março 05, 2009

" dizem que choveu"


Alguém consegue imaginar algo mais sutil e maravilhoso de se ouvir:
“Obrigado por este fim de semana delicioso. Dizem que choveu.”
Eu devia ter postado esta frase na segunda... Um monte de gente, por estas alturas do meu campeonato, ainda ia ficar imaaginando maravilhas. Mas não se iludam, é só uma faxina que andei fazendo nos meus guardados e não queria que esta se perdesse.
Como fiquei inspirada, trouxe esta música ...

Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé

Hilda Hilst musicada por Zeca Baleiro

Canto II por Veronica Sabino


Canto IX por Monica Salmaso

A mis 95 años


Encontrei o blog A mis 95 años desta espanhola de 97 anos. Vale a pena dar uma olhada. Muito interessante...significa que, salvo acidente de percurso, poderei blogar ainda por muitos anos (risos).
Até hoje, quase 1,5 milhão de pessoas, de todos os cantos do mundo, já visitaram o espaço de Maria Amelia ao qual se pode chegar através deste: clicando o título.
Para minha grande inveja, ela sabe usar o Facebook! ;-)

Lideranças e castelos

"O VALE DE Aosta, na Itália, sobe, a partir do Canavese (a região da cidade de Ivrea), até o Mont Blanc.
Dos dois lados do vale, abre-se uma série de vales menores, que acabam em outras montanhas geralmente impérvias. Uma delas oferece um passo laborioso, mas que sempre foi praticável: é o Grande São Bernardo (hoje entre a Itália e a Suíça).
Há quem diga que, pelo Grande São Bernardo, transitou o Exército de Anibal, em 217 antes de Cristo. Com certeza, 160 anos depois, foi pelo Grande São Bernardo que passaram as legiões de César a caminho da Gália. O passo foi usado por Carlos Magno, no ano 800, voltando para França depois de ter sido coroado em Milão. Mas, sobretudo, durante séculos, ele foi o caminho escolhido por cada tipo de horda a fim de saquear e estuprar um pouco mais ao sul.
Eram "bárbaros" do norte ou Saracenos (futuros Otomanos), descidos de algum navio Deus sabe onde e errantes pela Europa; alguns deles, apesar de neve e frio, instalaram-se no ponto mais alto do caminho, cobrando pedágios exorbitantes. Ao redor do ano 1000, eles foram derrotados, e foi construído, lá em cima, um mosteiro que, desde então, assiste os que se aventuram por aquelas bandas nos meses do inverno (os monges criaram a raça de cachorros São Bernardo, especialistas em procurar peregrinos perdidos no gelo).
Lembrei-me dessa história numa viagem recente, em que, atravessado o túnel do Mont Blanc, desci até Torino. Repeti uma brincadeira com a qual, criança, enganava o tempo, sentado no banco traseiro do carro: tentava contar, ao longo da estrada, as fortificações ou suas ruínas. São muitas, algumas bem antigas. Ora, os exércitos invasores que desceram por aquele caminho foram poucos. Fora talvez Anibal, só houve a descida de Napoleão, em 1800. No mais, foram bandos -grandes ou pequenos.
Igual, as fortificações não barravam o caminho: exércitos e bandos podiam facilmente desviar. Então, por que erguer torres e castelos? Desde criança, inventei uma explicação, que meus amigos medievalistas parecem confirmar. Naqueles séculos perigosos, as pequenas comunidades viviam arrancando sua subsistência à terra e sem poder recorrer a ninguém que as defendesse quer seja pela distância (fazer o quê? Mandar alguém correndo para Torino?), quer seja pela incerteza dos laços (a quem caberia proteger a gente: ao bispo de Aosta? Ao emperador, na PQP?). Quem tivesse um mínimo de meios e braços construía uma torre; enxergar de longe a chegada dos saqueadores significava ganhar o tempo para esconder a família, os bichos e os grãos para semear no ano seguinte. Na torre e na fortificação era também possível se fechar, esperando a horda passar; claro, os vizinhos acorreriam, pedindo e obtendo asilo.
Alguns donos de torres, convencidos de que pode valer a pena arriscar a vida para evitar uma humilhação, encontrariam a coragem de se armar e resistir o suficiente para que a horda do dia preferisse seguir em frente e espoliar outra vila. Pois bem, as elites aristocráticas nasceram assim, de baixo para cima, não por decreto imperial. Certo, mais tarde, um dos valentes decidiu, por exemplo, responder ao apelo de uma cruzada (talvez mais para se vingar dos bandos de Saracenos do que para reconquistar a terra santa) e acabou ganhando um título de algum soberano. Mas, isso, só mais tarde.
Em suma, mais de mil anos atrás, liderar significou ter a coragem de proteger os indefesos (essa é, aliás, a ética cavalheiresca originária), e as fortificações serviam para isso. Só depois é que os líderes passaram a exigir "compensações" por sua liderança (impostos, privilégios etc.): as fortificações, de repente, serviram também para defender o aristocrata contra seus próprios sujeitos, caso eles se rebelassem.
Mas essa época também passou (em termos). Veio (e ainda dura) o tempo dos castelos kitsch, que servem para esbanjar e intimidar: "Olhe o tamanho de meus muros, pasme com minha riqueza. Inveje-me, obedeça e faça reverência". Caso não tenha ficado claro, essas reflexões são inspiradas pelo castelo do deputado Edmar Moreira, em São João Nepomuceno, MG (josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/images
/CasteloEdmarMoreiraGde.jpg). É um exemplo da triste transformação das lideranças (e da gente: afinal, cada época deve ter as lideranças que merece)".
CONTARDO CALLIGARIS

