março 02, 2009
"40 Anos de Anúncios na TV"

O comercial em preto e branco de 1968 ainda é famoso na França: um jovem de pijama senta-se na cama, gritando "Boursin!" repetidas vezes, e corre para sua cozinha para devorar o queijo.
Recentemente os parisienses têm se reunido numa galeria do Musée des Arts Décoratifs para assistir àquele anúncio de tempos passados, juntamente com muitos outros feitos na França desde o final dos anos 1960. A mostra "40 Anos de Anúncios na TV" inclui dezenas de comerciais sexies de lingerie Dim, dirigidos por William Klein, Luc Besson, Tony Scott e Hal Hartley, entre outros.
A exposição acontece num momento curioso, quando vários grandes anunciantes na TV acabam de ter seus comerciais tirados do ar subitamente. Ostensivamente para melhorar a programação, o presidente Nicolas Sarkozy proibiu a veiculação de comerciais em quatro grandes canais de TV no horário nobre noturno. A medida será estendida a duas outras emissoras.
Isso ainda deixa os franceses com dezenas de canais nos quais podem ver, por exemplo, a extravagância digital criada por Bruno Aveillan para o perfume XS da Paco Rabanne, na qual um casal nu copula languidamente em pleno ar.
A atitude libertária dominante na França também explica o anúncio de serviço público sobre a Aids -uma animação alegre mostrando sexo gay explícito que se desenrola ao som da canção "Sugar Baby Love".
Está claro que os comerciais franceses revelam a cultura francesa, tanto quanto a literatura ou a música. Fortes em sensualidade, estilo e poesia, são notavelmente fracos em matéria de informações e quase alérgicos aos detalhes nus e crus do comércio. Na França, é proibido denegrir seus concorrentes num anúncio de televisão ou (salvo em casos excepcionais) recomendar aos espectadores que liguem para um número determinado para comprar um produto. As táticas de venda direta, que constituem a norma nos EUA, não são aceitáveis na França.
"É porque sempre tivemos uma relação nada saudável com o dinheiro", explicou Jacques Séguéla, executivo criativo da segunda maior agência de publicidade do país, a Havas. "Para nós, dinheiro implica em corrupção. E como nos consideramos os inventores da liberdade -não importa que isso não seja verdade-, ainda vemos a publicidade como uma espécie de manipulação. Isso explica por que a publicidade na TV começou tão tarde neste país -basicamente, porque a oposição de esquerda a via como algo que corrompe a alma."
É verdade que a França demorou a começar a veicular comerciais na TV. Anos depois de EUA, Reino Unido, Itália e outros países estarem convertendo em uma nova forma de arte os spots de 30 segundos de propaganda de detergentes e pastas de dentes, a França ainda proibia a veiculação de anúncios privados. Foi apenas em 1968, passando por cima da oposição forte das empresas de jornais e da esquerda política, que o governo finalmente autorizou a veiculação de dois minutos diários de comerciais numa única emissora de televisão (naquela época, todas as emissoras francesas eram públicas).
Foi sem dúvida em parte para aproveitar a histórica ambivalência francesa em relação aos comerciais de TV que Sarkozy reverteu a política dos últimos 40 anos e proibiu a veiculação de anúncios nas emissoras públicas francesas no horário noturno. A iniciativa foi um grande golpe de relações públicas para o presidente.
Isso não significa que os franceses não gostem de comerciais.
A década de 1980 foi a era de ouro da publicidade francesa, disse Amélie Gastaut, curadora da exposição no Musée des Arts Décoratifs. Diretores como Jean-Paul Goude, Gérard Pirès e Étienne Chatiliez fizeram anúncios elegantes e inteligentes para a Peugeot, os jeans Cooper e a fabricante francesa de calçados de baixo preço Eram.
Sucedeu-se a eles uma geração criada à base de animação digital, que foi quem introduziu a era atual de efeitos fantasmagóricos e sofisticados.
Séguéla disse que os comerciais americanos vão da cabeça à carteira; os britânicos, da cabeça para o coração; e os franceses, do coração para a cabeça. Isso explica por que, num clássico comercial francês da emissora paga Canal Plus, um homem descreve um filme sobre pinguins imperadores na Antártida a uma mulher que visualiza centenas de Napoleões deslizando pelo gelo.

"Enfatizamos o sexo e o humor inteligente em nossos anúncios porque essa é nossa cultura", disse Stéphane Martin, diretor do sindicato francês de publicidade na TV. "A publicidade dá a seu público uma visão idealizada. E é assim (com sexo e humor inteligente) que gostamos de pensar que somos."
Na França, publicidade fala ao coração (da FSP)
Demais imagens da exposição clicando no título.
março 01, 2009
CRIANÇA, A ALMA DO NEGÓCIO
Este é apenas o trailer do documentário a propósito do consumismo infantil e de como as crianças passaram a ser o alvo preferencial dos publiicitários, que pode (eu diria, deve) ser visto clicando o título desta postagem.
Criança, a alma do negócio divulga dados alarmantes sobre consumismo e histórias de famílias de diversas classes sociais que não sabem como lidar com os apelos de seus filhos: “Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?”
Trata-se de uma séria reflexão sobre o lamentável tratamento que o Brasil vem dando a criança. Descobriu-se ser mais fácil convencer uma criança do que um adulto. Assim, as crianças passaram a ser bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente a elas. O resultado é devastador: crianças, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e não brincam de correr por causa de seus saltos altos; sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas.
Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância roubada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.
Não posso imaginar infância em que não se brinque de amarelinha, pipa, cabra-cega, pião, pular corda, queimada, pega-pega (esconde-esconde), passa-anel, estátua, peteca, três marias, bolinha de gude, casinha, escolinha, médico, vaca amarela, lenço atrás, carrinho de rolimã, bolinha de gude e de roda. Isto é, sem dúvida, o que exercita para a vida.
Hora do Planeta 2009
A Hora do Planeta é um ato simbólico promovido pela Rede WWF, para o qual governos, empresas e a população de todo o mundo são convidados a demonstrar sua preocupação com o aquecimento global e as mudanças climáticas. O gesto simples de apagar as luzes por sessenta minutos, possível em todos os lugares do planeta, tem o significado de chamar para uma reflexão sobre o tema ambiental.
Conhecido mundialmente como Earth Hour, a Hora do Planeta será promovida no País pela primeira vez pelo WWF-Brasil e conta com a adesão e apoio do Rio de Janeiro , a primeira cidade brasileira a aderir à iniciativa.
Em 2009, a Hora do Planeta será realizada no dia 28 de março, das 20h30 às 21h30, e pretende contar com a adesão de mais de mil cidades e 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Mais de 170 cidades de 62 países já confirmaram sua adesão à Hora do Planeta.
Realizada pela primeira vez em 2007, a Hora do Planeta contou com a participação de 2,2 milhões de moradores de Sidney, na Austrália. Já em 2008, o movimento contou com a participação de 50 milhões de pessoas, de 400 cidades em 35 países. Simultaneamente apagaram-se as luzes do Coliseu, em Roma, da ponte Golden Gate, em São Francisco e da Opera House, em Sidney, entre outros ícones mundiais.
