fevereiro 17, 2009

Swásthya!

"Yoga é uma antiga filosofia de vida que se originou na Índia há mais de 5000 anos. Segundo consta seria o mais antigo e holístico sistema para colocar em forma o corpo e a mente. Literalmente, Yoga significa união pois ele une e integra o corpo, a mente e nossas emoções para que sejamos capazes de agir de acordo com nossos pensamentos e com o que sentimos. O Yoga nos induz a um profundo relaxamento, tranqüilidade mental, concentração, clareza de pensamento e percepção interior juntamente com o fortalecimento do corpo físico e o desenvolvimento da flexibilidade."
(http://www.yogasite.com.br/yogasite/yoga.htm)
Ultimamente, tenho ouvido falar muito em yoga (pronuncia com Ô fechado) pelo meu amigo Hugo que, em busca de bem estar e de " se tornar um velhinho legal" (as palavras são dele), se tornou um praticante. Amanhã será o dia da Yoga!
Cada um de nós, ainda não entrados na velhice - o meu geriatra diz que é só a partir de oitenta -, por caminhos diversos, tem procurado melhorar esta tal de "qualidade de vida", agora que a envelhecência tornou-se o período mais longo de nossas vidas. Andei "espreitando" (como dizem os lusos) alguns sites, textos e videos. Parece ser interessante a yoga, mas não é a minha praia.
Com ou sem yoga, não acredito que alguém se torna legal ao ficar, ou porque ficou, velhinho. Continuam os mesmos. Há os que tendem a acentuar alguns defeitos e manias. Mas isto não é a regra. E, se for, tem as exceções de sempre. Tenho amigas que se tornaram mais, digamos, leves, depois dos sessenta . Por outro lado, tem certos velhinhos, alguns meio abandonados, que ao olhá-los penso: vai ver era um chato! Agora não tem mais nada que dê jeito! Será um velho chato!
Nestas horas me sinto bem aliviada de não ter um para aturar. Embora tenha conhecido e conheça alguns velhinhos "legais". O Pepe (pai da Beatriz) era uma graça. Mesmo sem ser próxima dele, vez por outra conto as estórias do avô do meu genro que me parece uma delícia como velhinho. O pai do Tito é outro que tem o humor ótimo!
E os velhinhos mais distantes: o Rubem Alves (vive no blog), o Millor (não perdeu a verve). Quanto ao Cony, passei a fazer algumas ressalvas...
Eu tinha dito para o Hugo que ia fazer uma postagem sobre YOGA. Agora foi!
(sobre yoga clique no título)

