fevereiro 18, 2009
O R Q U I D Á R I O
A mega SÃO PAULO esconde nichos que não param de nos surpreender. Estes dias, li na FSP sobre as orquídeas salvas do lixo e que agora enfeitam árvores das calçadas, numa matéria curtinha da Mariana Barros. Já começo com um parêntese. Tempos atrás comentei uma notícia - não transcrevi o texto como faço agora – e o repórter escreveu reclamando a autoria . Tratava-se de um “ colaborador” e aquele talvez fosse seu primeiro texto. Atribui-lhe o crédito, embora não tivesse havido "apropriação”. Mas vamos ao simpático relato da Mariana, devidamente aspeado, que, à falta de uma foto para ilustrá-lo, nos levará a passar neste "orquidário", cultivado por porteiros, zeladores e faxineiros, todos de provável origem nordestina. A pista é que de Sampa para baixo as plantas são regadas e não " aguadas" , a forma que continuo usando. Como eu, eles talvez também só tenham visto uma orquídea depois de adultos...
“A primeira vez que o faxineiro Tássio Palmeira, 37, viu uma orquídea foi há cerca de três anos, quando um dos moradores do prédio onde trabalha nos Jardins (zona oeste de São Paulo) jogou fora um vaso onde só restavam folhas e um ramo que parecia seco”.
“Ele e o zelador Vanderlei Pascoal da Silva, 46, pegaram a planta para cuidar e, algum tempo depois, viram o caule voltar a florescer. "Caíram as flores, mas ela estava viva", relembra Palmeira, que diz que gosta das orquídeas porque "quando parece que morreram, elas voltam bonitas".
Palmeiras e Silva integram um grupo que vem enfeitando as ruas dos Jardins: o de funcionários dos edifícios de classe alta que adotam orquídeas dispensadas por moradores e as usam para embelezar as árvores da calçada.”
A árvore em frente ao prédio onde Palmeira e Silva trabalham já tem mais de dez plantas penduradas. "Tenho um amigo que mexe com orquídea e me ensinou a amarrar. Mas ele fica com ciúme porque na casa dele não fica bonito assim", diz Silva, acrescentando que há quem pare para fotografar.
Na alameda Tietê, onde fica o "orquidário" da dupla, há pelo menos mais três árvores decoradas com as flores. Uma delas recebe os cuidados do zelador Antônio Martins, que sabe de cor a época do ano em que cada uma delas floresce. "Comecei a pesquisar. Essa, por exemplo, só dá no inverno. É minha preferida." Martins começou o cultivo há um ano e meio, por sugestão de uma moradora. "Não acreditava que pegassem."
A alguns quarteirões dali, na rua Joaquim Eugênio de Lima, o zelador Ilson de Souza Mates admite ter copiado a ideia de colegas da rua Sarutaiá, travessa de onde trabalha. "Achei bonito e quis fazer também." Mates diz que já pegou orquídeas jogadas em caçambas ou trazidas por vizinhos. "Outro dia um rapaz que tem orquidário parou aqui e me deu umas dicas, disse para eu não "aguar" tanto."
Nas duas árvores da Sarutaiá cuidadas por funcionários do mesmo edifício, há mais de 30 orquídeas penduradas -23 delas ao redor de um mesmo tronco. O porteiro Antônio Pereira da Silva explica a superlotação. "Tem gente que para de carro e pede para a gente por aí", diz, contando que os funcionários não conseguem recusar. Questionado se não gostaria de levar uma para cuidar em casa, ele diz que não. "Elas estão tão bonitinhas aí."
“A primeira vez que o faxineiro Tássio Palmeira, 37, viu uma orquídea foi há cerca de três anos, quando um dos moradores do prédio onde trabalha nos Jardins (zona oeste de São Paulo) jogou fora um vaso onde só restavam folhas e um ramo que parecia seco”.
