas reflexões são inspiradas pelo castelo do deputado Edmar Moreira, em São João Nepomuceno, MG (josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/images
/CasteloEdmarMoreiraGde.jpg). É um exemplo da triste transformação das lideranças (e da gente: afinal, cada época deve ter as lideranças que merece)".
CONTARDO CALLIGARIS

março 04, 2009

Canções de Amor


Este comentário traduz, em parte, a opinião do crítico da Folha.
"O que pode ser mais delicioso para um cinéfilo do que levar a(o) namorada(o) ainda não convertida(o) a esse estranho culto e ambos adorarem o filme por motivos que nem precisam ser os mesmos?"
Trata-se realmente de um filme de amor e, na melhor tradição do cinema francês, é um "amor movido por ligeiras libertinagens". Ao abordar o tema "numa época em que filmes se nutrem de uma espécie de queixa sobre a impossibilidade desse sentimento, Honoré expande as conexões afetivas entre personagens com a intenção evidente de não cair na armadilha do fantasma romântico." A abordagem do caso de amor não é feita diretamente, mas "pelas margens, pelos espaços livres onde os fluxos afetivos circulam. O que o filme ganha com isso está em desfazer as associações da conexão amorosa com sua frustração ou bloqueio, o que já se converteu em mais que um clichê da contemporaneidade.".
Banalizada a canção de amor faz com que não seja antiquado dizer a perda ou enunciar a paixão. Por outro lado, o fato de ser cantado não passa a impressão de um filme ultrapassado, na medida em que adota a linguagem do videoclipe. Tem-se a impressão de que, se os personagens se limitasssem a falar, soaria tudo meio falso. Como eles cantam e estamos no cinema, acreditamos e nos identificamos sem pudores.
"Se alguém ainda conseguir resistir, não custa lembrar as palavras de uma das mais apaixonadas personagens do cinema, a Mathilde de Fanny Ardant em "A Mulher do Lado", de Truffaut: "Eu só ouço canções porque elas dizem a verdade. Quanto mais idiotas, mais verdadeiras elas são. Aliás, elas não são idiotas. O que elas cantam? Não me abandone... sua ausência me destruiu... sem você eu sou uma casa vazia... deixe-me ser sua sombra... ou... sem amor, ninguém é nada".

CAIO FERNANDO ABREU

…“Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderam no caos da desordem sem nexo.”"

VAI PASSAR
Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …"


Caio Fernando Abreu nasceu em 1948, em Santiago (RS). Ainda jovem mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na UFRGS e Artes Dramáticas, abandonou os dois e foi ser jornalista. Trabalhou nas revistas Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou no Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Em 1968 foi perseguido pelo DOPS e se refugiou no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst. É considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos e tem temática e linguagem fora dos padrões. Em 1973, viveu entre a Espanha, Estocolmo, Amsterdã, Londres e Paris. Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad. Ganhou dois prêmios Jabuti (em 1984 e em 1989), na categoria de contos com os livros Triângulo das águas e Os dragões não conhecem o paraíso. É autor de “Ovelhas Negras”, “Morangos Mofados”, “Triângulo das Águas” e “Onde Andará Dulce Veiga?”. Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio retornou para POA, onde volta a viver com seus pais, vindo a falecer em 1996. A sua biografia “Caio Fernando Abreu - Inventário de um Escritor Irremediável” é de autoria de Jeanne Callegari.

Alma Carioca - Um choro de menino

Da cinemateca do site Releituras (abaixo na minha lista de blogs) trouxe este curta que é uma animação mostrando a origem do CHORO, a melhor expressão da cultura carioca. Quem gosta de boa música pode acessar clicando o título desta postagem.
Bom proveito!

março 03, 2009

Em causa própria...

