fevereiro 25, 2009

Confete na cueca

Se, em 2000, me dissessem que em breve assistiríamos no Rio à volta triunfal da Lapa, do Carnaval de rua e do confete e da serpentina, nem eu, que não duvido de mais nada, acreditaria no que estava ouvindo. Era tudo muito improvável.
Mas as improbabilidades logo ruíram. A Lapa voltou a ser o epicentro da música e da alegria no Rio. Em seguida, sem qualquer apelo oficial e até mesmo sem dinheiro, o Carnaval de rua começou a ocupar a cidade, com centenas de blocos. E, nestes últimos dias, mesmo na qualidade de folião grave, quase platônico, surpreendi-me, ao voltar para casa e tirar a roupa, com confete até dentro da cueca.
Se estas não fossem tendências que já vinham se desenhando há algum tempo, poder-se-ia dizer que é a típica resposta carioca à crise que está assolando o mundo -assim como, em 1919, o Rio só esperou acabar a Primeira Guerra e a gripe espanhola para promover o seu maior Carnaval até então. E, antes que alguém nos acuse de irresponsabilidade crônica, devo dizer que concordo com a acusação e acho ótimo que assim seja.
O que o Carnaval pode gerar de negócios (as cervejas faturaram em vendas pelo ano inteiro), energia (nunca vi tanta gente pulando ao som de marchinhas) e paixão (metade dos jovens nas ruas pareciam atracados pela boca à outra metade) deve ter atingido seu apogeu em 2009. E, sem uma gota de chuva para refrescar, o povo suou o suficiente para encharcar o planeta, o que também é sinal de vitalidade.
Cada bloco carioca é uma expressão do bar, quiosque ou esquina onde foi fundado. Independe da presença de um artista famoso, e é formado por pessoas que querem apenas saracotear, encher a cara e se divertir. Não é proibido ao famoso aderir. No bloco, ele será, como milhares, um simples anônimo feliz.

RUY CASTRO

fevereiro 24, 2009

P a c i ê n c i a


Lenine - Paciência Acústico

O leilão do século

Estimada em 300 milhões de euros a estupenda coleção do casal Yves Saint Laurent e Pierre Bergé — que manteve uma relação amorosa e paixão pela arte durante cinco décadas — está sendo saudada como “o leilao do século”. A receita arrecada será revertida à pesquisa da AIDS. Veja mais, inclusive as obras leiloadas clicando no título.

PARA SEMPRE

De uns tempos para cá (não vem ao caso, quando nem porque), me dei conta da precariedade das relaçôes literárias Brasil-Portugal. Encontramos com facilidade livros traduzidos até do albanês, enquanto ainda continuam sendo raros os títulos da boa literatura em nossa própria língua. Vergílio Ferreira é um dos exemplos acabados do que afirmo. Trata-se de um dos maiores nomes da literatura portuguesa do século passado,(leia mais clicando no título), e não temos praticamente nada da sua vasta obra.
Vergílio Ferreira (1916-1996) nasceu em Melo, no concelho de Gouveia,uma aldeia com vista para a serra que tanto influenciou a sua obra – a Serra da Estrela .
No romance PARA SEMPRE é para esta paisagem que conheceu na infância que o personagem regressa: a casa da família, a paz da aldeia no seu ritmo sereno, a coragem e resignação de suas gentes, os seus cantos no trabalho, preces e tradições.
A montanha é um local real e mítico. O seu silêncio, encantamento e mistério é tão marcante em sua obra, comparável à obsessão com que Cézanne pintou a montanha St. Victoire, a imensa massa de granito, ora coberta de neve, ora vestida de verde ora estalando ao sol.
Em PARA SEMPRE que se passa numa tarde de verão a montanha está sempre presente :
Está uma tarde quente . Céu de zinco carbonizado. O longe, a montanha, uma grande pedra ao sol.
...um olhar suspenso na serra ao longe,na linha ondeada do seu cume
Sento-me à varanda - aqui estou. Vida finda . Mas não perguntes . E do que o ordenasse o universo - não penses. A palavra, ainda, se ao menos .A palavra final. A oculta e breve por sobre o ruído e a fadiga. A última , a primeira. Em frente, a toda a largura, o ondeado da montanha. O sol embate contra ela desnuda-a até a aridez.
Pela janela aberta , o horizonte longínquo , a linha ondulante da montanha quase apagada num tom violeta.
Depois abro as vidraças, a montanha ao longe em toda a sua magnitude. E uma pequenez em mim súbito sentida , um pasmo sideral de horizontes.
Morte de mim, do meu tempo, Deus entreabre um olhar no silêncio do campo de ruínas. Depois abro a vidraça, a montanha ao longe em toda sua imensidão. Pesa em toda sua massa sobre a terra, ondeia numa linha fina até ao esvaimento dos meus olhos.
Estás só, não há ninguém a ser público à tua volta.Nem tu. ...Dos quatro cantos do mundo, estou parado à varanda, a montanha aguenta no dorso toneladas de calor.
Ao longe, desdobrada a todo o horizonte, densa, a montanha. Arde ao sol na sua combustão mineral. Amaldiçoada de calor , quieta a aldeia sob a pata de fogo imóvel no seu recovo, fico a olhá-la um instante, tomar posse do meu destino final.
Está uma tarde quente. A montanha à minha direita , desdobrada na sua aridez, o sol requeima-a de maldição. À esquerda, o vale.
Um vento largo, vindo das origens do cosmos, passava em vaga de augúrio. Ao fundo a montanha, plácida de eternidade.
Estou bem. Há tanto tempo ainda para não estar. Olho a montanha iluminada ainda de sol.Quero vê-la ainda, não com o ver fortuito e sabido de cor, mas com um ver intrínseco à realidade única de haver sol e montanha e o fantástico até aos gritos de haver essa coisa, de haver uma montanha contra o céu toda iluminada de sol. Enterro o meu olhar nessa realidade febril de um lume vivo que traz à vida essa coisa pesada e escura que é um vasto aglomerado de terras e de pedras, a faz brilhar contra a treva e inexistência que é a sua com um milagre de esplendor. Tenho de reparar vivissimamente nas coisas, enquanto são ainda coisas para reparar, fixar-me no instante em que uma cor e miraculosamente uma cor, e um cheiro me afecta na sua realidade misteriosa e um som, um ruído.