março 04, 2009

Canções de Amor


Este comentário traduz, em parte, a opinião do crítico da Folha.
"O que pode ser mais delicioso para um cinéfilo do que levar a(o) namorada(o) ainda não convertida(o) a esse estranho culto e ambos adorarem o filme por motivos que nem precisam ser os mesmos?"
Trata-se realmente de um filme de amor e, na melhor tradição do cinema francês, é um "amor movido por ligeiras libertinagens". Ao abordar o tema "numa época em que filmes se nutrem de uma espécie de queixa sobre a impossibilidade desse sentimento, Honoré expande as conexões afetivas entre personagens com a intenção evidente de não cair na armadilha do fantasma romântico." A abordagem do caso de amor não é feita diretamente, mas "pelas margens, pelos espaços livres onde os fluxos afetivos circulam. O que o filme ganha com isso está em desfazer as associações da conexão amorosa com sua frustração ou bloqueio, o que já se converteu em mais que um clichê da contemporaneidade.".
Banalizada a canção de amor faz com que não seja antiquado dizer a perda ou enunciar a paixão. Por outro lado, o fato de ser cantado não passa a impressão de um filme ultrapassado, na medida em que adota a linguagem do videoclipe. Tem-se a impressão de que, se os personagens se limitasssem a falar, soaria tudo meio falso. Como eles cantam e estamos no cinema, acreditamos e nos identificamos sem pudores.
"Se alguém ainda conseguir resistir, não custa lembrar as palavras de uma das mais apaixonadas personagens do cinema, a Mathilde de Fanny Ardant em "A Mulher do Lado", de Truffaut: "Eu só ouço canções porque elas dizem a verdade. Quanto mais idiotas, mais verdadeiras elas são. Aliás, elas não são idiotas. O que elas cantam? Não me abandone... sua ausência me destruiu... sem você eu sou uma casa vazia... deixe-me ser sua sombra... ou... sem amor, ninguém é nada".

CAIO FERNANDO ABREU

…“Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderam no caos da desordem sem nexo.”"

VAI PASSAR
Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …"


Caio Fernando Abreu nasceu em 1948, em Santiago (RS). Ainda jovem mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na UFRGS e Artes Dramáticas, abandonou os dois e foi ser jornalista. Trabalhou nas revistas Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou no Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Em 1968 foi perseguido pelo DOPS e se refugiou no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst. É considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos e tem temática e linguagem fora dos padrões. Em 1973, viveu entre a Espanha, Estocolmo, Amsterdã, Londres e Paris. Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad. Ganhou dois prêmios Jabuti (em 1984 e em 1989), na categoria de contos com os livros Triângulo das águas e Os dragões não conhecem o paraíso. É autor de “Ovelhas Negras”, “Morangos Mofados”, “Triângulo das Águas” e “Onde Andará Dulce Veiga?”. Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio retornou para POA, onde volta a viver com seus pais, vindo a falecer em 1996. A sua biografia “Caio Fernando Abreu - Inventário de um Escritor Irremediável” é de autoria de Jeanne Callegari.