"Dormir. Sonhar? Talvez
Dar uma capotada. Puxar um ronco. Tirar uma tora. Soneca, dormida, cochilo. Somos fartos em matéria de nos entregarmos aos braços parnasianos de Morfeu ainda que de passagem e fora da hora combinada com o corpo.
Quer dizer, ir para a cama de pijamão e enfileirar de 6 a 8 horas de sono, dependendo do metabolismo do boneco em questão.
Minto. Não há hora combinada com o corpo. O corpo tem sempre razão. Ele que manda. Uma descoberta só feita depois dos 30 anos.
Estou me referindo a algo que sempre equacionei com velhice e velhos: a capotada, o ronco, a tora, o cochilo de tarde.
Dormir era coisa para a madrugada, quando não havia hora para acordar no dia seguinte, ou por volta de meia-noite, quando se tinha - e como se tinha - trabalho no dia seguinte.
À tarde? Dava depressão, gosto ruim na boca, uma estranheza geral.
Parei com essas frescuras. Sempre que posso, e, assim como Sammy Davis Jr. e Barack Obama, eu posso sim, posso e dou uma cochilada de tarde.
Não mais que uns 40 minutos, estourando uma hora, se estiver frio e eu sobre o pregadão.
Nas primeiras vezes que cedi ao sono até então inusitado, eu me sentia culpado depois, acordando algo assustado, embora bem disposto.
A ciência, por uma vez na vida vem agora me dar razão.
Lendo aqui e ali, fico sabendo que a dormida durante o dia é ótimo para o clima geral das pessoas, inclusive faz bem à inteligência, para aqueles que dela tem um pouco.
Mas tem mais. Muito mais. A expressão "dormir no ponto" deixou de ser pejorativa. É uma boa. Saudável. Deixa-nos mais alerta, mais criativo, contribui para nossa produtividade.
Uma hora de capotada no meio do dia vale por 10 horas de estado de alerta. É o chamado "ronco da NASA", quando o comandante deixa o avião nas mãos do co-piloto.
Segundo consta, 26 minutos de soneca durante o vôo melhora a performance de um aviador entre 34% e 54%. Contanto que não sejam os dois ao mesmo tempo.
Um estudo da Universidade Harvard, publicado no ano passado, mostra que 45 minutos de um ronco bem puxado melhoram não só a memória como também a capacidade de aprender.
Contanto, é óbvio, que o aluno não durma em hora de aula e, se tiver que dormir, que não ronque.
Tem mais. O soninho extra diminui a possibilidade do enfarte e do derrame, além de ajudar a combater o diabetes e o excesso de peso.
Gordotes deste mundo, tirai uma tora! Diabéticos, dormi depois do almoço!
Certas noções básicas sobre nosso corpo, nossa fisiologia, são necessárias para a boa prática da capotada.
Forçoso é saber que durante o sono o cérebro passa por um ciclo de atividade elétrica de 5 etapas.
A primeira, de 20 minutos, proporciona um sono leve, ideal para se acordar logo alerta e ativo.
Os políticos são mestres desta disciplina. Kennedy e Juscelino dormiam o tempo que bem entendiam na hora em que lhes desse na telha.
Vai ver por isso é que foram e ainda são tidos como presidentes não só sempre-vivos como simpaticíssimos.
Depois há as fases 3 e 4, que vão dos 45 aos 60 minutos. Uma fase de sono profundo e recuperador, a ideal para estabelecer as benesses enumeradas até aqui.
À noite? Não passe das 8 horas, nunca menos de 5.
Tudo que me ocorre saber sobre o sono aí está resumido.
Hamlet não perderia o tempo monologando sobre o sono e o sonho, nem teria pensamentos deprimentes, equacionando um e outro à morte, se ao menos tivesse tirado uma soneca de tardinha, em vez de ficar chateando e fosseando mãe, tio, Ofélia, Polônio, Horácio, a corte toda, enfim"