PARA SEMPRE é umas das obras de Vergílio Ferreira (a outra é APARIÇÃO - postagem de junho 2008) identificada como nitidamente existencialista.
O mundo é privado de sentido e a solidão um último refúgio para a dor de viver e morrer sem explicação. Da irracionalidade dos fatos do dia a dia e de situações completamente banais, nasce o sentimento do Absurdo que nos remete a Camus. A "paisagem de sentimentos" que se vislumbra tem na solidão um dos aspectos mais profundos da condição humana e aparece regida pelo silêncio de quem não se integra e/ou de quem procura respostas.
Nas questões como a inevitabilidade da morte e (in)existência de Deus, a da solidão dos que estão no fim da vida, já perderam o amor, a esperança e procuram um sentido para a vida que se gastou:"Não posso apresentar-me assim de mãos vazias perante a morte, a morte tem de matar alguam coisa, não tenho quase nada para matar… "é o que me parece de mais trágico.
O que diz o próprio Vergílio Ferreira acerca do seu existencialismo:
“O existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer. (...) Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automaticamente obriga a aceitar-lhe todas as consequências, entre as quais a de nos responsabilizarmos por tudo quanto sob este rótulo se disser ou fizer.Por mim, preferia definir o Existencialismo como a corrente de pensamento que, regressada ao existente humano, a ele privilegia e dele parte para todo o ulterior questionar. Ou então - e paralelamente ou implicitamente a essa definição - preferiria dizer, continuando Sartre, aliás, que o Existencialismo é uma corrente do pensamento que reabsorve no próprio "eu" de cada um toda e qualquer problemática e a revê através do seu raciocinar pessoal ou preferentemente da sua profunda vivência.''

Árvore do silêncio


Esta é a foto da arvore do "meu silencio" mencionado no comentário à crônica da Danuza (abaixo) que me foi enviada via email pela Lala. Situada no paraíso do 344 do Jardim Italia, onde o "silencio é tanto que até os passarinhos incomodam...", não podia deixar de compartilhar com vcs. esta imagem do " abrigo, lar da alma" da minha amiga.A imagem nos permite ouvir o silêncio!

fevereiro 22, 2009

Não me leve a mal, hoje é Carnaval

E QUEM NÃO quer saber de Carnaval, faz o quê? Outro dia fui almoçar com amigos e foi difícil escolher o restaurante, pois perto de cada um deles ia sair um bloco.
Depois de muito pensar, descobrimos um no Leblon, numa rua sossegada, pois só queríamos conversar. Qual nada. Foi começando a chegar gente no botequim ao lado -era a turma do esquenta -, logo um caminhão de som encostou, e a folia começou.
Para quem não é chegado a Carnaval, é absolutamente incompreensível aquele mundo de gente de todas as idades sambando e cantando "Sassaricando" ou "Me dá um dinheiro aí". Será que essas pessoas não têm problemas, tristezas, e basta a música começar para pular e cantar -todos sabem as letras, pois em sua maioria são de idade mais para lá do que para cá. De bermuda, camiseta e sandália de borracha, na maior alegria dessa vida, percorrem as ruas do bairro mostrando que animação existe, e é com eles mesmo. E são dezenas, talvez centenas de blocos que saem pelas ruas uma semana antes do Carnaval (e também durante), numa alegria sadia, que mesmo tendo nos impedido de conversar, foi bonito de ver.
E incompreensível, sobretudo, é pensar que você já fez tudo isso -e ainda enfrentava os bailes à noite. Lembro do meu pai dizendo que não conseguia compreender aquele bando de gente cantando e dançando na rua; e eu não compreendia o fato de meu pai não compreender. E agora sou eu quem não compreende, veja você.
Ouvi no rádio do táxi que, para quem não quer nem ouvir falar de Carnaval, o melhor lugar para ir é Curitiba, mas se eu quisesse mesmo fugir, não confiaria na informação. Brasileiro gosta de uma folia, e Curitiba não é tão longe assim. Se me fosse totalmente impossível ouvir o som de "Chiquita Bacana", mesmo de longe, acho que ficaria dentro de casa trancada no quarto, com bolinhas de algodão nos ouvidos. Mas a verdade é que não tenho horror ao Carnaval. Não quero estar no meio do fuzuê, mas lembro com nostalgia dos meus tempos de carnavalesca, que, aliás, começaram bem cedo.
Durante anos me fantasiei, durante anos fui ver os desfiles das escolas de samba, durante anos brinquei e pulei -era assim que se dizia- o Carnaval, com uma animação de dar gosto.
E é com uma certa melancolia que vejo que esse tempo passou. Eu não sou mais a mesma; talvez melhor, certamente pior, não importa, mas aquela fase acabou e nunca mais vai voltar.
Por tudo isso, para quem gosta de sair nos blocos, ir aos bailes, se fantasiar, sambar na avenida, só posso dizer que aproveitem e façam tudo que tiverem vontade. Porque quando ouvir o povo cantando "Quanto riso, ó, quanta alegria", ou "Bandeira branca, amor, não posso mais", e lembrar daquele Carnaval, AQUELE -ah, como foi bom!-, pode ficar sentimental, tudo que procura evitar. Mas vamos reconhecer que no fundo morremos de pena daquele tempo ter passado (para nós), e que esse "horror" ao Carnaval não passa de uma certa inveja.
Justa, aliás.