Alma Carioca - Um choro de menino

Da cinemateca do site Releituras (abaixo na minha lista de blogs) trouxe este curta que é uma animação mostrando a origem do CHORO, a melhor expressão da cultura carioca. Quem gosta de boa música pode acessar clicando o título desta postagem.
Bom proveito!

março 03, 2009

Em causa própria...

"Dormir. Sonhar? Talvez
Dar uma capotada. Puxar um ronco. Tirar uma tora. Soneca, dormida, cochilo. Somos fartos em matéria de nos entregarmos aos braços parnasianos de Morfeu ainda que de passagem e fora da hora combinada com o corpo.
Quer dizer, ir para a cama de pijamão e enfileirar de 6 a 8 horas de sono, dependendo do metabolismo do boneco em questão.
Minto. Não há hora combinada com o corpo. O corpo tem sempre razão. Ele que manda. Uma descoberta só feita depois dos 30 anos.
Estou me referindo a algo que sempre equacionei com velhice e velhos: a capotada, o ronco, a tora, o cochilo de tarde.
Dormir era coisa para a madrugada, quando não havia hora para acordar no dia seguinte, ou por volta de meia-noite, quando se tinha - e como se tinha - trabalho no dia seguinte.
À tarde? Dava depressão, gosto ruim na boca, uma estranheza geral.
Parei com essas frescuras. Sempre que posso, e, assim como Sammy Davis Jr. e Barack Obama, eu posso sim, posso e dou uma cochilada de tarde.
Não mais que uns 40 minutos, estourando uma hora, se estiver frio e eu sobre o pregadão.
Nas primeiras vezes que cedi ao sono até então inusitado, eu me sentia culpado depois, acordando algo assustado, embora bem disposto.
A ciência, por uma vez na vida vem agora me dar razão.
Lendo aqui e ali, fico sabendo que a dormida durante o dia é ótimo para o clima geral das pessoas, inclusive faz bem à inteligência, para aqueles que dela tem um pouco.
Mas tem mais. Muito mais. A expressão "dormir no ponto" deixou de ser pejorativa. É uma boa. Saudável. Deixa-nos mais alerta, mais criativo, contribui para nossa produtividade.
Uma hora de capotada no meio do dia vale por 10 horas de estado de alerta. É o chamado "ronco da NASA", quando o comandante deixa o avião nas mãos do co-piloto.
Segundo consta, 26 minutos de soneca durante o vôo melhora a performance de um aviador entre 34% e 54%. Contanto que não sejam os dois ao mesmo tempo.
Um estudo da Universidade Harvard, publicado no ano passado, mostra que 45 minutos de um ronco bem puxado melhoram não só a memória como também a capacidade de aprender.
Contanto, é óbvio, que o aluno não durma em hora de aula e, se tiver que dormir, que não ronque.
Tem mais. O soninho extra diminui a possibilidade do enfarte e do derrame, além de ajudar a combater o diabetes e o excesso de peso.
Gordotes deste mundo, tirai uma tora! Diabéticos, dormi depois do almoço!
Certas noções básicas sobre nosso corpo, nossa fisiologia, são necessárias para a boa prática da capotada.
Forçoso é saber que durante o sono o cérebro passa por um ciclo de atividade elétrica de 5 etapas.
A primeira, de 20 minutos, proporciona um sono leve, ideal para se acordar logo alerta e ativo.
Os políticos são mestres desta disciplina. Kennedy e Juscelino dormiam o tempo que bem entendiam na hora em que lhes desse na telha.
Vai ver por isso é que foram e ainda são tidos como presidentes não só sempre-vivos como simpaticíssimos.
Depois há as fases 3 e 4, que vão dos 45 aos 60 minutos. Uma fase de sono profundo e recuperador, a ideal para estabelecer as benesses enumeradas até aqui.
À noite? Não passe das 8 horas, nunca menos de 5.
Tudo que me ocorre saber sobre o sono aí está resumido.
Hamlet não perderia o tempo monologando sobre o sono e o sonho, nem teria pensamentos deprimentes, equacionando um e outro à morte, se ao menos tivesse tirado uma soneca de tardinha, em vez de ficar chateando e fosseando mãe, tio, Ofélia, Polônio, Horácio, a corte toda, enfim"