Ivan Lessa - Colunista da BBC Brasil

Coreografias cerebrais

"O ritmo parece algo tão natural que muitos acreditam ser automático ouvir música e marcar o compasso com os pés ou balançar o corpo, às vezes sem nos darmos conta de que estamos nos movimentando. Essa habilidade, porém, é uma novidade evolucionária entre os humanos e nada comparável acontece com qualquer outra espécie animal. Nosso dom para a sincronização inconsciente nos permite utilizar a confluência de movimentos, ritmo e representações gestuais – longe da prática coletiva mas sincronizados. Dançar exige um tipo de coordenação interpessoal no espaço e tempo quase inexistente em outros contextos sociais. E, embora seja uma forma fundamental de expressão humana, por muito tempo recebeu pouca atenção dos neurocientistas. Entretanto, recentemente, pesquisadores realizaram os primeiros estudos com imageamento do cérebro de dançarinos amadores e profissionais.
Essas investigações esclarecem pontos intrigantes sobre a complicada coordenação mental necessária para executar até mesmo os passos aparentemente mais básicos. Os estudos começaram com a análise de movimentos isolados como os giros do tornozelo ou o tamborilar dos dedos. Esses trabalhos revelaram informações sobre como o cérebro coordena ações simples. Pular com um pé só exige consciência espacial e equilíbrio, além de intenção e sincronismo (habilidades ligadas ao sistema sensório-motor). O córtex parietal posterior – situado na parte de trás do cérebro – traduz informações visuais em comandos motores, enviando sinais para as regiões de planejamento do movimento no córtex pré-motor e na área motora suplementar...."
Clicar no título para acessar o site da Mente&Cérebroe saber mais.

Quando o inverno chegar

"EU ESTAVA ASSENTADO no palco e observava o auditório lotado. Muitas cabeleiras brancas, muitas cabeleiras grisalhas e muitas calvas brilhantes. Era um público de gente velha. Estavam lá para me ouvir. Havia sido anunciado que eu faria uma fala sobre a terceira idade. Mas eu teria preferido que tivessem anunciado uma conversa sobre velhice... Acho a palavra "velhice" mais poética que a expressão "terceira idade"...
Mas essa palavra "velhice" não aparecia no convite. A "linguagem politicamente correta" a havia proibido. Referir-se a alguém como um "velho" era grosseria, ainda que ele ou ela, por força dos anos já vividos, fosse na realidade um velho. Por vezes, a realidade ofende e é preciso criar máscaras e disfarces para escondê-la. Para esconder a realidade da velhice, diz-se, de forma elegante, que se trata de uma pessoa "idosa" ou da "terceira idade".
Eu não me considerava idoso e nem me colocava dentro do conjunto da terceira idade, muito embora um repórter de um jornal da minha cidade tenha chamado de "ancião" um senhor de 50 anos que fora atropelado. Segundo os critérios desse jovem, se eu fosse atropelado seria imediatamente promovido à categoria de "ancião"...
Feitas as introduções e apresentações preliminares, chegou a minha vez. Fiz silêncio. Olhei demoradamente para os idosos que esperavam de mim um elogio à terceira idade e comecei:
"Então os senhores e as senhoras chegaram finalmente a esse glorioso momento da sua vida em que podem se entregar à felicidade de serem totalmente inúteis...".
Aí aconteceu o que eu sabia que aconteceria. Não me deixaram continuar. Fui imediatamente interrompido por protestos indignados. Todos queriam provar a sua utilidade. Um dos idosos contou sobre a sua horta. Um senhora descreveu as colchas de retalhos que fazia. Um outro contou sobre o hobby que desenvolvera fazendo brinquedos artesanalmente...
Deixei que falassem à vontade. Eu os havia provocado de propósito. Falavam movidos pela ideologia da nossa sociedade, que julga as pessoas da mesma forma como julga as lâminas de barbear, as esferográficas e os filtros de café...Uma lâmina de barbear rombuda, uma esferográfica esgotada, um filtro de café usado deixaram todos de ter utilidade e vão para o lixo. O mesmo acontece com os seres humanos que deixaram de ser úteis.
Esgotada a indignação contra mim, acalmados os ânimos, a palavra me foi devolvida: "A Nona Sinfonia de Beethoven é absolutamente inútil. Não há coisa alguma que se possa fazer com ela. Mas uma vassoura, ao contrário, é muito útil. Serve para varrer, tirar o lixo, eliminar as teias de aranha... Vocês estão me dizendo que preferem a vassoura útil à Nona Sinfonia inútil...
Vejam esse poeminha da Cecília Meireles: "No mistério do Sem-Fim equilibra-se um planeta. No planeta, um jardim. No jardim, um canteiro. No canteiro, uma violeta. E na violeta, entre o mistério do Sem-Fim e o planeta, o dia inteiro, a asa de uma borboleta".Prá que serve esse poema? Prá nada. É inútil. Já o papel higiênico é muito útil... Vocês estão me dizendo que, no seu julgamento, o papel higiênico vale mais que o poema...
Repentinamente os rostos indignados se abriram em sorrisos. E aprenderam a sabedoria dos poetas e artistas, tão bem resumida no aforismo de William Blake: "No tempo de semear, aprender. No tempo de colher, ensinar. E quando o inverno chegar, gozar..."."
RUBEM ALVES