“Ele e o zelador Vanderlei Pascoal da Silva, 46, pegaram a planta para cuidar e, algum tempo depois, viram o caule voltar a florescer. "Caíram as flores, mas ela estava viva", relembra Palmeira, que diz que gosta das orquídeas porque "quando parece que morreram, elas voltam bonitas".
Palmeiras e Silva integram um grupo que vem enfeitando as ruas dos Jardins: o de funcionários dos edifícios de classe alta que adotam orquídeas dispensadas por moradores e as usam para embelezar as árvores da calçada.”
A árvore em frente ao prédio onde Palmeira e Silva trabalham já tem mais de dez plantas penduradas. "Tenho um amigo que mexe com orquídea e me ensinou a amarrar. Mas ele fica com ciúme porque na casa dele não fica bonito assim", diz Silva, acrescentando que há quem pare para fotografar.
Na alameda Tietê, onde fica o "orquidário" da dupla, há pelo menos mais três árvores decoradas com as flores. Uma delas recebe os cuidados do zelador Antônio Martins, que sabe de cor a época do ano em que cada uma delas floresce. "Comecei a pesquisar. Essa, por exemplo, só dá no inverno. É minha preferida." Martins começou o cultivo há um ano e meio, por sugestão de uma moradora. "Não acreditava que pegassem."
A alguns quarteirões dali, na rua Joaquim Eugênio de Lima, o zelador Ilson de Souza Mates admite ter copiado a ideia de colegas da rua Sarutaiá, travessa de onde trabalha. "Achei bonito e quis fazer também." Mates diz que já pegou orquídeas jogadas em caçambas ou trazidas por vizinhos. "Outro dia um rapaz que tem orquidário parou aqui e me deu umas dicas, disse para eu não "aguar" tanto."
Nas duas árvores da Sarutaiá cuidadas por funcionários do mesmo edifício, há mais de 30 orquídeas penduradas -23 delas ao redor de um mesmo tronco. O porteiro Antônio Pereira da Silva explica a superlotação. "Tem gente que para de carro e pede para a gente por aí", diz, contando que os funcionários não conseguem recusar. Questionado se não gostaria de levar uma para cuidar em casa, ele diz que não. "Elas estão tão bonitinhas aí."
EX - VILÃO
São anos de privação. Ao ponto de haver feito uma declaração de última vontade: na reta final quero comer ovos mexidos ou fritos com as bordas queimadinhas. Nada de bacon ou outros floreios, só ovos. Renunciei aos célebres ovos moles em Aveiros, diante de uma vitrine que para mim representava uma verdadeira ameaça não só a minha, mas à saúde pública. Perdi a conta das ambrosias que recusei nos últimos vinte anos... Tantas renúncias que já nem sei, tantos foram os anos me privando dos prazeres e deleites que só as delícias feitas com ovos proporcionam...
OVO, com seu design perfeito e irretocável acabamento, era sem a menor dúvida, o inimigo público nº 1, o responsável pelo aumento do colesterol. E eis que acaba de ser divulgado um relatório “definitivo” (?) de uma universidade inglesa afirmando que o ovo não faz mal à saúde !!!
Esta reabilitação, para mim tardia, exige um pedido de desculpas pública.
Quiçá uma reparação!!!!
fevereiro 17, 2009
Swásthya!
"Yoga é uma antiga filosofia de vida que se originou na Índia há mais de 5000 anos. Segundo consta seria o mais antigo e holístico sistema para colocar em forma o corpo e a mente. Literalmente, Yoga significa união pois ele une e integra o corpo, a mente e nossas emoções para que sejamos capazes de agir de acordo com nossos pensamentos e com o que sentimos. O Yoga nos induz a um profundo relaxamento, tranqüilidade mental, concentração, clareza de pensamento e percepção interior juntamente com o fortalecimento do corpo físico e o desenvolvimento da flexibilidade." (http://www.yogasite.com.br/yogasite/yoga.htm)
Ultimamente, tenho ouvido falar muito em yoga (pronuncia com Ô fechado) pelo meu amigo Hugo que, em busca de bem estar e de " se tornar um velhinho legal" (as palavras são dele), se tornou um praticante. Amanhã será o dia da Yoga!
