fevereiro 27, 2009
A CABEÇA NO FUNDO DO ENTULHO DA LEITURA
Este texto é de autoria de Fernando Monteiro publicado no RASCUNHO O Jornal de Literatura do Brasil que vc pode acessar clicando no título desta postagem.
"Por que o brasileiro abandonou as poesias de T. S. Eliot para se abraçar ao livreiro de Cabul.
Há menos de trinta anos, a então boa cabeça do leitor brasileiro estava motivando matéria na revista Veja (12/08/1981). O título era Qualidade é sucesso, e o texto - não assinado - assinalava "a volta da literatura de qualidade, com os clássicos nas livrarias e Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, comemorando um semestre na lista dos mais vendidos no país".
A famosa lista começou a ser publicada em junho de 1973, com tal impacto que muitas livrarias passaram a exibir cartazes destacando "os mais vendidos da Veja", nas girândolas da entrada, reunidos atrativamente. A revista semanal da Abril foi quem introduziu aqui o que nos Estados Unidos era uma prática já antiga naquela altura - com a lista do jornal The New York Times na posição de ranking mais influente. Uma curiosidade: exatamente no ano em que a revista brasileira inaugurava a sua lista, o escritor Gore Vidal havia se debruçado, num artigo, sobre as listas do jornal americano (por sinal descobrindo - segundo ele - que a "arte de escrever" estava se transformando na "arte de escrever para o cinema", etc).
A primeira relação brasileira dos livros mais vendidos da semana, publicada há 35 anos, apresentava um romance de Erico Verissimo - Incidente em Antares -, o estudo A hegemonia dos Estados Unidos, de Celso Furtado, e um ensaio do americano Alvin Toffler (alguém se lembra do futurólogo?) como campeão de vendas: O choque do Futuro. Consultando-se a relação, nos meses subseqüentes, Erico comparece com o primeiro volume de sua autobiografia - Solo de clarineta - e o cinematográfico O exorcista, de William P. Blatty, aparece nas primeiras posições entre os estrangeiros, numa altura em que a revista separava obras nacionais e de fora (embora misturasse ficção com não-ficção).
Pulemos uma meia dúzia de anos, agora, para avançar até a assinalada "glória" das listas literárias dos "mais-mais", naquele dourado ano de 1981: o leitor brasuca havia levado ao primeiríssimo lugar (ao longo de cinco meses) o já citado Memórias de Adriano - ficção baseada em rigorosas pesquisas da Yourcenar sobre o imperador romano do século 2 ("o século dos últimos homens livres"), segundo a autora belga - e, em seguida, virava assunto da matéria especial de agosto daquele ano por se revelar atraído por qualidade acima de qualquer suspeita: estava lendo o romance Sempreviva - do bom Antonio Callado - e se mostrava também influenciado pelo cinema, ao guindar O beijo da mulher-aranha, de Manuel Puig, às posições de topo nas quais O exorcista já fizera ecoar aqui a tendência observada pelo também roteirista Vidal. Na lista memorável, vinham, em seguida, um livro mais ou menos (Um homem, de Oriana Fallaci, com alguma qualidade pelo menos do "novo jornalismo", etc.), e O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges, na quarta e quinta posições, respectivamente, sendo o argentino um freqüentador ocasional do topo da relação, no tempo daquele país ainda civilizado, literariamente, que foi, até pouco tempo, o Brasil que, em 1981, se mostrava surpreendente mesmo era na "sexta posição" (a confiar na Veja, etc.) de agosto daquele ano: senhores e senhoras, brasileiras e brasileiras, nordestinos e sudestinos, o nosso Pindorama estava lendo - com cinco mil exemplares vendidos em um mês - nada mais nada menos que Poesia, de T. S. Eliot!
Cortázar e Proust
Poeta considerado difícil e requintado, Eliot tivera a primeira edição de uma antologia da Nova Fronteira esgotada no primeiro mês do lançamento no segundo semestre do ano da graça de 1981, o tal cuja dos "livros mais vendidos" prosseguia com a sétima posição ocupada por uma obra do excelente Julio Cortázar - Alguém que anda por aí -, seguida sabem do quê? Outra surpresa: dos sete volumes de Em busca do tempo perdido, a obra-prima de Marcel Proust, esgotada em dois meses!
É tudo verdade, como diria Orson Welles. (Ou, pelo menos, é a verdade de Veja, veja bem).
A se acreditar nela, o que aconteceu, my God, desde então? No país das mesmas 400 livrarias de sempre (o número não muda? Aqui, os dados - recentes - pelo menos da capital pernambucana são: 21 livrarias no Grande Recife, enquanto Buenos Aires são - pasmem - 10 mil (?) pontos de venda de livros (estariam aí incluídas as bancas de jornais?). Porém os recifenses ganham, amplamente, em bares abertos para a falsa boemia de hoje: temos 2,2 mil enquanto na capital argentina são 790). Recomeçando a frase: no país das mesmas 400 livrarias de sempre - já na matéria de 1981, essa é a estimativa referida -, além do Adriano como livro de cabeceira levado até para a praia [nota: a reportagem Qualidade é sucesso mostrava a foto de uma jovem carioca de biquíni, com livro da Yourcenar sobre uma toalha na areia da praia; não parecia uma foto posada, etc.], no país das mesmas 400 livrarias de sempre etc., etc., dava-se, então, o fenômeno dos 190 mil exemplares de Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, vendidos em bancas de revista, na coleção Gênios da Literatura, selecionada com notável apuro.
O que deu errado?
Menos de trinta anos depois, você vai e confere que estamos patinando, nas listas, no pântano dos Paulos Coelhos, esforçamo-nos para alcançar as 100 escovadas antes de ir para a cama (Melissa Panarello), queremos saber Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? (Allan e Barbara Pease), se Tudo valeu a pena (Zibia Gasparetto) para o Homem-cobra e a mulher-polvo (Içami Tiba) e também Quem mexeu no meu queijo? - pergunta transcendental do título da obra de Spencer Johnson (seja lá quem for).
CONT...clicando no título.
"Por que o brasileiro abandonou as poesias de T. S. Eliot para se abraçar ao livreiro de Cabul.
Há menos de trinta anos, a então boa cabeça do leitor brasileiro estava motivando matéria na revista Veja (12/08/1981). O título era Qualidade é sucesso, e o texto - não assinado - assinalava "a volta da literatura de qualidade, com os clássicos nas livrarias e Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, comemorando um semestre na lista dos mais vendidos no país".
A famosa lista começou a ser publicada em junho de 1973, com tal impacto que muitas livrarias passaram a exibir cartazes destacando "os mais vendidos da Veja", nas girândolas da entrada, reunidos atrativamente. A revista semanal da Abril foi quem introduziu aqui o que nos Estados Unidos era uma prática já antiga naquela altura - com a lista do jornal The New York Times na posição de ranking mais influente. Uma curiosidade: exatamente no ano em que a revista brasileira inaugurava a sua lista, o escritor Gore Vidal havia se debruçado, num artigo, sobre as listas do jornal americano (por sinal descobrindo - segundo ele - que a "arte de escrever" estava se transformando na "arte de escrever para o cinema", etc).
A primeira relação brasileira dos livros mais vendidos da semana, publicada há 35 anos, apresentava um romance de Erico Verissimo - Incidente em Antares -, o estudo A hegemonia dos Estados Unidos, de Celso Furtado, e um ensaio do americano Alvin Toffler (alguém se lembra do futurólogo?) como campeão de vendas: O choque do Futuro. Consultando-se a relação, nos meses subseqüentes, Erico comparece com o primeiro volume de sua autobiografia - Solo de clarineta - e o cinematográfico O exorcista, de William P. Blatty, aparece nas primeiras posições entre os estrangeiros, numa altura em que a revista separava obras nacionais e de fora (embora misturasse ficção com não-ficção).
Pulemos uma meia dúzia de anos, agora, para avançar até a assinalada "glória" das listas literárias dos "mais-mais", naquele dourado ano de 1981: o leitor brasuca havia levado ao primeiríssimo lugar (ao longo de cinco meses) o já citado Memórias de Adriano - ficção baseada em rigorosas pesquisas da Yourcenar sobre o imperador romano do século 2 ("o século dos últimos homens livres"), segundo a autora belga - e, em seguida, virava assunto da matéria especial de agosto daquele ano por se revelar atraído por qualidade acima de qualquer suspeita: estava lendo o romance Sempreviva - do bom Antonio Callado - e se mostrava também influenciado pelo cinema, ao guindar O beijo da mulher-aranha, de Manuel Puig, às posições de topo nas quais O exorcista já fizera ecoar aqui a tendência observada pelo também roteirista Vidal. Na lista memorável, vinham, em seguida, um livro mais ou menos (Um homem, de Oriana Fallaci, com alguma qualidade pelo menos do "novo jornalismo", etc.), e O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges, na quarta e quinta posições, respectivamente, sendo o argentino um freqüentador ocasional do topo da relação, no tempo daquele país ainda civilizado, literariamente, que foi, até pouco tempo, o Brasil que, em 1981, se mostrava surpreendente mesmo era na "sexta posição" (a confiar na Veja, etc.) de agosto daquele ano: senhores e senhoras, brasileiras e brasileiras, nordestinos e sudestinos, o nosso Pindorama estava lendo - com cinco mil exemplares vendidos em um mês - nada mais nada menos que Poesia, de T. S. Eliot!
