E QUEM NÃO quer saber de Carnaval, faz o quê? Outro dia fui almoçar com amigos e foi difícil escolher o restaurante, pois perto de cada um deles ia sair um bloco.
Depois de muito pensar, descobrimos um no Leblon, numa rua sossegada, pois só queríamos conversar. Qual nada. Foi começando a chegar gente no botequim ao lado -era a turma do esquenta -, logo um caminhão de som encostou, e a folia começou.
Para quem não é chegado a Carnaval, é absolutamente incompreensível aquele mundo de gente de todas as idades sambando e cantando "Sassaricando" ou "Me dá um dinheiro aí". Será que essas pessoas não têm problemas, tristezas, e basta a música começar para pular e cantar -todos sabem as letras, pois em sua maioria são de idade mais para lá do que para cá. De bermuda, camiseta e sandália de borracha, na maior alegria dessa vida, percorrem as ruas do bairro mostrando que animação existe, e é com eles mesmo. E são dezenas, talvez centenas de blocos que saem pelas ruas uma semana antes do Carnaval (e também durante), numa alegria sadia, que mesmo tendo nos impedido de conversar, foi bonito de ver.
E incompreensível, sobretudo, é pensar que você já fez tudo isso -e ainda enfrentava os bailes à noite. Lembro do meu pai dizendo que não conseguia compreender aquele bando de gente cantando e dançando na rua; e eu não compreendia o fato de meu pai não compreender. E agora sou eu quem não compreende, veja você.
Ouvi no rádio do táxi que, para quem não quer nem ouvir falar de Carnaval, o melhor lugar para ir é Curitiba, mas se eu quisesse mesmo fugir, não confiaria na informação. Brasileiro gosta de uma folia, e Curitiba não é tão longe assim. Se me fosse totalmente impossível ouvir o som de "Chiquita Bacana", mesmo de longe, acho que ficaria dentro de casa trancada no quarto, com bolinhas de algodão nos ouvidos. Mas a verdade é que não tenho horror ao Carnaval. Não quero estar no meio do fuzuê, mas lembro com nostalgia dos meus tempos de carnavalesca, que, aliás, começaram bem cedo.
Durante anos me fantasiei, durante anos fui ver os desfiles das escolas de samba, durante anos brinquei e pulei -era assim que se dizia- o Carnaval, com uma animação de dar gosto.
E é com uma certa melancolia que vejo que esse tempo passou. Eu não sou mais a mesma; talvez melhor, certamente pior, não importa, mas aquela fase acabou e nunca mais vai voltar.
Por tudo isso, para quem gosta de sair nos blocos, ir aos bailes, se fantasiar, sambar na avenida, só posso dizer que aproveitem e façam tudo que tiverem vontade. Porque quando ouvir o povo cantando "Quanto riso, ó, quanta alegria", ou "Bandeira branca, amor, não posso mais", e lembrar daquele Carnaval, AQUELE -ah, como foi bom!-, pode ficar sentimental, tudo que procura evitar. Mas vamos reconhecer que no fundo morremos de pena daquele tempo ter passado (para nós), e que esse "horror" ao Carnaval não passa de uma certa inveja.
Justa, aliás.
Danuza Leão na FSP, hoje
fevereiro 22, 2009
no que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem
das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém.
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém
havia sempre mais alguém
para o chamar então a si,
também vivendo o que menti,
mas como seu, mas como sem
ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem.
é a sua vez. e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.
(rondó da escrita)
Vasco Graça Moura
Experiência sinestésica
Antes de sair para a praia, lia o jornal quando me deparei com a notícia de um estudo sobre a habilidade do cérebro de misturar os sentidos. Pensei: isto é demais para mim que vivo aspirando tão somente manter a memória ( a recente porque a antiga continua bem fresquinha). Essa "estranha" (segundo a pesquisa) capacidade de "ouvir cores" e "cheirar sons" e "enxergar música” se chama sinestesia e estaria por trás da memória dos chamados savants, que são as pessoas de memória prodigiosa e de grande habilidade com números. Acreditam os cientistas que a sinestesia surja quando conexões extras no cérebro cruzam as regiões responsáveis por diferentes sentidos.Continuei pensando no flagelo das minhas sinapses... Pois vejam por onde as coisas andam. Na pesquisa de um caso de sinestesia audiovisual, a pessoa declarou: "Quando eu escuto um violino, eu vejo algo parecido com um bom vinho vermelho" , enquanto que escutar "um violoncelo, já lembra mais o mel".
Fechei o jornal e fui. Quando se está diante de uma marzão verdinho, um céu gritando de azul e um sol quente dourando tudo isto, pensar numa cerveja gelada também seria uma experiência sinestésica?
Haja ciência para responder esta....
Carnaval em Curitiba
"Lembro Jamil Snege, atrás da mesa, cigarro entre os dedos: "Carnaval em Curitiba? Não dá. O sujeito pula na rua, alegrinho, vem o guarda e prende!" Vendo de um certo jeito, é uma espécie de maldição esse carnaval — ou não-carnaval — na cidade. Temos até de nos explicar por escrito, como agora. Parece que carregamos a culpa pela falta de espírito carnavalesco, a vergonha do falso rebolado, essa triste ausência de brasilidade, quem sabe até falta de patriotismo! Quando o Brasil inteiro dança, nós aqui, naquele silêncio de missa, andando pelas ruas vazias, metendo o olho crítico no primeiro engraçadinho que sai por aí fazendo escândalo. Coisa de bêbados!
Nem as crianças se entusiasmam: uma terça-feira gorda no Parque Barigüi, que descanso! Parece que estamos passeando em Genebra num começo de primavera! Nenhuma máscara de pirata ou palhaço, nada de serpentina, nem um único confete no chão, naquelas trilhas onde o pessoal sério faz a firme corrida vespertina, bufando, como se não estivesse acontecendo nada no resto do Brasil. É uma coisa tão desenxabida, que quem defende o carnaval da cidade tem de fazê-lo aos gritos, em altos brados, tem de exigir atitude das autoridades, reclamar por leis mais severas, mandar requerimento aos vereadores! Ora, alguma coisa tem de ser feita contra esse crime, parecem dizer, contra essa terrível indiferença!
Bem, carnaval que precisa de lei ou regulamentação, que precisa de muito apoio, defesas apaixonadas para uma platéia apática ou apenas discretamente divertida, tem alguma coisa errada — ou não tem nada errado; apenas não existe. Parece que há uma incompatibilidade radical entre o espaço curitibano e a idéia de carnaval. Digo "espaço" porque, no período, uma horda imensa de curitibanos foge daqui, desabala-se sôfrega em filas intermináveis para descer ao litoral onde, apertada na multidão que enche calçadas, praias, restaurantes, bares, supermercados e apartamentos, passa quatro dias, às vezes sem água na torneira, reclamando da chuva. Ou os habitantes escapam para Floripa, para o Rio, escondem-se em Antonina, em qualquer lugar onde possam se divertir. Aqui, alguma coisa decididamente não combina.
E não é de hoje. A edição de O Paranaense, de 15 de fevereiro de 1880, ilustra-nos Wilson Martins, descrevia os "folguedos carnavalescos" como um desfile de "raras e desengraçadas figuras". Observe-se a finura crítica da expressão, nossa marca registrada: "desengraçadas figuras" — onde naufraga o carnaval, brilha a linguagem.
Há algumas surpresas. Anos atrás, fui pela primeira vez ao antigo Bar do Ermes em pleno carnaval: fregueses bebiam cerveja tranqüilos nas mesas espalhadas, como numa noite de outubro. Mas percebi um som ao fundo, algo que vinha dos subterrâneos, vibrava o chão, uma espécie de bate-estacas que se aproxima. Descobri a escada para o porão e naquele pequeno espaço sem ar, enfumaçado, como na Chicago da Lei Seca, vislumbrei uma multidão clandestina que pulava carnaval, acotovelando-se no escuro com serpentina e tudo, num calor infernal e transpirando alegria. O contraste entre aquele caldeirão nas trevas e a paz iluminada lá da terra me sugeriu uma manchete possível para a Tribuna do Paraná: "Polícia estoura ponto de carnaval em Curitiba!"