Cadastre-se já no site Hora do Planeta clicando o título e participe também deste movimento.
fevereiro 28, 2009
Mentes simples e complexas
"A mente simples é retilínea, plana.
A mente complexa é curva, elíptica.
A mente simples acredita que somando dois com dois vai chegar ao quatro.
A mente complexa sabe que somando dois com três pode chegar a vários resultados, até mesmo, eventualmente, ao quatro.
A mente simples afirma que a linha reta é a menor distância entre dois pontos.
A mente complexa sabe que o universo é curvo e que, portanto, a curva pode também ser a menor distância entre dois pontos.
A mente simples acredita que o que não é branco é preto.
A mente complexa sabe que existe um espectro de cores e é com essa palheta que se chega ao arco-íris.
A mente simples diz furiosa: olho por olho, dente por dente.
A mente complexa pondera como Gandhi, e sabe que dizendo olho por olho acabaremos todos cegos e desdentados.
Lembram-se de quando dividíamos o mundo em esquerda e direita?
Hitler não era de direita nem Stalin de esquerda.
Hitler e Stalin eram mentes perversamente simples.
A mente simples não vê matizes.
É o bem contra o mal, o certo contra o errado, o Ocidente versus Oriente.
O terrorista tem uma mente terrivelmente simples.
O pacifista, até o pacifista, pode ter uma mente desarmadamente simples.
A arte não é uma coisa simples, embora alguns a simplifiquem em receitas, objetos de consumo e marketing.
Brunelleschi e Alberti, que descobriram a perspectiva no Renascimento, não tinham uma mente simples. Goya não tinha uma mente simples. Clarice não tinha uma mente simples. Nem Machado, nem Guimarães Rosa. Bach era simplesmente complexo.
A mente complexa é a que está sempre aberta para novas dimensões. Newton percebeu dimensões novas no universo. Einstein agregou a quarta dimensão. E agora Stephen Hawking nos anuncia que há pelo menos 21 dimensões ou realidades diferentes.
Olhemos a biologia: o ovo não é quadrado. O coração não é retangular. O DNA são espirais que se procuram a si mesmas num interminável balé de curvas.
Olhemos as galáxias. E os ventos. E os vulcões. E as tempestades. Não são simples, não marcham em linha reta.
O amor, ah! o amor, não é, nunca foi uma coisa simples."
Affonso Romano de Sant'Anna
A mente complexa é curva, elíptica.
A mente simples acredita que somando dois com dois vai chegar ao quatro.
A mente complexa sabe que somando dois com três pode chegar a vários resultados, até mesmo, eventualmente, ao quatro.
A mente simples afirma que a linha reta é a menor distância entre dois pontos.
A mente complexa sabe que o universo é curvo e que, portanto, a curva pode também ser a menor distância entre dois pontos.
A mente simples acredita que o que não é branco é preto.
A mente complexa sabe que existe um espectro de cores e é com essa palheta que se chega ao arco-íris.
A mente simples diz furiosa: olho por olho, dente por dente.
A mente complexa pondera como Gandhi, e sabe que dizendo olho por olho acabaremos todos cegos e desdentados.
Lembram-se de quando dividíamos o mundo em esquerda e direita?
Hitler não era de direita nem Stalin de esquerda.
Hitler e Stalin eram mentes perversamente simples.
A mente simples não vê matizes.
É o bem contra o mal, o certo contra o errado, o Ocidente versus Oriente.
O terrorista tem uma mente terrivelmente simples.
O pacifista, até o pacifista, pode ter uma mente desarmadamente simples.
A arte não é uma coisa simples, embora alguns a simplifiquem em receitas, objetos de consumo e marketing.
Brunelleschi e Alberti, que descobriram a perspectiva no Renascimento, não tinham uma mente simples. Goya não tinha uma mente simples. Clarice não tinha uma mente simples. Nem Machado, nem Guimarães Rosa. Bach era simplesmente complexo.
A mente complexa é a que está sempre aberta para novas dimensões. Newton percebeu dimensões novas no universo. Einstein agregou a quarta dimensão. E agora Stephen Hawking nos anuncia que há pelo menos 21 dimensões ou realidades diferentes.
Olhemos a biologia: o ovo não é quadrado. O coração não é retangular. O DNA são espirais que se procuram a si mesmas num interminável balé de curvas.
Olhemos as galáxias. E os ventos. E os vulcões. E as tempestades. Não são simples, não marcham em linha reta.
O amor, ah! o amor, não é, nunca foi uma coisa simples."
Affonso Romano de Sant'Anna
fevereiro 27, 2009
A CABEÇA NO FUNDO DO ENTULHO DA LEITURA
Este texto é de autoria de Fernando Monteiro publicado no RASCUNHO O Jornal de Literatura do Brasil que vc pode acessar clicando no título desta postagem.
"Por que o brasileiro abandonou as poesias de T. S. Eliot para se abraçar ao livreiro de Cabul.
Há menos de trinta anos, a então boa cabeça do leitor brasileiro estava motivando matéria na revista Veja (12/08/1981). O título era Qualidade é sucesso, e o texto - não assinado - assinalava "a volta da literatura de qualidade, com os clássicos nas livrarias e Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, comemorando um semestre na lista dos mais vendidos no país".
A famosa lista começou a ser publicada em junho de 1973, com tal impacto que muitas livrarias passaram a exibir cartazes destacando "os mais vendidos da Veja", nas girândolas da entrada, reunidos atrativamente. A revista semanal da Abril foi quem introduziu aqui o que nos Estados Unidos era uma prática já antiga naquela altura - com a lista do jornal The New York Times na posição de ranking mais influente. Uma curiosidade: exatamente no ano em que a revista brasileira inaugurava a sua lista, o escritor Gore Vidal havia se debruçado, num artigo, sobre as listas do jornal americano (por sinal descobrindo - segundo ele - que a "arte de escrever" estava se transformando na "arte de escrever para o cinema", etc).
A primeira relação brasileira dos livros mais vendidos da semana, publicada há 35 anos, apresentava um romance de Erico Verissimo - Incidente em Antares -, o estudo A hegemonia dos Estados Unidos, de Celso Furtado, e um ensaio do americano Alvin Toffler (alguém se lembra do futurólogo?) como campeão de vendas: O choque do Futuro. Consultando-se a relação, nos meses subseqüentes, Erico comparece com o primeiro volume de sua autobiografia - Solo de clarineta - e o cinematográfico O exorcista, de William P. Blatty, aparece nas primeiras posições entre os estrangeiros, numa altura em que a revista separava obras nacionais e de fora (embora misturasse ficção com não-ficção).