Cortázar e Proust
Poeta considerado difícil e requintado, Eliot tivera a primeira edição de uma antologia da Nova Fronteira esgotada no primeiro mês do lançamento no segundo semestre do ano da graça de 1981, o tal cuja dos "livros mais vendidos" prosseguia com a sétima posição ocupada por uma obra do excelente Julio Cortázar - Alguém que anda por aí -, seguida sabem do quê? Outra surpresa: dos sete volumes de Em busca do tempo perdido, a obra-prima de Marcel Proust, esgotada em dois meses!
É tudo verdade, como diria Orson Welles. (Ou, pelo menos, é a verdade de Veja, veja bem).
A se acreditar nela, o que aconteceu, my God, desde então? No país das mesmas 400 livrarias de sempre (o número não muda? Aqui, os dados - recentes - pelo menos da capital pernambucana são: 21 livrarias no Grande Recife, enquanto Buenos Aires são - pasmem - 10 mil (?) pontos de venda de livros (estariam aí incluídas as bancas de jornais?). Porém os recifenses ganham, amplamente, em bares abertos para a falsa boemia de hoje: temos 2,2 mil enquanto na capital argentina são 790). Recomeçando a frase: no país das mesmas 400 livrarias de sempre - já na matéria de 1981, essa é a estimativa referida -, além do Adriano como livro de cabeceira levado até para a praia [nota: a reportagem Qualidade é sucesso mostrava a foto de uma jovem carioca de biquíni, com livro da Yourcenar sobre uma toalha na areia da praia; não parecia uma foto posada, etc.], no país das mesmas 400 livrarias de sempre etc., etc., dava-se, então, o fenômeno dos 190 mil exemplares de Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, vendidos em bancas de revista, na coleção Gênios da Literatura, selecionada com notável apuro.
O que deu errado?
Menos de trinta anos depois, você vai e confere que estamos patinando, nas listas, no pântano dos Paulos Coelhos, esforçamo-nos para alcançar as 100 escovadas antes de ir para a cama (Melissa Panarello), queremos saber Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? (Allan e Barbara Pease), se Tudo valeu a pena (Zibia Gasparetto) para o Homem-cobra e a mulher-polvo (Içami Tiba) e também Quem mexeu no meu queijo? - pergunta transcendental do título da obra de Spencer Johnson (seja lá quem for).
CONT...clicando no título.
Escutatória
Além de ser fã de carteirinha do Rubem Alves, este recebi da Rebeca que já me emprestou demais os seus "ouvidos", no melhor sentido do texto.
"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:
Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio.
Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência...
E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: Há beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."
"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:
Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio.
Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência...
E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: Há beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."
MY SWEET LORD
Vejam só quem toca nesta "banda": Eric Clapton no violão, o filho de George Harrison no outro violão, Paul McCartney no piano, na bateria Ringo Star e na outra Phill Collins. Tom Pretty, guitarra e ainda a voz maravilhosa de Billy Preston. No show em homenagem ao George Harrison, dois anos após a sua morte.
fevereiro 26, 2009
A amiga do hipotálamo

"Você, que tem um parafuso a mais, não pode deixar de ler este texto" É com este "argumento" que a REVISTA PIAUÍ recomenda a matéria, da jornalista Daniela Pinheiro, sobre LAURITA MOURÃO (leia o texto integral clicando no título).
Esta figura, hoje com 82 anos, que é autora de Incesto em Segundo Grau – sobre uma avó que tem uma noite de prazer sexual com o neto de 20 anos – e a coletânea de contos Decamourão, inspirado em Boccaccio, ambos publicados pela editora Record, costuma dizer que só há dois assuntos que merecem ser tratados com seriedade: a fé e o sexo.
....
“Meus livros são todos medíocres, você bem deve saber”, reconheceu. “Mas eu não ligo muito.” Perguntada o que a levou a se candidatar, duas vezes, à Academia Brasileira de Letras, respondeu: “Eu acho que poderia levar uma coisa diferente para a Academia. Meus amigos perguntavam: ‘O que o Pitanguy escreveu?’, ‘O que o Marco Maciel fez de memorável?’ Pelo menos, os meus livros são -animados”, respondeu. “Eu ia levar um pouco de alegria para lá. Aquilo deve ser uma chatice, cheio de velhos. Detesto velho.” (Nas duas tentativas de entrar na Academia, não recebeu sequer um voto.)
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Cheia de vida, fala com entusiasmo e sem afetação. Com gestos delicados, costuma interpretar as histórias, mudando o tom de voz, imitando sotaques e fazendo posturas corporais. Quando um interlocutor inconveniente a interrompe, ela simplesmente se cala. Salpica seus relatos com frases e expressões de meia dúzia de idiomas.
Funcionária aposentada do Itamaraty, viveu por meio século no exterior. Passou pelo Uruguai, Argentina, França, Estados Unidos, Espanha e Caribe. Voltou para o Rio no final dos anos 80 e foi morar num apartamento alugado, de 450 metros quadrados (hoje com sinais eloquentes da ação do tempo e da maresia), decorado com excesso de móveis, quadros, cortinas, tapeçarias e fotografias desbotadas.
...
No final dos anos 70, ela provocou mal-estar no Itamaraty ao publicar À Mesa do Jantar, um livro de memórias no qual relatou algumas de suas aventuras sexuais com embaixadores, cônsules e diplomatas estrangeiros. Por ter elencado os casados, os separados, os solteiros e os muito jovens, ela estima ter vendido 10 mil exemplares. Tentou disfarçar os nomes, mas nem tanto. Um embaixador de sobrenome Carnaúba, por exemplo, virou “Babaçu”, mas com grafia árabe: Bab-Hassuh. O diplomata Egberto Mafra, de quem ela chegou a engravidar, foi tratado como Gilberto Marques. Outro embaixador, conhecido no governo Fernando Henrique Cardoso por um apelido de criança, teve que se explicar em casa. O livro trazia novidades inclusive para a família de Laurita. Nele ela conta que o verdadeiro pai de sua filha mais nova era o sobrinho de seu marido. “Fiquei semanas na lista dos livros mais vendidos. Era convidada para programas de debates na televisão e até reconhecida na rua”, “Para mim, foi importante aquela catarse. Mas fiquei com fama de escandalosa. Aliás, sempre tive má fama. Hoje, o livro poderia ser dado para meninas que estão fazendo primeira comunhão.”
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Hoje ela só pensaa na Carla Bruni e diz “Aquele Sarkozy tem cara de quem gosta do meu esporte. Aliás, os franceses, te digo com experiência, são os melhores amantes do mundo. Na cama, eles acham que as mulheres são iguais a eles, que têm os mesmos direitos.” Já os americanos são péssimos. “Na hora dos prolegômenos, eles são primários. E têm um complexo de culpa que... haja saco!”, comentou. Pedi que explicasse melhor e ela disse: “O americano se deita com você, tem orgasmo e depois fica repetindo: ‘Oh, Jesus, eu estou traindo minha mulher... Oh, que horror, oh, que pecado, como sou um son of a bitch.”
...
A desenvoltura em lidar com a própria sexualidade, ela atribui muito à criação que recebeu do pai, o general Olympio Mourão Filho, que entrou para a história em duas quarteladas. Foi ele o autor de um documento falso, o Plano Cohen, que serviu de pretexto para Getúlio Vargas reprimir o avanço comunista e instalar em 1937 a ditadura do Estado Novo. Também foi ele quem, na tarde de 31 de março de 1964, antecipando-se ao que havia sido acertado pelos militares de maior patente que a sua, fez marchar tropas de Juiz de Fora rumo ao Rio, para derrubar o presidente João Goulart. O general Mourão também é lembrado por uma frase que deu identidade aos golpistas. Ao ser indagado sobre o teor de uma reunião que tivera no Palácio do Planalto, respondeu: “Meu filho, em matéria de lei, sou uma vaca fardada.”
...
Entre 1955 e 1964, o general escreveu um diário, que o historiador Helio Silva transformou em um livro intitulado Memórias: a Verdade de um Revolucionário. Em 1978, Laurita conseguiu embargar a publicação do livro, alegando que se tratava de um diário íntimo de seu pai. Helio Silva divulgou então um bilhete, escrito à mão por Mourão e entregue a ele junto com os cadernos, afirmando que o acadêmico “era o único a ter coragem de publicar” o que havia escrito. Também anexou ao processo uma declaração da última mulher do general confirmando a doação. Seis meses depois, a ação foi revogada e o livro foi publicado.