Ivan Lessa - Colunista da BBC Brasil

Coreografias cerebrais

"O ritmo parece algo tão natural que muitos acreditam ser automático ouvir música e marcar o compasso com os pés ou balançar o corpo, às vezes sem nos darmos conta de que estamos nos movimentando. Essa habilidade, porém, é uma novidade evolucionária entre os humanos e nada comparável acontece com qualquer outra espécie animal. Nosso dom para a sincronização inconsciente nos permite utilizar a confluência de movimentos, ritmo e representações gestuais – longe da prática coletiva mas sincronizados. Dançar exige um tipo de coordenação interpessoal no espaço e tempo quase inexistente em outros contextos sociais. E, embora seja uma forma fundamental de expressão humana, por muito tempo recebeu pouca atenção dos neurocientistas. Entretanto, recentemente, pesquisadores realizaram os primeiros estudos com imageamento do cérebro de dançarinos amadores e profissionais.
Essas investigações esclarecem pontos intrigantes sobre a complicada coordenação mental necessária para executar até mesmo os passos aparentemente mais básicos. Os estudos começaram com a análise de movimentos isolados como os giros do tornozelo ou o tamborilar dos dedos. Esses trabalhos revelaram informações sobre como o cérebro coordena ações simples. Pular com um pé só exige consciência espacial e equilíbrio, além de intenção e sincronismo (habilidades ligadas ao sistema sensório-motor). O córtex parietal posterior – situado na parte de trás do cérebro – traduz informações visuais em comandos motores, enviando sinais para as regiões de planejamento do movimento no córtex pré-motor e na área motora suplementar...."
Clicar no título para acessar o site da Mente&Cérebroe saber mais.

Quando o inverno chegar

"EU ESTAVA ASSENTADO no palco e observava o auditório lotado. Muitas cabeleiras brancas, muitas cabeleiras grisalhas e muitas calvas brilhantes. Era um público de gente velha. Estavam lá para me ouvir. Havia sido anunciado que eu faria uma fala sobre a terceira idade. Mas eu teria preferido que tivessem anunciado uma conversa sobre velhice... Acho a palavra "velhice" mais poética que a expressão "terceira idade"...
Mas essa palavra "velhice" não aparecia no convite. A "linguagem politicamente correta" a havia proibido. Referir-se a alguém como um "velho" era grosseria, ainda que ele ou ela, por força dos anos já vividos, fosse na realidade um velho. Por vezes, a realidade ofende e é preciso criar máscaras e disfarces para escondê-la. Para esconder a realidade da velhice, diz-se, de forma elegante, que se trata de uma pessoa "idosa" ou da "terceira idade".
Eu não me considerava idoso e nem me colocava dentro do conjunto da terceira idade, muito embora um repórter de um jornal da minha cidade tenha chamado de "ancião" um senhor de 50 anos que fora atropelado. Segundo os critérios desse jovem, se eu fosse atropelado seria imediatamente promovido à categoria de "ancião"...
Feitas as introduções e apresentações preliminares, chegou a minha vez. Fiz silêncio. Olhei demoradamente para os idosos que esperavam de mim um elogio à terceira idade e comecei:
"Então os senhores e as senhoras chegaram finalmente a esse glorioso momento da sua vida em que podem se entregar à felicidade de serem totalmente inúteis...".
Aí aconteceu o que eu sabia que aconteceria. Não me deixaram continuar. Fui imediatamente interrompido por protestos indignados. Todos queriam provar a sua utilidade. Um dos idosos contou sobre a sua horta. Um senhora descreveu as colchas de retalhos que fazia. Um outro contou sobre o hobby que desenvolvera fazendo brinquedos artesanalmente...
Deixei que falassem à vontade. Eu os havia provocado de propósito. Falavam movidos pela ideologia da nossa sociedade, que julga as pessoas da mesma forma como julga as lâminas de barbear, as esferográficas e os filtros de café...Uma lâmina de barbear rombuda, uma esferográfica esgotada, um filtro de café usado deixaram todos de ter utilidade e vão para o lixo. O mesmo acontece com os seres humanos que deixaram de ser úteis.
Esgotada a indignação contra mim, acalmados os ânimos, a palavra me foi devolvida: "A Nona Sinfonia de Beethoven é absolutamente inútil. Não há coisa alguma que se possa fazer com ela. Mas uma vassoura, ao contrário, é muito útil. Serve para varrer, tirar o lixo, eliminar as teias de aranha... Vocês estão me dizendo que preferem a vassoura útil à Nona Sinfonia inútil...
Vejam esse poeminha da Cecília Meireles: "No mistério do Sem-Fim equilibra-se um planeta. No planeta, um jardim. No jardim, um canteiro. No canteiro, uma violeta. E na violeta, entre o mistério do Sem-Fim e o planeta, o dia inteiro, a asa de uma borboleta".Prá que serve esse poema? Prá nada. É inútil. Já o papel higiênico é muito útil... Vocês estão me dizendo que, no seu julgamento, o papel higiênico vale mais que o poema...
Repentinamente os rostos indignados se abriram em sorrisos. E aprenderam a sabedoria dos poetas e artistas, tão bem resumida no aforismo de William Blake: "No tempo de semear, aprender. No tempo de colher, ensinar. E quando o inverno chegar, gozar..."."
RUBEM ALVES