Tudo bem: não temos carnaval. Mas vejamos de outro modo: em vez de defeito, não seria esse um capital respeitável a ser mais bem-aproveitado? Uma importante cidade brasileira substancialmente avessa ao carnaval! São quatro ou cinco dias de silêncio, de grandes espaços vazios para caminhar — e toda a infra-estrutura de lazer sub-aproveitada, teatros fechados, cinemas às moscas. Calculem-se os milhares — talvez milhões — de brasileiros que, como eu, acham carnaval uma coisa aborrecida e que muitas vezes se submetem por absoluta falta do que fazer àqueles desfiles intermináveis e chatíssimos da rede Globo, oitocentas horas seguidas da mesma coisa, torturados por sambas-enredos idiotas e clonados ao infinito na alegria militarizada da avenida.
Pois esse povo sofrido e sem opção encontraria em Curitiba o seu paraíso! Quanta coisa poderia ser programada nesse período! Desde a versão hard — digamos, um Festival Internacional de Música Sacra ou um Concurso Nacional de Canto Gregoriano — até opções mais suaves, como, quem sabe, Encontros de Jazz Instrumental, algo assim, ou uma boa Mostra do Cinema Escandinavo, etc. São muitas opções. O único cuidado deverá ser vetar expressamente manifestações de MPB, porque atrás delas sempre há o risco de um trio-elétrico aparecer e aí, bem, aí sai todo mundo correndo, acabou o carnaval curitibano e voltamos à estaca zero.
Cristovão Tezza no seu blog
Nem as crianças se entusiasmam: uma terça-feira gorda no Parque Barigüi, que descanso! Parece que estamos passeando em Genebra num começo de primavera! Nenhuma máscara de pirata ou palhaço, nada de serpentina, nem um único confete no chão, naquelas trilhas onde o pessoal sério faz a firme corrida vespertina, bufando, como se não estivesse acontecendo nada no resto do Brasil. É uma coisa tão desenxabida, que quem defende o carnaval da cidade tem de fazê-lo aos gritos, em altos brados, tem de exigir atitude das autoridades, reclamar por leis mais severas, mandar requerimento aos vereadores! Ora, alguma coisa tem de ser feita contra esse crime, parecem dizer, contra essa terrível indiferença!
Bem, carnaval que precisa de lei ou regulamentação, que precisa de muito apoio, defesas apaixonadas para uma platéia apática ou apenas discretamente divertida, tem alguma coisa errada — ou não tem nada errado; apenas não existe. Parece que há uma incompatibilidade radical entre o espaço curitibano e a idéia de carnaval. Digo "espaço" porque, no período, uma horda imensa de curitibanos foge daqui, desabala-se sôfrega em filas intermináveis para descer ao litoral onde, apertada na multidão que enche calçadas, praias, restaurantes, bares, supermercados e apartamentos, passa quatro dias, às vezes sem água na torneira, reclamando da chuva. Ou os habitantes escapam para Floripa, para o Rio, escondem-se em Antonina, em qualquer lugar onde possam se divertir. Aqui, alguma coisa decididamente não combina.
E não é de hoje. A edição de O Paranaense, de 15 de fevereiro de 1880, ilustra-nos Wilson Martins, descrevia os "folguedos carnavalescos" como um desfile de "raras e desengraçadas figuras". Observe-se a finura crítica da expressão, nossa marca registrada: "desengraçadas figuras" — onde naufraga o carnaval, brilha a linguagem.
Há algumas surpresas. Anos atrás, fui pela primeira vez ao antigo Bar do Ermes em pleno carnaval: fregueses bebiam cerveja tranqüilos nas mesas espalhadas, como numa noite de outubro. Mas percebi um som ao fundo, algo que vinha dos subterrâneos, vibrava o chão, uma espécie de bate-estacas que se aproxima. Descobri a escada para o porão e naquele pequeno espaço sem ar, enfumaçado, como na Chicago da Lei Seca, vislumbrei uma multidão clandestina que pulava carnaval, acotovelando-se no escuro com serpentina e tudo, num calor infernal e transpirando alegria. O contraste entre aquele caldeirão nas trevas e a paz iluminada lá da terra me sugeriu uma manchete possível para a Tribuna do Paraná: "Polícia estoura ponto de carnaval em Curitiba!"
Tudo bem: não temos carnaval. Mas vejamos de outro modo: em vez de defeito, não seria esse um capital respeitável a ser mais bem-aproveitado? Uma importante cidade brasileira substancialmente avessa ao carnaval! São quatro ou cinco dias de silêncio, de grandes espaços vazios para caminhar — e toda a infra-estrutura de lazer sub-aproveitada, teatros fechados, cinemas às moscas. Calculem-se os milhares — talvez milhões — de brasileiros que, como eu, acham carnaval uma coisa aborrecida e que muitas vezes se submetem por absoluta falta do que fazer àqueles desfiles intermináveis e chatíssimos da rede Globo, oitocentas horas seguidas da mesma coisa, torturados por sambas-enredos idiotas e clonados ao infinito na alegria militarizada da avenida.
Pois esse povo sofrido e sem opção encontraria em Curitiba o seu paraíso! Quanta coisa poderia ser programada nesse período! Desde a versão hard — digamos, um Festival Internacional de Música Sacra ou um Concurso Nacional de Canto Gregoriano — até opções mais suaves, como, quem sabe, Encontros de Jazz Instrumental, algo assim, ou uma boa Mostra do Cinema Escandinavo, etc. São muitas opções. O único cuidado deverá ser vetar expressamente manifestações de MPB, porque atrás delas sempre há o risco de um trio-elétrico aparecer e aí, bem, aí sai todo mundo correndo, acabou o carnaval curitibano e voltamos à estaca zero.
Cristovão Tezza no seu blog
fevereiro 21, 2009
Hilda Hilst

Já estava passando da hora de postar sobre a Hilda Hilst (autora do primeiro poema a vir para o blog). Este mês fez cinco anos de sua morte e a CULT traz a matéria que pode ser lida clicando o título.
Hilda Hilst, em mais de 40 anos de literatura, escreveu poesia, ficção e teatro e passou grande parte deste tempo esbravejando contra o silêncio da crítica e a incompreensão dos leitores. No final de sua vida ostentava uma sarcástica soberba a respeito da própria obra. A entrevista que foi publicada, na mesma revista CULT, em julho de 1998 :
Como foi a experiência de escrever crônicas, falar do dia-a-dia, você que é uma autora preocupada com a noção de Deus e a idéia da morte? Foi muito diferente de escrever ficção e poesia?
Hilda Hilst - Foi muito diferente. Eu até aproveitei para divulgar o meu trabalho, voltar aos meus textos. É uma necessidade que eu tenho. Quando eu estava de saco bem cheio, não tinha nada para falar, aí eu punha trechos dos meus textos. E também faz muito tempo que eu estou dura. Mas aí teve um ano que eu fiquei sem dinheiro mesmo. As pessoas não me compram, não compram os meus livros, é dificílimo. Agora parece que está mudando um pouco. Quando você está quase morrendo, parece que dá vontade nas pessoas de te conhecerem. Mas acho que eu ainda não estou suficientemente velha. Nas crônicas às vezes dava para falar do dia-a-dia. Eu gosto especialmente das crônicas mais engraçadas, como a do E.G.E. (Esquadrão Geriátrico de Extermínio), em que eu proponho que as velhinhas (eu incluída) besuntem as pontas de suas bengalas com curare e saiam por aí espetando os políticos. Tem outra deslumbrante em que eu começo falando do Camus e, de repente, baixa o doutor Fritz e eu começo a falar com aquele sotaque alemão. Como em outra sobre a minha dívida de IPTU: "Venho atrravés de meu aparrelho, senhorra Hilst, que está adorrmecida em posizon de lótus, mas psicogrrafando meu mensagem, deizerr-lhes que o aparrelho prrecisa de dinheirras parra pagarr imposto PETÚ." (risos) É engraçadíssimo.
Na crônica Receitas anti-tédio carnavalesco você recomenda um ritual que culmina com um tiro na cabeça. No seu livro Estar sendo - Ter sido também há muitas receitas de suicídio. Você já pensou em se matar?