Cada um de nós, ainda não entrados na velhice - o meu geriatra diz que é só a partir de oitenta -, por caminhos diversos, tem procurado melhorar esta tal de "qualidade de vida", agora que a envelhecência tornou-se o período mais longo de nossas vidas. Andei "espreitando" (como dizem os lusos) alguns sites, textos e videos. Parece ser interessante a yoga, mas não é a minha praia.
Com ou sem yoga, não acredito que alguém se torna legal ao ficar, ou porque ficou, velhinho. Continuam os mesmos. Há os que tendem a acentuar alguns defeitos e manias. Mas isto não é a regra. E, se for, tem as exceções de sempre. Tenho amigas que se tornaram mais, digamos, leves, depois dos sessenta . Por outro lado, tem certos velhinhos, alguns meio abandonados, que ao olhá-los penso: vai ver era um chato! Agora não tem mais nada que dê jeito! Será um velho chato!
Nestas horas me sinto bem aliviada de não ter um para aturar. Embora tenha conhecido e conheça alguns velhinhos "legais". O Pepe (pai da Beatriz) era uma graça. Mesmo sem ser próxima dele, vez por outra conto as estórias do avô do meu genro que me parece uma delícia como velhinho. O pai do Tito é outro que tem o humor ótimo!
E os velhinhos mais distantes: o Rubem Alves (vive no blog), o Millor (não perdeu a verve). Quanto ao Cony, passei a fazer algumas ressalvas...
Eu tinha dito para o Hugo que ia fazer uma postagem sobre YOGA. Agora foi!
(sobre yoga clique no título)
As muito seguras (in)verdades
Sair do seu ambiente, que é um quarto, um bairro, um país, é sempre desestabilizador. Se me disseram que meu bairro em Porto Alegre tem uma maior incidência de crimes que tal outro, dificilmente vou conseguir mudar minha atitude de andar mais tranquila no meu bairro, e mais alerta naqueles com os quais não sou familiar. O hábito dá uma (falsa) ideia de segurança, e portanto mais seguro é aquele que eu conheço, e pronto. É muito mais subjetivo do que lógico.
Quando se muda de país, busca-se estabelecer logo uma relação com o lugar, que nada mais é do que uma relação de domínio: conhecer e entender para sentir-se segura e, mais do que isso, integrada. Há uma pressa então em se compreender o que está em volta, que obviamente nunca pode ser decodificado de uma forma tão rápida e simples. E o pior, erro frequente que eu mesmo cometo às vezes, é tentar "ler" um país pela lógica que se aplica a outro. Não dá. Um piso improvisado num prédio de classe média parisiense vai além da negligência ou descaso, como podemos de cara pensar. Séculos de história explicam essas coisinhas triviais, e mesmo os hábitos para os quais torcemos o nariz, como "francês não toma banho" fazem parte de uma cadeia da qual muitas vezes insistimos em ver só a ponta. Essa gente teve IDADE MÉDIA! Tal é a frase que às vezes me arremata, e que explica muitas coisas que se vê por aqui, para o bem ou para o mal.
Desconfio que essa ansiedade em entender onde diabos estamos agora, e como diabos essas pessoas são e como essas pessoas agem e o que pensam elas, pode descambar para as piores generalizações. Afinal, colar etiquetas é sempre mais fácil que parar para pensar: digo é assim, colo em cima aquela verdade definitiva, e passo para o próximo assunto. De forma que, se o vizinho está escutando Macarena com o volume alto, minha verdade definitiva é:
Vizinho ouvindo Macarena = todo francês é mal-educado
Então a máxima preconceituosa dá um alívio imediato de "uau, entendi como é", de modo que toda vez que um francês for grosseiro, minha verdade será alimentada. Quando um francês for simpático, simplesmente ignoro o fato, considerando isso como uma exceção. Ah, e nunca leva-se em conta o número de "exceções". Até porque não há a possibilidade de, uma vez posta, descolar-se a etiqueta.