Dois anos depois, ela tentou novamente impedir Helio Silva de divulgar os originais da defesa que Mourão apresentou a um “tribunal de honra” do Exército esclarecendo sua participação no Plano Cohen, organizada no livro A Ameaça Vermelha: o Plano Cohen. “Sou a única filha dele e acho que tenho o direito de ter a gerência e os direitos autorais sobre os escritos do meu pai”, ela justificou. “Mas dessa vez, meus advogados queriam me cobrar 5 mil dólares pela ação e tive que desistir”, contou.
...
Em 2002, Laurita resolveu abandonar os textos de cunho erótico para escrever a sua versão dos episódios protagonizados pelo pai. Em quatro meses, ela produziu as 423 páginas de Mourão, o General do Pijama Vermelho. O título faz alusão ao robe de seda usado pelo militar quando disparava os telefonemas de articulação do golpe.
“Ele mudou a história do país por duas vezes, e em ambas foi mal interpretado”, disse. Laurita defende que o pai serviu de bode expiatório e foi enganado no Plano Cohen. Segundo ela, o rascunho escrito por Mourão foi “desviado” para outros fins, sem sua anuência. Em 1964, houve outro equívoco. “Meu pai nunca foi a favor do fechamento do Congresso”, disse. “Inclusive mandou tropas à Brasília para impedir isso no momento da instauração do Ato Institucional nº 5. Ele era um homem das instituições.”
...
Nos anos 80, ela pediu para ser transferida para o serviço consular em Nova York. Conseguiu um apartamento em frente ao Central Park, com um aluguel razoável. Para complementar a renda, ela fazia bicos como motorista, pianista de restaurante francês, professora de português e tradutora.
Foi quando escreveu Alice do Quinto Diedro, ambientado na cidade. Laurita conta a vida da “mulher revolucionária, a mulher do ano 2000”, liberada sexualmente, viajada e bem-sucedida. “Era a história da mulher que eu queria ser”, disse. No livro, a protagonista vive uma “orgia cósmica” no 45º andar do World Trade Center. O sexo havia se tornado “algo sagrado: nunca adiado ou omitido” e o governo do planeta Terra, que havia sepultado guerras e conflitos há anos, estava nas mãos de um “computador cósmico central”. .
Não deixe de ler a íntegra, clicanco no título.
"Milk " o preço da liberdade
Para continuarmos livres, é preciso defender a liberdade do vizinho como se fosse a nossa
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"ASSISTINDO a "Milk - A Voz da Igualdade", de Gus Van Sant (extraordinário Sean Penn no papel de Harvey Milk), lembrei-me de um e-mail que recebi em abril de 2008. Era uma circular de www.boxturtlebulletin.com (um site sobre os direitos das minorias sexuais), que "comemorava" os 55 anos de um evento sinistro: em 1953, Dwight Eisenhower, presidente dos EUA, assinou um decreto pelo qual seriam despedidos todos os funcionários federais que fossem culpados de "perversão sexual". Essa lei permaneceu em vigor durante mais de 20 anos: milhares de americanos perderam seus empregos por causa de sua orientação sexual.
Fato frequentemente esquecido (um pouco como foi esquecida, durante décadas, a perseguição dos homossexuais pelo nazismo), nos anos 50, no discurso do senador McCarthy, a caça às bruxas "comunistas" se confundia com a caça às bruxas homossexuais. Por exemplo, uma carta do secretário nacional do Partido Republicano (citada na circular) dizia: "Talvez tão perigosos quanto os comunistas propriamente ditos são os pervertidos escusos que infiltraram nosso governo nos últimos anos". Essa não era uma posição extrema: na época, a revista "Time" defendeu o projeto de despedir todos os homossexuais que trabalhassem para o governo federal.
É nesse clima que, nos anos 70, em San Francisco, Milk se tornou o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público.
Poderia escrever sobre as razões que, quase invariavelmente, levam alguém a querer esmagar a liberdade de seus semelhantes. O segredo (de polichinelo) é que muitos preferem odiar nos outros alguma coisa que eles não querem reconhecer e odiar neles mesmos. E poderia contar a história de Roy Cohn, braço direito de McCarthy, que morreu, em 1984, odiando e escondendo sua homossexualidade e gritando ao mundo que a causa de sua morte não era a Aids (ele foi imortalizado por Al Pacino na peça e no filme "Anjos na América", de Tony Kushner).
Mas, depois de assistir a "Milk", estou a fim de festejar o caminho percorrido em apenas meio século: o mundo é, hoje, um lugar mais habitável do que 50 anos atrás. Aconteceu graças a milhares de Harvey Milks e a milhões de outros que não precisaram ser nem homossexuais nem comunistas nem coisa que valesse: eles apenas descobriram que só é possível proteger a liberdade da gente se entendermos que, para isso, é necessário defender a liberdade de nosso vizinho como se fosse a nossa. Nos anos 70, quase decorei a carta aberta que James Baldwin (escritor, negro e homossexual) endereçou a Angela Davis (jovem filósofa, negra e militante), quando ela estava sendo processada por um assassinato que não cometera, e o risco era grande que o processo acabasse em uma condenação "exemplar". Baldwin lembrava as diferenças de história, engajamento e pensamento entre ele e Davis, para concluir: "Devemos lutar pela tua vida como se fosse a nossa - ela é a nossa, aliás - e obstruir com nossos corpos o corredor que leva à câmara de gás. Porque, se eles te pegarem de manhã, voltarão para nós naquela mesma noite".
Os direitos fundamentais não são direitos de grupo, eles valem para cada indivíduo singularmente, um a um. É óbvio que grupos particulares (constituídos por raça, orientação sexual, ideologia, etnia etc.) podem e devem militar coletivamente pelos direitos de seus membros, mas, em uma sociedade de indivíduos, a liberdade de cada um, por "diferente" que ele seja, é condição da liberdade de todos. Por quê?
Simples: se meu vizinho, sem violar as leis básicas da cidade, for impedido de ter a vida concreta que ele quer, então meu jeito de viver poderá ser tolerado ou até permitido, mas ele não será nunca mais propriamente meu direito. "Milk" é um filme sobre um momento crucial na história das liberdades, mas não é um filme "arqueológico". A gente sai do cinema com a sensação renovada de que a militância libertária ainda é a grande exigência do dia. Ótimo assim.
Um amigo me disse recentemente que eu dou uma importância excessiva à contracultura dos anos 60/70. Acho, de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos. Acho também que suas conquistas só se mantêm pelo esforço cotidiano de muitos. Afinal (quem viu o filme entenderá), surge uma Anita Bryant a cada dia."
CONTARDO CALLIGARIS na FSP, hoje.
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"ASSISTINDO a "Milk - A Voz da Igualdade", de Gus Van Sant (extraordinário Sean Penn no papel de Harvey Milk), lembrei-me de um e-mail que recebi em abril de 2008. Era uma circular de www.boxturtlebulletin.com (um site sobre os direitos das minorias sexuais), que "comemorava" os 55 anos de um evento sinistro: em 1953, Dwight Eisenhower, presidente dos EUA, assinou um decreto pelo qual seriam despedidos todos os funcionários federais que fossem culpados de "perversão sexual". Essa lei permaneceu em vigor durante mais de 20 anos: milhares de americanos perderam seus empregos por causa de sua orientação sexual.
Fato frequentemente esquecido (um pouco como foi esquecida, durante décadas, a perseguição dos homossexuais pelo nazismo), nos anos 50, no discurso do senador McCarthy, a caça às bruxas "comunistas" se confundia com a caça às bruxas homossexuais. Por exemplo, uma carta do secretário nacional do Partido Republicano (citada na circular) dizia: "Talvez tão perigosos quanto os comunistas propriamente ditos são os pervertidos escusos que infiltraram nosso governo nos últimos anos". Essa não era uma posição extrema: na época, a revista "Time" defendeu o projeto de despedir todos os homossexuais que trabalhassem para o governo federal.
É nesse clima que, nos anos 70, em San Francisco, Milk se tornou o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público.
Poderia escrever sobre as razões que, quase invariavelmente, levam alguém a querer esmagar a liberdade de seus semelhantes. O segredo (de polichinelo) é que muitos preferem odiar nos outros alguma coisa que eles não querem reconhecer e odiar neles mesmos. E poderia contar a história de Roy Cohn, braço direito de McCarthy, que morreu, em 1984, odiando e escondendo sua homossexualidade e gritando ao mundo que a causa de sua morte não era a Aids (ele foi imortalizado por Al Pacino na peça e no filme "Anjos na América", de Tony Kushner).
Mas, depois de assistir a "Milk", estou a fim de festejar o caminho percorrido em apenas meio século: o mundo é, hoje, um lugar mais habitável do que 50 anos atrás. Aconteceu graças a milhares de Harvey Milks e a milhões de outros que não precisaram ser nem homossexuais nem comunistas nem coisa que valesse: eles apenas descobriram que só é possível proteger a liberdade da gente se entendermos que, para isso, é necessário defender a liberdade de nosso vizinho como se fosse a nossa. Nos anos 70, quase decorei a carta aberta que James Baldwin (escritor, negro e homossexual) endereçou a Angela Davis (jovem filósofa, negra e militante), quando ela estava sendo processada por um assassinato que não cometera, e o risco era grande que o processo acabasse em uma condenação "exemplar". Baldwin lembrava as diferenças de história, engajamento e pensamento entre ele e Davis, para concluir: "Devemos lutar pela tua vida como se fosse a nossa - ela é a nossa, aliás - e obstruir com nossos corpos o corredor que leva à câmara de gás. Porque, se eles te pegarem de manhã, voltarão para nós naquela mesma noite".