H.H. - Era uma brincadeira que eu fazia comigo mesma: "Será que não é bom a gente pegar aquele revólver, comprar um 9 mm?" - eu fiquei entendendo dessas coisas, 9 mm e tal. Mas me vinha uma coisa desagradável. Eu tenho muito medo de me assustar. Há também uma receita para isso de se assustar: é só fechar um olho. Quando for se matar, fecha um olho que aí você não fica tão mal, não se assusta tanto. Mas depois de um tempo aconteceram comigo coisas notáveis em matéria de mediunidade, que nem adianta contar porque as pessoas acham que eu sou uma louca. Então desisti, percebi que era uma fantasia minha esse negócio de me matar. Mas continuei interessada no assunto. Procurei por muito tempo esse livro, Suicídio: modo de usar [de Claude Guillon e Yves de Boniée], de onde eu tirei aquelas receitas. Às vezes a pessoa quer se matar em casa e não dá certo. Fica todo mundo batendo na porta, ou arrebentam a porta e tal. Então nesse livro eles ensinam muitas maneiras de se matar. Você pode tomar alguma coisa de efeito retardado, tipo Vesperax, que demora 48 horas, ir para um hotel e pôr aqueles avisos de Do not disturb em todas as línguas. Com esses remédios de efeito retardado, a pessoa dorme magnificamente e morre.
H.H. - Eu tenho um cagaço tenebroso da morte. As pessoas dizem, "nossa, você que fala tanto da morte, tá assim cagada de medo..." É que eu tenho medo do sofrimento. Eu sempre pedi que eu ficasse obscura contanto que não sofresse. E olha que o lá de cima, esse Deus, que eu não conheço, ele cumpriu, não deixou que eu sofresse.
H.H. - O meu Deus não é material. Deus eu não conheço. Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que Ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo. Há uma coisa obscura e medonha nele, que me dá pavor. Ele é uma coisa. Se bem que depois que eu li Heidegger, e releio sempre, não consigo mais falar "coisa". Heidegger escreveu um livro enorme só para falar o que é uma coisa. Mas esse tipo de conversa você não pode pôr na revista. As pessoas ouvem falar em Deus e se chateiam. Tem que falar de coisas normais. Só quando o Paulo Coelho fala em Deus é que as pessoas escutam.
Você sempre diz que ninguém lê seus livros. A resposta a seu livro anterior, Estar sendo - Ter sido, não lhe deixou satisfeita?
H.H. - Este ninguém entendeu nada. Não sei o que é, parece que fica cada vez pior. Eu sempre acho que vai melhorar, mas ninguém entende nada. O que será que é, hein? Às vezes eu releio o que eu escrevo e penso "meu Deus, mas está tão compreensível!". O que será que é?
Você não é uma escritora mais dada à sedução do que à comunicação?
H.H. - Sabe que não sei muito bem. Eu não entendo nada de crítica. Os críticos escrevem umas coisas tão dificílimas sobre o meu trabalho que, ao invés de auxiliarem o outro a compreender, parece que obscurecem tudo. Eu fiquei por anos escrevendo como uma louca sem ninguém entender. Eu sei o que eu sou como escritora. Tenho perfeita noção de quem eu sou como escritor. Mas se lêem e entendem não é o meu departamento.
H.H. - Há amigos meus que dizem que eu enlouqueço as pessoas. Eu fico meio triste com isso porque a loucura como um valor pré-determinado confere uma certa opacidade ao texto. A loucura criadora também é paralisante. Jung fez um trabalho sobre a filha de Joyce, que era esquizofrênica e paranóica, mas não tinha o talento do pai. Meu pai (o poeta Apolonio de Almeida Prado Hilst) escrevia lindamente e acabou esquizofrênico e paranóico. Mas esquizofrenia você não pega como uma gripe, você nasce esquizofrênico. Existe na esquizofrenia uma coisa monocórdica. Graças a Deus eu não fiquei assim. Muitos críticos acham meus textos esquizofrênicos porque há uma certa dificuldade com a pontuação e o fluxo de pensamento dos personagens, o dizer claramente, francamente, mas eu não acho que os textos sejam esquizofrênicos. Eu os leio tão bem.
A virada que você deu em direção à literatura pornográfica (com a trilogia O caderno rosa de Lory Lambi, Contos d'escárnio e Cartas de um sedutor) me parece uma falsa mudança. Você continuou escrevendo da mesma maneira, falando da morte, do inanimado, de Deus, com a mesma descontinuidade narrativa.
H.H. - É verdade. A Gallimard chegou a dizer que eu transformei a pornografia em arte. Jorge Coli diz que considera meu trabalho uma coisa deslumbrante, ele me faz elogios maravilhosos. Mas quando eu mandei para ele as Cartas de um sedutor - livro que eu gostei muito de escrever e possibilitou que me familiarizasse com uma linguagem mais agressiva - ele me disse: "Hilda, depois de ler o livro, eu fiquei doente oito dias". Mas você não riu? - eu disse. E ele: "Mas era para rir?". Eu ria muito escrevendo o Cartas de um sedutor. Eu gosto muito deste personagem, o Karl, eu queria muito que ele continuasse a viver. Outros disseram que o livro era cruel. Sempre me dizem isso, que meu trabalho tem uma crueldade específica.
A maioria dos seus personagens é homem. São eles que têm a necessidade da expressão e da transcendência. As mulheres, por outro lado, são quase sempre um estorvo. Por quê?
H.H. - Porque meus personagens pensam muito. É difícil você imaginar uma mulher assim, com tudo isso na cabeça. São raras as mulheres com fantasias muito enriquecedoras. A fantasia que elas mais gostam parece que é o 69. É o mais imaginoso que elas conseguem (risos). As mulheres querem ter filhos, gostam de penduricalhos, de dançar, de ir a bailecos, eu não sei o que é. Mas meus personagens são muito engraçados também. São meio cínicos, às vezes meio debochados, mas têm muita coisa lá dentro.
Você escreve poesia, ficção e teatro. Qual dos gêneros literários você prefere?
H.H. - Eu me acho perfeita nos três. Pode escrever isso. A única coisa que eu pude fazer na vida foi escrever, porque é a única coisa que eu sei fazer mesmo. Dizem que eu sou megalomaníaca. Sou. Meu texto de ficção é deslumbrante, é da pessoa ficar gozando o tempo todo. O meu teatro continua às moscas, todo inédito*. Eu ganhei o prêmio Anchieta com O verdugo em 1969. Gianni Ratto disse que foi a mais bela peça que ele viu na vida. Poesia é algo de especial. Subitamente você sente alguma coisa diferente. O João Cabral fala horrores da inspiração, mas existe, sim, inspiração. Você fica mesmo com febre quando a poesia acontece. Durante alguns dias você fica tomado por alguma coisa que você não sabe o que é, com uma espécie de febre interior. Quando eu releio as minhas poesias, me dá uma comoção de ter escrito aquilo. Eu me acho deslumbrante como poeta e como escritora. Quando me vem a poesia, ela vem em português de Portugal, com a sonoridade da língua portuguesa original. Minha mãe era filha de portugueses, deve ser por isso. O primeiro verso do Cantares do sem nome e de partidas, "Que este amor não me cegue nem me siga", me veio assim, com sotaque português. O primeiro verso é base para mim. Me vem o primeiro verso e depois, durante dias, vêm os outros, difíceis de trabalhar. Eu fico vermelha, passo mal. Acontece esse milagre.
Você nunca pensou em escrever filosofia?
H.H. - Eu escrevo filosofia em todos os meus livros. Com fundo narrativo ou não, é filosofia pura.
Você foi convidada a participar do Salão do Livro de Paris deste ano e se recusou a ir. Por quê?
H.H. - Eu não vou nem a Pirituba mais. Eu acho um engodo você ter que aparecer e se mostrar. Eu quero que me leiam. Eu não quero explicar o meu trabalho. Você acha normal ficar explicando? E também eu só sei falar a minha língua. Leio muito bem em francês, mas não saberia falar em outra língua as coisas que eu falo em português. Ir lá para quê? Paris era bom quando eu fodia, com vinte anos.
Você continua escrevendo?
H.H. - Não. O que eu escrevi é tão bonito... Eu leio e fico besta. Como é possível eu ter feito uma coisa tão deslumbrante e ninguém compreender? Chega uma hora, quando você vai envelhecendo, vai dando um desapego, você não se importa mais com nada. Nem com a fama. Eu fico lembrando a passagem da Odisséia em que Ulisses está na gruta e o ciclope pergunta "Quem é?". E ele responde "Ninguém, meu nome é Ninguém". É assim que eu me sinto: ninguém, ninguém. Um astrólogo amigo meu disse que em outra vida eu fui uma puta. Por isso que nessa vida eu fiquei obscura, porque na outra eu fui muito conceituada enquanto puta. (risos)
* poucos anos depois vi O caderno rosa de Lory Lambi no Paiol em Ctba.
fevereiro 20, 2009
Carnaval em Veneza
"Primórdios
Com a cristianização do calendário, as festas pagãs foram rebatizadas. Fevereiro era o tempo de "Carne levare levamen", quando eram degustados pela última vez os pratos gordurosos, antes da entrada em quarentena, a "quadragésima", palavra que evoluiu para Quaresma.