O curioso é que as pessoas que cometem generalizações desse tipo sempre se mostram ofendidas quando o movimento contrário (alguém fazendo generalizações sobre brasileiros) acontece:
Brasileira fazendo ponto no Bois de Boulogne = toda brasileira é puta
Nossa, isso os deixa loucos. Querem mostrar, de todo jeito, que é uma visão preconceituosa e absurda (e é, mas isso é outra questão). Em outras palavras, exigem que um europeu-médio compreenda o Brasil em todas as suas nuances, que nem nós compreendemos muito bem, aliás. Bem, se esse brasileiro, que está aqui, tem todas as generalizações sobre franceses na ponta da língua, ele que não exija de um francês, que conhece o Brasil só por uma cena de carnaval transmitida por algum jornal televisivo, algum tipo de grande tratado sociológico.
Mas há ainda outra coisa mais perigosa, que ilustro com o exemplo a seguir: a última vez que estive com quatro brasileiros no mesmo ambiente (faz tempo), tão logo pararam de se queixar da maneira estereotipada pela qual eram vistos pelo europeus, engataram, uma atrás da outra, histórias preconceituosas sobre árabes ("árabes são grosseiros, são sexistas, árabes são o problema da França"). Claro. Tenta-se escalar a pirâmide pisando no que está mais embaixo, socialmente falando. Uma atitude desprezível.
Por isso eu recomendo: perca tempo tentando entender as coisas que, sim, muitas vezes são contraditórias e que sim, muitas vezes jamais compreenderemos. É verdade que nunca vamos escapar de uma generalização ou outra, é humano, mas não custa observar um pouco mais antes de sair gritando despropósitos.
Do blog Paris 75004, da jovem jornalista Carol Bensimon (75004 é o cod.postal de seu endereço), de onde narra suas aventuras cotidianas. Dá para ler mais clicando o título desta postagem.
Quando se muda de país, busca-se estabelecer logo uma relação com o lugar, que nada mais é do que uma relação de domínio: conhecer e entender para sentir-se segura e, mais do que isso, integrada. Há uma pressa então em se compreender o que está em volta, que obviamente nunca pode ser decodificado de uma forma tão rápida e simples. E o pior, erro frequente que eu mesmo cometo às vezes, é tentar "ler" um país pela lógica que se aplica a outro. Não dá. Um piso improvisado num prédio de classe média parisiense vai além da negligência ou descaso, como podemos de cara pensar. Séculos de história explicam essas coisinhas triviais, e mesmo os hábitos para os quais torcemos o nariz, como "francês não toma banho" fazem parte de uma cadeia da qual muitas vezes insistimos em ver só a ponta. Essa gente teve IDADE MÉDIA! Tal é a frase que às vezes me arremata, e que explica muitas coisas que se vê por aqui, para o bem ou para o mal.
Desconfio que essa ansiedade em entender onde diabos estamos agora, e como diabos essas pessoas são e como essas pessoas agem e o que pensam elas, pode descambar para as piores generalizações. Afinal, colar etiquetas é sempre mais fácil que parar para pensar: digo é assim, colo em cima aquela verdade definitiva, e passo para o próximo assunto. De forma que, se o vizinho está escutando Macarena com o volume alto, minha verdade definitiva é:
Vizinho ouvindo Macarena = todo francês é mal-educado
Então a máxima preconceituosa dá um alívio imediato de "uau, entendi como é", de modo que toda vez que um francês for grosseiro, minha verdade será alimentada. Quando um francês for simpático, simplesmente ignoro o fato, considerando isso como uma exceção. Ah, e nunca leva-se em conta o número de "exceções". Até porque não há a possibilidade de, uma vez posta, descolar-se a etiqueta.