As muito seguras (in)verdades

Sair do seu ambiente, que é um quarto, um bairro, um país, é sempre desestabilizador. Se me disseram que meu bairro em Porto Alegre tem uma maior incidência de crimes que tal outro, dificilmente vou conseguir mudar minha atitude de andar mais tranquila no meu bairro, e mais alerta naqueles com os quais não sou familiar. O hábito dá uma (falsa) ideia de segurança, e portanto mais seguro é aquele que eu conheço, e pronto. É muito mais subjetivo do que lógico.
Quando se muda de país, busca-se estabelecer logo uma relação com o lugar, que nada mais é do que uma relação de domínio: conhecer e entender para sentir-se segura e, mais do que isso, integrada. Há uma pressa então em se compreender o que está em volta, que obviamente nunca pode ser decodificado de uma forma tão rápida e simples. E o pior, erro frequente que eu mesmo cometo às vezes, é tentar "ler" um país pela lógica que se aplica a outro. Não dá. Um piso improvisado num prédio de classe média parisiense vai além da negligência ou descaso, como podemos de cara pensar. Séculos de história explicam essas coisinhas triviais, e mesmo os hábitos para os quais torcemos o nariz, como "francês não toma banho" fazem parte de uma cadeia da qual muitas vezes insistimos em ver só a ponta. Essa gente teve IDADE MÉDIA! Tal é a frase que às vezes me arremata, e que explica muitas coisas que se vê por aqui, para o bem ou para o mal.
Desconfio que essa ansiedade em entender onde diabos estamos agora, e como diabos essas pessoas são e como essas pessoas agem e o que pensam elas, pode descambar para as piores generalizações. Afinal, colar etiquetas é sempre mais fácil que parar para pensar: digo é assim, colo em cima aquela verdade definitiva, e passo para o próximo assunto. De forma que, se o vizinho está escutando Macarena com o volume alto, minha verdade definitiva é:
Vizinho ouvindo Macarena = todo francês é mal-educado
Então a máxima preconceituosa dá um alívio imediato de "uau, entendi como é", de modo que toda vez que um francês for grosseiro, minha verdade será alimentada. Quando um francês for simpático, simplesmente ignoro o fato, considerando isso como uma exceção. Ah, e nunca leva-se em conta o número de "exceções". Até porque não há a possibilidade de, uma vez posta, descolar-se a etiqueta.
O curioso é que as pessoas que cometem generalizações desse tipo sempre se mostram ofendidas quando o movimento contrário (alguém fazendo generalizações sobre brasileiros) acontece:
Brasileira fazendo ponto no Bois de Boulogne = toda brasileira é puta
Nossa, isso os deixa loucos. Querem mostrar, de todo jeito, que é uma visão preconceituosa e absurda (e é, mas isso é outra questão). Em outras palavras, exigem que um europeu-médio compreenda o Brasil em todas as suas nuances, que nem nós compreendemos muito bem, aliás. Bem, se esse brasileiro, que está aqui, tem todas as generalizações sobre franceses na ponta da língua, ele que não exija de um francês, que conhece o Brasil só por uma cena de carnaval transmitida por algum jornal televisivo, algum tipo de grande tratado sociológico.
Mas há ainda outra coisa mais perigosa, que ilustro com o exemplo a seguir: a última vez que estive com quatro brasileiros no mesmo ambiente (faz tempo), tão logo pararam de se queixar da maneira estereotipada pela qual eram vistos pelo europeus, engataram, uma atrás da outra, histórias preconceituosas sobre árabes ("árabes são grosseiros, são sexistas, árabes são o problema da França"). Claro. Tenta-se escalar a pirâmide pisando no que está mais embaixo, socialmente falando. Uma atitude desprezível.
Por isso eu recomendo: perca tempo tentando entender as coisas que, sim, muitas vezes são contraditórias e que sim, muitas vezes jamais compreenderemos. É verdade que nunca vamos escapar de uma generalização ou outra, é humano, mas não custa observar um pouco mais antes de sair gritando despropósitos.

Do blog Paris 75004, da jovem jornalista Carol Bensimon (75004 é o cod.postal de seu endereço), de onde narra suas aventuras cotidianas. Dá para ler mais clicando o título desta postagem.

O direito de dormir

"NÃO EXISTE IMAGEM que mais tranquilize a alma que a imagem de uma criança adormecida. Seus olhinhos fechados dizem que o seu pequeno corpo está fechado dentro de si mesmo, num ninho de silêncio e escuridão.
Mas é comum que essa tranquilidade seja precedida por uma luta contra o sono: a criança não quer dormir. Ela tem medo da escuridão. E o medo agita a alma.
Foi pensando nisso que os músicos inventaram um tipo de música chamado "berceuse", que é uma canção doce destinada a ajudar as crianças a dormir. Ah! Como são lindas as "berceuses" de Brahms e de Schumann! Elas acalmam a criança amedrontada que mora em mim, põem os seus medos para dormir. E enquanto seus medos dormem, eu durmo bem longe deles...
Mas isso que os músicos fizeram foi apenas instrumentalizar as canções que as mães de todo o mundo inventaram para fazer seus filhos dormirem. As "berceuses" acalmam as almas das crianças.
Tudo o que existe precisa dormir. O simples existir cansa. A se acreditar nos poetas e nas crianças, até mesmo as coisas.
Minha filha de quatro anos, olhando os vales e montanhas que se perdiam de vista nos horizontes de Campos de Jordão, fez-me essa pergunta metafísica: "Papai, as coisas não se cansam de serem coisas?"
Fernando Pessoa teve suspeita semelhante e escreveu: "Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas, como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, de ser, só de ser, o ser triste, brilhar ou sorrir...".
Ele, poeta, estava cansado. Olhava para as estrelas que luziam havia tanto tempo e tinha dó delas. Elas deveriam estar muito cansadas. Suas pálpebras jamais se fechavam. Seus olhos estavam sempre abertos, sem poder dormir jamais...
Pergunto-me então se não haverá um simples cansaço de viver. Será que não chega o momento em que a vida diz, das profundezas do seu ser, como um pedido de socorro aos que entendem a sua fala: "Estou cansada. Quero dormir o grande sono..."?
Os especialistas na arte da tortura descobriram que uma das técnicas mais eficazes e discretas para se obter a confissão de um torturado era a de impedir que ele dormisse. Assentado numa poltrona confortável, o prisioneiro espera. O tempo passa em silêncio, sem interrogatório. Vem o sono. As pálpebras pesam e querem se fechar. Mas alguém que o vigia o sacode para impedir que ele durma. E assim o tempo vai passando. O desejo de dormir vai crescendo, as pálpebras pesam até um ponto insuportável. Nesse momento, a necessidade de dormir é tão terrível que o prisioneiro está pronto para confessar qualquer coisa só para poder dormir.
Foi coisa parecida que fizeram com a Eluana Englaro, mulher italiana com 38 anos de idade, dos quais 17 em vida vegetativa. Seu sono sem despertar dizia que ela desejava dormir. Mas os torturadores, a ciência, as leis e a religião lhe negavam esse direito. Obrigavam-na a continuar viva contra a vontade do seu corpo, que ansiava pelo grande sono. Ligaram seu corpo a máquinas que impediam que ela dormisse. Vivia mecanicamente.
Finalmente o direito de dormir lhe foi concedido. Fantasio que ela dormiu como uma criança, ouvindo a "berceuse" de Brahms."