Quarenta dias de comidas "magras" até a chegada da Páscoa. Outras teorias remontam o termo a "carrus navalis", carro que distribuía vinho ao povo durante a festa de Isis, deusa egípcia adotada por gregos e romanos.
No século 13, a festa de rua já era chamada de "carnevalo" e assim viajou no tempo até a "Belle Epoque" - final de século 19, comecinho do século 20 - quando continuava a atrair as populações que vinham admirar carros decorados e pessoas fantasiadas. O Carnaval permitia os derradeiros excessos quando a Igreja, em seus primeiros séculos, preparava o cerne da festa de Páscoa, vinda das antigas comemorações pelo término do inverno no Hemisfério Norte.
Nesta ocasião, as regras sociais eram invertidas: os senhores se fantasiavam de escravos e, durante 5 dias, os escravos se transformavam em senhores. Na Idade Média, a festa se realizava nas igrejas e a missa era dita ao contrário - começava com a Eucaristia e terminava com os Atos de Penitência - os ricos se fantasiavam de pobres, os pobres de ricos, as crianças se vestiam de adultos e os adultos de criança.
Carnaval em Veneza
A Sereníssima República de Veneza (Serenìsima Repùblica Vèneta, em vêneto e Serenissima Repubblica di Venezia, em italiano), muitas vezes chamada apenas de Sereníssima, no nordeste da Itália, com capital na cidade de Veneza, foi um Estado que existiu do século nono até 1797 quando, ao ser invadida por Napoleão Bonaparte, foi cedida ao Império Austríaco pelo Tratado de Campofórmio.
Na Europa medieval, especialmente em Veneza, o Carnaval era, igualmente, a festa da saciedade e da inversão.
A inversão de valores e de costumes vinha desde a quebra da hierarquia até ao que aborrecia ou atrapalhava: o empregado era servido pelo patrão, o pobre ironizava o poderoso, o homem se fantasiava de mulher, num travestismo consentido e incentivado. E o carnaval passou a representar o contrário do ritual codificado. Distribuía-se comida aos pobres, para que ficassem saciados numa época em que passavam fome.Todos esqueciam as mágoas e entravam numa espécie de país das maravilhas.
Nas festas pagãs, os deuses e heróis eram motivo para ironia e os religiosos também participavam do clima, simulando brincadeiras obscenas.
Dançavam nos conventos e os lugares sagrados se transformavam em palco de licenciosidade, até que, no século 13, o Papa Inocêncio III promulgou uma bula para banir os espetáculos das igrejas, proibindo que o clero participasse de festas e da devassidão.
Máscaras e fantasias
O primeiro registro do uso de máscaras e fantasias vem de uma lei do ano de 1268, que autorizava o porte não somente no carnaval mas, também, durante seis meses do ano. O anonimato sempre foi uma árvore de sombra frondosa e atos fora da lei e atitudes transgressoras, subversivas e imorais passaram a ser acontecimentos comuns. E o cidadão veneziano incorporou, durante a metade do ano, o hábito de sair às ruas mascarado e agir como bem lhe aprouvesse.
Durante séculos, essa total impunibilidade adquirida no Carnaval, ao mesmo tempo em que contribuiu para a estabilidade econômica de Veneza, precipitou sua queda. Cada pessoa desejava aproveitar a riqueza e os prazeres que ela podia comprar e multiplicar. E a festa pagã, que cada vez durava mais, fazia com que os dias da cidade fossem ficando literalmente contados.
Começando em outubro, o carnaval tornara-se a grande atração com bailes de mascaras e fogos de artifício, abusos sexuais, bacanais, orgias.
Vinha gente de toda Europa para aproveitar a transgressão consentida e regulada por decreto. E todo mundo ganhava: os hoteleiros, os donos de restaurantes, os gondoleiros e os fabricantes de máscaras. Transformada em cidade das festas e prazeres, Veneza viu diminuir sua influência política.
Em 1608, uma lei declarava o uso de máscaras grande ameaça ao funcionamento do Estado. Entre 1799 e 1806, já sob domínio da Áustria, o uso de disfarces passou a ser autorizado somente em festas particulares e assim, acabou o encanto.
Inspiração
O segundo governo austríaco (1815-1866) autorizou novamente as máscaras, mas o carnaval não era mais transgressão.Tornou-se uma parada de carros alegóricos ou um momento em que cada um tentava exprimir sua individualidade.
Apesar das mudanças - ou por causa delas - Veneza passou a ser o lugar preferido dos artistas. Wagner compôs lá parte de sua ópera Tristão e Isolda. Georges Sand, Alfred de Musset e Byron viveram belos casos de amor. Rossini, Bellini, Verdi também ali encontram inspiração para suas obras.
Mas os venezianos já não suportavam a censura austríaca e, em 1848, Daniele Manin proclamou a República, um breve intervalo no jugo e tentativa frustrada de emancipação. Em 1866, Veneza se reintegrou ao Reino da Itália e, do carnaval da liberdade total, sobraram apenas as lembranças.
A cidade continua a ser um destino turístico disputado, mesmo no inverno rigoroso. Nesse ano de 2009, entre 14 e 24 de fevereiro, viajantes do mundo inteiro repetem os mesmos temas do passado, de inspiração histórica ou puramente criativos, elegantes e refinados. A tradição das máscaras confeccionadas manualmente ficou preservada e os bailes tornam o carnaval veneziano moderno um espetáculo raro".
Thereza Pires
na Revista MIX BRASIL
"Slumdog Millionaire"
Sei que “cool” mesmo é falar de “ planos” , “sequências”, “referências a outros diretores” , no máximo da interpretação de um coadjuvante que rouba a cena....etc etc. Mas num filme eu gosto mesmo é da história e da forma como é contada. Sei reconhecer e apreciar os recursos utilizados pelo cinema, mas tudo se reduz à esfera do gostar (ou não) do que vi . No caso deste filme resolvi falar dele antes que ganhe mais premios, além dos 40 que já recebeu. O Oscar será domingo...
É uma produção anglo-indiana cujo título original "Slumdog Millionaire" , pode ser traduzido como "cachorro de favela milionário" ou "vira-lata milionário" (bom,não?) e se passa nas famosas favelas de Mumbai.
A história vem sendo apresentada como “ um conto de fadas moderno” (se miséria e modernidade puderem ser confundidas, claro!). Um garoto analfabeto que participa de um jogo de perguntas e respostas e que ao começar a se tornar um vencedor durante as fases, passa a ser suspeito de estar fazendo trapaças . É entregue a polícia pelo silviosantos do programa e é levado encapuzado da emissora para a polícia onde é cruelmente torturado:sofre afogamentos, choques eletricos, é pendurado por dias, impedido de dormir, apanha muito, perde os sentidos. É “ reanimado” para retornar ao próximo programa e para suspresa do apresentador ( que num dado momento tenta induzi-lo ao erro) nunca desiste. A sua vida miserável vai sendo contada paralelamente ao desenvolvimento do programa e é desta maneira que vai ficando explicado o fato de, sendo ele analfabeto, saber as respostas. Sua vitória é inaceitável, afinal pobre não é para ter nada, nem sorte. O que parece ser a grande mensagem do filme.
O menino (Jamal) desde criança é abandonado junto com o irmão e sobrevivem em meio ao lixo e à fome, cometendo pequenos crimes . Depois Jamal se separa do irmão e troca o crime por bicos e subempregos até ir parar no "Show do Milhão". Há quem destaque que ele fazia tudo para ser visto por uma moça de quem ele havia se separado quando criança e que voltou a avistar junto ao “ vilão” da favela. Na verdade, trata-se de um mero detalhe que aparece no final para que seja mais palatável o desfecho: todos dançando na plataforma de uma estação numa cena que tem muito de "déja vu".
Já li (depois de assisti-lo) que a “ estética é similar a de Cidade de Deus”. Filme que não vi e não gostei.
fevereiro 19, 2009
Don't Divorce us
Este video é de uma campanha pela manutenção dos casamentos que foram realizados na Califórnia, durante o período em que esteve permitido, e que agora estão ameaçados de serem anulados pela aprovação de uma nova proposição. Sâo imagens emocionantes!