março 02, 2009

L i b e r d a d e


Liberdade - um tesouro e uma expressão de amor!!!

"40 Anos de Anúncios na TV"


O comercial em preto e branco de 1968 ainda é famoso na França: um jovem de pijama senta-se na cama, gritando "Boursin!" repetidas vezes, e corre para sua cozinha para devorar o queijo.
Recentemente os parisienses têm se reunido numa galeria do Musée des Arts Décoratifs para assistir àquele anúncio de tempos passados, juntamente com muitos outros feitos na França desde o final dos anos 1960. A mostra "40 Anos de Anúncios na TV" inclui dezenas de comerciais sexies de lingerie Dim, dirigidos por William Klein, Luc Besson, Tony Scott e Hal Hartley, entre outros.



A exposição acontece num momento curioso, quando vários grandes anunciantes na TV acabam de ter seus comerciais tirados do ar subitamente. Ostensivamente para melhorar a programação, o presidente Nicolas Sarkozy proibiu a veiculação de comerciais em quatro grandes canais de TV no horário nobre noturno. A medida será estendida a duas outras emissoras.
Isso ainda deixa os franceses com dezenas de canais nos quais podem ver, por exemplo, a extravagância digital criada por Bruno Aveillan para o perfume XS da Paco Rabanne, na qual um casal nu copula languidamente em pleno ar.
A atitude libertária dominante na França também explica o anúncio de serviço público sobre a Aids -uma animação alegre mostrando sexo gay explícito que se desenrola ao som da canção "Sugar Baby Love".
Está claro que os comerciais franceses revelam a cultura francesa, tanto quanto a literatura ou a música. Fortes em sensualidade, estilo e poesia, são notavelmente fracos em matéria de informações e quase alérgicos aos detalhes nus e crus do comércio. Na França, é proibido denegrir seus concorrentes num anúncio de televisão ou (salvo em casos excepcionais) recomendar aos espectadores que liguem para um número determinado para comprar um produto. As táticas de venda direta, que constituem a norma nos EUA, não são aceitáveis na França.
"É porque sempre tivemos uma relação nada saudável com o dinheiro", explicou Jacques Séguéla, executivo criativo da segunda maior agência de publicidade do país, a Havas. "Para nós, dinheiro implica em corrupção. E como nos consideramos os inventores da liberdade -não importa que isso não seja verdade-, ainda vemos a publicidade como uma espécie de manipulação. Isso explica por que a publicidade na TV começou tão tarde neste país -basicamente, porque a oposição de esquerda a via como algo que corrompe a alma."
É verdade que a França demorou a começar a veicular comerciais na TV. Anos depois de EUA, Reino Unido, Itália e outros países estarem convertendo em uma nova forma de arte os spots de 30 segundos de propaganda de detergentes e pastas de dentes, a França ainda proibia a veiculação de anúncios privados. Foi apenas em 1968, passando por cima da oposição forte das empresas de jornais e da esquerda política, que o governo finalmente autorizou a veiculação de dois minutos diários de comerciais numa única emissora de televisão (naquela época, todas as emissoras francesas eram públicas).
Foi sem dúvida em parte para aproveitar a histórica ambivalência francesa em relação aos comerciais de TV que Sarkozy reverteu a política dos últimos 40 anos e proibiu a veiculação de anúncios nas emissoras públicas francesas no horário noturno. A iniciativa foi um grande golpe de relações públicas para o presidente.
Isso não significa que os franceses não gostem de comerciais.
A década de 1980 foi a era de ouro da publicidade francesa, disse Amélie Gastaut, curadora da exposição no Musée des Arts Décoratifs. Diretores como Jean-Paul Goude, Gérard Pirès e Étienne Chatiliez fizeram anúncios elegantes e inteligentes para a Peugeot, os jeans Cooper e a fabricante francesa de calçados de baixo preço Eram.
Sucedeu-se a eles uma geração criada à base de animação digital, que foi quem introduziu a era atual de efeitos fantasmagóricos e sofisticados.
Séguéla disse que os comerciais americanos vão da cabeça à carteira; os britânicos, da cabeça para o coração; e os franceses, do coração para a cabeça. Isso explica por que, num clássico comercial francês da emissora paga Canal Plus, um homem descreve um filme sobre pinguins imperadores na Antártida a uma mulher que visualiza centenas de Napoleões deslizando pelo gelo.
"Enfatizamos o sexo e o humor inteligente em nossos anúncios porque essa é nossa cultura", disse Stéphane Martin, diretor do sindicato francês de publicidade na TV. "A publicidade dá a seu público uma visão idealizada. E é assim (com sexo e humor inteligente) que gostamos de pensar que somos."