Pulemos uma meia dúzia de anos, agora, para avançar até a assinalada "glória" das listas literárias dos "mais-mais", naquele dourado ano de 1981: o leitor brasuca havia levado ao primeiríssimo lugar (ao longo de cinco meses) o já citado Memórias de Adriano - ficção baseada em rigorosas pesquisas da Yourcenar sobre o imperador romano do século 2 ("o século dos últimos homens livres"), segundo a autora belga - e, em seguida, virava assunto da matéria especial de agosto daquele ano por se revelar atraído por qualidade acima de qualquer suspeita: estava lendo o romance Sempreviva - do bom Antonio Callado - e se mostrava também influenciado pelo cinema, ao guindar O beijo da mulher-aranha, de Manuel Puig, às posições de topo nas quais O exorcista já fizera ecoar aqui a tendência observada pelo também roteirista Vidal. Na lista memorável, vinham, em seguida, um livro mais ou menos (Um homem, de Oriana Fallaci, com alguma qualidade pelo menos do "novo jornalismo", etc.), e O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges, na quarta e quinta posições, respectivamente, sendo o argentino um freqüentador ocasional do topo da relação, no tempo daquele país ainda civilizado, literariamente, que foi, até pouco tempo, o Brasil que, em 1981, se mostrava surpreendente mesmo era na "sexta posição" (a confiar na Veja, etc.) de agosto daquele ano: senhores e senhoras, brasileiras e brasileiras, nordestinos e sudestinos, o nosso Pindorama estava lendo - com cinco mil exemplares vendidos em um mês - nada mais nada menos que Poesia, de T. S. Eliot!
Cortázar e Proust
Poeta considerado difícil e requintado, Eliot tivera a primeira edição de uma antologia da Nova Fronteira esgotada no primeiro mês do lançamento no segundo semestre do ano da graça de 1981, o tal cuja dos "livros mais vendidos" prosseguia com a sétima posição ocupada por uma obra do excelente Julio Cortázar - Alguém que anda por aí -, seguida sabem do quê? Outra surpresa: dos sete volumes de Em busca do tempo perdido, a obra-prima de Marcel Proust, esgotada em dois meses!
É tudo verdade, como diria Orson Welles. (Ou, pelo menos, é a verdade de Veja, veja bem).
A se acreditar nela, o que aconteceu, my God, desde então? No país das mesmas 400 livrarias de sempre (o número não muda? Aqui, os dados - recentes - pelo menos da capital pernambucana são: 21 livrarias no Grande Recife, enquanto Buenos Aires são - pasmem - 10 mil (?) pontos de venda de livros (estariam aí incluídas as bancas de jornais?). Porém os recifenses ganham, amplamente, em bares abertos para a falsa boemia de hoje: temos 2,2 mil enquanto na capital argentina são 790). Recomeçando a frase: no país das mesmas 400 livrarias de sempre - já na matéria de 1981, essa é a estimativa referida -, além do Adriano como livro de cabeceira levado até para a praia [nota: a reportagem Qualidade é sucesso mostrava a foto de uma jovem carioca de biquíni, com livro da Yourcenar sobre uma toalha na areia da praia; não parecia uma foto posada, etc.], no país das mesmas 400 livrarias de sempre etc., etc., dava-se, então, o fenômeno dos 190 mil exemplares de Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, vendidos em bancas de revista, na coleção Gênios da Literatura, selecionada com notável apuro.
O que deu errado?
Menos de trinta anos depois, você vai e confere que estamos patinando, nas listas, no pântano dos Paulos Coelhos, esforçamo-nos para alcançar as 100 escovadas antes de ir para a cama (Melissa Panarello), queremos saber Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? (Allan e Barbara Pease), se Tudo valeu a pena (Zibia Gasparetto) para o Homem-cobra e a mulher-polvo (Içami Tiba) e também Quem mexeu no meu queijo? - pergunta transcendental do título da obra de Spencer Johnson (seja lá quem for).
CONT...clicando no título.
"Por que o brasileiro abandonou as poesias de T. S. Eliot para se abraçar ao livreiro de Cabul.
Há menos de trinta anos, a então boa cabeça do leitor brasileiro estava motivando matéria na revista Veja (12/08/1981). O título era Qualidade é sucesso, e o texto - não assinado - assinalava "a volta da literatura de qualidade, com os clássicos nas livrarias e Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, comemorando um semestre na lista dos mais vendidos no país".
A famosa lista começou a ser publicada em junho de 1973, com tal impacto que muitas livrarias passaram a exibir cartazes destacando "os mais vendidos da Veja", nas girândolas da entrada, reunidos atrativamente. A revista semanal da Abril foi quem introduziu aqui o que nos Estados Unidos era uma prática já antiga naquela altura - com a lista do jornal The New York Times na posição de ranking mais influente. Uma curiosidade: exatamente no ano em que a revista brasileira inaugurava a sua lista, o escritor Gore Vidal havia se debruçado, num artigo, sobre as listas do jornal americano (por sinal descobrindo - segundo ele - que a "arte de escrever" estava se transformando na "arte de escrever para o cinema", etc).
A primeira relação brasileira dos livros mais vendidos da semana, publicada há 35 anos, apresentava um romance de Erico Verissimo - Incidente em Antares -, o estudo A hegemonia dos Estados Unidos, de Celso Furtado, e um ensaio do americano Alvin Toffler (alguém se lembra do futurólogo?) como campeão de vendas: O choque do Futuro. Consultando-se a relação, nos meses subseqüentes, Erico comparece com o primeiro volume de sua autobiografia - Solo de clarineta - e o cinematográfico O exorcista, de William P. Blatty, aparece nas primeiras posições entre os estrangeiros, numa altura em que a revista separava obras nacionais e de fora (embora misturasse ficção com não-ficção).
Pulemos uma meia dúzia de anos, agora, para avançar até a assinalada "glória" das listas literárias dos "mais-mais", naquele dourado ano de 1981: o leitor brasuca havia levado ao primeiríssimo lugar (ao longo de cinco meses) o já citado Memórias de Adriano - ficção baseada em rigorosas pesquisas da Yourcenar sobre o imperador romano do século 2 ("o século dos últimos homens livres"), segundo a autora belga - e, em seguida, virava assunto da matéria especial de agosto daquele ano por se revelar atraído por qualidade acima de qualquer suspeita: estava lendo o romance Sempreviva - do bom Antonio Callado - e se mostrava também influenciado pelo cinema, ao guindar O beijo da mulher-aranha, de Manuel Puig, às posições de topo nas quais O exorcista já fizera ecoar aqui a tendência observada pelo também roteirista Vidal. Na lista memorável, vinham, em seguida, um livro mais ou menos (Um homem, de Oriana Fallaci, com alguma qualidade pelo menos do "novo jornalismo", etc.), e O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges, na quarta e quinta posições, respectivamente, sendo o argentino um freqüentador ocasional do topo da relação, no tempo daquele país ainda civilizado, literariamente, que foi, até pouco tempo, o Brasil que, em 1981, se mostrava surpreendente mesmo era na "sexta posição" (a confiar na Veja, etc.) de agosto daquele ano: senhores e senhoras, brasileiras e brasileiras, nordestinos e sudestinos, o nosso Pindorama estava lendo - com cinco mil exemplares vendidos em um mês - nada mais nada menos que Poesia, de T. S. Eliot!