Cadernos, agendas e afins
Lendo os blogs da BRAVO! onde, dentre outros, se encontra o do Paulo Roberto Pires, deparei-me com esta que bateu comigo de imediato. Guardo um monte de "caderninhos" aos quais se juntam agendas de todos os tipos, feitios e temas...Resistem a todas as "sessões desapego" que promovo. Aparece sempre uma gavetinha disponível para eles. Todos meio usados. Quando comecei o blog cheguei a pensar que eles desapareceriam naturalmente, por desnecessários. Ledo ivo engano. Não posso prescindir do Moleskine onde tenho anotações preciosas para viagens (atuais e futuras), o de telefones (mesmo tendo a agenda no cel) e endereços (gosto de surpreender meus amigos com um cartão ou um mimo enviado pelo correio). Em outro, faço anotações de alguns aniversários (tenho que cuidar para não repetir os presentes!), registro títulos de livros e filmes que preciso ver, pensamentos, frases...Este ano ganhei da W. com imagens do Vetriano e com aquele elástico fechando! No meu caso, anotar não é vício, mas necessidade. Se tiro o caderninho da bolsa, acabo me valendo até de guardanapos. A propósito, estou com um fixado no painel em que está escrito "amarando" "amarandano". A falta que faz um caderninho..."O que leva um ser humano a ter em casa uma gaveta cheia, entupida, de caderninhos em branco? Moleskines, é claro, mas nunca suas imitações, quase sempre deprimentes. Outros sem grife (nem pretensão, o que é fundamental), mas cheios de personalidade. Alguns lindos e péssimos para escrever; outros meio feiosos e muito úteis. É muita página em branco mas, sinceramente, tenho gostado tanto delas, imaculadas, quanto das tantas outras, cheias, com que convivo diariamente.
O fascínio pelo caderninho é ambíguo. Ele representa sempre a possibilidade de escrever alguma coisa. Mas, às vezes, pode intimidar: um daqueles caderninhos clássicos, capa dura, fechada com elástico, sugere que se escreva nele algo de alguma forma “importante”. Por isso, pelo menos para mim, eles vão envelhecendo, amarelando, virgens como vieram o mundo.
Joan Didion, que ao que tudo indica vem usando bem os seus há muitos anos, lembra que, mais importante do que aquilo que se anota, é o próprio vício de anotar. Diz ela no delicioso “Sobre manter um caderninho de notas”: “O impulso de anotar coisas é particularmente compulsivo, inexplicável para quem não compartilha dele, útil apenas acidentalmente, apenas secundariamente, assim como toda compulsão tenta se justificar”.
O caderninho é, sempre, um caderno incompleto. Abre-se um novo, por exemplo, quando se sai em viagem. Ali podem ir dicas, telefones e endereços, listas de presentes. Eventualmente, anota-se algo em um museu (embora para mim seja um mistério o que tanto essa gente escreve numa exposição), mata-se um tempo morto rabiscando ou, até, quem sabe, nasce ali algo que preste. O problema é que, ao voltar para casa, constata-se que ainda faltam umas 40 páginas para o bichinho acabar. Na dúvida entre misturar uma lista de supermercado com temas supostamente mais nobres, lá vai para a gaveta mais um “meio usado”.
Nunca fui de anotar em livro meu nome, data e lugar onde comprei. Mas acho que seria divertido fazer isso nos caderninhos desde que passei a visitar tantas papelarias quanto livrarias. Fico imaginando toda uma prateleira cheia de cadernos vazios, tendo como epígrafe estas estranhas informações – e só. Paul Valéry dizia que um escritor se mede também pelo que não publica; penso que também poderia se avaliar pelo que não escreve. Assim sendo, já tenho prontinhas as minhas obras completas."
Pesquisando a parede
Quando conheço alguém que me parece interessante fico muito curiosa por conhecer a sua casa. Claro que não manifesto. Mas se me é dada a oportunidade, nunca me interesso pelo que querem me mostrar. Coisas como o sofá bacana, a mesa de grife ou a reforma que fez, está fazendo ou sonha fazer. Nada disso me parece interessante tanto quanto o que está nas paredes. Enquanto não tiver nada nas paredes, para mim a casa não diz nada, ainda não tem alma. Daí ter achado bem interessante este texto.
"Jornalistas, como detetives e dramaturgos, tratam o que as pessoas colocam nas paredes -ou em qualquer superfície plana- não como objetos, mas como portas para a personalidade delas. Como diz o ditado, o Diabo está nos detalhes, assim como a delícia. Então, quando entrevisto alguém para um perfil, meus olhos esquadrinham o ambiente atrás de minúcias que rendam um retrato mais claro e colorido do entrevistado. Esses binóculos embutidos não descansam nem mesmo quando o resto de mim tenta relaxar.
Um exemplo foi, muitos anos atrás, quando conheci uma feminista californiana numa festa, dei-lhe uma carona e ela me convidou a entrar. Dentro de sua casa, tirei os sapatos (como pedira) e sentei no sofá em frente a uma grande placa que dizia "Agradeço por não fumar". A mensagem nada sutil me fez imaginar se havia outra placa no banheiro, dizendo "Agradeço por não urinar no chão", e outra no quarto, dizendo "Agradeço por me esperar gozar". Essas imagens, reais e imaginadas, me sugeriram que deveria dar boa noite cedo.
Na sala de uma emergente carioca, uma pintura abstrata -cujas cores e estampas eram idênticas às do sofá em frente- também me deu uma dose cavalar de desconforto, assim como o comentário da dona -de que a encomendara para combinar com o sofá. Um quadro no consultório de um neurologista também me distanciou do dono. O óleo mostrava os Beatles em detalhes ovais, coroando outro detalhe oval com o do médico. Eu me perguntei se o quinto Beatle curaria minha insônia ou a agravaria.
Uma vez, um amigo capixaba me levou para conhecer a mãe, de 83 anos. O salão da mansão tinha paredes nuas, exceto por dois retratos da mãe, feitos 50 anos antes. Eles revelavam uma mulher linda e elegante, disse a ele. "Mamãe adoraria ouvir isso", disse, confirmando o que os quadros haviam me sugerido. Então, numa sala no segundo andar, enquanto sua ainda bela mãe o abraçava, eu disse: "Não me falou que tinha uma irmã mais velha", o que a conquistou de vez.
Uma vez, fui ver um editor da "Newsweek" sobre um emprego. A tendência centrista da revista não combinava comigo, mas era a linha editorial da grande mídia e isso não me impedira de trabalhar como freelancer para eles. Mas, ao entrar na sala dele, dei de cara com uma foto de George H. W. Bush (o primeiro Bush na Casa Branca) e a mulher, com os dizeres: "Feliz Natal, fulano, de George e Barbara". A mensagem da foto -não questione o poder, respeite e mostre deferência- era difícil de ignorar. Primeiro, vinha de um jornalista. Segundo, cobria quase toda a parede. Então, quando fulano me ofereceu um emprego nas Filipinas, recusei. Eu não queria trocar o Rio, onde morava, por Manila e sabia que não tinha futuro na revista. Não estava escrito nas estrelas, mas sim na parede."
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MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil,
"Jornalistas, como detetives e dramaturgos, tratam o que as pessoas colocam nas paredes -ou em qualquer superfície plana- não como objetos, mas como portas para a personalidade delas. Como diz o ditado, o Diabo está nos detalhes, assim como a delícia. Então, quando entrevisto alguém para um perfil, meus olhos esquadrinham o ambiente atrás de minúcias que rendam um retrato mais claro e colorido do entrevistado. Esses binóculos embutidos não descansam nem mesmo quando o resto de mim tenta relaxar.
Um exemplo foi, muitos anos atrás, quando conheci uma feminista californiana numa festa, dei-lhe uma carona e ela me convidou a entrar. Dentro de sua casa, tirei os sapatos (como pedira) e sentei no sofá em frente a uma grande placa que dizia "Agradeço por não fumar". A mensagem nada sutil me fez imaginar se havia outra placa no banheiro, dizendo "Agradeço por não urinar no chão", e outra no quarto, dizendo "Agradeço por me esperar gozar". Essas imagens, reais e imaginadas, me sugeriram que deveria dar boa noite cedo.