O curioso é que as pessoas que cometem generalizações desse tipo sempre se mostram ofendidas quando o movimento contrário (alguém fazendo generalizações sobre brasileiros) acontece:
Brasileira fazendo ponto no Bois de Boulogne = toda brasileira é puta
Nossa, isso os deixa loucos. Querem mostrar, de todo jeito, que é uma visão preconceituosa e absurda (e é, mas isso é outra questão). Em outras palavras, exigem que um europeu-médio compreenda o Brasil em todas as suas nuances, que nem nós compreendemos muito bem, aliás. Bem, se esse brasileiro, que está aqui, tem todas as generalizações sobre franceses na ponta da língua, ele que não exija de um francês, que conhece o Brasil só por uma cena de carnaval transmitida por algum jornal televisivo, algum tipo de grande tratado sociológico.
Mas há ainda outra coisa mais perigosa, que ilustro com o exemplo a seguir: a última vez que estive com quatro brasileiros no mesmo ambiente (faz tempo), tão logo pararam de se queixar da maneira estereotipada pela qual eram vistos pelo europeus, engataram, uma atrás da outra, histórias preconceituosas sobre árabes ("árabes são grosseiros, são sexistas, árabes são o problema da França"). Claro. Tenta-se escalar a pirâmide pisando no que está mais embaixo, socialmente falando. Uma atitude desprezível.
Por isso eu recomendo: perca tempo tentando entender as coisas que, sim, muitas vezes são contraditórias e que sim, muitas vezes jamais compreenderemos. É verdade que nunca vamos escapar de uma generalização ou outra, é humano, mas não custa observar um pouco mais antes de sair gritando despropósitos.
Do blog Paris 75004, da jovem jornalista Carol Bensimon (75004 é o cod.postal de seu endereço), de onde narra suas aventuras cotidianas. Dá para ler mais clicando o título desta postagem.
O direito de dormir
"NÃO EXISTE IMAGEM que mais tranquilize a alma que a imagem de uma criança adormecida. Seus olhinhos fechados dizem que o seu pequeno corpo está fechado dentro de si mesmo, num ninho de silêncio e escuridão.
Mas é comum que essa tranquilidade seja precedida por uma luta contra o sono: a criança não quer dormir. Ela tem medo da escuridão. E o medo agita a alma.
Foi pensando nisso que os músicos inventaram um tipo de música chamado "berceuse", que é uma canção doce destinada a ajudar as crianças a dormir. Ah! Como são lindas as "berceuses" de Brahms e de Schumann! Elas acalmam a criança amedrontada que mora em mim, põem os seus medos para dormir. E enquanto seus medos dormem, eu durmo bem longe deles...
Mas isso que os músicos fizeram foi apenas instrumentalizar as canções que as mães de todo o mundo inventaram para fazer seus filhos dormirem. As "berceuses" acalmam as almas das crianças.
Tudo o que existe precisa dormir. O simples existir cansa. A se acreditar nos poetas e nas crianças, até mesmo as coisas.
Minha filha de quatro anos, olhando os vales e montanhas que se perdiam de vista nos horizontes de Campos de Jordão, fez-me essa pergunta metafísica: "Papai, as coisas não se cansam de serem coisas?"
Fernando Pessoa teve suspeita semelhante e escreveu: "Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas, como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, de ser, só de ser, o ser triste, brilhar ou sorrir...".
Ele, poeta, estava cansado. Olhava para as estrelas que luziam havia tanto tempo e tinha dó delas. Elas deveriam estar muito cansadas. Suas pálpebras jamais se fechavam. Seus olhos estavam sempre abertos, sem poder dormir jamais...
Pergunto-me então se não haverá um simples cansaço de viver. Será que não chega o momento em que a vida diz, das profundezas do seu ser, como um pedido de socorro aos que entendem a sua fala: "Estou cansada. Quero dormir o grande sono..."?
Os especialistas na arte da tortura descobriram que uma das técnicas mais eficazes e discretas para se obter a confissão de um torturado era a de impedir que ele dormisse. Assentado numa poltrona confortável, o prisioneiro espera. O tempo passa em silêncio, sem interrogatório. Vem o sono. As pálpebras pesam e querem se fechar. Mas alguém que o vigia o sacode para impedir que ele durma. E assim o tempo vai passando. O desejo de dormir vai crescendo, as pálpebras pesam até um ponto insuportável. Nesse momento, a necessidade de dormir é tão terrível que o prisioneiro está pronto para confessar qualquer coisa só para poder dormir.