Cortázar e Proust
Poeta considerado difícil e requintado, Eliot tivera a primeira edição de uma antologia da Nova Fronteira esgotada no primeiro mês do lançamento no segundo semestre do ano da graça de 1981, o tal cuja dos "livros mais vendidos" prosseguia com a sétima posição ocupada por uma obra do excelente Julio Cortázar - Alguém que anda por aí -, seguida sabem do quê? Outra surpresa: dos sete volumes de Em busca do tempo perdido, a obra-prima de Marcel Proust, esgotada em dois meses!
É tudo verdade, como diria Orson Welles. (Ou, pelo menos, é a verdade de Veja, veja bem).
A se acreditar nela, o que aconteceu, my God, desde então? No país das mesmas 400 livrarias de sempre (o número não muda? Aqui, os dados - recentes - pelo menos da capital pernambucana são: 21 livrarias no Grande Recife, enquanto Buenos Aires são - pasmem - 10 mil (?) pontos de venda de livros (estariam aí incluídas as bancas de jornais?). Porém os recifenses ganham, amplamente, em bares abertos para a falsa boemia de hoje: temos 2,2 mil enquanto na capital argentina são 790). Recomeçando a frase: no país das mesmas 400 livrarias de sempre - já na matéria de 1981, essa é a estimativa referida -, além do Adriano como livro de cabeceira levado até para a praia [nota: a reportagem Qualidade é sucesso mostrava a foto de uma jovem carioca de biquíni, com livro da Yourcenar sobre uma toalha na areia da praia; não parecia uma foto posada, etc.], no país das mesmas 400 livrarias de sempre etc., etc., dava-se, então, o fenômeno dos 190 mil exemplares de Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, vendidos em bancas de revista, na coleção Gênios da Literatura, selecionada com notável apuro.
O que deu errado?
Menos de trinta anos depois, você vai e confere que estamos patinando, nas listas, no pântano dos Paulos Coelhos, esforçamo-nos para alcançar as 100 escovadas antes de ir para a cama (Melissa Panarello), queremos saber Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? (Allan e Barbara Pease), se Tudo valeu a pena (Zibia Gasparetto) para o Homem-cobra e a mulher-polvo (Içami Tiba) e também Quem mexeu no meu queijo? - pergunta transcendental do título da obra de Spencer Johnson (seja lá quem for).
CONT...clicando no título.
Escutatória
Além de ser fã de carteirinha do Rubem Alves, este recebi da Rebeca que já me emprestou demais os seus "ouvidos", no melhor sentido do texto.
"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:
Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio.
Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência...
E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: Há beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."
"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:
Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio.
Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência...
E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: Há beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."
MY SWEET LORD
Vejam só quem toca nesta "banda": Eric Clapton no violão, o filho de George Harrison no outro violão, Paul McCartney no piano, na bateria Ringo Star e na outra Phill Collins. Tom Pretty, guitarra e ainda a voz maravilhosa de Billy Preston. No show em homenagem ao George Harrison, dois anos após a sua morte.
fevereiro 26, 2009
A amiga do hipotálamo

"Você, que tem um parafuso a mais, não pode deixar de ler este texto" É com este "argumento" que a REVISTA PIAUÍ recomenda a matéria, da jornalista Daniela Pinheiro, sobre LAURITA MOURÃO (leia o texto integral clicando no título).
Esta figura, hoje com 82 anos, que é autora de Incesto em Segundo Grau – sobre uma avó que tem uma noite de prazer sexual com o neto de 20 anos – e a coletânea de contos Decamourão, inspirado em Boccaccio, ambos publicados pela editora Record, costuma dizer que só há dois assuntos que merecem ser tratados com seriedade: a fé e o sexo.
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“Meus livros são todos medíocres, você bem deve saber”, reconheceu. “Mas eu não ligo muito.” Perguntada o que a levou a se candidatar, duas vezes, à Academia Brasileira de Letras, respondeu: “Eu acho que poderia levar uma coisa diferente para a Academia. Meus amigos perguntavam: ‘O que o Pitanguy escreveu?’, ‘O que o Marco Maciel fez de memorável?’ Pelo menos, os meus livros são -animados”, respondeu. “Eu ia levar um pouco de alegria para lá. Aquilo deve ser uma chatice, cheio de velhos. Detesto velho.” (Nas duas tentativas de entrar na Academia, não recebeu sequer um voto.)
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Cheia de vida, fala com entusiasmo e sem afetação. Com gestos delicados, costuma interpretar as histórias, mudando o tom de voz, imitando sotaques e fazendo posturas corporais. Quando um interlocutor inconveniente a interrompe, ela simplesmente se cala. Salpica seus relatos com frases e expressões de meia dúzia de idiomas.
Funcionária aposentada do Itamaraty, viveu por meio século no exterior. Passou pelo Uruguai, Argentina, França, Estados Unidos, Espanha e Caribe. Voltou para o Rio no final dos anos 80 e foi morar num apartamento alugado, de 450 metros quadrados (hoje com sinais eloquentes da ação do tempo e da maresia), decorado com excesso de móveis, quadros, cortinas, tapeçarias e fotografias desbotadas.
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No final dos anos 70, ela provocou mal-estar no Itamaraty ao publicar À Mesa do Jantar, um livro de memórias no qual relatou algumas de suas aventuras sexuais com embaixadores, cônsules e diplomatas estrangeiros. Por ter elencado os casados, os separados, os solteiros e os muito jovens, ela estima ter vendido 10 mil exemplares. Tentou disfarçar os nomes, mas nem tanto. Um embaixador de sobrenome Carnaúba, por exemplo, virou “Babaçu”, mas com grafia árabe: Bab-Hassuh. O diplomata Egberto Mafra, de quem ela chegou a engravidar, foi tratado como Gilberto Marques. Outro embaixador, conhecido no governo Fernando Henrique Cardoso por um apelido de criança, teve que se explicar em casa. O livro trazia novidades inclusive para a família de Laurita. Nele ela conta que o verdadeiro pai de sua filha mais nova era o sobrinho de seu marido. “Fiquei semanas na lista dos livros mais vendidos. Era convidada para programas de debates na televisão e até reconhecida na rua”, “Para mim, foi importante aquela catarse. Mas fiquei com fama de escandalosa. Aliás, sempre tive má fama. Hoje, o livro poderia ser dado para meninas que estão fazendo primeira comunhão.”
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Hoje ela só pensaa na Carla Bruni e diz “Aquele Sarkozy tem cara de quem gosta do meu esporte. Aliás, os franceses, te digo com experiência, são os melhores amantes do mundo. Na cama, eles acham que as mulheres são iguais a eles, que têm os mesmos direitos.” Já os americanos são péssimos. “Na hora dos prolegômenos, eles são primários. E têm um complexo de culpa que... haja saco!”, comentou. Pedi que explicasse melhor e ela disse: “O americano se deita com você, tem orgasmo e depois fica repetindo: ‘Oh, Jesus, eu estou traindo minha mulher... Oh, que horror, oh, que pecado, como sou um son of a bitch.”