Rubem Alves na FSP

fevereiro 16, 2009

"curriculum mortis"

Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas. Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo. Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança... "O que a memória amou fica eterno", disse a Adélia Prado. Mas há um outro tipo de memória que não foi eternizado pelo amor. Essas memórias não moram na alma. Moram nos arquivos da razão. São informações verdadeiras e inertes. Inertes são as memórias que a razão sabe mas o corpo não ama. É o caso daquilo que comumente se chama de "curriculum vitae". Um curriculum vitae é uma lista de informações inertes. Importantes do ponto de vista institucional, frequentemente exigidas, como comprovação de competência. Mas sua lembrança não me comove. Assim, acho que não merecem ser chamadas de "curriculum vitae". A vida não é uma lista de informações. Prefiro chamar esta lista de "curriculum mortis" - nada mórbido, apenas cômico. Meu currículum vitae verdadeiro você encontrará nas minhas conversas, crônicas, pensamentos, cartas, concertos de poesia...
(Rubem Alves, em sua página, na introdução ao seu curriculum)

fevereiro 15, 2009

Quaresmeiras.... etc

As quaresmeiras não estão nem aí para o calendário e já tingiram de lilás a Serra do Mar. Na cidade, a paisagem não mostra nenhum vestígio da estação. Nem sinal de sol. As "polaquinhas", encapotadas ( algumas de botas altas), desfilam suas roupas escuras pela Comendador em direção ao calçadão, à praça Osório ou dispersando-se por suas travessas. Hora do almoço. Da sobreloja do Edficio Asa observei este ir e vir, enquanto lembrava de outros verões. Desci para o café da esquina da Cândido Lopes. Novo posto de observação e de relembranças... As férias nos meses de janeiro/fevereiro eram muito disputadas. Acabavam sendo definidas através de sorteios. Mas sempre optei por férias nas meias estações. Eram mais adequadas aos meus interesses... Ir para Matinhos ou Guaratuba nunca foi meu sonho de consumo.
Ao meio dia a temperatura chegou a vinte e dois graus. Pelo sim, pelo não, ninguém se arrisca a por pernas ou pés de fora. À tardinha, invariavelmente, volta a esfriar, isto se, pra completar, não acabar chovendo. Até hoje mantenho o hábito e trago sempre um guarda chuva na bolsa. Essa é Curitiba.
Naquele tempo circulava uma piadinha infame. Dizia-se que as estações seriam duas: o inverno e a rodoferroviária. Ficou desatualizada .
Curitiba perdeu mais do que isto. Da tal da qualidade de vida tão alardeada pelos que diziam pretender fazer dela uma cidade de “ primeiro mundo” , nem que fosse à custa de devolver os pobres que chegavam sem moradia e emprego, resta pouco. No trajeto que fiz até o centro encontrei umas tres ou quatro pessoas dormindo na rua. O “ resgate social” não existe mais ou não dá conta de recolhê-las ? Havia ainda a “linha do sopão” que passava, bem mais tarde, distribuindo sopa (inclusive para os garis) e recolhia os semtetos (não sei se escreve assim) mais resistentes para o albergue. O frio não era para brincadeira ...
Por algum tempo, acreditei que aqueles propósitos de fazer de Curitiba uma cidade habitável, também não eram de brincadeira. Hoje a cidade ficou igual as outras. Só o provincianismo dos curitibanos faz com que insistam em acreditar que a cidade em alguns aspectos não seja , hoje, até pior do que muitas.
Melhor nem comentar....