Na França, publicidade fala ao coração (da FSP)
Demais imagens da exposição clicando no título.

março 01, 2009

Traduzir-se


Musicado pelo Fagner, em 1981, lindíssimo poema de Ferreira Gullar.

CRIANÇA, A ALMA DO NEGÓCIO


Este é apenas o trailer do documentário a propósito do consumismo infantil e de como as crianças passaram a ser o alvo preferencial dos publiicitários, que pode (eu diria, deve) ser visto clicando o título desta postagem.
Criança, a alma do negócio divulga dados alarmantes sobre consumismo e histórias de famílias de diversas classes sociais que não sabem como lidar com os apelos de seus filhos: “Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?”
Trata-se de uma séria reflexão sobre o lamentável tratamento que o Brasil vem dando a criança. Descobriu-se ser mais fácil convencer uma criança do que um adulto. Assim, as crianças passaram a ser bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente a elas. O resultado é devastador: crianças, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e não brincam de correr por causa de seus saltos altos; sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas.
Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância roubada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.
Não posso imaginar infância em que não se brinque de amarelinha, pipa, cabra-cega, pião, pular corda, queimada, pega-pega (esconde-esconde), passa-anel, estátua, peteca, três marias, bolinha de gude, casinha, escolinha, médico, vaca amarela, lenço atrás, carrinho de rolimã, bolinha de gude e de roda. Isto é, sem dúvida, o que exercita para a vida.

Hora do Planeta 2009


A Hora do Planeta é um ato simbólico promovido pela Rede WWF, para o qual governos, empresas e a população de todo o mundo são convidados a demonstrar sua preocupação com o aquecimento global e as mudanças climáticas. O gesto simples de apagar as luzes por sessenta minutos, possível em todos os lugares do planeta, tem o significado de chamar para uma reflexão sobre o tema ambiental.
Conhecido mundialmente como Earth Hour, a Hora do Planeta será promovida no País pela primeira vez pelo WWF-Brasil e conta com a adesão e apoio do Rio de Janeiro , a primeira cidade brasileira a aderir à iniciativa.
Em 2009, a Hora do Planeta será realizada no dia 28 de março, das 20h30 às 21h30, e pretende contar com a adesão de mais de mil cidades e 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Mais de 170 cidades de 62 países já confirmaram sua adesão à Hora do Planeta.
Realizada pela primeira vez em 2007, a Hora do Planeta contou com a participação de 2,2 milhões de moradores de Sidney, na Austrália. Já em 2008, o movimento contou com a participação de 50 milhões de pessoas, de 400 cidades em 35 países. Simultaneamente apagaram-se as luzes do Coliseu, em Roma, da ponte Golden Gate, em São Francisco e da Opera House, em Sidney, entre outros ícones mundiais.
Cadastre-se já no site Hora do Planeta clicando o título e participe também deste movimento.

fevereiro 28, 2009


Publicidade de cerveja Cristal. A imagem do filme está um pouco prejudicada. Achei a idéia tão boa que trouxe para cá assim mesmo.... ;-)

Chucho e Bebo Valdez

Tipinho


André Dahmer criou a série "Pequeno Mundo Blogueiro", com pérolas como essa.