Na sala de uma emergente carioca, uma pintura abstrata -cujas cores e estampas eram idênticas às do sofá em frente- também me deu uma dose cavalar de desconforto, assim como o comentário da dona -de que a encomendara para combinar com o sofá. Um quadro no consultório de um neurologista também me distanciou do dono. O óleo mostrava os Beatles em detalhes ovais, coroando outro detalhe oval com o do médico. Eu me perguntei se o quinto Beatle curaria minha insônia ou a agravaria.
Uma vez, um amigo capixaba me levou para conhecer a mãe, de 83 anos. O salão da mansão tinha paredes nuas, exceto por dois retratos da mãe, feitos 50 anos antes. Eles revelavam uma mulher linda e elegante, disse a ele. "Mamãe adoraria ouvir isso", disse, confirmando o que os quadros haviam me sugerido. Então, numa sala no segundo andar, enquanto sua ainda bela mãe o abraçava, eu disse: "Não me falou que tinha uma irmã mais velha", o que a conquistou de vez.
Uma vez, fui ver um editor da "Newsweek" sobre um emprego. A tendência centrista da revista não combinava comigo, mas era a linha editorial da grande mídia e isso não me impedira de trabalhar como freelancer para eles. Mas, ao entrar na sala dele, dei de cara com uma foto de George H. W. Bush (o primeiro Bush na Casa Branca) e a mulher, com os dizeres: "Feliz Natal, fulano, de George e Barbara". A mensagem da foto -não questione o poder, respeite e mostre deferência- era difícil de ignorar. Primeiro, vinha de um jornalista. Segundo, cobria quase toda a parede. Então, quando fulano me ofereceu um emprego nas Filipinas, recusei. Eu não queria trocar o Rio, onde morava, por Manila e sabia que não tinha futuro na revista. Não estava escrito nas estrelas, mas sim na parede."
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MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil,
fevereiro 18, 2009
O R Q U I D Á R I O
A mega SÃO PAULO esconde nichos que não param de nos surpreender. Estes dias, li na FSP sobre as orquídeas salvas do lixo e que agora enfeitam árvores das calçadas, numa matéria curtinha da Mariana Barros. Já começo com um parêntese. Tempos atrás comentei uma notícia - não transcrevi o texto como faço agora – e o repórter escreveu reclamando a autoria . Tratava-se de um “ colaborador” e aquele talvez fosse seu primeiro texto. Atribui-lhe o crédito, embora não tivesse havido "apropriação”. Mas vamos ao simpático relato da Mariana, devidamente aspeado, que, à falta de uma foto para ilustrá-lo, nos levará a passar neste "orquidário", cultivado por porteiros, zeladores e faxineiros, todos de provável origem nordestina. A pista é que de Sampa para baixo as plantas são regadas e não " aguadas" , a forma que continuo usando. Como eu, eles talvez também só tenham visto uma orquídea depois de adultos...
“A primeira vez que o faxineiro Tássio Palmeira, 37, viu uma orquídea foi há cerca de três anos, quando um dos moradores do prédio onde trabalha nos Jardins (zona oeste de São Paulo) jogou fora um vaso onde só restavam folhas e um ramo que parecia seco”.
“Ele e o zelador Vanderlei Pascoal da Silva, 46, pegaram a planta para cuidar e, algum tempo depois, viram o caule voltar a florescer. "Caíram as flores, mas ela estava viva", relembra Palmeira, que diz que gosta das orquídeas porque "quando parece que morreram, elas voltam bonitas".
Palmeiras e Silva integram um grupo que vem enfeitando as ruas dos Jardins: o de funcionários dos edifícios de classe alta que adotam orquídeas dispensadas por moradores e as usam para embelezar as árvores da calçada.”
A árvore em frente ao prédio onde Palmeira e Silva trabalham já tem mais de dez plantas penduradas. "Tenho um amigo que mexe com orquídea e me ensinou a amarrar. Mas ele fica com ciúme porque na casa dele não fica bonito assim", diz Silva, acrescentando que há quem pare para fotografar.
Na alameda Tietê, onde fica o "orquidário" da dupla, há pelo menos mais três árvores decoradas com as flores. Uma delas recebe os cuidados do zelador Antônio Martins, que sabe de cor a época do ano em que cada uma delas floresce. "Comecei a pesquisar. Essa, por exemplo, só dá no inverno. É minha preferida." Martins começou o cultivo há um ano e meio, por sugestão de uma moradora. "Não acreditava que pegassem."
A alguns quarteirões dali, na rua Joaquim Eugênio de Lima, o zelador Ilson de Souza Mates admite ter copiado a ideia de colegas da rua Sarutaiá, travessa de onde trabalha. "Achei bonito e quis fazer também." Mates diz que já pegou orquídeas jogadas em caçambas ou trazidas por vizinhos. "Outro dia um rapaz que tem orquidário parou aqui e me deu umas dicas, disse para eu não "aguar" tanto."
Nas duas árvores da Sarutaiá cuidadas por funcionários do mesmo edifício, há mais de 30 orquídeas penduradas -23 delas ao redor de um mesmo tronco. O porteiro Antônio Pereira da Silva explica a superlotação. "Tem gente que para de carro e pede para a gente por aí", diz, contando que os funcionários não conseguem recusar. Questionado se não gostaria de levar uma para cuidar em casa, ele diz que não. "Elas estão tão bonitinhas aí."
“A primeira vez que o faxineiro Tássio Palmeira, 37, viu uma orquídea foi há cerca de três anos, quando um dos moradores do prédio onde trabalha nos Jardins (zona oeste de São Paulo) jogou fora um vaso onde só restavam folhas e um ramo que parecia seco”.
“Ele e o zelador Vanderlei Pascoal da Silva, 46, pegaram a planta para cuidar e, algum tempo depois, viram o caule voltar a florescer. "Caíram as flores, mas ela estava viva", relembra Palmeira, que diz que gosta das orquídeas porque "quando parece que morreram, elas voltam bonitas".
Palmeiras e Silva integram um grupo que vem enfeitando as ruas dos Jardins: o de funcionários dos edifícios de classe alta que adotam orquídeas dispensadas por moradores e as usam para embelezar as árvores da calçada.”
A árvore em frente ao prédio onde Palmeira e Silva trabalham já tem mais de dez plantas penduradas. "Tenho um amigo que mexe com orquídea e me ensinou a amarrar. Mas ele fica com ciúme porque na casa dele não fica bonito assim", diz Silva, acrescentando que há quem pare para fotografar.
Na alameda Tietê, onde fica o "orquidário" da dupla, há pelo menos mais três árvores decoradas com as flores. Uma delas recebe os cuidados do zelador Antônio Martins, que sabe de cor a época do ano em que cada uma delas floresce. "Comecei a pesquisar. Essa, por exemplo, só dá no inverno. É minha preferida." Martins começou o cultivo há um ano e meio, por sugestão de uma moradora. "Não acreditava que pegassem."
A alguns quarteirões dali, na rua Joaquim Eugênio de Lima, o zelador Ilson de Souza Mates admite ter copiado a ideia de colegas da rua Sarutaiá, travessa de onde trabalha. "Achei bonito e quis fazer também." Mates diz que já pegou orquídeas jogadas em caçambas ou trazidas por vizinhos. "Outro dia um rapaz que tem orquidário parou aqui e me deu umas dicas, disse para eu não "aguar" tanto."
Nas duas árvores da Sarutaiá cuidadas por funcionários do mesmo edifício, há mais de 30 orquídeas penduradas -23 delas ao redor de um mesmo tronco. O porteiro Antônio Pereira da Silva explica a superlotação. "Tem gente que para de carro e pede para a gente por aí", diz, contando que os funcionários não conseguem recusar. Questionado se não gostaria de levar uma para cuidar em casa, ele diz que não. "Elas estão tão bonitinhas aí."
EX - VILÃO
São anos de privação. Ao ponto de haver feito uma declaração de última vontade: na reta final quero comer ovos mexidos ou fritos com as bordas queimadinhas. Nada de bacon ou outros floreios, só ovos. Renunciei aos célebres ovos moles em Aveiros, diante de uma vitrine que para mim representava uma verdadeira ameaça não só a minha, mas à saúde pública. Perdi a conta das ambrosias que recusei nos últimos vinte anos... Tantas renúncias que já nem sei, tantos foram os anos me privando dos prazeres e deleites que só as delícias feitas com ovos proporcionam...