A Q U A R I U S


"Aquarius-Let the Sunshine In" é o tema de abertura de “Hair”, o musical que, no teatro, final dos anos 60, foi símbolo da contracultura, tendo o Vietnã como pano de fundo.Ao cinema chegou em 1979 pelas mãos do Millos Forman.
"...quando a Lua estiver na sétima casa e Júpiter se alinhar com Marte, a paz guiará os planetas, e o amor moverá as estrelas”.
“Este é o alvorecer da Era de Aquarius.”

O que teria acontecido ontem, segundo a Fraternidade Pax Universal.
Ou seria só mais um espetáculo da Broadway?

fevereiro 12, 2009

Alexandre Tharaud


Alexandre Tharaud - Erik Satie

Abraham Lincoln


Hoje é o bicentenário de Abraham Lincoln, uma das maiores figuras da história americana, considerado a própria encarnação de um estadista. Foi presidente dos EUA, durante a Guerra Civil (1861-65), na qual centenas de milhares morreram e o país quase rachou ao meio. Durante a guerra ele promoveu a libertação dos escravos e a ocupação produtiva. Clamou pela unidade não pelo princípio de autoridade, ou invocando Deus, mas apelando ao projeto de construir uma nação baseada na liberdade individual e na descentralização federativa. Suas expressões entraram para a história, como "todos os homens são criados iguais" e "governo do povo, pelo povo, para o povo". Não foi a sua morte por assassinato que construiu sua lenda, mas seus atos e palavras."Sem malícia contra ninguém; com caridade para com todos; com firmeza no correto, que Deus nos permita ver o certo, nos permita lutar para concluirmos o trabalho que começamos; para fechar as feridas da nação..." Em 14 de abril de 1865, uma sexta-feira santa, Lincoln foi assassinado no Teatro Ford em Washington por John Wilkes Booth, um ator que achava estar ajudando o Sul. O resultado foi o oposto.
Dono de forte personalidade e habilidade para expressar suas convicções, Abraham Lincoln é tido como um dos inspiradores da moderna democracia. O próprio personagem de Lincoln, sua aparência física, os tristes episódios de sua vida familiar, suas relações com as mulheres sempre problemáticas ou distantes, continuam a excitar a curiosidade. Historiadores e biógrafos já sugeriram a sua homossexualidade (O Mundo Íntimo de Abraham Lincoln,de CA Tripp - clic no título).
Ainda este ano será lançado o filme do Steven Spielberg que cobrirá o período no qual Abraham Lincoln ocupou a Casa Branca, entre 1861 e 1865, e abordará, “com enfoque polêmico”, os relacionamentos que ele manteve com aqueles que o cercavam.
Faz muito tempo que li sua biografia. Num tempo em que minhas dores de cabeça se equiparavam as da Sra. Lincoln, as quais o autor se referia em maiúsculas: Dor de Cabeça. Assim eram também as minhas. As razões é que não eram as mesmas. Ou seriam?

fevereiro 11, 2009

EQUADOR - A SÉRIE

"A série televisiva EQUADOR, baseada na obra literária de Miguel Sousa Tavares, constituiu o maior desafio de sempre posto à TVI, à Produtora Plano 6, ao Director do Projecto André Cerqueira, ao Rui Vilhena e restante equipa de guionistas, aos 119 Actores que compõem o elenco, aos 3 Realizadores, aos Produtores, aos Directores de actores e a toda uma vasta equipa técnica que tornou possível concretizar um sonho, que muitos pensavam ser difícil de realizar em Portugal.
Durante 7 meses, a maior produção de sempre da televisão portuguesa gravou em 4 Continentes, transportou milhares de Kg de bagagem, contratou milhares de figurantes na Índia, no Brasil, em S. Tomé e em Portugal.
Gravada em alta definição, a série EQUADOR transporta para a televisão o encanto que o livro já nos havia transmitido…
É essa fantástica aventura, que foi produzir esta série, que agora vos convidamos a conhecer através deste blogue. Ao consultar os Álbuns fotográficos que colocámos à vossa disposição, estamos a transportar-vos para os bastidores de uma produção televisiva que vai marcar para sempre a ficção nacional portuguesa, e que a TVI, com enorme orgulho, passa a exibir já a partir de 21 de Dezembro de 2008."
Do blog http://diariodoequador.blogs.iol.pt/21755/

Sobre o autor e o livro que inspirou a série, leia clicando o título acima.













cont...