março 02, 2009

L i b e r d a d e


Liberdade - um tesouro e uma expressão de amor!!!

"40 Anos de Anúncios na TV"


O comercial em preto e branco de 1968 ainda é famoso na França: um jovem de pijama senta-se na cama, gritando "Boursin!" repetidas vezes, e corre para sua cozinha para devorar o queijo.
Recentemente os parisienses têm se reunido numa galeria do Musée des Arts Décoratifs para assistir àquele anúncio de tempos passados, juntamente com muitos outros feitos na França desde o final dos anos 1960. A mostra "40 Anos de Anúncios na TV" inclui dezenas de comerciais sexies de lingerie Dim, dirigidos por William Klein, Luc Besson, Tony Scott e Hal Hartley, entre outros.



A exposição acontece num momento curioso, quando vários grandes anunciantes na TV acabam de ter seus comerciais tirados do ar subitamente. Ostensivamente para melhorar a programação, o presidente Nicolas Sarkozy proibiu a veiculação de comerciais em quatro grandes canais de TV no horário nobre noturno. A medida será estendida a duas outras emissoras.
Isso ainda deixa os franceses com dezenas de canais nos quais podem ver, por exemplo, a extravagância digital criada por Bruno Aveillan para o perfume XS da Paco Rabanne, na qual um casal nu copula languidamente em pleno ar.
A atitude libertária dominante na França também explica o anúncio de serviço público sobre a Aids -uma animação alegre mostrando sexo gay explícito que se desenrola ao som da canção "Sugar Baby Love".
Está claro que os comerciais franceses revelam a cultura francesa, tanto quanto a literatura ou a música. Fortes em sensualidade, estilo e poesia, são notavelmente fracos em matéria de informações e quase alérgicos aos detalhes nus e crus do comércio. Na França, é proibido denegrir seus concorrentes num anúncio de televisão ou (salvo em casos excepcionais) recomendar aos espectadores que liguem para um número determinado para comprar um produto. As táticas de venda direta, que constituem a norma nos EUA, não são aceitáveis na França.
"É porque sempre tivemos uma relação nada saudável com o dinheiro", explicou Jacques Séguéla, executivo criativo da segunda maior agência de publicidade do país, a Havas. "Para nós, dinheiro implica em corrupção. E como nos consideramos os inventores da liberdade -não importa que isso não seja verdade-, ainda vemos a publicidade como uma espécie de manipulação. Isso explica por que a publicidade na TV começou tão tarde neste país -basicamente, porque a oposição de esquerda a via como algo que corrompe a alma."
É verdade que a França demorou a começar a veicular comerciais na TV. Anos depois de EUA, Reino Unido, Itália e outros países estarem convertendo em uma nova forma de arte os spots de 30 segundos de propaganda de detergentes e pastas de dentes, a França ainda proibia a veiculação de anúncios privados. Foi apenas em 1968, passando por cima da oposição forte das empresas de jornais e da esquerda política, que o governo finalmente autorizou a veiculação de dois minutos diários de comerciais numa única emissora de televisão (naquela época, todas as emissoras francesas eram públicas).
Foi sem dúvida em parte para aproveitar a histórica ambivalência francesa em relação aos comerciais de TV que Sarkozy reverteu a política dos últimos 40 anos e proibiu a veiculação de anúncios nas emissoras públicas francesas no horário noturno. A iniciativa foi um grande golpe de relações públicas para o presidente.
Isso não significa que os franceses não gostem de comerciais.
A década de 1980 foi a era de ouro da publicidade francesa, disse Amélie Gastaut, curadora da exposição no Musée des Arts Décoratifs. Diretores como Jean-Paul Goude, Gérard Pirès e Étienne Chatiliez fizeram anúncios elegantes e inteligentes para a Peugeot, os jeans Cooper e a fabricante francesa de calçados de baixo preço Eram.
Sucedeu-se a eles uma geração criada à base de animação digital, que foi quem introduziu a era atual de efeitos fantasmagóricos e sofisticados.
Séguéla disse que os comerciais americanos vão da cabeça à carteira; os britânicos, da cabeça para o coração; e os franceses, do coração para a cabeça. Isso explica por que, num clássico comercial francês da emissora paga Canal Plus, um homem descreve um filme sobre pinguins imperadores na Antártida a uma mulher que visualiza centenas de Napoleões deslizando pelo gelo.
"Enfatizamos o sexo e o humor inteligente em nossos anúncios porque essa é nossa cultura", disse Stéphane Martin, diretor do sindicato francês de publicidade na TV. "A publicidade dá a seu público uma visão idealizada. E é assim (com sexo e humor inteligente) que gostamos de pensar que somos."