OVO, com seu design perfeito e irretocável acabamento, era sem a menor dúvida, o inimigo público nº 1, o responsável pelo aumento do colesterol. E eis que acaba de ser divulgado um relatório “definitivo” (?) de uma universidade inglesa afirmando que o ovo não faz mal à saúde !!!
Esta reabilitação, para mim tardia, exige um pedido de desculpas pública.
Quiçá uma reparação!!!!
fevereiro 17, 2009
Swásthya!
"Yoga é uma antiga filosofia de vida que se originou na Índia há mais de 5000 anos. Segundo consta seria o mais antigo e holístico sistema para colocar em forma o corpo e a mente. Literalmente, Yoga significa união pois ele une e integra o corpo, a mente e nossas emoções para que sejamos capazes de agir de acordo com nossos pensamentos e com o que sentimos. O Yoga nos induz a um profundo relaxamento, tranqüilidade mental, concentração, clareza de pensamento e percepção interior juntamente com o fortalecimento do corpo físico e o desenvolvimento da flexibilidade." (http://www.yogasite.com.br/yogasite/yoga.htm)
Ultimamente, tenho ouvido falar muito em yoga (pronuncia com Ô fechado) pelo meu amigo Hugo que, em busca de bem estar e de " se tornar um velhinho legal" (as palavras são dele), se tornou um praticante. Amanhã será o dia da Yoga!
Cada um de nós, ainda não entrados na velhice - o meu geriatra diz que é só a partir de oitenta -, por caminhos diversos, tem procurado melhorar esta tal de "qualidade de vida", agora que a envelhecência tornou-se o período mais longo de nossas vidas. Andei "espreitando" (como dizem os lusos) alguns sites, textos e videos. Parece ser interessante a yoga, mas não é a minha praia.
Com ou sem yoga, não acredito que alguém se torna legal ao ficar, ou porque ficou, velhinho. Continuam os mesmos. Há os que tendem a acentuar alguns defeitos e manias. Mas isto não é a regra. E, se for, tem as exceções de sempre. Tenho amigas que se tornaram mais, digamos, leves, depois dos sessenta . Por outro lado, tem certos velhinhos, alguns meio abandonados, que ao olhá-los penso: vai ver era um chato! Agora não tem mais nada que dê jeito! Será um velho chato!
Nestas horas me sinto bem aliviada de não ter um para aturar. Embora tenha conhecido e conheça alguns velhinhos "legais". O Pepe (pai da Beatriz) era uma graça. Mesmo sem ser próxima dele, vez por outra conto as estórias do avô do meu genro que me parece uma delícia como velhinho. O pai do Tito é outro que tem o humor ótimo!
E os velhinhos mais distantes: o Rubem Alves (vive no blog), o Millor (não perdeu a verve). Quanto ao Cony, passei a fazer algumas ressalvas...
Eu tinha dito para o Hugo que ia fazer uma postagem sobre YOGA. Agora foi!
(sobre yoga clique no título)
As muito seguras (in)verdades
Sair do seu ambiente, que é um quarto, um bairro, um país, é sempre desestabilizador. Se me disseram que meu bairro em Porto Alegre tem uma maior incidência de crimes que tal outro, dificilmente vou conseguir mudar minha atitude de andar mais tranquila no meu bairro, e mais alerta naqueles com os quais não sou familiar. O hábito dá uma (falsa) ideia de segurança, e portanto mais seguro é aquele que eu conheço, e pronto. É muito mais subjetivo do que lógico.
Quando se muda de país, busca-se estabelecer logo uma relação com o lugar, que nada mais é do que uma relação de domínio: conhecer e entender para sentir-se segura e, mais do que isso, integrada. Há uma pressa então em se compreender o que está em volta, que obviamente nunca pode ser decodificado de uma forma tão rápida e simples. E o pior, erro frequente que eu mesmo cometo às vezes, é tentar "ler" um país pela lógica que se aplica a outro. Não dá. Um piso improvisado num prédio de classe média parisiense vai além da negligência ou descaso, como podemos de cara pensar. Séculos de história explicam essas coisinhas triviais, e mesmo os hábitos para os quais torcemos o nariz, como "francês não toma banho" fazem parte de uma cadeia da qual muitas vezes insistimos em ver só a ponta. Essa gente teve IDADE MÉDIA! Tal é a frase que às vezes me arremata, e que explica muitas coisas que se vê por aqui, para o bem ou para o mal.
Desconfio que essa ansiedade em entender onde diabos estamos agora, e como diabos essas pessoas são e como essas pessoas agem e o que pensam elas, pode descambar para as piores generalizações. Afinal, colar etiquetas é sempre mais fácil que parar para pensar: digo é assim, colo em cima aquela verdade definitiva, e passo para o próximo assunto. De forma que, se o vizinho está escutando Macarena com o volume alto, minha verdade definitiva é:
Vizinho ouvindo Macarena = todo francês é mal-educado
Então a máxima preconceituosa dá um alívio imediato de "uau, entendi como é", de modo que toda vez que um francês for grosseiro, minha verdade será alimentada. Quando um francês for simpático, simplesmente ignoro o fato, considerando isso como uma exceção. Ah, e nunca leva-se em conta o número de "exceções". Até porque não há a possibilidade de, uma vez posta, descolar-se a etiqueta.
O curioso é que as pessoas que cometem generalizações desse tipo sempre se mostram ofendidas quando o movimento contrário (alguém fazendo generalizações sobre brasileiros) acontece:
Brasileira fazendo ponto no Bois de Boulogne = toda brasileira é puta
Nossa, isso os deixa loucos. Querem mostrar, de todo jeito, que é uma visão preconceituosa e absurda (e é, mas isso é outra questão). Em outras palavras, exigem que um europeu-médio compreenda o Brasil em todas as suas nuances, que nem nós compreendemos muito bem, aliás. Bem, se esse brasileiro, que está aqui, tem todas as generalizações sobre franceses na ponta da língua, ele que não exija de um francês, que conhece o Brasil só por uma cena de carnaval transmitida por algum jornal televisivo, algum tipo de grande tratado sociológico.
Mas há ainda outra coisa mais perigosa, que ilustro com o exemplo a seguir: a última vez que estive com quatro brasileiros no mesmo ambiente (faz tempo), tão logo pararam de se queixar da maneira estereotipada pela qual eram vistos pelo europeus, engataram, uma atrás da outra, histórias preconceituosas sobre árabes ("árabes são grosseiros, são sexistas, árabes são o problema da França"). Claro. Tenta-se escalar a pirâmide pisando no que está mais embaixo, socialmente falando. Uma atitude desprezível.
Por isso eu recomendo: perca tempo tentando entender as coisas que, sim, muitas vezes são contraditórias e que sim, muitas vezes jamais compreenderemos. É verdade que nunca vamos escapar de uma generalização ou outra, é humano, mas não custa observar um pouco mais antes de sair gritando despropósitos.
Do blog Paris 75004, da jovem jornalista Carol Bensimon (75004 é o cod.postal de seu endereço), de onde narra suas aventuras cotidianas. Dá para ler mais clicando o título desta postagem.
Quando se muda de país, busca-se estabelecer logo uma relação com o lugar, que nada mais é do que uma relação de domínio: conhecer e entender para sentir-se segura e, mais do que isso, integrada. Há uma pressa então em se compreender o que está em volta, que obviamente nunca pode ser decodificado de uma forma tão rápida e simples. E o pior, erro frequente que eu mesmo cometo às vezes, é tentar "ler" um país pela lógica que se aplica a outro. Não dá. Um piso improvisado num prédio de classe média parisiense vai além da negligência ou descaso, como podemos de cara pensar. Séculos de história explicam essas coisinhas triviais, e mesmo os hábitos para os quais torcemos o nariz, como "francês não toma banho" fazem parte de uma cadeia da qual muitas vezes insistimos em ver só a ponta. Essa gente teve IDADE MÉDIA! Tal é a frase que às vezes me arremata, e que explica muitas coisas que se vê por aqui, para o bem ou para o mal.
Desconfio que essa ansiedade em entender onde diabos estamos agora, e como diabos essas pessoas são e como essas pessoas agem e o que pensam elas, pode descambar para as piores generalizações. Afinal, colar etiquetas é sempre mais fácil que parar para pensar: digo é assim, colo em cima aquela verdade definitiva, e passo para o próximo assunto. De forma que, se o vizinho está escutando Macarena com o volume alto, minha verdade definitiva é:
Vizinho ouvindo Macarena = todo francês é mal-educado
Então a máxima preconceituosa dá um alívio imediato de "uau, entendi como é", de modo que toda vez que um francês for grosseiro, minha verdade será alimentada. Quando um francês for simpático, simplesmente ignoro o fato, considerando isso como uma exceção. Ah, e nunca leva-se em conta o número de "exceções". Até porque não há a possibilidade de, uma vez posta, descolar-se a etiqueta.