VERMOUTH

Quem me conhece minimamente sabe que me interesso por bebidas. Isto não é um eufemismo para dizer que bebo. Tenho curiosidade, como tenho por perfumes. E gosto de provar. A ambos. Se gostar, repito. Por uns tempos. Nada precisa ser para sempre. A bola da vez, é o Chambéry
Vermurtes sâo bebidas à base de vinhos aromatizados . A palavra tem origem no alemão Wermuth . É um aperitivo franco-italiano produzido a partir de vinho branco ou tinto, em cuja composição são utilizadas, além do absinto, muitas outras ervas, dentre elas camomila (nos vermutes secos) genciana ( nos tintos) baunilha (nos doces) , ruibarbo, raiz de iris, quinino e cascas de frutas cítricas.
Existem achados arqueológicos dando conta de que os romanos já aromatizavam seus vinhos. Não só para realce do paladar mas por questão de conservação. A “arte” do vermute atravessou a Idade Média pelas mãos dos monges, alquimistas e médicos. Embora alguns dos ingredientes sejam cultivados no Oriente e na América Latina, muitos outros são típicos dos Alpes. Remédios à base de ervas sempre foram populares na França e na Itália, as lojas que forneciam raízes, cascas, sementes, flores e frutos para esse fim também o faziam para os licoristas domésticos.
Foi nos vales alpinos, nos dois lados da fronteira, que a produção de licores e vermutes se tornou uma indústria organizada. Na França tal processo ocorreu em Chambéry, a famosa pelos vermutes secos e delicados. Na Itália, a indústria do vermute surgiu em Torino, hoje a maior produtora do mundo e quartel-general das empresas Martini e Cinzano.
Cada tipo de vermute é feito de modo ligeiramente diferente, mas todos são macerados por um período entre seis meses e um ano ou mais. Alguns contêm produtos destilados em sua composição, principalmente os do tipo seco, mais fortes que os outros. Todos os tipos de vermute são usados extensivamente em coquetéis e como aperitivos, geralmente com muito gelo e, às vezes, com soda.
Tin- tin!

PS: a regulamentação do Conselho da CEE se acessa cliacando o título

Escravidão eletrônica

Textos como este me fazem refletir sobre como estaremos e o que sentiremos ao relê-lo daqui a uns 5 ou 10 anos, talvez menos...