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A desenvoltura em lidar com a própria sexualidade, ela atribui muito à criação que recebeu do pai, o general Olympio Mourão Filho, que entrou para a história em duas quarteladas. Foi ele o autor de um documento falso, o Plano Cohen, que serviu de pretexto para Getúlio Vargas reprimir o avanço comunista e instalar em 1937 a ditadura do Estado Novo. Também foi ele quem, na tarde de 31 de março de 1964, antecipando-se ao que havia sido acertado pelos militares de maior patente que a sua, fez marchar tropas de Juiz de Fora rumo ao Rio, para derrubar o presidente João Goulart. O general Mourão também é lembrado por uma frase que deu identidade aos golpistas. Ao ser indagado sobre o teor de uma reunião que tivera no Palácio do Planalto, respondeu: “Meu filho, em matéria de lei, sou uma vaca fardada.”
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Entre 1955 e 1964, o general escreveu um diário, que o historiador Helio Silva transformou em um livro intitulado Memórias: a Verdade de um Revolucionário. Em 1978, Laurita conseguiu embargar a publicação do livro, alegando que se tratava de um diário íntimo de seu pai. Helio Silva divulgou então um bilhete, escrito à mão por Mourão e entregue a ele junto com os cadernos, afirmando que o acadêmico “era o único a ter coragem de publicar” o que havia escrito. Também anexou ao processo uma declaração da última mulher do general confirmando a doação. Seis meses depois, a ação foi revogada e o livro foi publicado.
Dois anos depois, ela tentou novamente impedir Helio Silva de divulgar os originais da defesa que Mourão apresentou a um “tribunal de honra” do Exército esclarecendo sua participação no Plano Cohen, organizada no livro A Ameaça Vermelha: o Plano Cohen. “Sou a única filha dele e acho que tenho o direito de ter a gerência e os direitos autorais sobre os escritos do meu pai”, ela justificou. “Mas dessa vez, meus advogados queriam me cobrar 5 mil dólares pela ação e tive que desistir”, contou.
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Em 2002, Laurita resolveu abandonar os textos de cunho erótico para escrever a sua versão dos episódios protagonizados pelo pai. Em quatro meses, ela produziu as 423 páginas de Mourão, o General do Pijama Vermelho. O título faz alusão ao robe de seda usado pelo militar quando disparava os telefonemas de articulação do golpe.
“Ele mudou a história do país por duas vezes, e em ambas foi mal interpretado”, disse. Laurita defende que o pai serviu de bode expiatório e foi enganado no Plano Cohen. Segundo ela, o rascunho escrito por Mourão foi “desviado” para outros fins, sem sua anuência. Em 1964, houve outro equívoco. “Meu pai nunca foi a favor do fechamento do Congresso”, disse. “Inclusive mandou tropas à Brasília para impedir isso no momento da instauração do Ato Institucional nº 5. Ele era um homem das instituições.”
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Nos anos 80, ela pediu para ser transferida para o serviço consular em Nova York. Conseguiu um apartamento em frente ao Central Park, com um aluguel razoável. Para complementar a renda, ela fazia bicos como motorista, pianista de restaurante francês, professora de português e tradutora.
Foi quando escreveu Alice do Quinto Diedro, ambientado na cidade. Laurita conta a vida da “mulher revolucionária, a mulher do ano 2000”, liberada sexualmente, viajada e bem-sucedida. “Era a história da mulher que eu queria ser”, disse. No livro, a protagonista vive uma “orgia cósmica” no 45º andar do World Trade Center. O sexo havia se tornado “algo sagrado: nunca adiado ou omitido” e o governo do planeta Terra, que havia sepultado guerras e conflitos há anos, estava nas mãos de um “computador cósmico central”. .
Não deixe de ler a íntegra, clicanco no título.
"Milk " o preço da liberdade
Para continuarmos livres, é preciso defender a liberdade do vizinho como se fosse a nossa
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"ASSISTINDO a "Milk - A Voz da Igualdade", de Gus Van Sant (extraordinário Sean Penn no papel de Harvey Milk), lembrei-me de um e-mail que recebi em abril de 2008. Era uma circular de www.boxturtlebulletin.com (um site sobre os direitos das minorias sexuais), que "comemorava" os 55 anos de um evento sinistro: em 1953, Dwight Eisenhower, presidente dos EUA, assinou um decreto pelo qual seriam despedidos todos os funcionários federais que fossem culpados de "perversão sexual". Essa lei permaneceu em vigor durante mais de 20 anos: milhares de americanos perderam seus empregos por causa de sua orientação sexual.
Fato frequentemente esquecido (um pouco como foi esquecida, durante décadas, a perseguição dos homossexuais pelo nazismo), nos anos 50, no discurso do senador McCarthy, a caça às bruxas "comunistas" se confundia com a caça às bruxas homossexuais. Por exemplo, uma carta do secretário nacional do Partido Republicano (citada na circular) dizia: "Talvez tão perigosos quanto os comunistas propriamente ditos são os pervertidos escusos que infiltraram nosso governo nos últimos anos". Essa não era uma posição extrema: na época, a revista "Time" defendeu o projeto de despedir todos os homossexuais que trabalhassem para o governo federal.
É nesse clima que, nos anos 70, em San Francisco, Milk se tornou o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público.
Poderia escrever sobre as razões que, quase invariavelmente, levam alguém a querer esmagar a liberdade de seus semelhantes. O segredo (de polichinelo) é que muitos preferem odiar nos outros alguma coisa que eles não querem reconhecer e odiar neles mesmos. E poderia contar a história de Roy Cohn, braço direito de McCarthy, que morreu, em 1984, odiando e escondendo sua homossexualidade e gritando ao mundo que a causa de sua morte não era a Aids (ele foi imortalizado por Al Pacino na peça e no filme "Anjos na América", de Tony Kushner).
Mas, depois de assistir a "Milk", estou a fim de festejar o caminho percorrido em apenas meio século: o mundo é, hoje, um lugar mais habitável do que 50 anos atrás. Aconteceu graças a milhares de Harvey Milks e a milhões de outros que não precisaram ser nem homossexuais nem comunistas nem coisa que valesse: eles apenas descobriram que só é possível proteger a liberdade da gente se entendermos que, para isso, é necessário defender a liberdade de nosso vizinho como se fosse a nossa. Nos anos 70, quase decorei a carta aberta que James Baldwin (escritor, negro e homossexual) endereçou a Angela Davis (jovem filósofa, negra e militante), quando ela estava sendo processada por um assassinato que não cometera, e o risco era grande que o processo acabasse em uma condenação "exemplar". Baldwin lembrava as diferenças de história, engajamento e pensamento entre ele e Davis, para concluir: "Devemos lutar pela tua vida como se fosse a nossa - ela é a nossa, aliás - e obstruir com nossos corpos o corredor que leva à câmara de gás. Porque, se eles te pegarem de manhã, voltarão para nós naquela mesma noite".