Os direitos fundamentais não são direitos de grupo, eles valem para cada indivíduo singularmente, um a um. É óbvio que grupos particulares (constituídos por raça, orientação sexual, ideologia, etnia etc.) podem e devem militar coletivamente pelos direitos de seus membros, mas, em uma sociedade de indivíduos, a liberdade de cada um, por "diferente" que ele seja, é condição da liberdade de todos. Por quê?
Simples: se meu vizinho, sem violar as leis básicas da cidade, for impedido de ter a vida concreta que ele quer, então meu jeito de viver poderá ser tolerado ou até permitido, mas ele não será nunca mais propriamente meu direito. "Milk" é um filme sobre um momento crucial na história das liberdades, mas não é um filme "arqueológico". A gente sai do cinema com a sensação renovada de que a militância libertária ainda é a grande exigência do dia. Ótimo assim.
Um amigo me disse recentemente que eu dou uma importância excessiva à contracultura dos anos 60/70. Acho, de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos. Acho também que suas conquistas só se mantêm pelo esforço cotidiano de muitos. Afinal (quem viu o filme entenderá), surge uma Anita Bryant a cada dia."
CONTARDO CALLIGARIS na FSP, hoje.
Ruas do Porto
Montei este video a partir de fotos da web. Daí a questionável qualidade. A omissão do nome das ruas foi proposital. Anotei os bairros: Massarelos, Miragia, Vitória, Paranhos, São Nicolau e Sé. As ruas a gente vai encontrando por acaso...
A música é Vou pelas ruas, vou pelas praças cantada pela Viviane.
fevereiro 25, 2009
Confete na cueca
Se, em 2000, me dissessem que em breve assistiríamos no Rio à volta triunfal da Lapa, do Carnaval de rua e do confete e da serpentina, nem eu, que não duvido de mais nada, acreditaria no que estava ouvindo. Era tudo muito improvável.
Mas as improbabilidades logo ruíram. A Lapa voltou a ser o epicentro da música e da alegria no Rio. Em seguida, sem qualquer apelo oficial e até mesmo sem dinheiro, o Carnaval de rua começou a ocupar a cidade, com centenas de blocos. E, nestes últimos dias, mesmo na qualidade de folião grave, quase platônico, surpreendi-me, ao voltar para casa e tirar a roupa, com confete até dentro da cueca.
Se estas não fossem tendências que já vinham se desenhando há algum tempo, poder-se-ia dizer que é a típica resposta carioca à crise que está assolando o mundo -assim como, em 1919, o Rio só esperou acabar a Primeira Guerra e a gripe espanhola para promover o seu maior Carnaval até então. E, antes que alguém nos acuse de irresponsabilidade crônica, devo dizer que concordo com a acusação e acho ótimo que assim seja.
O que o Carnaval pode gerar de negócios (as cervejas faturaram em vendas pelo ano inteiro), energia (nunca vi tanta gente pulando ao som de marchinhas) e paixão (metade dos jovens nas ruas pareciam atracados pela boca à outra metade) deve ter atingido seu apogeu em 2009. E, sem uma gota de chuva para refrescar, o povo suou o suficiente para encharcar o planeta, o que também é sinal de vitalidade.
Cada bloco carioca é uma expressão do bar, quiosque ou esquina onde foi fundado. Independe da presença de um artista famoso, e é formado por pessoas que querem apenas saracotear, encher a cara e se divertir. Não é proibido ao famoso aderir. No bloco, ele será, como milhares, um simples anônimo feliz.
RUY CASTRO
Mas as improbabilidades logo ruíram. A Lapa voltou a ser o epicentro da música e da alegria no Rio. Em seguida, sem qualquer apelo oficial e até mesmo sem dinheiro, o Carnaval de rua começou a ocupar a cidade, com centenas de blocos. E, nestes últimos dias, mesmo na qualidade de folião grave, quase platônico, surpreendi-me, ao voltar para casa e tirar a roupa, com confete até dentro da cueca.
Se estas não fossem tendências que já vinham se desenhando há algum tempo, poder-se-ia dizer que é a típica resposta carioca à crise que está assolando o mundo -assim como, em 1919, o Rio só esperou acabar a Primeira Guerra e a gripe espanhola para promover o seu maior Carnaval até então. E, antes que alguém nos acuse de irresponsabilidade crônica, devo dizer que concordo com a acusação e acho ótimo que assim seja.
O que o Carnaval pode gerar de negócios (as cervejas faturaram em vendas pelo ano inteiro), energia (nunca vi tanta gente pulando ao som de marchinhas) e paixão (metade dos jovens nas ruas pareciam atracados pela boca à outra metade) deve ter atingido seu apogeu em 2009. E, sem uma gota de chuva para refrescar, o povo suou o suficiente para encharcar o planeta, o que também é sinal de vitalidade.
Cada bloco carioca é uma expressão do bar, quiosque ou esquina onde foi fundado. Independe da presença de um artista famoso, e é formado por pessoas que querem apenas saracotear, encher a cara e se divertir. Não é proibido ao famoso aderir. No bloco, ele será, como milhares, um simples anônimo feliz.
RUY CASTRO
fevereiro 24, 2009
O leilão do século
Estimada em 300 milhões de euros a estupenda coleção do casal Yves Saint Laurent e Pierre Bergé — que manteve uma relação amorosa e paixão pela arte durante cinco décadas — está sendo saudada como “o leilao do século”. A receita arrecada será revertida à pesquisa da AIDS. Veja mais, inclusive as obras leiloadas clicando no título.
PARA SEMPRE
De uns tempos para cá (não vem ao caso, quando nem porque), me dei conta da precariedade das relaçôes literárias Brasil-Portugal. Encontramos com facilidade livros traduzidos até do albanês, enquanto ainda continuam sendo raros os títulos da boa literatura em nossa própria língua. Vergílio Ferreira é um dos exemplos acabados do que afirmo. Trata-se de um dos maiores nomes da literatura portuguesa do século passado,(leia mais clicando no título), e não temos praticamente nada da sua vasta obra.
Vergílio Ferreira (1916-1996) nasceu em Melo, no concelho de Gouveia,uma aldeia com vista para a serra que tanto influenciou a sua obra – a Serra da Estrela .
No romance PARA SEMPRE é para esta paisagem que conheceu na infância que o personagem regressa: a casa da família, a paz da aldeia no seu ritmo sereno, a coragem e resignação de suas gentes, os seus cantos no trabalho, preces e tradições.
A montanha é um local real e mítico. O seu silêncio, encantamento e mistério é tão marcante em sua obra, comparável à obsessão com que Cézanne pintou a montanha St. Victoire, a imensa massa de granito, ora coberta de neve, ora vestida de verde ora estalando ao sol.
Em PARA SEMPRE que se passa numa tarde de verão a montanha está sempre presente :
Está uma tarde quente . Céu de zinco carbonizado. O longe, a montanha, uma grande pedra ao sol.
...um olhar suspenso na serra ao longe,na linha ondeada do seu cume
Sento-me à varanda - aqui estou. Vida finda . Mas não perguntes . E do que o ordenasse o universo - não penses. A palavra, ainda, se ao menos .A palavra final. A oculta e breve por sobre o ruído e a fadiga. A última , a primeira. Em frente, a toda a largura, o ondeado da montanha. O sol embate contra ela desnuda-a até a aridez.
Pela janela aberta , o horizonte longínquo , a linha ondulante da montanha quase apagada num tom violeta.
Depois abro as vidraças, a montanha ao longe em toda a sua magnitude. E uma pequenez em mim súbito sentida , um pasmo sideral de horizontes.
Morte de mim, do meu tempo, Deus entreabre um olhar no silêncio do campo de ruínas. Depois abro a vidraça, a montanha ao longe em toda sua imensidão. Pesa em toda sua massa sobre a terra, ondeia numa linha fina até ao esvaimento dos meus olhos.
Estás só, não há ninguém a ser público à tua volta.Nem tu. ...Dos quatro cantos do mundo, estou parado à varanda, a montanha aguenta no dorso toneladas de calor.
Ao longe, desdobrada a todo o horizonte, densa, a montanha. Arde ao sol na sua combustão mineral. Amaldiçoada de calor , quieta a aldeia sob a pata de fogo imóvel no seu recovo, fico a olhá-la um instante, tomar posse do meu destino final.
Está uma tarde quente. A montanha à minha direita , desdobrada na sua aridez, o sol requeima-a de maldição. À esquerda, o vale.
Um vento largo, vindo das origens do cosmos, passava em vaga de augúrio. Ao fundo a montanha, plácida de eternidade.