Na França, publicidade fala ao coração (da FSP)
Demais imagens da exposição clicando no título.

março 01, 2009

Traduzir-se


Musicado pelo Fagner, em 1981, lindíssimo poema de Ferreira Gullar.

CRIANÇA, A ALMA DO NEGÓCIO


Este é apenas o trailer do documentário a propósito do consumismo infantil e de como as crianças passaram a ser o alvo preferencial dos publiicitários, que pode (eu diria, deve) ser visto clicando o título desta postagem.
Criança, a alma do negócio divulga dados alarmantes sobre consumismo e histórias de famílias de diversas classes sociais que não sabem como lidar com os apelos de seus filhos: “Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?”
Trata-se de uma séria reflexão sobre o lamentável tratamento que o Brasil vem dando a criança. Descobriu-se ser mais fácil convencer uma criança do que um adulto. Assim, as crianças passaram a ser bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente a elas. O resultado é devastador: crianças, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e não brincam de correr por causa de seus saltos altos; sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas.
Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância roubada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.
Não posso imaginar infância em que não se brinque de amarelinha, pipa, cabra-cega, pião, pular corda, queimada, pega-pega (esconde-esconde), passa-anel, estátua, peteca, três marias, bolinha de gude, casinha, escolinha, médico, vaca amarela, lenço atrás, carrinho de rolimã, bolinha de gude e de roda. Isto é, sem dúvida, o que exercita para a vida.

Hora do Planeta 2009


A Hora do Planeta é um ato simbólico promovido pela Rede WWF, para o qual governos, empresas e a população de todo o mundo são convidados a demonstrar sua preocupação com o aquecimento global e as mudanças climáticas. O gesto simples de apagar as luzes por sessenta minutos, possível em todos os lugares do planeta, tem o significado de chamar para uma reflexão sobre o tema ambiental.
Conhecido mundialmente como Earth Hour, a Hora do Planeta será promovida no País pela primeira vez pelo WWF-Brasil e conta com a adesão e apoio do Rio de Janeiro , a primeira cidade brasileira a aderir à iniciativa.
Em 2009, a Hora do Planeta será realizada no dia 28 de março, das 20h30 às 21h30, e pretende contar com a adesão de mais de mil cidades e 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Mais de 170 cidades de 62 países já confirmaram sua adesão à Hora do Planeta.
Realizada pela primeira vez em 2007, a Hora do Planeta contou com a participação de 2,2 milhões de moradores de Sidney, na Austrália. Já em 2008, o movimento contou com a participação de 50 milhões de pessoas, de 400 cidades em 35 países. Simultaneamente apagaram-se as luzes do Coliseu, em Roma, da ponte Golden Gate, em São Francisco e da Opera House, em Sidney, entre outros ícones mundiais.
Cadastre-se já no site Hora do Planeta clicando o título e participe também deste movimento.