Mentes simples e complexas

"A mente simples é retilínea, plana.
A mente complexa é curva, elíptica.
A mente simples acredita que somando dois com dois vai chegar ao quatro.
A mente complexa sabe que somando dois com três pode chegar a vários resultados, até mesmo, eventualmente, ao quatro.
A mente simples afirma que a linha reta é a menor distância entre dois pontos.
A mente complexa sabe que o universo é curvo e que, portanto, a curva pode também ser a menor distância entre dois pontos.
A mente simples acredita que o que não é branco é preto.
A mente complexa sabe que existe um espectro de cores e é com essa palheta que se chega ao arco-íris.
A mente simples diz furiosa: olho por olho, dente por dente.
A mente complexa pondera como Gandhi, e sabe que dizendo olho por olho acabaremos todos cegos e desdentados.
Lembram-se de quando dividíamos o mundo em esquerda e direita?
Hitler não era de direita nem Stalin de esquerda.
Hitler e Stalin eram mentes perversamente simples.
A mente simples não vê matizes.
É o bem contra o mal, o certo contra o errado, o Ocidente versus Oriente.
O terrorista tem uma mente terrivelmente simples.
O pacifista, até o pacifista, pode ter uma mente desarmadamente simples.
A arte não é uma coisa simples, embora alguns a simplifiquem em receitas, objetos de consumo e marketing.
Brunelleschi e Alberti, que descobriram a perspectiva no Renascimento, não tinham uma mente simples. Goya não tinha uma mente simples. Clarice não tinha uma mente simples. Nem Machado, nem Guimarães Rosa. Bach era simplesmente complexo.
A mente complexa é a que está sempre aberta para novas dimensões. Newton percebeu dimensões novas no universo. Einstein agregou a quarta dimensão. E agora Stephen Hawking nos anuncia que há pelo menos 21 dimensões ou realidades diferentes.
Olhemos a biologia: o ovo não é quadrado. O coração não é retangular. O DNA são espirais que se procuram a si mesmas num interminável balé de curvas.
Olhemos as galáxias. E os ventos. E os vulcões. E as tempestades. Não são simples, não marcham em linha reta.
O amor, ah! o amor, não é, nunca foi uma coisa simples."