Estou bem. Há tanto tempo ainda para não estar. Olho a montanha iluminada ainda de sol.Quero vê-la ainda, não com o ver fortuito e sabido de cor, mas com um ver intrínseco à realidade única de haver sol e montanha e o fantástico até aos gritos de haver essa coisa, de haver uma montanha contra o céu toda iluminada de sol. Enterro o meu olhar nessa realidade febril de um lume vivo que traz à vida essa coisa pesada e escura que é um vasto aglomerado de terras e de pedras, a faz brilhar contra a treva e inexistência que é a sua com um milagre de esplendor. Tenho de reparar vivissimamente nas coisas, enquanto são ainda coisas para reparar, fixar-me no instante em que uma cor e miraculosamente uma cor, e um cheiro me afecta na sua realidade misteriosa e um som, um ruído.
PARA SEMPRE é umas das obras de Vergílio Ferreira (a outra é APARIÇÃO - postagem de junho 2008) identificada como nitidamente existencialista.
O mundo é privado de sentido e a solidão um último refúgio para a dor de viver e morrer sem explicação. Da irracionalidade dos fatos do dia a dia e de situações completamente banais, nasce o sentimento do Absurdo que nos remete a Camus. A "paisagem de sentimentos" que se vislumbra tem na solidão um dos aspectos mais profundos da condição humana e aparece regida pelo silêncio de quem não se integra e/ou de quem procura respostas.
Nas questões como a inevitabilidade da morte e (in)existência de Deus, a da solidão dos que estão no fim da vida, já perderam o amor, a esperança e procuram um sentido para a vida que se gastou:"Não posso apresentar-me assim de mãos vazias perante a morte, a morte tem de matar alguam coisa, não tenho quase nada para matar… "é o que me parece de mais trágico.
O que diz o próprio Vergílio Ferreira acerca do seu existencialismo:
“O existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer. (...) Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automaticamente obriga a aceitar-lhe todas as consequências, entre as quais a de nos responsabilizarmos por tudo quanto sob este rótulo se disser ou fizer.Por mim, preferia definir o Existencialismo como a corrente de pensamento que, regressada ao existente humano, a ele privilegia e dele parte para todo o ulterior questionar. Ou então - e paralelamente ou implicitamente a essa definição - preferiria dizer, continuando Sartre, aliás, que o Existencialismo é uma corrente do pensamento que reabsorve no próprio "eu" de cada um toda e qualquer problemática e a revê através do seu raciocinar pessoal ou preferentemente da sua profunda vivência.''
Vergílio Ferreira (1916-1996) nasceu em Melo, no concelho de Gouveia,uma aldeia com vista para a serra que tanto influenciou a sua obra – a Serra da Estrela .
No romance PARA SEMPRE é para esta paisagem que conheceu na infância que o personagem regressa: a casa da família, a paz da aldeia no seu ritmo sereno, a coragem e resignação de suas gentes, os seus cantos no trabalho, preces e tradições.
A montanha é um local real e mítico. O seu silêncio, encantamento e mistério é tão marcante em sua obra, comparável à obsessão com que Cézanne pintou a montanha St. Victoire, a imensa massa de granito, ora coberta de neve, ora vestida de verde ora estalando ao sol.
Em PARA SEMPRE que se passa numa tarde de verão a montanha está sempre presente :
Está uma tarde quente . Céu de zinco carbonizado. O longe, a montanha, uma grande pedra ao sol.
...um olhar suspenso na serra ao longe,na linha ondeada do seu cume
Sento-me à varanda - aqui estou. Vida finda . Mas não perguntes . E do que o ordenasse o universo - não penses. A palavra, ainda, se ao menos .A palavra final. A oculta e breve por sobre o ruído e a fadiga. A última , a primeira. Em frente, a toda a largura, o ondeado da montanha. O sol embate contra ela desnuda-a até a aridez.
Pela janela aberta , o horizonte longínquo , a linha ondulante da montanha quase apagada num tom violeta.
Depois abro as vidraças, a montanha ao longe em toda a sua magnitude. E uma pequenez em mim súbito sentida , um pasmo sideral de horizontes.
Morte de mim, do meu tempo, Deus entreabre um olhar no silêncio do campo de ruínas. Depois abro a vidraça, a montanha ao longe em toda sua imensidão. Pesa em toda sua massa sobre a terra, ondeia numa linha fina até ao esvaimento dos meus olhos.
Estás só, não há ninguém a ser público à tua volta.Nem tu. ...Dos quatro cantos do mundo, estou parado à varanda, a montanha aguenta no dorso toneladas de calor.
Ao longe, desdobrada a todo o horizonte, densa, a montanha. Arde ao sol na sua combustão mineral. Amaldiçoada de calor , quieta a aldeia sob a pata de fogo imóvel no seu recovo, fico a olhá-la um instante, tomar posse do meu destino final.
Está uma tarde quente. A montanha à minha direita , desdobrada na sua aridez, o sol requeima-a de maldição. À esquerda, o vale.
Um vento largo, vindo das origens do cosmos, passava em vaga de augúrio. Ao fundo a montanha, plácida de eternidade.
Estou bem. Há tanto tempo ainda para não estar. Olho a montanha iluminada ainda de sol.Quero vê-la ainda, não com o ver fortuito e sabido de cor, mas com um ver intrínseco à realidade única de haver sol e montanha e o fantástico até aos gritos de haver essa coisa, de haver uma montanha contra o céu toda iluminada de sol. Enterro o meu olhar nessa realidade febril de um lume vivo que traz à vida essa coisa pesada e escura que é um vasto aglomerado de terras e de pedras, a faz brilhar contra a treva e inexistência que é a sua com um milagre de esplendor. Tenho de reparar vivissimamente nas coisas, enquanto são ainda coisas para reparar, fixar-me no instante em que uma cor e miraculosamente uma cor, e um cheiro me afecta na sua realidade misteriosa e um som, um ruído.
PARA SEMPRE é umas das obras de Vergílio Ferreira (a outra é APARIÇÃO - postagem de junho 2008) identificada como nitidamente existencialista.
O mundo é privado de sentido e a solidão um último refúgio para a dor de viver e morrer sem explicação. Da irracionalidade dos fatos do dia a dia e de situações completamente banais, nasce o sentimento do Absurdo que nos remete a Camus. A "paisagem de sentimentos" que se vislumbra tem na solidão um dos aspectos mais profundos da condição humana e aparece regida pelo silêncio de quem não se integra e/ou de quem procura respostas.
Nas questões como a inevitabilidade da morte e (in)existência de Deus, a da solidão dos que estão no fim da vida, já perderam o amor, a esperança e procuram um sentido para a vida que se gastou:"Não posso apresentar-me assim de mãos vazias perante a morte, a morte tem de matar alguam coisa, não tenho quase nada para matar… "é o que me parece de mais trágico.
O que diz o próprio Vergílio Ferreira acerca do seu existencialismo:
“O existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer. (...) Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automaticamente obriga a aceitar-lhe todas as consequências, entre as quais a de nos responsabilizarmos por tudo quanto sob este rótulo se disser ou fizer.Por mim, preferia definir o Existencialismo como a corrente de pensamento que, regressada ao existente humano, a ele privilegia e dele parte para todo o ulterior questionar. Ou então - e paralelamente ou implicitamente a essa definição - preferiria dizer, continuando Sartre, aliás, que o Existencialismo é uma corrente do pensamento que reabsorve no próprio "eu" de cada um toda e qualquer problemática e a revê através do seu raciocinar pessoal ou preferentemente da sua profunda vivência.''
Árvore do silêncio
Esta é a foto da arvore do "meu silencio" mencionado no comentário à crônica da Danuza (abaixo) que me foi enviada via email pela Lala. Situada no paraíso do 344 do Jardim Italia, onde o "silencio é tanto que até os passarinhos incomodam...", não podia deixar de compartilhar com vcs. esta imagem do " abrigo, lar da alma" da minha amiga.A imagem nos permite ouvir o silêncio!
fevereiro 22, 2009
Não me leve a mal, hoje é Carnaval
E QUEM NÃO quer saber de Carnaval, faz o quê? Outro dia fui almoçar com amigos e foi difícil escolher o restaurante, pois perto de cada um deles ia sair um bloco.
Depois de muito pensar, descobrimos um no Leblon, numa rua sossegada, pois só queríamos conversar. Qual nada. Foi começando a chegar gente no botequim ao lado -era a turma do esquenta -, logo um caminhão de som encostou, e a folia começou.
Para quem não é chegado a Carnaval, é absolutamente incompreensível aquele mundo de gente de todas as idades sambando e cantando "Sassaricando" ou "Me dá um dinheiro aí". Será que essas pessoas não têm problemas, tristezas, e basta a música começar para pular e cantar -todos sabem as letras, pois em sua maioria são de idade mais para lá do que para cá. De bermuda, camiseta e sandália de borracha, na maior alegria dessa vida, percorrem as ruas do bairro mostrando que animação existe, e é com eles mesmo. E são dezenas, talvez centenas de blocos que saem pelas ruas uma semana antes do Carnaval (e também durante), numa alegria sadia, que mesmo tendo nos impedido de conversar, foi bonito de ver.