Danuza Leão
na FSP, hoje
















no que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem

das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém.
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém

havia sempre mais alguém
para o chamar então a si,
também vivendo o que menti,
mas como seu, mas como sem

ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem.
é a sua vez. e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.

(rondó da escrita)
Vasco Graça Moura

Experiência sinestésica

Antes de sair para a praia, lia o jornal quando me deparei com a notícia de um estudo sobre a habilidade do cérebro de misturar os sentidos. Pensei: isto é demais para mim que vivo aspirando tão somente manter a memória ( a recente porque a antiga continua bem fresquinha). Essa "estranha" (segundo a pesquisa) capacidade de "ouvir cores" e "cheirar sons" e "enxergar música” se chama sinestesia e estaria por trás da memória dos chamados savants, que são as pessoas de memória prodigiosa e de grande habilidade com números. Acreditam os cientistas que a sinestesia surja quando conexões extras no cérebro cruzam as regiões responsáveis por diferentes sentidos.
Continuei pensando no flagelo das minhas sinapses... Pois vejam por onde as coisas andam. Na pesquisa de um caso de sinestesia audiovisual, a pessoa declarou: "Quando eu escuto um violino, eu vejo algo parecido com um bom vinho vermelho" , enquanto que escutar "um violoncelo, já lembra mais o mel".
Fechei o jornal e fui. Quando se está diante de uma marzão verdinho, um céu gritando de azul e um sol quente dourando tudo isto, pensar numa cerveja gelada também seria uma experiência sinestésica?
Haja ciência para responder esta....

Carnaval em Curitiba

"Lembro Jamil Snege, atrás da mesa, cigarro entre os dedos: "Carnaval em Curitiba? Não dá. O sujeito pula na rua, alegrinho, vem o guarda e prende!" Vendo de um certo jeito, é uma espécie de maldição esse carnaval — ou não-carnaval — na cidade. Temos até de nos explicar por escrito, como agora. Parece que carregamos a culpa pela falta de espírito carnavalesco, a vergonha do falso rebolado, essa triste ausência de brasilidade, quem sabe até falta de patriotismo! Quando o Brasil inteiro dança, nós aqui, naquele silêncio de missa, andando pelas ruas vazias, metendo o olho crítico no primeiro engraçadinho que sai por aí fazendo escândalo. Coisa de bêbados!
Nem as crianças se entusiasmam: uma terça-feira gorda no Parque Barigüi, que descanso! Parece que estamos passeando em Genebra num começo de primavera! Nenhuma máscara de pirata ou palhaço, nada de serpentina, nem um único confete no chão, naquelas trilhas onde o pessoal sério faz a firme corrida vespertina, bufando, como se não estivesse acontecendo nada no resto do Brasil. É uma coisa tão desenxabida, que quem defende o carnaval da cidade tem de fazê-lo aos gritos, em altos brados, tem de exigir atitude das autoridades, reclamar por leis mais severas, mandar requerimento aos vereadores! Ora, alguma coisa tem de ser feita contra esse crime, parecem dizer, contra essa terrível indiferença!
Bem, carnaval que precisa de lei ou regulamentação, que precisa de muito apoio, defesas apaixonadas para uma platéia apática ou apenas discretamente divertida, tem alguma coisa errada — ou não tem nada errado; apenas não existe. Parece que há uma incompatibilidade radical entre o espaço curitibano e a idéia de carnaval. Digo "espaço" porque, no período, uma horda imensa de curitibanos foge daqui, desabala-se sôfrega em filas intermináveis para descer ao litoral onde, apertada na multidão que enche calçadas, praias, restaurantes, bares, supermercados e apartamentos, passa quatro dias, às vezes sem água na torneira, reclamando da chuva. Ou os habitantes escapam para Floripa, para o Rio, escondem-se em Antonina, em qualquer lugar onde possam se divertir. Aqui, alguma coisa decididamente não combina.
E não é de hoje. A edição de O Paranaense, de 15 de fevereiro de 1880, ilustra-nos Wilson Martins, descrevia os "folguedos carnavalescos" como um desfile de "raras e desengraçadas figuras". Observe-se a finura crítica da expressão, nossa marca registrada: "desengraçadas figuras" — onde naufraga o carnaval, brilha a linguagem.
Há algumas surpresas. Anos atrás, fui pela primeira vez ao antigo Bar do Ermes em pleno carnaval: fregueses bebiam cerveja tranqüilos nas mesas espalhadas, como numa noite de outubro. Mas percebi um som ao fundo, algo que vinha dos subterrâneos, vibrava o chão, uma espécie de bate-estacas que se aproxima. Descobri a escada para o porão e naquele pequeno espaço sem ar, enfumaçado, como na Chicago da Lei Seca, vislumbrei uma multidão clandestina que pulava carnaval, acotovelando-se no escuro com serpentina e tudo, num calor infernal e transpirando alegria. O contraste entre aquele caldeirão nas trevas e a paz iluminada lá da terra me sugeriu uma manchete possível para a Tribuna do Paraná: "Polícia estoura ponto de carnaval em Curitiba!"
Tudo bem: não temos carnaval. Mas vejamos de outro modo: em vez de defeito, não seria esse um capital respeitável a ser mais bem-aproveitado? Uma importante cidade brasileira substancialmente avessa ao carnaval! São quatro ou cinco dias de silêncio, de grandes espaços vazios para caminhar — e toda a infra-estrutura de lazer sub-aproveitada, teatros fechados, cinemas às moscas. Calculem-se os milhares — talvez milhões — de brasileiros que, como eu, acham carnaval uma coisa aborrecida e que muitas vezes se submetem por absoluta falta do que fazer àqueles desfiles intermináveis e chatíssimos da rede Globo, oitocentas horas seguidas da mesma coisa, torturados por sambas-enredos idiotas e clonados ao infinito na alegria militarizada da avenida.
Pois esse povo sofrido e sem opção encontraria em Curitiba o seu paraíso! Quanta coisa poderia ser programada nesse período! Desde a versão hard — digamos, um Festival Internacional de Música Sacra ou um Concurso Nacional de Canto Gregoriano — até opções mais suaves, como, quem sabe, Encontros de Jazz Instrumental, algo assim, ou uma boa Mostra do Cinema Escandinavo, etc. São muitas opções. O único cuidado deverá ser vetar expressamente manifestações de MPB, porque atrás delas sempre há o risco de um trio-elétrico aparecer e aí, bem, aí sai todo mundo correndo, acabou o carnaval curitibano e voltamos à estaca zero.
Cristovão Tezza no seu blog