Affonso Romano de Sant'Anna

fevereiro 27, 2009

Love is a many splendored thing

A CABEÇA NO FUNDO DO ENTULHO DA LEITURA

Este texto é de autoria de Fernando Monteiro publicado no RASCUNHO O Jornal de Literatura do Brasil que vc pode acessar clicando no título desta postagem.
"Por que o brasileiro abandonou as poesias de T. S. Eliot para se abraçar ao livreiro de Cabul.
Há menos de trinta anos, a então boa cabeça do leitor brasileiro estava motivando matéria na revista Veja (12/08/1981). O título era Qualidade é sucesso, e o texto - não assinado - assinalava "a volta da literatura de qualidade, com os clássicos nas livrarias e Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, comemorando um semestre na lista dos mais vendidos no país".
A famosa lista começou a ser publicada em junho de 1973, com tal impacto que muitas livrarias passaram a exibir cartazes destacando "os mais vendidos da Veja", nas girândolas da entrada, reunidos atrativamente. A revista semanal da Abril foi quem introduziu aqui o que nos Estados Unidos era uma prática já antiga naquela altura - com a lista do jornal The New York Times na posição de ranking mais influente. Uma curiosidade: exatamente no ano em que a revista brasileira inaugurava a sua lista, o escritor Gore Vidal havia se debruçado, num artigo, sobre as listas do jornal americano (por sinal descobrindo - segundo ele - que a "arte de escrever" estava se transformando na "arte de escrever para o cinema", etc).
A primeira relação brasileira dos livros mais vendidos da semana, publicada há 35 anos, apresentava um romance de Erico Verissimo - Incidente em Antares -, o estudo A hegemonia dos Estados Unidos, de Celso Furtado, e um ensaio do americano Alvin Toffler (alguém se lembra do futurólogo?) como campeão de vendas: O choque do Futuro. Consultando-se a relação, nos meses subseqüentes, Erico comparece com o primeiro volume de sua autobiografia - Solo de clarineta - e o cinematográfico O exorcista, de William P. Blatty, aparece nas primeiras posições entre os estrangeiros, numa altura em que a revista separava obras nacionais e de fora (embora misturasse ficção com não-ficção).
Pulemos uma meia dúzia de anos, agora, para avançar até a assinalada "glória" das listas literárias dos "mais-mais", naquele dourado ano de 1981: o leitor brasuca havia levado ao primeiríssimo lugar (ao longo de cinco meses) o já citado Memórias de Adriano - ficção baseada em rigorosas pesquisas da Yourcenar sobre o imperador romano do século 2 ("o século dos últimos homens livres"), segundo a autora belga - e, em seguida, virava assunto da matéria especial de agosto daquele ano por se revelar atraído por qualidade acima de qualquer suspeita: estava lendo o romance Sempreviva - do bom Antonio Callado - e se mostrava também influenciado pelo cinema, ao guindar O beijo da mulher-aranha, de Manuel Puig, às posições de topo nas quais O exorcista já fizera ecoar aqui a tendência observada pelo também roteirista Vidal. Na lista memorável, vinham, em seguida, um livro mais ou menos (Um homem, de Oriana Fallaci, com alguma qualidade pelo menos do "novo jornalismo", etc.), e O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges, na quarta e quinta posições, respectivamente, sendo o argentino um freqüentador ocasional do topo da relação, no tempo daquele país ainda civilizado, literariamente, que foi, até pouco tempo, o Brasil que, em 1981, se mostrava surpreendente mesmo era na "sexta posição" (a confiar na Veja, etc.) de agosto daquele ano: senhores e senhoras, brasileiras e brasileiras, nordestinos e sudestinos, o nosso Pindorama estava lendo - com cinco mil exemplares vendidos em um mês - nada mais nada menos que Poesia, de T. S. Eliot!
Cortázar e Proust
Poeta considerado difícil e requintado, Eliot tivera a primeira edição de uma antologia da Nova Fronteira esgotada no primeiro mês do lançamento no segundo semestre do ano da graça de 1981, o tal cuja dos "livros mais vendidos" prosseguia com a sétima posição ocupada por uma obra do excelente Julio Cortázar - Alguém que anda por aí -, seguida sabem do quê? Outra surpresa: dos sete volumes de Em busca do tempo perdido, a obra-prima de Marcel Proust, esgotada em dois meses!
É tudo verdade, como diria Orson Welles. (Ou, pelo menos, é a verdade de Veja, veja bem).
A se acreditar nela, o que aconteceu, my God, desde então? No país das mesmas 400 livrarias de sempre (o número não muda? Aqui, os dados - recentes - pelo menos da capital pernambucana são: 21 livrarias no Grande Recife, enquanto Buenos Aires são - pasmem - 10 mil (?) pontos de venda de livros (estariam aí incluídas as bancas de jornais?). Porém os recifenses ganham, amplamente, em bares abertos para a falsa boemia de hoje: temos 2,2 mil enquanto na capital argentina são 790). Recomeçando a frase: no país das mesmas 400 livrarias de sempre - já na matéria de 1981, essa é a estimativa referida -, além do Adriano como livro de cabeceira levado até para a praia [nota: a reportagem Qualidade é sucesso mostrava a foto de uma jovem carioca de biquíni, com livro da Yourcenar sobre uma toalha na areia da praia; não parecia uma foto posada, etc.], no país das mesmas 400 livrarias de sempre etc., etc., dava-se, então, o fenômeno dos 190 mil exemplares de Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, vendidos em bancas de revista, na coleção Gênios da Literatura, selecionada com notável apuro.
O que deu errado?
Menos de trinta anos depois, você vai e confere que estamos patinando, nas listas, no pântano dos Paulos Coelhos, esforçamo-nos para alcançar as 100 escovadas antes de ir para a cama (Melissa Panarello), queremos saber Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? (Allan e Barbara Pease), se Tudo valeu a pena (Zibia Gasparetto) para o Homem-cobra e a mulher-polvo (Içami Tiba) e também Quem mexeu no meu queijo? - pergunta transcendental do título da obra de Spencer Johnson (seja lá quem for).

CONT...clicando no título.

Escutatória

Além de ser fã de carteirinha do Rubem Alves, este recebi da Rebeca que já me emprestou demais os seus "ouvidos", no melhor sentido do texto.

"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:
Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio.
Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência...
E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: Há beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."

MY SWEET LORD

Vejam só quem toca nesta "banda": Eric Clapton no violão, o filho de George Harrison no outro violão, Paul McCartney no piano, na bateria Ringo Star e na outra Phill Collins. Tom Pretty, guitarra e ainda a voz maravilhosa de Billy Preston. No show em homenagem ao George Harrison, dois anos após a sua morte.