E incompreensível, sobretudo, é pensar que você já fez tudo isso -e ainda enfrentava os bailes à noite. Lembro do meu pai dizendo que não conseguia compreender aquele bando de gente cantando e dançando na rua; e eu não compreendia o fato de meu pai não compreender. E agora sou eu quem não compreende, veja você.
Ouvi no rádio do táxi que, para quem não quer nem ouvir falar de Carnaval, o melhor lugar para ir é Curitiba, mas se eu quisesse mesmo fugir, não confiaria na informação. Brasileiro gosta de uma folia, e Curitiba não é tão longe assim. Se me fosse totalmente impossível ouvir o som de "Chiquita Bacana", mesmo de longe, acho que ficaria dentro de casa trancada no quarto, com bolinhas de algodão nos ouvidos. Mas a verdade é que não tenho horror ao Carnaval. Não quero estar no meio do fuzuê, mas lembro com nostalgia dos meus tempos de carnavalesca, que, aliás, começaram bem cedo.
Durante anos me fantasiei, durante anos fui ver os desfiles das escolas de samba, durante anos brinquei e pulei -era assim que se dizia- o Carnaval, com uma animação de dar gosto.
E é com uma certa melancolia que vejo que esse tempo passou. Eu não sou mais a mesma; talvez melhor, certamente pior, não importa, mas aquela fase acabou e nunca mais vai voltar.
Por tudo isso, para quem gosta de sair nos blocos, ir aos bailes, se fantasiar, sambar na avenida, só posso dizer que aproveitem e façam tudo que tiverem vontade. Porque quando ouvir o povo cantando "Quanto riso, ó, quanta alegria", ou "Bandeira branca, amor, não posso mais", e lembrar daquele Carnaval, AQUELE -ah, como foi bom!-, pode ficar sentimental, tudo que procura evitar. Mas vamos reconhecer que no fundo morremos de pena daquele tempo ter passado (para nós), e que esse "horror" ao Carnaval não passa de uma certa inveja.
Justa, aliás.
Danuza Leão na FSP, hoje
Depois de muito pensar, descobrimos um no Leblon, numa rua sossegada, pois só queríamos conversar. Qual nada. Foi começando a chegar gente no botequim ao lado -era a turma do esquenta -, logo um caminhão de som encostou, e a folia começou.
Para quem não é chegado a Carnaval, é absolutamente incompreensível aquele mundo de gente de todas as idades sambando e cantando "Sassaricando" ou "Me dá um dinheiro aí". Será que essas pessoas não têm problemas, tristezas, e basta a música começar para pular e cantar -todos sabem as letras, pois em sua maioria são de idade mais para lá do que para cá. De bermuda, camiseta e sandália de borracha, na maior alegria dessa vida, percorrem as ruas do bairro mostrando que animação existe, e é com eles mesmo. E são dezenas, talvez centenas de blocos que saem pelas ruas uma semana antes do Carnaval (e também durante), numa alegria sadia, que mesmo tendo nos impedido de conversar, foi bonito de ver.
E incompreensível, sobretudo, é pensar que você já fez tudo isso -e ainda enfrentava os bailes à noite. Lembro do meu pai dizendo que não conseguia compreender aquele bando de gente cantando e dançando na rua; e eu não compreendia o fato de meu pai não compreender. E agora sou eu quem não compreende, veja você.
Ouvi no rádio do táxi que, para quem não quer nem ouvir falar de Carnaval, o melhor lugar para ir é Curitiba, mas se eu quisesse mesmo fugir, não confiaria na informação. Brasileiro gosta de uma folia, e Curitiba não é tão longe assim. Se me fosse totalmente impossível ouvir o som de "Chiquita Bacana", mesmo de longe, acho que ficaria dentro de casa trancada no quarto, com bolinhas de algodão nos ouvidos. Mas a verdade é que não tenho horror ao Carnaval. Não quero estar no meio do fuzuê, mas lembro com nostalgia dos meus tempos de carnavalesca, que, aliás, começaram bem cedo.
Durante anos me fantasiei, durante anos fui ver os desfiles das escolas de samba, durante anos brinquei e pulei -era assim que se dizia- o Carnaval, com uma animação de dar gosto.
E é com uma certa melancolia que vejo que esse tempo passou. Eu não sou mais a mesma; talvez melhor, certamente pior, não importa, mas aquela fase acabou e nunca mais vai voltar.
Por tudo isso, para quem gosta de sair nos blocos, ir aos bailes, se fantasiar, sambar na avenida, só posso dizer que aproveitem e façam tudo que tiverem vontade. Porque quando ouvir o povo cantando "Quanto riso, ó, quanta alegria", ou "Bandeira branca, amor, não posso mais", e lembrar daquele Carnaval, AQUELE -ah, como foi bom!-, pode ficar sentimental, tudo que procura evitar. Mas vamos reconhecer que no fundo morremos de pena daquele tempo ter passado (para nós), e que esse "horror" ao Carnaval não passa de uma certa inveja.
Justa, aliás.
Danuza Leão na FSP, hoje
no que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem
das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém.
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém
havia sempre mais alguém
para o chamar então a si,
também vivendo o que menti,
mas como seu, mas como sem
ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem.
é a sua vez. e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.
(rondó da escrita)
Vasco Graça Moura
Experiência sinestésica
Antes de sair para a praia, lia o jornal quando me deparei com a notícia de um estudo sobre a habilidade do cérebro de misturar os sentidos. Pensei: isto é demais para mim que vivo aspirando tão somente manter a memória ( a recente porque a antiga continua bem fresquinha). Essa "estranha" (segundo a pesquisa) capacidade de "ouvir cores" e "cheirar sons" e "enxergar música” se chama sinestesia e estaria por trás da memória dos chamados savants, que são as pessoas de memória prodigiosa e de grande habilidade com números. Acreditam os cientistas que a sinestesia surja quando conexões extras no cérebro cruzam as regiões responsáveis por diferentes sentidos.Continuei pensando no flagelo das minhas sinapses... Pois vejam por onde as coisas andam. Na pesquisa de um caso de sinestesia audiovisual, a pessoa declarou: "Quando eu escuto um violino, eu vejo algo parecido com um bom vinho vermelho" , enquanto que escutar "um violoncelo, já lembra mais o mel".
Fechei o jornal e fui. Quando se está diante de uma marzão verdinho, um céu gritando de azul e um sol quente dourando tudo isto, pensar numa cerveja gelada também seria uma experiência sinestésica?
Haja ciência para responder esta....
Carnaval em Curitiba
"Lembro Jamil Snege, atrás da mesa, cigarro entre os dedos: "Carnaval em Curitiba? Não dá. O sujeito pula na rua, alegrinho, vem o guarda e prende!" Vendo de um certo jeito, é uma espécie de maldição esse carnaval — ou não-carnaval — na cidade. Temos até de nos explicar por escrito, como agora. Parece que carregamos a culpa pela falta de espírito carnavalesco, a vergonha do falso rebolado, essa triste ausência de brasilidade, quem sabe até falta de patriotismo! Quando o Brasil inteiro dança, nós aqui, naquele silêncio de missa, andando pelas ruas vazias, metendo o olho crítico no primeiro engraçadinho que sai por aí fazendo escândalo. Coisa de bêbados!
Nem as crianças se entusiasmam: uma terça-feira gorda no Parque Barigüi, que descanso! Parece que estamos passeando em Genebra num começo de primavera! Nenhuma máscara de pirata ou palhaço, nada de serpentina, nem um único confete no chão, naquelas trilhas onde o pessoal sério faz a firme corrida vespertina, bufando, como se não estivesse acontecendo nada no resto do Brasil. É uma coisa tão desenxabida, que quem defende o carnaval da cidade tem de fazê-lo aos gritos, em altos brados, tem de exigir atitude das autoridades, reclamar por leis mais severas, mandar requerimento aos vereadores! Ora, alguma coisa tem de ser feita contra esse crime, parecem dizer, contra essa terrível indiferença!
Bem, carnaval que precisa de lei ou regulamentação, que precisa de muito apoio, defesas apaixonadas para uma platéia apática ou apenas discretamente divertida, tem alguma coisa errada — ou não tem nada errado; apenas não existe. Parece que há uma incompatibilidade radical entre o espaço curitibano e a idéia de carnaval. Digo "espaço" porque, no período, uma horda imensa de curitibanos foge daqui, desabala-se sôfrega em filas intermináveis para descer ao litoral onde, apertada na multidão que enche calçadas, praias, restaurantes, bares, supermercados e apartamentos, passa quatro dias, às vezes sem água na torneira, reclamando da chuva. Ou os habitantes escapam para Floripa, para o Rio, escondem-se em Antonina, em qualquer lugar onde possam se divertir. Aqui, alguma coisa decididamente não combina.
E não é de hoje. A edição de O Paranaense, de 15 de fevereiro de 1880, ilustra-nos Wilson Martins, descrevia os "folguedos carnavalescos" como um desfile de "raras e desengraçadas figuras". Observe-se a finura crítica da expressão, nossa marca registrada: "desengraçadas figuras" — onde naufraga o carnaval, brilha a linguagem.