Os direitos fundamentais não são direitos de grupo, eles valem para cada indivíduo singularmente, um a um. É óbvio que grupos particulares (constituídos por raça, orientação sexual, ideologia, etnia etc.) podem e devem militar coletivamente pelos direitos de seus membros, mas, em uma sociedade de indivíduos, a liberdade de cada um, por "diferente" que ele seja, é condição da liberdade de todos. Por quê?
Simples: se meu vizinho, sem violar as leis básicas da cidade, for impedido de ter a vida concreta que ele quer, então meu jeito de viver poderá ser tolerado ou até permitido, mas ele não será nunca mais propriamente meu direito. "Milk" é um filme sobre um momento crucial na história das liberdades, mas não é um filme "arqueológico". A gente sai do cinema com a sensação renovada de que a militância libertária ainda é a grande exigência do dia. Ótimo assim.
Um amigo me disse recentemente que eu dou uma importância excessiva à contracultura dos anos 60/70. Acho, de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos. Acho também que suas conquistas só se mantêm pelo esforço cotidiano de muitos. Afinal (quem viu o filme entenderá), surge uma Anita Bryant a cada dia."
CONTARDO CALLIGARIS na FSP, hoje.
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"ASSISTINDO a "Milk - A Voz da Igualdade", de Gus Van Sant (extraordinário Sean Penn no papel de Harvey Milk), lembrei-me de um e-mail que recebi em abril de 2008. Era uma circular de www.boxturtlebulletin.com (um site sobre os direitos das minorias sexuais), que "comemorava" os 55 anos de um evento sinistro: em 1953, Dwight Eisenhower, presidente dos EUA, assinou um decreto pelo qual seriam despedidos todos os funcionários federais que fossem culpados de "perversão sexual". Essa lei permaneceu em vigor durante mais de 20 anos: milhares de americanos perderam seus empregos por causa de sua orientação sexual.
Fato frequentemente esquecido (um pouco como foi esquecida, durante décadas, a perseguição dos homossexuais pelo nazismo), nos anos 50, no discurso do senador McCarthy, a caça às bruxas "comunistas" se confundia com a caça às bruxas homossexuais. Por exemplo, uma carta do secretário nacional do Partido Republicano (citada na circular) dizia: "Talvez tão perigosos quanto os comunistas propriamente ditos são os pervertidos escusos que infiltraram nosso governo nos últimos anos". Essa não era uma posição extrema: na época, a revista "Time" defendeu o projeto de despedir todos os homossexuais que trabalhassem para o governo federal.
É nesse clima que, nos anos 70, em San Francisco, Milk se tornou o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público.
Poderia escrever sobre as razões que, quase invariavelmente, levam alguém a querer esmagar a liberdade de seus semelhantes. O segredo (de polichinelo) é que muitos preferem odiar nos outros alguma coisa que eles não querem reconhecer e odiar neles mesmos. E poderia contar a história de Roy Cohn, braço direito de McCarthy, que morreu, em 1984, odiando e escondendo sua homossexualidade e gritando ao mundo que a causa de sua morte não era a Aids (ele foi imortalizado por Al Pacino na peça e no filme "Anjos na América", de Tony Kushner).
Mas, depois de assistir a "Milk", estou a fim de festejar o caminho percorrido em apenas meio século: o mundo é, hoje, um lugar mais habitável do que 50 anos atrás. Aconteceu graças a milhares de Harvey Milks e a milhões de outros que não precisaram ser nem homossexuais nem comunistas nem coisa que valesse: eles apenas descobriram que só é possível proteger a liberdade da gente se entendermos que, para isso, é necessário defender a liberdade de nosso vizinho como se fosse a nossa. Nos anos 70, quase decorei a carta aberta que James Baldwin (escritor, negro e homossexual) endereçou a Angela Davis (jovem filósofa, negra e militante), quando ela estava sendo processada por um assassinato que não cometera, e o risco era grande que o processo acabasse em uma condenação "exemplar". Baldwin lembrava as diferenças de história, engajamento e pensamento entre ele e Davis, para concluir: "Devemos lutar pela tua vida como se fosse a nossa - ela é a nossa, aliás - e obstruir com nossos corpos o corredor que leva à câmara de gás. Porque, se eles te pegarem de manhã, voltarão para nós naquela mesma noite".
Os direitos fundamentais não são direitos de grupo, eles valem para cada indivíduo singularmente, um a um. É óbvio que grupos particulares (constituídos por raça, orientação sexual, ideologia, etnia etc.) podem e devem militar coletivamente pelos direitos de seus membros, mas, em uma sociedade de indivíduos, a liberdade de cada um, por "diferente" que ele seja, é condição da liberdade de todos. Por quê?
Simples: se meu vizinho, sem violar as leis básicas da cidade, for impedido de ter a vida concreta que ele quer, então meu jeito de viver poderá ser tolerado ou até permitido, mas ele não será nunca mais propriamente meu direito. "Milk" é um filme sobre um momento crucial na história das liberdades, mas não é um filme "arqueológico". A gente sai do cinema com a sensação renovada de que a militância libertária ainda é a grande exigência do dia. Ótimo assim.
Um amigo me disse recentemente que eu dou uma importância excessiva à contracultura dos anos 60/70. Acho, de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos. Acho também que suas conquistas só se mantêm pelo esforço cotidiano de muitos. Afinal (quem viu o filme entenderá), surge uma Anita Bryant a cada dia."
CONTARDO CALLIGARIS na FSP, hoje.
Ruas do Porto
Montei este video a partir de fotos da web. Daí a questionável qualidade. A omissão do nome das ruas foi proposital. Anotei os bairros: Massarelos, Miragia, Vitória, Paranhos, São Nicolau e Sé. As ruas a gente vai encontrando por acaso...
A música é Vou pelas ruas, vou pelas praças cantada pela Viviane.
fevereiro 25, 2009
Confete na cueca
Se, em 2000, me dissessem que em breve assistiríamos no Rio à volta triunfal da Lapa, do Carnaval de rua e do confete e da serpentina, nem eu, que não duvido de mais nada, acreditaria no que estava ouvindo. Era tudo muito improvável.
Mas as improbabilidades logo ruíram. A Lapa voltou a ser o epicentro da música e da alegria no Rio. Em seguida, sem qualquer apelo oficial e até mesmo sem dinheiro, o Carnaval de rua começou a ocupar a cidade, com centenas de blocos. E, nestes últimos dias, mesmo na qualidade de folião grave, quase platônico, surpreendi-me, ao voltar para casa e tirar a roupa, com confete até dentro da cueca.
Se estas não fossem tendências que já vinham se desenhando há algum tempo, poder-se-ia dizer que é a típica resposta carioca à crise que está assolando o mundo -assim como, em 1919, o Rio só esperou acabar a Primeira Guerra e a gripe espanhola para promover o seu maior Carnaval até então. E, antes que alguém nos acuse de irresponsabilidade crônica, devo dizer que concordo com a acusação e acho ótimo que assim seja.