"PROCURO MANTER máxima distância do meu telefone celular. Por sorte, não é objeto imprescindível no meu cotidiano. Contaram-me de pessoas ocupadíssimas, que usam três celulares ao mesmo tempo.
Creio ter visto algumas delas em lojas ou elevadores. Berram no aparelho, que deveria ter algum mecanismo melhor de captação de som. Ou será que o mecanismo já é bom, e seus usuários não percebem?
Levo sempre um susto quando estou ao lado de uma pessoa, aparentemente normal e civilizada, e subitamente percebo que ela está falando em voz alta com alguém a quilômetros de distância.
Não sou ciumento, mas me sinto despossuído, roubado, ignorado, por alguém que prefere falar no celular em vez de manter o mesmo silêncio que eu. Será vaidade minha? Não sei. Prefiro pensar que se trata de um desrespeito: o falante do celular age como se eu não existisse.
Todo esse tipo de queixas se reduz à picuinha diante da última e assustadora novidade que li nos jornais.
Inventaram um jeito de localizar as pessoas por meio do celular. O serviço Latitude, do Google, descobre o paradeiro do cidadão que estiver com o celular ligado, desde que ele concorde em se inscrever no programa.
Em tese, como sempre, a invenção é boa: você marcou um encontro com um amigo (ou não marcou, pouco importa). Torna-se possível saber onde ele está, com visualização de mapas e tudo mais.
Amigos há muito tempo distantes se reencontrarão nas planícies de Mato Grosso, ex-mulheres poderão ser evitadas numa excursão às boates da moda, crianças perdidas reencontrarão os braços dos pais.
Fora essas situações extremas e cinematográficas, o Google Latitude se assemelha a outro dispositivo, contra o qual não me oponho. É o bracelete eletrônico, a tornolezeira punitiva que se usa para vigiar criminosos em regime de liberdade condicional.
Eis um instrumento maravilhoso, que evoca a velha imagem da bola de ferro presa com correntes ao tornozelo do prisioneiro, mas sob uma concepção moderna do ser humano: ele será livre, mas, graças à algema eletrônica, poderemos monitorá-lo. Que desperdício, afinal, de tempo e desconfiança, não existe em guardar um criminoso entre as grades?
Mas o sistema inventado pelo Google transforma cada portador de celular num preso virtual. O telefone móvel, que já era uma espécie de carro de bombeiros pronto a soar seu alarme em casos de emergência doméstica, torna-se uma espécie de radiopatrulha, pronta a detectar culpas e desvios de rota na vida de um cidadão honesto.
No mundo fantasioso do liberalismo, nenhum atentado à privacidade pessoal foi feito com essa invenção. O indivíduo escolhe soberanamente: instala o instrumento em seu celular ou não? Abre seus códigos para os amigos ou não? Na vida real, os problemas são maiores. Uma indústria pode querer saber o que fazem seus vendedores e mensageiros quando se aventuram pelo mundo. Quantos trabalhadores serão obrigados a inscrever seus celulares no novo programa?
É verdade que a informática, até agora, esteve a serviço do trabalhador relapso. Sem ninguém ver, ele acessa sites de relacionamento pessoal nos horários de trabalho.
Uma questão subsiste, entretanto, nesse pega-pega entre o trabalhador e o patrão. Será realmente necessário o trabalho do empregado que foge o máximo que pode das exigências impostas no seu horário de serviço? Serão essenciais as horas integrais de esforço do funcionário que "tira uma folguinha" frequentando uma lan house ou um centro de videogames quando já está com sua missão cumprida?
Na outra ponta do espectro organizacional, o chefe aciona freneticamente as teclas do seu computador. Localiza o motoboy relapso nas imediações de uma praça onde ele não deveria estar. Brinca de videogame ele também.
São todos escravos, talvez, de um sistema eletrônico no qual a diferença entre jogo e trabalho tende a desaparecer, assim como a diferença entre vida pública e vida pessoal.
Isso é bom? É ruim? Meu otimismo impede respostas apocalípticas. Confio na esperteza (para o bem e para o mal) do ser humano. Logo inventarão maneiras de fugir aos novos braceletes celulares. Logo inventarão meios de disciplinar mais o ser humano. Nesse jogo entre ordem e desordem, progredimos."


MARCELO COELHO na FSP

Blossom Dearie


The Best Is Yet To Come - From the album "May I Come In? - 1964

Música nos silêncios
Uma cantora morreu em Nova York neste fim de semana. Chamava-se Blossom Dearie. Tinha 82 anos e era a última sobrevivente da sua geração de "diseuses" de cabaré -intérpretes de pequenos ambientes, especialistas em canções com melodias e letras elaboradas, por autores como Cole Porter, Noël Coward, Duke Ellington, Cy Coleman, Michel Legrand, o próprio Tom Jobim. Canções que "dizem" coisas.
A exemplo de Blossom, esses cantores costumam ser seus próprios pianistas, dando um suave esmalte jazzístico ao acompanhamento. E nenhum deles jamais foi visto num hit parade. Ao mesmo tempo, atraíram pelos anos afora uma sólida multidinha internacional de adoradores, unidos pela admiração comum. No Brasil, os fãs de Blossom são tão poucos que, pelos meus cálculos, todos devem se conhecer.
Não que ela não pudesse ser de apelo universal. O problema era que o mundo teria de parar para escutá-la -porque a voz de Blossom, segundo o crítico Whitney Balliett, "mal alcançava o segundo andar de uma casa de bonecas". Já cantava assim, baixinho e sem sombra de vibrato, desde o começo dos anos 50, muito antes que se atribuísse a Chet Baker e João Gilberto a criação desse jeito de cantar.
Depois de décadas na geladeira mesmo nos EUA, as primeiras e definitivas gravações de Blossom estão disponíveis de novo, assim como os discos que ela produziu nos anos 70 e 80 para seu selo Daffodil. Estão todas na internet. "Hey, John", "I'm hip", "Peel me a grape", "Wave", "Chez moi" e "You fascinate me so" soam melhor do que nunca, vindas do espaço e fazendo curvas entre as esferas.
Em tempos de som e fúria -cada vez mais difícil dissociar as duas coisas-, Blossom era a prova de que pode haver grande música nas pausas e nos sussurros. Bem a propósito, morreu dormindo.

RUY CASTRO na FSP