Há algumas surpresas. Anos atrás, fui pela primeira vez ao antigo Bar do Ermes em pleno carnaval: fregueses bebiam cerveja tranqüilos nas mesas espalhadas, como numa noite de outubro. Mas percebi um som ao fundo, algo que vinha dos subterrâneos, vibrava o chão, uma espécie de bate-estacas que se aproxima. Descobri a escada para o porão e naquele pequeno espaço sem ar, enfumaçado, como na Chicago da Lei Seca, vislumbrei uma multidão clandestina que pulava carnaval, acotovelando-se no escuro com serpentina e tudo, num calor infernal e transpirando alegria. O contraste entre aquele caldeirão nas trevas e a paz iluminada lá da terra me sugeriu uma manchete possível para a Tribuna do Paraná: "Polícia estoura ponto de carnaval em Curitiba!"
Tudo bem: não temos carnaval. Mas vejamos de outro modo: em vez de defeito, não seria esse um capital respeitável a ser mais bem-aproveitado? Uma importante cidade brasileira substancialmente avessa ao carnaval! São quatro ou cinco dias de silêncio, de grandes espaços vazios para caminhar — e toda a infra-estrutura de lazer sub-aproveitada, teatros fechados, cinemas às moscas. Calculem-se os milhares — talvez milhões — de brasileiros que, como eu, acham carnaval uma coisa aborrecida e que muitas vezes se submetem por absoluta falta do que fazer àqueles desfiles intermináveis e chatíssimos da rede Globo, oitocentas horas seguidas da mesma coisa, torturados por sambas-enredos idiotas e clonados ao infinito na alegria militarizada da avenida.
Pois esse povo sofrido e sem opção encontraria em Curitiba o seu paraíso! Quanta coisa poderia ser programada nesse período! Desde a versão hard — digamos, um Festival Internacional de Música Sacra ou um Concurso Nacional de Canto Gregoriano — até opções mais suaves, como, quem sabe, Encontros de Jazz Instrumental, algo assim, ou uma boa Mostra do Cinema Escandinavo, etc. São muitas opções. O único cuidado deverá ser vetar expressamente manifestações de MPB, porque atrás delas sempre há o risco de um trio-elétrico aparecer e aí, bem, aí sai todo mundo correndo, acabou o carnaval curitibano e voltamos à estaca zero.
Cristovão Tezza no seu blog
Nem as crianças se entusiasmam: uma terça-feira gorda no Parque Barigüi, que descanso! Parece que estamos passeando em Genebra num começo de primavera! Nenhuma máscara de pirata ou palhaço, nada de serpentina, nem um único confete no chão, naquelas trilhas onde o pessoal sério faz a firme corrida vespertina, bufando, como se não estivesse acontecendo nada no resto do Brasil. É uma coisa tão desenxabida, que quem defende o carnaval da cidade tem de fazê-lo aos gritos, em altos brados, tem de exigir atitude das autoridades, reclamar por leis mais severas, mandar requerimento aos vereadores! Ora, alguma coisa tem de ser feita contra esse crime, parecem dizer, contra essa terrível indiferença!
Bem, carnaval que precisa de lei ou regulamentação, que precisa de muito apoio, defesas apaixonadas para uma platéia apática ou apenas discretamente divertida, tem alguma coisa errada — ou não tem nada errado; apenas não existe. Parece que há uma incompatibilidade radical entre o espaço curitibano e a idéia de carnaval. Digo "espaço" porque, no período, uma horda imensa de curitibanos foge daqui, desabala-se sôfrega em filas intermináveis para descer ao litoral onde, apertada na multidão que enche calçadas, praias, restaurantes, bares, supermercados e apartamentos, passa quatro dias, às vezes sem água na torneira, reclamando da chuva. Ou os habitantes escapam para Floripa, para o Rio, escondem-se em Antonina, em qualquer lugar onde possam se divertir. Aqui, alguma coisa decididamente não combina.
E não é de hoje. A edição de O Paranaense, de 15 de fevereiro de 1880, ilustra-nos Wilson Martins, descrevia os "folguedos carnavalescos" como um desfile de "raras e desengraçadas figuras". Observe-se a finura crítica da expressão, nossa marca registrada: "desengraçadas figuras" — onde naufraga o carnaval, brilha a linguagem.
Há algumas surpresas. Anos atrás, fui pela primeira vez ao antigo Bar do Ermes em pleno carnaval: fregueses bebiam cerveja tranqüilos nas mesas espalhadas, como numa noite de outubro. Mas percebi um som ao fundo, algo que vinha dos subterrâneos, vibrava o chão, uma espécie de bate-estacas que se aproxima. Descobri a escada para o porão e naquele pequeno espaço sem ar, enfumaçado, como na Chicago da Lei Seca, vislumbrei uma multidão clandestina que pulava carnaval, acotovelando-se no escuro com serpentina e tudo, num calor infernal e transpirando alegria. O contraste entre aquele caldeirão nas trevas e a paz iluminada lá da terra me sugeriu uma manchete possível para a Tribuna do Paraná: "Polícia estoura ponto de carnaval em Curitiba!"
Tudo bem: não temos carnaval. Mas vejamos de outro modo: em vez de defeito, não seria esse um capital respeitável a ser mais bem-aproveitado? Uma importante cidade brasileira substancialmente avessa ao carnaval! São quatro ou cinco dias de silêncio, de grandes espaços vazios para caminhar — e toda a infra-estrutura de lazer sub-aproveitada, teatros fechados, cinemas às moscas. Calculem-se os milhares — talvez milhões — de brasileiros que, como eu, acham carnaval uma coisa aborrecida e que muitas vezes se submetem por absoluta falta do que fazer àqueles desfiles intermináveis e chatíssimos da rede Globo, oitocentas horas seguidas da mesma coisa, torturados por sambas-enredos idiotas e clonados ao infinito na alegria militarizada da avenida.
Pois esse povo sofrido e sem opção encontraria em Curitiba o seu paraíso! Quanta coisa poderia ser programada nesse período! Desde a versão hard — digamos, um Festival Internacional de Música Sacra ou um Concurso Nacional de Canto Gregoriano — até opções mais suaves, como, quem sabe, Encontros de Jazz Instrumental, algo assim, ou uma boa Mostra do Cinema Escandinavo, etc. São muitas opções. O único cuidado deverá ser vetar expressamente manifestações de MPB, porque atrás delas sempre há o risco de um trio-elétrico aparecer e aí, bem, aí sai todo mundo correndo, acabou o carnaval curitibano e voltamos à estaca zero.
Cristovão Tezza no seu blog
fevereiro 21, 2009
Hilda Hilst

Já estava passando da hora de postar sobre a Hilda Hilst (autora do primeiro poema a vir para o blog). Este mês fez cinco anos de sua morte e a CULT traz a matéria que pode ser lida clicando o título.
Hilda Hilst, em mais de 40 anos de literatura, escreveu poesia, ficção e teatro e passou grande parte deste tempo esbravejando contra o silêncio da crítica e a incompreensão dos leitores. No final de sua vida ostentava uma sarcástica soberba a respeito da própria obra. A entrevista que foi publicada, na mesma revista CULT, em julho de 1998 :
Como foi a experiência de escrever crônicas, falar do dia-a-dia, você que é uma autora preocupada com a noção de Deus e a idéia da morte? Foi muito diferente de escrever ficção e poesia?
Hilda Hilst - Foi muito diferente. Eu até aproveitei para divulgar o meu trabalho, voltar aos meus textos. É uma necessidade que eu tenho. Quando eu estava de saco bem cheio, não tinha nada para falar, aí eu punha trechos dos meus textos. E também faz muito tempo que eu estou dura. Mas aí teve um ano que eu fiquei sem dinheiro mesmo. As pessoas não me compram, não compram os meus livros, é dificílimo. Agora parece que está mudando um pouco. Quando você está quase morrendo, parece que dá vontade nas pessoas de te conhecerem. Mas acho que eu ainda não estou suficientemente velha. Nas crônicas às vezes dava para falar do dia-a-dia. Eu gosto especialmente das crônicas mais engraçadas, como a do E.G.E. (Esquadrão Geriátrico de Extermínio), em que eu proponho que as velhinhas (eu incluída) besuntem as pontas de suas bengalas com curare e saiam por aí espetando os políticos. Tem outra deslumbrante em que eu começo falando do Camus e, de repente, baixa o doutor Fritz e eu começo a falar com aquele sotaque alemão. Como em outra sobre a minha dívida de IPTU: "Venho atrravés de meu aparrelho, senhorra Hilst, que está adorrmecida em posizon de lótus, mas psicogrrafando meu mensagem, deizerr-lhes que o aparrelho prrecisa de dinheirras parra pagarr imposto PETÚ." (risos) É engraçadíssimo.