O que o Carnaval pode gerar de negócios (as cervejas faturaram em vendas pelo ano inteiro), energia (nunca vi tanta gente pulando ao som de marchinhas) e paixão (metade dos jovens nas ruas pareciam atracados pela boca à outra metade) deve ter atingido seu apogeu em 2009. E, sem uma gota de chuva para refrescar, o povo suou o suficiente para encharcar o planeta, o que também é sinal de vitalidade.
Cada bloco carioca é uma expressão do bar, quiosque ou esquina onde foi fundado. Independe da presença de um artista famoso, e é formado por pessoas que querem apenas saracotear, encher a cara e se divertir. Não é proibido ao famoso aderir. No bloco, ele será, como milhares, um simples anônimo feliz.
RUY CASTRO
Mas as improbabilidades logo ruíram. A Lapa voltou a ser o epicentro da música e da alegria no Rio. Em seguida, sem qualquer apelo oficial e até mesmo sem dinheiro, o Carnaval de rua começou a ocupar a cidade, com centenas de blocos. E, nestes últimos dias, mesmo na qualidade de folião grave, quase platônico, surpreendi-me, ao voltar para casa e tirar a roupa, com confete até dentro da cueca.
Se estas não fossem tendências que já vinham se desenhando há algum tempo, poder-se-ia dizer que é a típica resposta carioca à crise que está assolando o mundo -assim como, em 1919, o Rio só esperou acabar a Primeira Guerra e a gripe espanhola para promover o seu maior Carnaval até então. E, antes que alguém nos acuse de irresponsabilidade crônica, devo dizer que concordo com a acusação e acho ótimo que assim seja.
O que o Carnaval pode gerar de negócios (as cervejas faturaram em vendas pelo ano inteiro), energia (nunca vi tanta gente pulando ao som de marchinhas) e paixão (metade dos jovens nas ruas pareciam atracados pela boca à outra metade) deve ter atingido seu apogeu em 2009. E, sem uma gota de chuva para refrescar, o povo suou o suficiente para encharcar o planeta, o que também é sinal de vitalidade.
Cada bloco carioca é uma expressão do bar, quiosque ou esquina onde foi fundado. Independe da presença de um artista famoso, e é formado por pessoas que querem apenas saracotear, encher a cara e se divertir. Não é proibido ao famoso aderir. No bloco, ele será, como milhares, um simples anônimo feliz.
RUY CASTRO
fevereiro 24, 2009
O leilão do século
Estimada em 300 milhões de euros a estupenda coleção do casal Yves Saint Laurent e Pierre Bergé — que manteve uma relação amorosa e paixão pela arte durante cinco décadas — está sendo saudada como “o leilao do século”. A receita arrecada será revertida à pesquisa da AIDS. Veja mais, inclusive as obras leiloadas clicando no título.
PARA SEMPRE
De uns tempos para cá (não vem ao caso, quando nem porque), me dei conta da precariedade das relaçôes literárias Brasil-Portugal. Encontramos com facilidade livros traduzidos até do albanês, enquanto ainda continuam sendo raros os títulos da boa literatura em nossa própria língua. Vergílio Ferreira é um dos exemplos acabados do que afirmo. Trata-se de um dos maiores nomes da literatura portuguesa do século passado,(leia mais clicando no título), e não temos praticamente nada da sua vasta obra.
Vergílio Ferreira (1916-1996) nasceu em Melo, no concelho de Gouveia,uma aldeia com vista para a serra que tanto influenciou a sua obra – a Serra da Estrela .
No romance PARA SEMPRE é para esta paisagem que conheceu na infância que o personagem regressa: a casa da família, a paz da aldeia no seu ritmo sereno, a coragem e resignação de suas gentes, os seus cantos no trabalho, preces e tradições.
A montanha é um local real e mítico. O seu silêncio, encantamento e mistério é tão marcante em sua obra, comparável à obsessão com que Cézanne pintou a montanha St. Victoire, a imensa massa de granito, ora coberta de neve, ora vestida de verde ora estalando ao sol.
Em PARA SEMPRE que se passa numa tarde de verão a montanha está sempre presente :
Está uma tarde quente . Céu de zinco carbonizado. O longe, a montanha, uma grande pedra ao sol.
...um olhar suspenso na serra ao longe,na linha ondeada do seu cume
Sento-me à varanda - aqui estou. Vida finda . Mas não perguntes . E do que o ordenasse o universo - não penses. A palavra, ainda, se ao menos .A palavra final. A oculta e breve por sobre o ruído e a fadiga. A última , a primeira. Em frente, a toda a largura, o ondeado da montanha. O sol embate contra ela desnuda-a até a aridez.
Pela janela aberta , o horizonte longínquo , a linha ondulante da montanha quase apagada num tom violeta.
Depois abro as vidraças, a montanha ao longe em toda a sua magnitude. E uma pequenez em mim súbito sentida , um pasmo sideral de horizontes.
Morte de mim, do meu tempo, Deus entreabre um olhar no silêncio do campo de ruínas. Depois abro a vidraça, a montanha ao longe em toda sua imensidão. Pesa em toda sua massa sobre a terra, ondeia numa linha fina até ao esvaimento dos meus olhos.
Estás só, não há ninguém a ser público à tua volta.Nem tu. ...Dos quatro cantos do mundo, estou parado à varanda, a montanha aguenta no dorso toneladas de calor.
Ao longe, desdobrada a todo o horizonte, densa, a montanha. Arde ao sol na sua combustão mineral. Amaldiçoada de calor , quieta a aldeia sob a pata de fogo imóvel no seu recovo, fico a olhá-la um instante, tomar posse do meu destino final.
Está uma tarde quente. A montanha à minha direita , desdobrada na sua aridez, o sol requeima-a de maldição. À esquerda, o vale.
Um vento largo, vindo das origens do cosmos, passava em vaga de augúrio. Ao fundo a montanha, plácida de eternidade.
Estou bem. Há tanto tempo ainda para não estar. Olho a montanha iluminada ainda de sol.Quero vê-la ainda, não com o ver fortuito e sabido de cor, mas com um ver intrínseco à realidade única de haver sol e montanha e o fantástico até aos gritos de haver essa coisa, de haver uma montanha contra o céu toda iluminada de sol. Enterro o meu olhar nessa realidade febril de um lume vivo que traz à vida essa coisa pesada e escura que é um vasto aglomerado de terras e de pedras, a faz brilhar contra a treva e inexistência que é a sua com um milagre de esplendor. Tenho de reparar vivissimamente nas coisas, enquanto são ainda coisas para reparar, fixar-me no instante em que uma cor e miraculosamente uma cor, e um cheiro me afecta na sua realidade misteriosa e um som, um ruído.
PARA SEMPRE é umas das obras de Vergílio Ferreira (a outra é APARIÇÃO - postagem de junho 2008) identificada como nitidamente existencialista.