fevereiro 21, 2009

Hilda Hilst


Já estava passando da hora de postar sobre a Hilda Hilst (autora do primeiro poema a vir para o blog). Este mês fez cinco anos de sua morte e a CULT traz a matéria que pode ser lida clicando o título.
Hilda Hilst, em mais de 40 anos de literatura, escreveu poesia, ficção e teatro e passou grande parte deste tempo esbravejando contra o silêncio da crítica e a incompreensão dos leitores. No final de sua vida ostentava uma sarcástica soberba a respeito da própria obra. A entrevista que foi publicada, na mesma revista CULT, em julho de 1998 :

Como foi a experiência de escrever crônicas, falar do dia-a-dia, você que é uma autora preocupada com a noção de Deus e a idéia da morte? Foi muito diferente de escrever ficção e poesia?
Hilda Hilst - Foi muito diferente. Eu até aproveitei para divulgar o meu trabalho, voltar aos meus textos. É uma necessidade que eu tenho. Quando eu estava de saco bem cheio, não tinha nada para falar, aí eu punha trechos dos meus textos. E também faz muito tempo que eu estou dura. Mas aí teve um ano que eu fiquei sem dinheiro mesmo. As pessoas não me compram, não compram os meus livros, é dificílimo. Agora parece que está mudando um pouco. Quando você está quase morrendo, parece que dá vontade nas pessoas de te conhecerem. Mas acho que eu ainda não estou suficientemente velha. Nas crônicas às vezes dava para falar do dia-a-dia. Eu gosto especialmente das crônicas mais engraçadas, como a do E.G.E. (Esquadrão Geriátrico de Extermínio), em que eu proponho que as velhinhas (eu incluída) besuntem as pontas de suas bengalas com curare e saiam por aí espetando os políticos. Tem outra deslumbrante em que eu começo falando do Camus e, de repente, baixa o doutor Fritz e eu começo a falar com aquele sotaque alemão. Como em outra sobre a minha dívida de IPTU: "Venho atrravés de meu aparrelho, senhorra Hilst, que está adorrmecida em posizon de lótus, mas psicogrrafando meu mensagem, deizerr-lhes que o aparrelho prrecisa de dinheirras parra pagarr imposto PETÚ." (risos) É engraçadíssimo.

Na crônica Receitas anti-tédio carnavalesco você recomenda um ritual que culmina com um tiro na cabeça. No seu livro Estar sendo - Ter sido também há muitas receitas de suicídio. Você já pensou em se matar?
H.H. - Era uma brincadeira que eu fazia comigo mesma: "Será que não é bom a gente pegar aquele revólver, comprar um 9 mm?" - eu fiquei entendendo dessas coisas, 9 mm e tal. Mas me vinha uma coisa desagradável. Eu tenho muito medo de me assustar. Há também uma receita para isso de se assustar: é só fechar um olho. Quando for se matar, fecha um olho que aí você não fica tão mal, não se assusta tanto. Mas depois de um tempo aconteceram comigo coisas notáveis em matéria de mediunidade, que nem adianta contar porque as pessoas acham que eu sou uma louca. Então desisti, percebi que era uma fantasia minha esse negócio de me matar. Mas continuei interessada no assunto. Procurei por muito tempo esse livro, Suicídio: modo de usar [de Claude Guillon e Yves de Boniée], de onde eu tirei aquelas receitas. Às vezes a pessoa quer se matar em casa e não dá certo. Fica todo mundo batendo na porta, ou arrebentam a porta e tal. Então nesse livro eles ensinam muitas maneiras de se matar. Você pode tomar alguma coisa de efeito retardado, tipo Vesperax, que demora 48 horas, ir para um hotel e pôr aqueles avisos de Do not disturb em todas as línguas. Com esses remédios de efeito retardado, a pessoa dorme magnificamente e morre.
H.H. - Eu tenho um cagaço tenebroso da morte. As pessoas dizem, "nossa, você que fala tanto da morte, tá assim cagada de medo..." É que eu tenho medo do sofrimento. Eu sempre pedi que eu ficasse obscura contanto que não sofresse. E olha que o lá de cima, esse Deus, que eu não conheço, ele cumpriu, não deixou que eu sofresse.
H.H. - O meu Deus não é material. Deus eu não conheço. Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que Ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo. Há uma coisa obscura e medonha nele, que me dá pavor. Ele é uma coisa. Se bem que depois que eu li Heidegger, e releio sempre, não consigo mais falar "coisa". Heidegger escreveu um livro enorme só para falar o que é uma coisa. Mas esse tipo de conversa você não pode pôr na revista. As pessoas ouvem falar em Deus e se chateiam. Tem que falar de coisas normais. Só quando o Paulo Coelho fala em Deus é que as pessoas escutam.