Foi coisa parecida que fizeram com a Eluana Englaro, mulher italiana com 38 anos de idade, dos quais 17 em vida vegetativa. Seu sono sem despertar dizia que ela desejava dormir. Mas os torturadores, a ciência, as leis e a religião lhe negavam esse direito. Obrigavam-na a continuar viva contra a vontade do seu corpo, que ansiava pelo grande sono. Ligaram seu corpo a máquinas que impediam que ela dormisse. Vivia mecanicamente.
Finalmente o direito de dormir lhe foi concedido. Fantasio que ela dormiu como uma criança, ouvindo a "berceuse" de Brahms."
Rubem Alves na FSP
Mas é comum que essa tranquilidade seja precedida por uma luta contra o sono: a criança não quer dormir. Ela tem medo da escuridão. E o medo agita a alma.
Foi pensando nisso que os músicos inventaram um tipo de música chamado "berceuse", que é uma canção doce destinada a ajudar as crianças a dormir. Ah! Como são lindas as "berceuses" de Brahms e de Schumann! Elas acalmam a criança amedrontada que mora em mim, põem os seus medos para dormir. E enquanto seus medos dormem, eu durmo bem longe deles...
Mas isso que os músicos fizeram foi apenas instrumentalizar as canções que as mães de todo o mundo inventaram para fazer seus filhos dormirem. As "berceuses" acalmam as almas das crianças.
Tudo o que existe precisa dormir. O simples existir cansa. A se acreditar nos poetas e nas crianças, até mesmo as coisas.
Minha filha de quatro anos, olhando os vales e montanhas que se perdiam de vista nos horizontes de Campos de Jordão, fez-me essa pergunta metafísica: "Papai, as coisas não se cansam de serem coisas?"
Fernando Pessoa teve suspeita semelhante e escreveu: "Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas, como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, de ser, só de ser, o ser triste, brilhar ou sorrir...".
Ele, poeta, estava cansado. Olhava para as estrelas que luziam havia tanto tempo e tinha dó delas. Elas deveriam estar muito cansadas. Suas pálpebras jamais se fechavam. Seus olhos estavam sempre abertos, sem poder dormir jamais...
Pergunto-me então se não haverá um simples cansaço de viver. Será que não chega o momento em que a vida diz, das profundezas do seu ser, como um pedido de socorro aos que entendem a sua fala: "Estou cansada. Quero dormir o grande sono..."?
Os especialistas na arte da tortura descobriram que uma das técnicas mais eficazes e discretas para se obter a confissão de um torturado era a de impedir que ele dormisse. Assentado numa poltrona confortável, o prisioneiro espera. O tempo passa em silêncio, sem interrogatório. Vem o sono. As pálpebras pesam e querem se fechar. Mas alguém que o vigia o sacode para impedir que ele durma. E assim o tempo vai passando. O desejo de dormir vai crescendo, as pálpebras pesam até um ponto insuportável. Nesse momento, a necessidade de dormir é tão terrível que o prisioneiro está pronto para confessar qualquer coisa só para poder dormir.
Foi coisa parecida que fizeram com a Eluana Englaro, mulher italiana com 38 anos de idade, dos quais 17 em vida vegetativa. Seu sono sem despertar dizia que ela desejava dormir. Mas os torturadores, a ciência, as leis e a religião lhe negavam esse direito. Obrigavam-na a continuar viva contra a vontade do seu corpo, que ansiava pelo grande sono. Ligaram seu corpo a máquinas que impediam que ela dormisse. Vivia mecanicamente.
Finalmente o direito de dormir lhe foi concedido. Fantasio que ela dormiu como uma criança, ouvindo a "berceuse" de Brahms."