Na crônica Receitas anti-tédio carnavalesco você recomenda um ritual que culmina com um tiro na cabeça. No seu livro Estar sendo - Ter sido também há muitas receitas de suicídio. Você já pensou em se matar?
H.H. - Era uma brincadeira que eu fazia comigo mesma: "Será que não é bom a gente pegar aquele revólver, comprar um 9 mm?" - eu fiquei entendendo dessas coisas, 9 mm e tal. Mas me vinha uma coisa desagradável. Eu tenho muito medo de me assustar. Há também uma receita para isso de se assustar: é só fechar um olho. Quando for se matar, fecha um olho que aí você não fica tão mal, não se assusta tanto. Mas depois de um tempo aconteceram comigo coisas notáveis em matéria de mediunidade, que nem adianta contar porque as pessoas acham que eu sou uma louca. Então desisti, percebi que era uma fantasia minha esse negócio de me matar. Mas continuei interessada no assunto. Procurei por muito tempo esse livro, Suicídio: modo de usar [de Claude Guillon e Yves de Boniée], de onde eu tirei aquelas receitas. Às vezes a pessoa quer se matar em casa e não dá certo. Fica todo mundo batendo na porta, ou arrebentam a porta e tal. Então nesse livro eles ensinam muitas maneiras de se matar. Você pode tomar alguma coisa de efeito retardado, tipo Vesperax, que demora 48 horas, ir para um hotel e pôr aqueles avisos de Do not disturb em todas as línguas. Com esses remédios de efeito retardado, a pessoa dorme magnificamente e morre.
H.H. - Eu tenho um cagaço tenebroso da morte. As pessoas dizem, "nossa, você que fala tanto da morte, tá assim cagada de medo..." É que eu tenho medo do sofrimento. Eu sempre pedi que eu ficasse obscura contanto que não sofresse. E olha que o lá de cima, esse Deus, que eu não conheço, ele cumpriu, não deixou que eu sofresse.
H.H. - O meu Deus não é material. Deus eu não conheço. Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que Ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo. Há uma coisa obscura e medonha nele, que me dá pavor. Ele é uma coisa. Se bem que depois que eu li Heidegger, e releio sempre, não consigo mais falar "coisa". Heidegger escreveu um livro enorme só para falar o que é uma coisa. Mas esse tipo de conversa você não pode pôr na revista. As pessoas ouvem falar em Deus e se chateiam. Tem que falar de coisas normais. Só quando o Paulo Coelho fala em Deus é que as pessoas escutam.
Você sempre diz que ninguém lê seus livros. A resposta a seu livro anterior, Estar sendo - Ter sido, não lhe deixou satisfeita?
H.H. - Este ninguém entendeu nada. Não sei o que é, parece que fica cada vez pior. Eu sempre acho que vai melhorar, mas ninguém entende nada. O que será que é, hein? Às vezes eu releio o que eu escrevo e penso "meu Deus, mas está tão compreensível!". O que será que é?
Você não é uma escritora mais dada à sedução do que à comunicação?
H.H. - Sabe que não sei muito bem. Eu não entendo nada de crítica. Os críticos escrevem umas coisas tão dificílimas sobre o meu trabalho que, ao invés de auxiliarem o outro a compreender, parece que obscurecem tudo. Eu fiquei por anos escrevendo como uma louca sem ninguém entender. Eu sei o que eu sou como escritora. Tenho perfeita noção de quem eu sou como escritor. Mas se lêem e entendem não é o meu departamento.
H.H. - Há amigos meus que dizem que eu enlouqueço as pessoas. Eu fico meio triste com isso porque a loucura como um valor pré-determinado confere uma certa opacidade ao texto. A loucura criadora também é paralisante. Jung fez um trabalho sobre a filha de Joyce, que era esquizofrênica e paranóica, mas não tinha o talento do pai. Meu pai (o poeta Apolonio de Almeida Prado Hilst) escrevia lindamente e acabou esquizofrênico e paranóico. Mas esquizofrenia você não pega como uma gripe, você nasce esquizofrênico. Existe na esquizofrenia uma coisa monocórdica. Graças a Deus eu não fiquei assim. Muitos críticos acham meus textos esquizofrênicos porque há uma certa dificuldade com a pontuação e o fluxo de pensamento dos personagens, o dizer claramente, francamente, mas eu não acho que os textos sejam esquizofrênicos. Eu os leio tão bem.
A virada que você deu em direção à literatura pornográfica (com a trilogia O caderno rosa de Lory Lambi, Contos d'escárnio e Cartas de um sedutor) me parece uma falsa mudança. Você continuou escrevendo da mesma maneira, falando da morte, do inanimado, de Deus, com a mesma descontinuidade narrativa.
H.H. - É verdade. A Gallimard chegou a dizer que eu transformei a pornografia em arte. Jorge Coli diz que considera meu trabalho uma coisa deslumbrante, ele me faz elogios maravilhosos. Mas quando eu mandei para ele as Cartas de um sedutor - livro que eu gostei muito de escrever e possibilitou que me familiarizasse com uma linguagem mais agressiva - ele me disse: "Hilda, depois de ler o livro, eu fiquei doente oito dias". Mas você não riu? - eu disse. E ele: "Mas era para rir?". Eu ria muito escrevendo o Cartas de um sedutor. Eu gosto muito deste personagem, o Karl, eu queria muito que ele continuasse a viver. Outros disseram que o livro era cruel. Sempre me dizem isso, que meu trabalho tem uma crueldade específica.
A maioria dos seus personagens é homem. São eles que têm a necessidade da expressão e da transcendência. As mulheres, por outro lado, são quase sempre um estorvo. Por quê?
H.H. - Porque meus personagens pensam muito. É difícil você imaginar uma mulher assim, com tudo isso na cabeça. São raras as mulheres com fantasias muito enriquecedoras. A fantasia que elas mais gostam parece que é o 69. É o mais imaginoso que elas conseguem (risos). As mulheres querem ter filhos, gostam de penduricalhos, de dançar, de ir a bailecos, eu não sei o que é. Mas meus personagens são muito engraçados também. São meio cínicos, às vezes meio debochados, mas têm muita coisa lá dentro.
Você escreve poesia, ficção e teatro. Qual dos gêneros literários você prefere?
H.H. - Eu me acho perfeita nos três. Pode escrever isso. A única coisa que eu pude fazer na vida foi escrever, porque é a única coisa que eu sei fazer mesmo. Dizem que eu sou megalomaníaca. Sou. Meu texto de ficção é deslumbrante, é da pessoa ficar gozando o tempo todo. O meu teatro continua às moscas, todo inédito*. Eu ganhei o prêmio Anchieta com O verdugo em 1969. Gianni Ratto disse que foi a mais bela peça que ele viu na vida. Poesia é algo de especial. Subitamente você sente alguma coisa diferente. O João Cabral fala horrores da inspiração, mas existe, sim, inspiração. Você fica mesmo com febre quando a poesia acontece. Durante alguns dias você fica tomado por alguma coisa que você não sabe o que é, com uma espécie de febre interior. Quando eu releio as minhas poesias, me dá uma comoção de ter escrito aquilo. Eu me acho deslumbrante como poeta e como escritora. Quando me vem a poesia, ela vem em português de Portugal, com a sonoridade da língua portuguesa original. Minha mãe era filha de portugueses, deve ser por isso. O primeiro verso do Cantares do sem nome e de partidas, "Que este amor não me cegue nem me siga", me veio assim, com sotaque português. O primeiro verso é base para mim. Me vem o primeiro verso e depois, durante dias, vêm os outros, difíceis de trabalhar. Eu fico vermelha, passo mal. Acontece esse milagre.
Você nunca pensou em escrever filosofia?
H.H. - Eu escrevo filosofia em todos os meus livros. Com fundo narrativo ou não, é filosofia pura.
Você foi convidada a participar do Salão do Livro de Paris deste ano e se recusou a ir. Por quê?
H.H. - Eu não vou nem a Pirituba mais. Eu acho um engodo você ter que aparecer e se mostrar. Eu quero que me leiam. Eu não quero explicar o meu trabalho. Você acha normal ficar explicando? E também eu só sei falar a minha língua. Leio muito bem em francês, mas não saberia falar em outra língua as coisas que eu falo em português. Ir lá para quê? Paris era bom quando eu fodia, com vinte anos.
Você continua escrevendo?
H.H. - Não. O que eu escrevi é tão bonito... Eu leio e fico besta. Como é possível eu ter feito uma coisa tão deslumbrante e ninguém compreender? Chega uma hora, quando você vai envelhecendo, vai dando um desapego, você não se importa mais com nada. Nem com a fama. Eu fico lembrando a passagem da Odisséia em que Ulisses está na gruta e o ciclope pergunta "Quem é?". E ele responde "Ninguém, meu nome é Ninguém". É assim que eu me sinto: ninguém, ninguém. Um astrólogo amigo meu disse que em outra vida eu fui uma puta. Por isso que nessa vida eu fiquei obscura, porque na outra eu fui muito conceituada enquanto puta. (risos)
* poucos anos depois vi O caderno rosa de Lory Lambi no Paiol em Ctba.
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