Você sempre diz que ninguém lê seus livros. A resposta a seu livro anterior, Estar sendo - Ter sido, não lhe deixou satisfeita?
H.H. - Este ninguém entendeu nada. Não sei o que é, parece que fica cada vez pior. Eu sempre acho que vai melhorar, mas ninguém entende nada. O que será que é, hein? Às vezes eu releio o que eu escrevo e penso "meu Deus, mas está tão compreensível!". O que será que é?

Você não é uma escritora mais dada à sedução do que à comunicação?
H.H. - Sabe que não sei muito bem. Eu não entendo nada de crítica. Os críticos escrevem umas coisas tão dificílimas sobre o meu trabalho que, ao invés de auxiliarem o outro a compreender, parece que obscurecem tudo. Eu fiquei por anos escrevendo como uma louca sem ninguém entender. Eu sei o que eu sou como escritora. Tenho perfeita noção de quem eu sou como escritor. Mas se lêem e entendem não é o meu departamento.
H.H. - Há amigos meus que dizem que eu enlouqueço as pessoas. Eu fico meio triste com isso porque a loucura como um valor pré-determinado confere uma certa opacidade ao texto. A loucura criadora também é paralisante. Jung fez um trabalho sobre a filha de Joyce, que era esquizofrênica e paranóica, mas não tinha o talento do pai. Meu pai (o poeta Apolonio de Almeida Prado Hilst) escrevia lindamente e acabou esquizofrênico e paranóico. Mas esquizofrenia você não pega como uma gripe, você nasce esquizofrênico. Existe na esquizofrenia uma coisa monocórdica. Graças a Deus eu não fiquei assim. Muitos críticos acham meus textos esquizofrênicos porque há uma certa dificuldade com a pontuação e o fluxo de pensamento dos personagens, o dizer claramente, francamente, mas eu não acho que os textos sejam esquizofrênicos. Eu os leio tão bem.


A virada que você deu em direção à literatura pornográfica (com a trilogia O caderno rosa de Lory Lambi, Contos d'escárnio e Cartas de um sedutor) me parece uma falsa mudança. Você continuou escrevendo da mesma maneira, falando da morte, do inanimado, de Deus, com a mesma descontinuidade narrativa.
H.H. - É verdade. A Gallimard chegou a dizer que eu transformei a pornografia em arte. Jorge Coli diz que considera meu trabalho uma coisa deslumbrante, ele me faz elogios maravilhosos. Mas quando eu mandei para ele as Cartas de um sedutor - livro que eu gostei muito de escrever e possibilitou que me familiarizasse com uma linguagem mais agressiva - ele me disse: "Hilda, depois de ler o livro, eu fiquei doente oito dias". Mas você não riu? - eu disse. E ele: "Mas era para rir?". Eu ria muito escrevendo o Cartas de um sedutor. Eu gosto muito deste personagem, o Karl, eu queria muito que ele continuasse a viver. Outros disseram que o livro era cruel. Sempre me dizem isso, que meu trabalho tem uma crueldade específica.

A maioria dos seus personagens é homem. São eles que têm a necessidade da expressão e da transcendência. As mulheres, por outro lado, são quase sempre um estorvo. Por quê?
H.H. - Porque meus personagens pensam muito. É difícil você imaginar uma mulher assim, com tudo isso na cabeça. São raras as mulheres com fantasias muito enriquecedoras. A fantasia que elas mais gostam parece que é o 69. É o mais imaginoso que elas conseguem (risos). As mulheres querem ter filhos, gostam de penduricalhos, de dançar, de ir a bailecos, eu não sei o que é. Mas meus personagens são muito engraçados também. São meio cínicos, às vezes meio debochados, mas têm muita coisa lá dentro.

Você escreve poesia, ficção e teatro. Qual dos gêneros literários você prefere?
H.H. - Eu me acho perfeita nos três. Pode escrever isso. A única coisa que eu pude fazer na vida foi escrever, porque é a única coisa que eu sei fazer mesmo. Dizem que eu sou megalomaníaca. Sou. Meu texto de ficção é deslumbrante, é da pessoa ficar gozando o tempo todo. O meu teatro continua às moscas, todo inédito*. Eu ganhei o prêmio Anchieta com O verdugo em 1969. Gianni Ratto disse que foi a mais bela peça que ele viu na vida. Poesia é algo de especial. Subitamente você sente alguma coisa diferente. O João Cabral fala horrores da inspiração, mas existe, sim, inspiração. Você fica mesmo com febre quando a poesia acontece. Durante alguns dias você fica tomado por alguma coisa que você não sabe o que é, com uma espécie de febre interior. Quando eu releio as minhas poesias, me dá uma comoção de ter escrito aquilo. Eu me acho deslumbrante como poeta e como escritora. Quando me vem a poesia, ela vem em português de Portugal, com a sonoridade da língua portuguesa original. Minha mãe era filha de portugueses, deve ser por isso. O primeiro verso do Cantares do sem nome e de partidas, "Que este amor não me cegue nem me siga", me veio assim, com sotaque português. O primeiro verso é base para mim. Me vem o primeiro verso e depois, durante dias, vêm os outros, difíceis de trabalhar. Eu fico vermelha, passo mal. Acontece esse milagre.
Você nunca pensou em escrever filosofia?
H.H. - Eu escrevo filosofia em todos os meus livros. Com fundo narrativo ou não, é filosofia pura.
Você foi convidada a participar do Salão do Livro de Paris deste ano e se recusou a ir. Por quê?
H.H. - Eu não vou nem a Pirituba mais. Eu acho um engodo você ter que aparecer e se mostrar. Eu quero que me leiam. Eu não quero explicar o meu trabalho. Você acha normal ficar explicando? E também eu só sei falar a minha língua. Leio muito bem em francês, mas não saberia falar em outra língua as coisas que eu falo em português. Ir lá para quê? Paris era bom quando eu fodia, com vinte anos.
Você continua escrevendo?
H.H. - Não. O que eu escrevi é tão bonito... Eu leio e fico besta. Como é possível eu ter feito uma coisa tão deslumbrante e ninguém compreender? Chega uma hora, quando você vai envelhecendo, vai dando um desapego, você não se importa mais com nada. Nem com a fama. Eu fico lembrando a passagem da Odisséia em que Ulisses está na gruta e o ciclope pergunta "Quem é?". E ele responde "Ninguém, meu nome é Ninguém". É assim que eu me sinto: ninguém, ninguém. Um astrólogo amigo meu disse que em outra vida eu fui uma puta. Por isso que nessa vida eu fiquei obscura, porque na outra eu fui muito conceituada enquanto puta. (risos)
* poucos anos depois vi O caderno rosa de Lory Lambi no Paiol em Ctba.