Rubem Alves na FSP
fevereiro 16, 2009
"curriculum mortis"
Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas. Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo. Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança... "O que a memória amou fica eterno", disse a Adélia Prado. Mas há um outro tipo de memória que não foi eternizado pelo amor. Essas memórias não moram na alma. Moram nos arquivos da razão. São informações verdadeiras e inertes. Inertes são as memórias que a razão sabe mas o corpo não ama. É o caso daquilo que comumente se chama de "curriculum vitae". Um curriculum vitae é uma lista de informações inertes. Importantes do ponto de vista institucional, frequentemente exigidas, como comprovação de competência. Mas sua lembrança não me comove. Assim, acho que não merecem ser chamadas de "curriculum vitae". A vida não é uma lista de informações. Prefiro chamar esta lista de "curriculum mortis" - nada mórbido, apenas cômico. Meu currículum vitae verdadeiro você encontrará nas minhas conversas, crônicas, pensamentos, cartas, concertos de poesia...
(Rubem Alves, em sua página, na introdução ao seu curriculum)
(Rubem Alves, em sua página, na introdução ao seu curriculum)
fevereiro 15, 2009
Quaresmeiras.... etc
As quaresmeiras não estão nem aí para o calendário e já tingiram de lilás a Serra do Mar. Na cidade, a paisagem não mostra nenhum vestígio da estação. Nem sinal de sol. As "polaquinhas", encapotadas ( algumas de botas altas), desfilam suas roupas escuras pela Comendador em direção ao calçadão, à praça Osório ou dispersando-se por suas travessas. Hora do almoço. Da sobreloja do Edficio Asa observei este ir e vir, enquanto lembrava de outros verões. Desci para o café da esquina da Cândido Lopes. Novo posto de observação e de relembranças... As férias nos meses de janeiro/fevereiro eram muito disputadas. Acabavam sendo definidas através de sorteios. Mas sempre optei por férias nas meias estações. Eram mais adequadas aos meus interesses... Ir para Matinhos ou Guaratuba nunca foi meu sonho de consumo.
Ao meio dia a temperatura chegou a vinte e dois graus. Pelo sim, pelo não, ninguém se arrisca a por pernas ou pés de fora. À tardinha, invariavelmente, volta a esfriar, isto se, pra completar, não acabar chovendo. Até hoje mantenho o hábito e trago sempre um guarda chuva na bolsa. Essa é Curitiba.
Naquele tempo circulava uma piadinha infame. Dizia-se que as estações seriam duas: o inverno e a rodoferroviária. Ficou desatualizada .
Curitiba perdeu mais do que isto. Da tal da qualidade de vida tão alardeada pelos que diziam pretender fazer dela uma cidade de “ primeiro mundo” , nem que fosse à custa de devolver os pobres que chegavam sem moradia e emprego, resta pouco. No trajeto que fiz até o centro encontrei umas tres ou quatro pessoas dormindo na rua. O “ resgate social” não existe mais ou não dá conta de recolhê-las ? Havia ainda a “linha do sopão” que passava, bem mais tarde, distribuindo sopa (inclusive para os garis) e recolhia os semtetos (não sei se escreve assim) mais resistentes para o albergue. O frio não era para brincadeira ...
Por algum tempo, acreditei que aqueles propósitos de fazer de Curitiba uma cidade habitável, também não eram de brincadeira. Hoje a cidade ficou igual as outras. Só o provincianismo dos curitibanos faz com que insistam em acreditar que a cidade em alguns aspectos não seja , hoje, até pior do que muitas.
Melhor nem comentar....
Ao meio dia a temperatura chegou a vinte e dois graus. Pelo sim, pelo não, ninguém se arrisca a por pernas ou pés de fora. À tardinha, invariavelmente, volta a esfriar, isto se, pra completar, não acabar chovendo. Até hoje mantenho o hábito e trago sempre um guarda chuva na bolsa. Essa é Curitiba.