O mundo é privado de sentido e a solidão um último refúgio para a dor de viver e morrer sem explicação. Da irracionalidade dos fatos do dia a dia e de situações completamente banais, nasce o sentimento do Absurdo que nos remete a Camus. A "paisagem de sentimentos" que se vislumbra tem na solidão um dos aspectos mais profundos da condição humana e aparece regida pelo silêncio de quem não se integra e/ou de quem procura respostas.
Nas questões como a inevitabilidade da morte e (in)existência de Deus, a da solidão dos que estão no fim da vida, já perderam o amor, a esperança e procuram um sentido para a vida que se gastou:"Não posso apresentar-me assim de mãos vazias perante a morte, a morte tem de matar alguam coisa, não tenho quase nada para matar… "é o que me parece de mais trágico.
O que diz o próprio Vergílio Ferreira acerca do seu existencialismo:
“O existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer. (...) Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automaticamente obriga a aceitar-lhe todas as consequências, entre as quais a de nos responsabilizarmos por tudo quanto sob este rótulo se disser ou fizer.Por mim, preferia definir o Existencialismo como a corrente de pensamento que, regressada ao existente humano, a ele privilegia e dele parte para todo o ulterior questionar. Ou então - e paralelamente ou implicitamente a essa definição - preferiria dizer, continuando Sartre, aliás, que o Existencialismo é uma corrente do pensamento que reabsorve no próprio "eu" de cada um toda e qualquer problemática e a revê através do seu raciocinar pessoal ou preferentemente da sua profunda vivência.''
Vergílio Ferreira (1916-1996) nasceu em Melo, no concelho de Gouveia,uma aldeia com vista para a serra que tanto influenciou a sua obra – a Serra da Estrela .
No romance PARA SEMPRE é para esta paisagem que conheceu na infância que o personagem regressa: a casa da família, a paz da aldeia no seu ritmo sereno, a coragem e resignação de suas gentes, os seus cantos no trabalho, preces e tradições.
A montanha é um local real e mítico. O seu silêncio, encantamento e mistério é tão marcante em sua obra, comparável à obsessão com que Cézanne pintou a montanha St. Victoire, a imensa massa de granito, ora coberta de neve, ora vestida de verde ora estalando ao sol.
Em PARA SEMPRE que se passa numa tarde de verão a montanha está sempre presente :
Está uma tarde quente . Céu de zinco carbonizado. O longe, a montanha, uma grande pedra ao sol.
...um olhar suspenso na serra ao longe,na linha ondeada do seu cume
Sento-me à varanda - aqui estou. Vida finda . Mas não perguntes . E do que o ordenasse o universo - não penses. A palavra, ainda, se ao menos .A palavra final. A oculta e breve por sobre o ruído e a fadiga. A última , a primeira. Em frente, a toda a largura, o ondeado da montanha. O sol embate contra ela desnuda-a até a aridez.
Pela janela aberta , o horizonte longínquo , a linha ondulante da montanha quase apagada num tom violeta.
Depois abro as vidraças, a montanha ao longe em toda a sua magnitude. E uma pequenez em mim súbito sentida , um pasmo sideral de horizontes.
Morte de mim, do meu tempo, Deus entreabre um olhar no silêncio do campo de ruínas. Depois abro a vidraça, a montanha ao longe em toda sua imensidão. Pesa em toda sua massa sobre a terra, ondeia numa linha fina até ao esvaimento dos meus olhos.
Estás só, não há ninguém a ser público à tua volta.Nem tu. ...Dos quatro cantos do mundo, estou parado à varanda, a montanha aguenta no dorso toneladas de calor.
Ao longe, desdobrada a todo o horizonte, densa, a montanha. Arde ao sol na sua combustão mineral. Amaldiçoada de calor , quieta a aldeia sob a pata de fogo imóvel no seu recovo, fico a olhá-la um instante, tomar posse do meu destino final.
Está uma tarde quente. A montanha à minha direita , desdobrada na sua aridez, o sol requeima-a de maldição. À esquerda, o vale.
Um vento largo, vindo das origens do cosmos, passava em vaga de augúrio. Ao fundo a montanha, plácida de eternidade.
Estou bem. Há tanto tempo ainda para não estar. Olho a montanha iluminada ainda de sol.Quero vê-la ainda, não com o ver fortuito e sabido de cor, mas com um ver intrínseco à realidade única de haver sol e montanha e o fantástico até aos gritos de haver essa coisa, de haver uma montanha contra o céu toda iluminada de sol. Enterro o meu olhar nessa realidade febril de um lume vivo que traz à vida essa coisa pesada e escura que é um vasto aglomerado de terras e de pedras, a faz brilhar contra a treva e inexistência que é a sua com um milagre de esplendor. Tenho de reparar vivissimamente nas coisas, enquanto são ainda coisas para reparar, fixar-me no instante em que uma cor e miraculosamente uma cor, e um cheiro me afecta na sua realidade misteriosa e um som, um ruído.
PARA SEMPRE é umas das obras de Vergílio Ferreira (a outra é APARIÇÃO - postagem de junho 2008) identificada como nitidamente existencialista.
O mundo é privado de sentido e a solidão um último refúgio para a dor de viver e morrer sem explicação. Da irracionalidade dos fatos do dia a dia e de situações completamente banais, nasce o sentimento do Absurdo que nos remete a Camus. A "paisagem de sentimentos" que se vislumbra tem na solidão um dos aspectos mais profundos da condição humana e aparece regida pelo silêncio de quem não se integra e/ou de quem procura respostas.
Nas questões como a inevitabilidade da morte e (in)existência de Deus, a da solidão dos que estão no fim da vida, já perderam o amor, a esperança e procuram um sentido para a vida que se gastou:"Não posso apresentar-me assim de mãos vazias perante a morte, a morte tem de matar alguam coisa, não tenho quase nada para matar… "é o que me parece de mais trágico.
O que diz o próprio Vergílio Ferreira acerca do seu existencialismo:
“O existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer. (...) Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automaticamente obriga a aceitar-lhe todas as consequências, entre as quais a de nos responsabilizarmos por tudo quanto sob este rótulo se disser ou fizer.Por mim, preferia definir o Existencialismo como a corrente de pensamento que, regressada ao existente humano, a ele privilegia e dele parte para todo o ulterior questionar. Ou então - e paralelamente ou implicitamente a essa definição - preferiria dizer, continuando Sartre, aliás, que o Existencialismo é uma corrente do pensamento que reabsorve no próprio "eu" de cada um toda e qualquer problemática e a revê através do seu raciocinar pessoal ou preferentemente da sua profunda vivência.''
Árvore do silêncio
Esta é a foto da arvore do "meu silencio" mencionado no comentário à crônica da Danuza (abaixo) que me foi enviada via email pela Lala. Situada no paraíso do 344 do Jardim Italia, onde o "silencio é tanto que até os passarinhos incomodam...", não podia deixar de compartilhar com vcs. esta imagem do " abrigo, lar da alma" da minha amiga.A imagem nos permite ouvir o silêncio!
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