fevereiro 20, 2009

Carnaval em Veneza


"Primórdios
Com a cristianização do calendário, as festas pagãs foram rebatizadas. Fevereiro era o tempo de "Carne levare levamen", quando eram degustados pela última vez os pratos gordurosos, antes da entrada em quarentena, a "quadragésima", palavra que evoluiu para Quaresma.
Quarenta dias de comidas "magras" até a chegada da Páscoa. Outras teorias remontam o termo a "carrus navalis", carro que distribuía vinho ao povo durante a festa de Isis, deusa egípcia adotada por gregos e romanos.
No século 13, a festa de rua já era chamada de "carnevalo" e assim viajou no tempo até a "Belle Epoque" - final de século 19, comecinho do século 20 - quando continuava a atrair as populações que vinham admirar carros decorados e pessoas fantasiadas. O Carnaval permitia os derradeiros excessos quando a Igreja, em seus primeiros séculos, preparava o cerne da festa de Páscoa, vinda das antigas comemorações pelo término do inverno no Hemisfério Norte.
Nesta ocasião, as regras sociais eram invertidas: os senhores se fantasiavam de escravos e, durante 5 dias, os escravos se transformavam em senhores. Na Idade Média, a festa se realizava nas igrejas e a missa era dita ao contrário - começava com a Eucaristia e terminava com os Atos de Penitência - os ricos se fantasiavam de pobres, os pobres de ricos, as crianças se vestiam de adultos e os adultos de criança.
Carnaval em Veneza
A Sereníssima República de Veneza (Serenìsima Repùblica Vèneta, em vêneto e Serenissima Repubblica di Venezia, em italiano), muitas vezes chamada apenas de Sereníssima, no nordeste da Itália, com capital na cidade de Veneza, foi um Estado que existiu do século nono até 1797 quando, ao ser invadida por Napoleão Bonaparte, foi cedida ao Império Austríaco pelo Tratado de Campofórmio.
Na Europa medieval, especialmente em Veneza, o Carnaval era, igualmente, a festa da saciedade e da inversão.
A inversão de valores e de costumes vinha desde a quebra da hierarquia até ao que aborrecia ou atrapalhava: o empregado era servido pelo patrão, o pobre ironizava o poderoso, o homem se fantasiava de mulher, num travestismo consentido e incentivado. E o carnaval passou a representar o contrário do ritual codificado. Distribuía-se comida aos pobres, para que ficassem saciados numa época em que passavam fome.Todos esqueciam as mágoas e entravam numa espécie de país das maravilhas.
Nas festas pagãs, os deuses e heróis eram motivo para ironia e os religiosos também participavam do clima, simulando brincadeiras obscenas.
Dançavam nos conventos e os lugares sagrados se transformavam em palco de licenciosidade, até que, no século 13, o Papa Inocêncio III promulgou uma bula para banir os espetáculos das igrejas, proibindo que o clero participasse de festas e da devassidão.
Máscaras e fantasias
O primeiro registro do uso de máscaras e fantasias vem de uma lei do ano de 1268, que autorizava o porte não somente no carnaval mas, também, durante seis meses do ano. O anonimato sempre foi uma árvore de sombra frondosa e atos fora da lei e atitudes transgressoras, subversivas e imorais passaram a ser acontecimentos comuns. E o cidadão veneziano incorporou, durante a metade do ano, o hábito de sair às ruas mascarado e agir como bem lhe aprouvesse.
Durante séculos, essa total impunibilidade adquirida no Carnaval, ao mesmo tempo em que contribuiu para a estabilidade econômica de Veneza, precipitou sua queda. Cada pessoa desejava aproveitar a riqueza e os prazeres que ela podia comprar e multiplicar. E a festa pagã, que cada vez durava mais, fazia com que os dias da cidade fossem ficando literalmente contados.
Começando em outubro, o carnaval tornara-se a grande atração com bailes de mascaras e fogos de artifício, abusos sexuais, bacanais, orgias.
Vinha gente de toda Europa para aproveitar a transgressão consentida e regulada por decreto. E todo mundo ganhava: os hoteleiros, os donos de restaurantes, os gondoleiros e os fabricantes de máscaras. Transformada em cidade das festas e prazeres, Veneza viu diminuir sua influência política.
Em 1608, uma lei declarava o uso de máscaras grande ameaça ao funcionamento do Estado. Entre 1799 e 1806, já sob domínio da Áustria, o uso de disfarces passou a ser autorizado somente em festas particulares e assim, acabou o encanto.
Inspiração
O segundo governo austríaco (1815-1866) autorizou novamente as máscaras, mas o carnaval não era mais transgressão.Tornou-se uma parada de carros alegóricos ou um momento em que cada um tentava exprimir sua individualidade.
Apesar das mudanças - ou por causa delas - Veneza passou a ser o lugar preferido dos artistas. Wagner compôs lá parte de sua ópera Tristão e Isolda. Georges Sand, Alfred de Musset e Byron viveram belos casos de amor. Rossini, Bellini, Verdi também ali encontram inspiração para suas obras.
Mas os venezianos já não suportavam a censura austríaca e, em 1848, Daniele Manin proclamou a República, um breve intervalo no jugo e tentativa frustrada de emancipação. Em 1866, Veneza se reintegrou ao Reino da Itália e, do carnaval da liberdade total, sobraram apenas as lembranças.
A cidade continua a ser um destino turístico disputado, mesmo no inverno rigoroso. Nesse ano de 2009, entre 14 e 24 de fevereiro, viajantes do mundo inteiro repetem os mesmos temas do passado, de inspiração histórica ou puramente criativos, elegantes e refinados. A tradição das máscaras confeccionadas manualmente ficou preservada e os bailes tornam o carnaval veneziano moderno um espetáculo raro".
Thereza Pires
na Revista MIX BRASIL