Naquele tempo circulava uma piadinha infame. Dizia-se que as estações seriam duas: o inverno e a rodoferroviária. Ficou desatualizada .
Curitiba perdeu mais do que isto. Da tal da qualidade de vida tão alardeada pelos que diziam pretender fazer dela uma cidade de “ primeiro mundo” , nem que fosse à custa de devolver os pobres que chegavam sem moradia e emprego, resta pouco. No trajeto que fiz até o centro encontrei umas tres ou quatro pessoas dormindo na rua. O “ resgate social” não existe mais ou não dá conta de recolhê-las ? Havia ainda a “linha do sopão” que passava, bem mais tarde, distribuindo sopa (inclusive para os garis) e recolhia os semtetos (não sei se escreve assim) mais resistentes para o albergue. O frio não era para brincadeira ...
Por algum tempo, acreditei que aqueles propósitos de fazer de Curitiba uma cidade habitável, também não eram de brincadeira. Hoje a cidade ficou igual as outras. Só o provincianismo dos curitibanos faz com que insistam em acreditar que a cidade em alguns aspectos não seja , hoje, até pior do que muitas.
Melhor nem comentar....
A Q U A R I U S
"Aquarius-Let the Sunshine In" é o tema de abertura de “Hair”, o musical que, no teatro, final dos anos 60, foi símbolo da contracultura, tendo o Vietnã como pano de fundo.Ao cinema chegou em 1979 pelas mãos do Millos Forman.
"...quando a Lua estiver na sétima casa e Júpiter se alinhar com Marte, a paz guiará os planetas, e o amor moverá as estrelas”.
“Este é o alvorecer da Era de Aquarius.”
O que teria acontecido ontem, segundo a Fraternidade Pax Universal.
Ou seria só mais um espetáculo da Broadway?
fevereiro 12, 2009
Abraham Lincoln

Hoje é o bicentenário de Abraham Lincoln, uma das maiores figuras da história americana, considerado a própria encarnação de um estadista. Foi presidente dos EUA, durante a Guerra Civil (1861-65), na qual centenas de milhares morreram e o país quase rachou ao meio. Durante a guerra ele promoveu a libertação dos escravos e a ocupação produtiva. Clamou pela unidade não pelo princípio de autoridade, ou invocando Deus, mas apelando ao projeto de construir uma nação baseada na liberdade individual e na descentralização federativa. Suas expressões entraram para a história, como "todos os homens são criados iguais" e "governo do povo, pelo povo, para o povo". Não foi a sua morte por assassinato que construiu sua lenda, mas seus atos e palavras."Sem malícia contra ninguém; com caridade para com todos; com firmeza no correto, que Deus nos permita ver o certo, nos permita lutar para concluirmos o trabalho que começamos; para fechar as feridas da nação..." Em 14 de abril de 1865, uma sexta-feira santa, Lincoln foi assassinado no Teatro Ford em Washington por John Wilkes Booth, um ator que achava estar ajudando o Sul. O resultado foi o oposto.
Dono de forte personalidade e habilidade para expressar suas convicções, Abraham Lincoln é tido como um dos inspiradores da moderna democracia. O próprio personagem de Lincoln, sua aparência física, os tristes episódios de sua vida familiar, suas relações com as mulheres sempre problemáticas ou distantes, continuam a excitar a curiosidade. Historiadores e biógrafos já sugeriram a sua homossexualidade (O Mundo Íntimo de Abraham Lincoln,de CA Tripp - clic no título).
Ainda este ano será lançado o filme do Steven Spielberg que cobrirá o período no qual Abraham Lincoln ocupou a Casa Branca, entre 1861 e 1865, e abordará, “com enfoque polêmico”, os relacionamentos que ele manteve com aqueles que o cercavam.
Faz muito tempo que li sua biografia. Num tempo em que minhas dores de cabeça se equiparavam as da Sra. Lincoln, as quais o autor se referia em maiúsculas: Dor de Cabeça. Assim eram também as minhas. As razões é que não eram as mesmas. Ou seriam?
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