O curioso é que as pessoas que cometem generalizações desse tipo sempre se mostram ofendidas quando o movimento contrário (alguém fazendo generalizações sobre brasileiros) acontece:
Brasileira fazendo ponto no Bois de Boulogne = toda brasileira é puta
Nossa, isso os deixa loucos. Querem mostrar, de todo jeito, que é uma visão preconceituosa e absurda (e é, mas isso é outra questão). Em outras palavras, exigem que um europeu-médio compreenda o Brasil em todas as suas nuances, que nem nós compreendemos muito bem, aliás. Bem, se esse brasileiro, que está aqui, tem todas as generalizações sobre franceses na ponta da língua, ele que não exija de um francês, que conhece o Brasil só por uma cena de carnaval transmitida por algum jornal televisivo, algum tipo de grande tratado sociológico.
Mas há ainda outra coisa mais perigosa, que ilustro com o exemplo a seguir: a última vez que estive com quatro brasileiros no mesmo ambiente (faz tempo), tão logo pararam de se queixar da maneira estereotipada pela qual eram vistos pelo europeus, engataram, uma atrás da outra, histórias preconceituosas sobre árabes ("árabes são grosseiros, são sexistas, árabes são o problema da França"). Claro. Tenta-se escalar a pirâmide pisando no que está mais embaixo, socialmente falando. Uma atitude desprezível.
Por isso eu recomendo: perca tempo tentando entender as coisas que, sim, muitas vezes são contraditórias e que sim, muitas vezes jamais compreenderemos. É verdade que nunca vamos escapar de uma generalização ou outra, é humano, mas não custa observar um pouco mais antes de sair gritando despropósitos.
Do blog Paris 75004, da jovem jornalista Carol Bensimon (75004 é o cod.postal de seu endereço), de onde narra suas aventuras cotidianas. Dá para ler mais clicando o título desta postagem.
O direito de dormir
"NÃO EXISTE IMAGEM que mais tranquilize a alma que a imagem de uma criança adormecida. Seus olhinhos fechados dizem que o seu pequeno corpo está fechado dentro de si mesmo, num ninho de silêncio e escuridão.
Mas é comum que essa tranquilidade seja precedida por uma luta contra o sono: a criança não quer dormir. Ela tem medo da escuridão. E o medo agita a alma.
Foi pensando nisso que os músicos inventaram um tipo de música chamado "berceuse", que é uma canção doce destinada a ajudar as crianças a dormir. Ah! Como são lindas as "berceuses" de Brahms e de Schumann! Elas acalmam a criança amedrontada que mora em mim, põem os seus medos para dormir. E enquanto seus medos dormem, eu durmo bem longe deles...
Mas isso que os músicos fizeram foi apenas instrumentalizar as canções que as mães de todo o mundo inventaram para fazer seus filhos dormirem. As "berceuses" acalmam as almas das crianças.
Tudo o que existe precisa dormir. O simples existir cansa. A se acreditar nos poetas e nas crianças, até mesmo as coisas.
Minha filha de quatro anos, olhando os vales e montanhas que se perdiam de vista nos horizontes de Campos de Jordão, fez-me essa pergunta metafísica: "Papai, as coisas não se cansam de serem coisas?"
Fernando Pessoa teve suspeita semelhante e escreveu: "Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas, como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, de ser, só de ser, o ser triste, brilhar ou sorrir...".
Ele, poeta, estava cansado. Olhava para as estrelas que luziam havia tanto tempo e tinha dó delas. Elas deveriam estar muito cansadas. Suas pálpebras jamais se fechavam. Seus olhos estavam sempre abertos, sem poder dormir jamais...
Pergunto-me então se não haverá um simples cansaço de viver. Será que não chega o momento em que a vida diz, das profundezas do seu ser, como um pedido de socorro aos que entendem a sua fala: "Estou cansada. Quero dormir o grande sono..."?
Os especialistas na arte da tortura descobriram que uma das técnicas mais eficazes e discretas para se obter a confissão de um torturado era a de impedir que ele dormisse. Assentado numa poltrona confortável, o prisioneiro espera. O tempo passa em silêncio, sem interrogatório. Vem o sono. As pálpebras pesam e querem se fechar. Mas alguém que o vigia o sacode para impedir que ele durma. E assim o tempo vai passando. O desejo de dormir vai crescendo, as pálpebras pesam até um ponto insuportável. Nesse momento, a necessidade de dormir é tão terrível que o prisioneiro está pronto para confessar qualquer coisa só para poder dormir.
Foi coisa parecida que fizeram com a Eluana Englaro, mulher italiana com 38 anos de idade, dos quais 17 em vida vegetativa. Seu sono sem despertar dizia que ela desejava dormir. Mas os torturadores, a ciência, as leis e a religião lhe negavam esse direito. Obrigavam-na a continuar viva contra a vontade do seu corpo, que ansiava pelo grande sono. Ligaram seu corpo a máquinas que impediam que ela dormisse. Vivia mecanicamente.
Finalmente o direito de dormir lhe foi concedido. Fantasio que ela dormiu como uma criança, ouvindo a "berceuse" de Brahms."
Rubem Alves na FSP
Mas é comum que essa tranquilidade seja precedida por uma luta contra o sono: a criança não quer dormir. Ela tem medo da escuridão. E o medo agita a alma.
Foi pensando nisso que os músicos inventaram um tipo de música chamado "berceuse", que é uma canção doce destinada a ajudar as crianças a dormir. Ah! Como são lindas as "berceuses" de Brahms e de Schumann! Elas acalmam a criança amedrontada que mora em mim, põem os seus medos para dormir. E enquanto seus medos dormem, eu durmo bem longe deles...
Mas isso que os músicos fizeram foi apenas instrumentalizar as canções que as mães de todo o mundo inventaram para fazer seus filhos dormirem. As "berceuses" acalmam as almas das crianças.
Tudo o que existe precisa dormir. O simples existir cansa. A se acreditar nos poetas e nas crianças, até mesmo as coisas.
Minha filha de quatro anos, olhando os vales e montanhas que se perdiam de vista nos horizontes de Campos de Jordão, fez-me essa pergunta metafísica: "Papai, as coisas não se cansam de serem coisas?"
Fernando Pessoa teve suspeita semelhante e escreveu: "Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas, como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, de ser, só de ser, o ser triste, brilhar ou sorrir...".
Ele, poeta, estava cansado. Olhava para as estrelas que luziam havia tanto tempo e tinha dó delas. Elas deveriam estar muito cansadas. Suas pálpebras jamais se fechavam. Seus olhos estavam sempre abertos, sem poder dormir jamais...
Pergunto-me então se não haverá um simples cansaço de viver. Será que não chega o momento em que a vida diz, das profundezas do seu ser, como um pedido de socorro aos que entendem a sua fala: "Estou cansada. Quero dormir o grande sono..."?
Os especialistas na arte da tortura descobriram que uma das técnicas mais eficazes e discretas para se obter a confissão de um torturado era a de impedir que ele dormisse. Assentado numa poltrona confortável, o prisioneiro espera. O tempo passa em silêncio, sem interrogatório. Vem o sono. As pálpebras pesam e querem se fechar. Mas alguém que o vigia o sacode para impedir que ele durma. E assim o tempo vai passando. O desejo de dormir vai crescendo, as pálpebras pesam até um ponto insuportável. Nesse momento, a necessidade de dormir é tão terrível que o prisioneiro está pronto para confessar qualquer coisa só para poder dormir.
Foi coisa parecida que fizeram com a Eluana Englaro, mulher italiana com 38 anos de idade, dos quais 17 em vida vegetativa. Seu sono sem despertar dizia que ela desejava dormir. Mas os torturadores, a ciência, as leis e a religião lhe negavam esse direito. Obrigavam-na a continuar viva contra a vontade do seu corpo, que ansiava pelo grande sono. Ligaram seu corpo a máquinas que impediam que ela dormisse. Vivia mecanicamente.
Finalmente o direito de dormir lhe foi concedido. Fantasio que ela dormiu como uma criança, ouvindo a "berceuse" de Brahms."
Rubem Alves na FSP
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