"Slumdog Millionaire"


Sei que “cool” mesmo é falar de “ planos” , “sequências”, “referências a outros diretores” , no máximo da interpretação de um coadjuvante que rouba a cena....etc etc. Mas num filme eu gosto mesmo é da história e da forma como é contada. Sei reconhecer e apreciar os recursos utilizados pelo cinema, mas tudo se reduz à esfera do gostar (ou não) do que vi . No caso deste filme resolvi falar dele antes que ganhe mais premios, além dos 40 que já recebeu. O Oscar será domingo...
É uma produção anglo-indiana cujo título original "Slumdog Millionaire" , pode ser traduzido como "cachorro de favela milionário" ou "vira-lata milionário" (bom,não?) e se passa nas famosas favelas de Mumbai.
A história vem sendo apresentada como “ um conto de fadas moderno” (se miséria e modernidade puderem ser confundidas, claro!). Um garoto analfabeto que participa de um jogo de perguntas e respostas e que ao começar a se tornar um vencedor durante as fases, passa a ser suspeito de estar fazendo trapaças . É entregue a polícia pelo silviosantos do programa e é levado encapuzado da emissora para a polícia onde é cruelmente torturado:sofre afogamentos, choques eletricos, é pendurado por dias, impedido de dormir, apanha muito, perde os sentidos. É “ reanimado” para retornar ao próximo programa e para suspresa do apresentador ( que num dado momento tenta induzi-lo ao erro) nunca desiste. A sua vida miserável vai sendo contada paralelamente ao desenvolvimento do programa e é desta maneira que vai ficando explicado o fato de, sendo ele analfabeto, saber as respostas. Sua vitória é inaceitável, afinal pobre não é para ter nada, nem sorte. O que parece ser a grande mensagem do filme.
O menino (Jamal) desde criança é abandonado junto com o irmão e sobrevivem em meio ao lixo e à fome, cometendo pequenos crimes . Depois Jamal se separa do irmão e troca o crime por bicos e subempregos até ir parar no "Show do Milhão". Há quem destaque que ele fazia tudo para ser visto por uma moça de quem ele havia se separado quando criança e que voltou a avistar junto ao “ vilão” da favela. Na verdade, trata-se de um mero detalhe que aparece no final para que seja mais palatável o desfecho: todos dançando na plataforma de uma estação numa cena que tem muito de "déja vu".
Já li (depois de assisti-lo) que a “ estética é similar a de Cidade de Deus”. Filme que não vi e não gostei.

fevereiro 19, 2009

Don't Divorce us


Este video é de uma campanha pela manutenção dos casamentos que foram realizados na Califórnia, durante o período em que esteve permitido, e que agora estão ameaçados de serem anulados pela aprovação de uma nova proposição. Sâo imagens emocionantes!

Cadernos, agendas e afins

Lendo os blogs da BRAVO! onde, dentre outros, se encontra o do Paulo Roberto Pires, deparei-me com esta que bateu comigo de imediato. Guardo um monte de "caderninhos" aos quais se juntam agendas de todos os tipos, feitios e temas...Resistem a todas as "sessões desapego" que promovo. Aparece sempre uma gavetinha disponível para eles. Todos meio usados. Quando comecei o blog cheguei a pensar que eles desapareceriam naturalmente, por desnecessários. Ledo ivo engano. Não posso prescindir do Moleskine onde tenho anotações preciosas para viagens (atuais e futuras), o de telefones (mesmo tendo a agenda no cel) e endereços (gosto de surpreender meus amigos com um cartão ou um mimo enviado pelo correio). Em outro, faço anotações de alguns aniversários (tenho que cuidar para não repetir os presentes!), registro títulos de livros e filmes que preciso ver, pensamentos, frases...Este ano ganhei da W. com imagens do Vetriano e com aquele elástico fechando! No meu caso, anotar não é vício, mas necessidade. Se tiro o caderninho da bolsa, acabo me valendo até de guardanapos. A propósito, estou com um fixado no painel em que está escrito "amarando" "amarandano". A falta que faz um caderninho...

"O que leva um ser humano a ter em casa uma gaveta cheia, entupida, de caderninhos em branco? Moleskines, é claro, mas nunca suas imitações, quase sempre deprimentes. Outros sem grife (nem pretensão, o que é fundamental), mas cheios de personalidade. Alguns lindos e péssimos para escrever; outros meio feiosos e muito úteis. É muita página em branco mas, sinceramente, tenho gostado tanto delas, imaculadas, quanto das tantas outras, cheias, com que convivo diariamente.
O fascínio pelo caderninho é ambíguo. Ele representa sempre a possibilidade de escrever alguma coisa. Mas, às vezes, pode intimidar: um daqueles caderninhos clássicos, capa dura, fechada com elástico, sugere que se escreva nele algo de alguma forma “importante”. Por isso, pelo menos para mim, eles vão envelhecendo, amarelando, virgens como vieram o mundo.
Joan Didion, que ao que tudo indica vem usando bem os seus há muitos anos, lembra que, mais importante do que aquilo que se anota, é o próprio vício de anotar. Diz ela no delicioso “Sobre manter um caderninho de notas”: “O impulso de anotar coisas é particularmente compulsivo, inexplicável para quem não compartilha dele, útil apenas acidentalmente, apenas secundariamente, assim como toda compulsão tenta se justificar”.
O caderninho é, sempre, um caderno incompleto. Abre-se um novo, por exemplo, quando se sai em viagem. Ali podem ir dicas, telefones e endereços, listas de presentes. Eventualmente, anota-se algo em um museu (embora para mim seja um mistério o que tanto essa gente escreve numa exposição), mata-se um tempo morto rabiscando ou, até, quem sabe, nasce ali algo que preste. O problema é que, ao voltar para casa, constata-se que ainda faltam umas 40 páginas para o bichinho acabar. Na dúvida entre misturar uma lista de supermercado com temas supostamente mais nobres, lá vai para a gaveta mais um “meio usado”.
Nunca fui de anotar em livro meu nome, data e lugar onde comprei. Mas acho que seria divertido fazer isso nos caderninhos desde que passei a visitar tantas papelarias quanto livrarias. Fico imaginando toda uma prateleira cheia de cadernos vazios, tendo como epígrafe estas estranhas informações – e só. Paul Valéry dizia que um escritor se mede também pelo que não publica; penso que também poderia se avaliar pelo que não escreve. Assim sendo, já tenho prontinhas as minhas obras completas."

Pesquisando a parede

Quando conheço alguém que me parece interessante fico muito curiosa por conhecer a sua casa. Claro que não manifesto. Mas se me é dada a oportunidade, nunca me interesso pelo que querem me mostrar. Coisas como o sofá bacana, a mesa de grife ou a reforma que fez, está fazendo ou sonha fazer. Nada disso me parece interessante tanto quanto o que está nas paredes. Enquanto não tiver nada nas paredes, para mim a casa não diz nada, ainda não tem alma. Daí ter achado bem interessante este texto.

"Jornalistas, como detetives e dramaturgos, tratam o que as pessoas colocam nas paredes -ou em qualquer superfície plana- não como objetos, mas como portas para a personalidade delas. Como diz o ditado, o Diabo está nos detalhes, assim como a delícia. Então, quando entrevisto alguém para um perfil, meus olhos esquadrinham o ambiente atrás de minúcias que rendam um retrato mais claro e colorido do entrevistado. Esses binóculos embutidos não descansam nem mesmo quando o resto de mim tenta relaxar.
Um exemplo foi, muitos anos atrás, quando conheci uma feminista californiana numa festa, dei-lhe uma carona e ela me convidou a entrar. Dentro de sua casa, tirei os sapatos (como pedira) e sentei no sofá em frente a uma grande placa que dizia "Agradeço por não fumar". A mensagem nada sutil me fez imaginar se havia outra placa no banheiro, dizendo "Agradeço por não urinar no chão", e outra no quarto, dizendo "Agradeço por me esperar gozar". Essas imagens, reais e imaginadas, me sugeriram que deveria dar boa noite cedo.
Na sala de uma emergente carioca, uma pintura abstrata -cujas cores e estampas eram idênticas às do sofá em frente- também me deu uma dose cavalar de desconforto, assim como o comentário da dona -de que a encomendara para combinar com o sofá. Um quadro no consultório de um neurologista também me distanciou do dono. O óleo mostrava os Beatles em detalhes ovais, coroando outro detalhe oval com o do médico. Eu me perguntei se o quinto Beatle curaria minha insônia ou a agravaria.
Uma vez, um amigo capixaba me levou para conhecer a mãe, de 83 anos. O salão da mansão tinha paredes nuas, exceto por dois retratos da mãe, feitos 50 anos antes. Eles revelavam uma mulher linda e elegante, disse a ele. "Mamãe adoraria ouvir isso", disse, confirmando o que os quadros haviam me sugerido. Então, numa sala no segundo andar, enquanto sua ainda bela mãe o abraçava, eu disse: "Não me falou que tinha uma irmã mais velha", o que a conquistou de vez.
Uma vez, fui ver um editor da "Newsweek" sobre um emprego. A tendência centrista da revista não combinava comigo, mas era a linha editorial da grande mídia e isso não me impedira de trabalhar como freelancer para eles. Mas, ao entrar na sala dele, dei de cara com uma foto de George H. W. Bush (o primeiro Bush na Casa Branca) e a mulher, com os dizeres: "Feliz Natal, fulano, de George e Barbara". A mensagem da foto -não questione o poder, respeite e mostre deferência- era difícil de ignorar. Primeiro, vinha de um jornalista. Segundo, cobria quase toda a parede. Então, quando fulano me ofereceu um emprego nas Filipinas, recusei. Eu não queria trocar o Rio, onde morava, por Manila e sabia que não tinha futuro na revista. Não estava escrito nas estrelas, mas sim na parede."

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MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil,