fevereiro 12, 2009
Abraham Lincoln

Hoje é o bicentenário de Abraham Lincoln, uma das maiores figuras da história americana, considerado a própria encarnação de um estadista. Foi presidente dos EUA, durante a Guerra Civil (1861-65), na qual centenas de milhares morreram e o país quase rachou ao meio. Durante a guerra ele promoveu a libertação dos escravos e a ocupação produtiva. Clamou pela unidade não pelo princípio de autoridade, ou invocando Deus, mas apelando ao projeto de construir uma nação baseada na liberdade individual e na descentralização federativa. Suas expressões entraram para a história, como "todos os homens são criados iguais" e "governo do povo, pelo povo, para o povo". Não foi a sua morte por assassinato que construiu sua lenda, mas seus atos e palavras."Sem malícia contra ninguém; com caridade para com todos; com firmeza no correto, que Deus nos permita ver o certo, nos permita lutar para concluirmos o trabalho que começamos; para fechar as feridas da nação..." Em 14 de abril de 1865, uma sexta-feira santa, Lincoln foi assassinado no Teatro Ford em Washington por John Wilkes Booth, um ator que achava estar ajudando o Sul. O resultado foi o oposto.
Dono de forte personalidade e habilidade para expressar suas convicções, Abraham Lincoln é tido como um dos inspiradores da moderna democracia. O próprio personagem de Lincoln, sua aparência física, os tristes episódios de sua vida familiar, suas relações com as mulheres sempre problemáticas ou distantes, continuam a excitar a curiosidade. Historiadores e biógrafos já sugeriram a sua homossexualidade (O Mundo Íntimo de Abraham Lincoln,de CA Tripp - clic no título).
Ainda este ano será lançado o filme do Steven Spielberg que cobrirá o período no qual Abraham Lincoln ocupou a Casa Branca, entre 1861 e 1865, e abordará, “com enfoque polêmico”, os relacionamentos que ele manteve com aqueles que o cercavam.
Faz muito tempo que li sua biografia. Num tempo em que minhas dores de cabeça se equiparavam as da Sra. Lincoln, as quais o autor se referia em maiúsculas: Dor de Cabeça. Assim eram também as minhas. As razões é que não eram as mesmas. Ou seriam?
fevereiro 11, 2009
EQUADOR - A SÉRIE
"A série televisiva EQUADOR, baseada na obra literária de Miguel Sousa Tavares, constituiu o maior desafio de sempre posto à TVI, à Produtora Plano 6, ao Director do Projecto André Cerqueira, ao Rui Vilhena e restante equipa de guionistas, aos 119 Actores que compõem o elenco, aos 3 Realizadores, aos Produtores, aos Directores de actores e a toda uma vasta equipa técnica que tornou possível concretizar um sonho, que muitos pensavam ser difícil de realizar em Portugal.
Durante 7 meses, a maior produção de sempre da televisão portuguesa gravou em 4 Continentes, transportou milhares de Kg de bagagem, contratou milhares de figurantes na Índia, no Brasil, em S. Tomé e em Portugal.
Gravada em alta definição, a série EQUADOR transporta para a televisão o encanto que o livro já nos havia transmitido…
É essa fantástica aventura, que foi produzir esta série, que agora vos convidamos a conhecer através deste blogue. Ao consultar os Álbuns fotográficos que colocámos à vossa disposição, estamos a transportar-vos para os bastidores de uma produção televisiva que vai marcar para sempre a ficção nacional portuguesa, e que a TVI, com enorme orgulho, passa a exibir já a partir de 21 de Dezembro de 2008."
Do blog http://diariodoequador.blogs.iol.pt/21755/
Sobre o autor e o livro que inspirou a série, leia clicando o título acima.
cont...
Durante 7 meses, a maior produção de sempre da televisão portuguesa gravou em 4 Continentes, transportou milhares de Kg de bagagem, contratou milhares de figurantes na Índia, no Brasil, em S. Tomé e em Portugal.
Gravada em alta definição, a série EQUADOR transporta para a televisão o encanto que o livro já nos havia transmitido…
É essa fantástica aventura, que foi produzir esta série, que agora vos convidamos a conhecer através deste blogue. Ao consultar os Álbuns fotográficos que colocámos à vossa disposição, estamos a transportar-vos para os bastidores de uma produção televisiva que vai marcar para sempre a ficção nacional portuguesa, e que a TVI, com enorme orgulho, passa a exibir já a partir de 21 de Dezembro de 2008."
Do blog http://diariodoequador.blogs.iol.pt/21755/
Sobre o autor e o livro que inspirou a série, leia clicando o título acima.
cont...
VERMOUTH
Quem me conhece minimamente sabe que me interesso por bebidas. Isto não é um eufemismo para dizer que bebo. Tenho curiosidade, como tenho por perfumes. E gosto de provar. A ambos. Se gostar, repito. Por uns tempos. Nada precisa ser para sempre. A bola da vez, é o Chambéry
Vermurtes sâo bebidas à base de vinhos aromatizados . A palavra tem origem no alemão Wermuth . É um aperitivo franco-italiano produzido a partir de vinho branco ou tinto, em cuja composição são utilizadas, além do absinto, muitas outras ervas, dentre elas camomila (nos vermutes secos) genciana ( nos tintos) baunilha (nos doces) , ruibarbo, raiz de iris, quinino e cascas de frutas cítricas.
Existem achados arqueológicos dando conta de que os romanos já aromatizavam seus vinhos. Não só para realce do paladar mas por questão de conservação. A “arte” do vermute atravessou a Idade Média pelas mãos dos monges, alquimistas e médicos. Embora alguns dos ingredientes sejam cultivados no Oriente e na América Latina, muitos outros são típicos dos Alpes. Remédios à base de ervas sempre foram populares na França e na Itália, as lojas que forneciam raízes, cascas, sementes, flores e frutos para esse fim também o faziam para os licoristas domésticos.
Foi nos vales alpinos, nos dois lados da fronteira, que a produção de licores e vermutes se tornou uma indústria organizada. Na França tal processo ocorreu em Chambéry, a famosa pelos vermutes secos e delicados. Na Itália, a indústria do vermute surgiu em Torino, hoje a maior produtora do mundo e quartel-general das empresas Martini e Cinzano.
Cada tipo de vermute é feito de modo ligeiramente diferente, mas todos são macerados por um período entre seis meses e um ano ou mais. Alguns contêm produtos destilados em sua composição, principalmente os do tipo seco, mais fortes que os outros. Todos os tipos de vermute são usados extensivamente em coquetéis e como aperitivos, geralmente com muito gelo e, às vezes, com soda.
Tin- tin!
PS: a regulamentação do Conselho da CEE se acessa cliacando o título
Vermurtes sâo bebidas à base de vinhos aromatizados . A palavra tem origem no alemão Wermuth . É um aperitivo franco-italiano produzido a partir de vinho branco ou tinto, em cuja composição são utilizadas, além do absinto, muitas outras ervas, dentre elas camomila (nos vermutes secos) genciana ( nos tintos) baunilha (nos doces) , ruibarbo, raiz de iris, quinino e cascas de frutas cítricas.Existem achados arqueológicos dando conta de que os romanos já aromatizavam seus vinhos. Não só para realce do paladar mas por questão de conservação. A “arte” do vermute atravessou a Idade Média pelas mãos dos monges, alquimistas e médicos. Embora alguns dos ingredientes sejam cultivados no Oriente e na América Latina, muitos outros são típicos dos Alpes. Remédios à base de ervas sempre foram populares na França e na Itália, as lojas que forneciam raízes, cascas, sementes, flores e frutos para esse fim também o faziam para os licoristas domésticos.
Foi nos vales alpinos, nos dois lados da fronteira, que a produção de licores e vermutes se tornou uma indústria organizada. Na França tal processo ocorreu em Chambéry, a famosa pelos vermutes secos e delicados. Na Itália, a indústria do vermute surgiu em Torino, hoje a maior produtora do mundo e quartel-general das empresas Martini e Cinzano.
Cada tipo de vermute é feito de modo ligeiramente diferente, mas todos são macerados por um período entre seis meses e um ano ou mais. Alguns contêm produtos destilados em sua composição, principalmente os do tipo seco, mais fortes que os outros. Todos os tipos de vermute são usados extensivamente em coquetéis e como aperitivos, geralmente com muito gelo e, às vezes, com soda.
Tin- tin!
PS: a regulamentação do Conselho da CEE se acessa cliacando o título
Escravidão eletrônica
Textos como este me fazem refletir sobre como estaremos e o que sentiremos ao relê-lo daqui a uns 5 ou 10 anos, talvez menos...
"PROCURO MANTER máxima distância do meu telefone celular. Por sorte, não é objeto imprescindível no meu cotidiano. Contaram-me de pessoas ocupadíssimas, que usam três celulares ao mesmo tempo.
Creio ter visto algumas delas em lojas ou elevadores. Berram no aparelho, que deveria ter algum mecanismo melhor de captação de som. Ou será que o mecanismo já é bom, e seus usuários não percebem?
Levo sempre um susto quando estou ao lado de uma pessoa, aparentemente normal e civilizada, e subitamente percebo que ela está falando em voz alta com alguém a quilômetros de distância.
Não sou ciumento, mas me sinto despossuído, roubado, ignorado, por alguém que prefere falar no celular em vez de manter o mesmo silêncio que eu. Será vaidade minha? Não sei. Prefiro pensar que se trata de um desrespeito: o falante do celular age como se eu não existisse.
Todo esse tipo de queixas se reduz à picuinha diante da última e assustadora novidade que li nos jornais.
Inventaram um jeito de localizar as pessoas por meio do celular. O serviço Latitude, do Google, descobre o paradeiro do cidadão que estiver com o celular ligado, desde que ele concorde em se inscrever no programa.
Em tese, como sempre, a invenção é boa: você marcou um encontro com um amigo (ou não marcou, pouco importa). Torna-se possível saber onde ele está, com visualização de mapas e tudo mais.
Amigos há muito tempo distantes se reencontrarão nas planícies de Mato Grosso, ex-mulheres poderão ser evitadas numa excursão às boates da moda, crianças perdidas reencontrarão os braços dos pais.
Fora essas situações extremas e cinematográficas, o Google Latitude se assemelha a outro dispositivo, contra o qual não me oponho. É o bracelete eletrônico, a tornolezeira punitiva que se usa para vigiar criminosos em regime de liberdade condicional.
Eis um instrumento maravilhoso, que evoca a velha imagem da bola de ferro presa com correntes ao tornozelo do prisioneiro, mas sob uma concepção moderna do ser humano: ele será livre, mas, graças à algema eletrônica, poderemos monitorá-lo. Que desperdício, afinal, de tempo e desconfiança, não existe em guardar um criminoso entre as grades?
Mas o sistema inventado pelo Google transforma cada portador de celular num preso virtual. O telefone móvel, que já era uma espécie de carro de bombeiros pronto a soar seu alarme em casos de emergência doméstica, torna-se uma espécie de radiopatrulha, pronta a detectar culpas e desvios de rota na vida de um cidadão honesto.
No mundo fantasioso do liberalismo, nenhum atentado à privacidade pessoal foi feito com essa invenção. O indivíduo escolhe soberanamente: instala o instrumento em seu celular ou não? Abre seus códigos para os amigos ou não? Na vida real, os problemas são maiores. Uma indústria pode querer saber o que fazem seus vendedores e mensageiros quando se aventuram pelo mundo. Quantos trabalhadores serão obrigados a inscrever seus celulares no novo programa?
É verdade que a informática, até agora, esteve a serviço do trabalhador relapso. Sem ninguém ver, ele acessa sites de relacionamento pessoal nos horários de trabalho.
Uma questão subsiste, entretanto, nesse pega-pega entre o trabalhador e o patrão. Será realmente necessário o trabalho do empregado que foge o máximo que pode das exigências impostas no seu horário de serviço? Serão essenciais as horas integrais de esforço do funcionário que "tira uma folguinha" frequentando uma lan house ou um centro de videogames quando já está com sua missão cumprida?
Na outra ponta do espectro organizacional, o chefe aciona freneticamente as teclas do seu computador. Localiza o motoboy relapso nas imediações de uma praça onde ele não deveria estar. Brinca de videogame ele também.
São todos escravos, talvez, de um sistema eletrônico no qual a diferença entre jogo e trabalho tende a desaparecer, assim como a diferença entre vida pública e vida pessoal.
Isso é bom? É ruim? Meu otimismo impede respostas apocalípticas. Confio na esperteza (para o bem e para o mal) do ser humano. Logo inventarão maneiras de fugir aos novos braceletes celulares. Logo inventarão meios de disciplinar mais o ser humano. Nesse jogo entre ordem e desordem, progredimos."
MARCELO COELHO na FSP
"PROCURO MANTER máxima distância do meu telefone celular. Por sorte, não é objeto imprescindível no meu cotidiano. Contaram-me de pessoas ocupadíssimas, que usam três celulares ao mesmo tempo.
Creio ter visto algumas delas em lojas ou elevadores. Berram no aparelho, que deveria ter algum mecanismo melhor de captação de som. Ou será que o mecanismo já é bom, e seus usuários não percebem?
Levo sempre um susto quando estou ao lado de uma pessoa, aparentemente normal e civilizada, e subitamente percebo que ela está falando em voz alta com alguém a quilômetros de distância.
Não sou ciumento, mas me sinto despossuído, roubado, ignorado, por alguém que prefere falar no celular em vez de manter o mesmo silêncio que eu. Será vaidade minha? Não sei. Prefiro pensar que se trata de um desrespeito: o falante do celular age como se eu não existisse.
Todo esse tipo de queixas se reduz à picuinha diante da última e assustadora novidade que li nos jornais.
Inventaram um jeito de localizar as pessoas por meio do celular. O serviço Latitude, do Google, descobre o paradeiro do cidadão que estiver com o celular ligado, desde que ele concorde em se inscrever no programa.
Em tese, como sempre, a invenção é boa: você marcou um encontro com um amigo (ou não marcou, pouco importa). Torna-se possível saber onde ele está, com visualização de mapas e tudo mais.
Amigos há muito tempo distantes se reencontrarão nas planícies de Mato Grosso, ex-mulheres poderão ser evitadas numa excursão às boates da moda, crianças perdidas reencontrarão os braços dos pais.
Fora essas situações extremas e cinematográficas, o Google Latitude se assemelha a outro dispositivo, contra o qual não me oponho. É o bracelete eletrônico, a tornolezeira punitiva que se usa para vigiar criminosos em regime de liberdade condicional.
Eis um instrumento maravilhoso, que evoca a velha imagem da bola de ferro presa com correntes ao tornozelo do prisioneiro, mas sob uma concepção moderna do ser humano: ele será livre, mas, graças à algema eletrônica, poderemos monitorá-lo. Que desperdício, afinal, de tempo e desconfiança, não existe em guardar um criminoso entre as grades?
Mas o sistema inventado pelo Google transforma cada portador de celular num preso virtual. O telefone móvel, que já era uma espécie de carro de bombeiros pronto a soar seu alarme em casos de emergência doméstica, torna-se uma espécie de radiopatrulha, pronta a detectar culpas e desvios de rota na vida de um cidadão honesto.
No mundo fantasioso do liberalismo, nenhum atentado à privacidade pessoal foi feito com essa invenção. O indivíduo escolhe soberanamente: instala o instrumento em seu celular ou não? Abre seus códigos para os amigos ou não? Na vida real, os problemas são maiores. Uma indústria pode querer saber o que fazem seus vendedores e mensageiros quando se aventuram pelo mundo. Quantos trabalhadores serão obrigados a inscrever seus celulares no novo programa?
É verdade que a informática, até agora, esteve a serviço do trabalhador relapso. Sem ninguém ver, ele acessa sites de relacionamento pessoal nos horários de trabalho.
Uma questão subsiste, entretanto, nesse pega-pega entre o trabalhador e o patrão. Será realmente necessário o trabalho do empregado que foge o máximo que pode das exigências impostas no seu horário de serviço? Serão essenciais as horas integrais de esforço do funcionário que "tira uma folguinha" frequentando uma lan house ou um centro de videogames quando já está com sua missão cumprida?
Na outra ponta do espectro organizacional, o chefe aciona freneticamente as teclas do seu computador. Localiza o motoboy relapso nas imediações de uma praça onde ele não deveria estar. Brinca de videogame ele também.
São todos escravos, talvez, de um sistema eletrônico no qual a diferença entre jogo e trabalho tende a desaparecer, assim como a diferença entre vida pública e vida pessoal.
Isso é bom? É ruim? Meu otimismo impede respostas apocalípticas. Confio na esperteza (para o bem e para o mal) do ser humano. Logo inventarão maneiras de fugir aos novos braceletes celulares. Logo inventarão meios de disciplinar mais o ser humano. Nesse jogo entre ordem e desordem, progredimos."
MARCELO COELHO na FSP
Blossom Dearie
The Best Is Yet To Come - From the album "May I Come In? - 1964
Música nos silêncios
Uma cantora morreu em Nova York neste fim de semana. Chamava-se Blossom Dearie. Tinha 82 anos e era a última sobrevivente da sua geração de "diseuses" de cabaré -intérpretes de pequenos ambientes, especialistas em canções com melodias e letras elaboradas, por autores como Cole Porter, Noël Coward, Duke Ellington, Cy Coleman, Michel Legrand, o próprio Tom Jobim. Canções que "dizem" coisas.
A exemplo de Blossom, esses cantores costumam ser seus próprios pianistas, dando um suave esmalte jazzístico ao acompanhamento. E nenhum deles jamais foi visto num hit parade. Ao mesmo tempo, atraíram pelos anos afora uma sólida multidinha internacional de adoradores, unidos pela admiração comum. No Brasil, os fãs de Blossom são tão poucos que, pelos meus cálculos, todos devem se conhecer.
Não que ela não pudesse ser de apelo universal. O problema era que o mundo teria de parar para escutá-la -porque a voz de Blossom, segundo o crítico Whitney Balliett, "mal alcançava o segundo andar de uma casa de bonecas". Já cantava assim, baixinho e sem sombra de vibrato, desde o começo dos anos 50, muito antes que se atribuísse a Chet Baker e João Gilberto a criação desse jeito de cantar.
Depois de décadas na geladeira mesmo nos EUA, as primeiras e definitivas gravações de Blossom estão disponíveis de novo, assim como os discos que ela produziu nos anos 70 e 80 para seu selo Daffodil. Estão todas na internet. "Hey, John", "I'm hip", "Peel me a grape", "Wave", "Chez moi" e "You fascinate me so" soam melhor do que nunca, vindas do espaço e fazendo curvas entre as esferas.
Em tempos de som e fúria -cada vez mais difícil dissociar as duas coisas-, Blossom era a prova de que pode haver grande música nas pausas e nos sussurros. Bem a propósito, morreu dormindo.
RUY CASTRO na FSP
fevereiro 10, 2009
O que eu gostaria ?
Ontem amanheci leve, saltitante como um passarinho. Eu que andava meio perdida, acordei depois de um sonho muito bom. Alguém me levando pela mão para um lugar que eu não precisava me preocupar qual seria . Assim, simplesmente, indo, me deixando levar como nunca me permiti. Uma sensação de entrega, confiança naquela mão que me conduzia. Não sou dada a buscar interpretações para sonhos. Acho isto uma bobagem. Mas o sonho me fez pensar que se eu tivesse alguma vez cedido o controle e me deixado levar.... quem sabe não me sentiria melhor. Responsável pelas decisões seria quem me levou ou deixou de me levar. Não sempre eu, sozinha, arcando com as consequências delas, pagando o preço pelos erros. Os últimos dias foram muito atípicos e cheios de sentimentos confusos. A minha autocomiseração chegou a níveis bem elevados. A luz vermelha acendeu quando me lembraram de voltar à terapia .
Tenho que admitir que uma parte do que aconteceu tem a ver com a maneria como conduzo meus relacionamentos, com a necessidade de me sentir querida e com esta busca de felicidade como ideal. Tudo isto junto. E ainda tenho a pretensão de achar que entendo alguns processos e sentimentos, que sei lidar com eles. Continuo, equivocadamente, buscando alternativas fora de mim. Acreditando que os outros é que dão sentido e complementam a minha vida...
Ficando mal por não ter “um projeto” de vida, tenho me esquecido de, simplesmente , viver. Acho que é disto que eu gostaria.Viver!
Tenho que admitir que uma parte do que aconteceu tem a ver com a maneria como conduzo meus relacionamentos, com a necessidade de me sentir querida e com esta busca de felicidade como ideal. Tudo isto junto. E ainda tenho a pretensão de achar que entendo alguns processos e sentimentos, que sei lidar com eles. Continuo, equivocadamente, buscando alternativas fora de mim. Acreditando que os outros é que dão sentido e complementam a minha vida...
Ficando mal por não ter “um projeto” de vida, tenho me esquecido de, simplesmente , viver. Acho que é disto que eu gostaria.Viver!
fevereiro 09, 2009
O amor não tira férias
Nada melhor que esta charmosa comédia romântica para um fim de domingo. Suspirar pelo Jude Law e acreditar que tudo pode acabar bem ...A troca de casa por temporada, pano de fundo para o desenvolvimento do enredo, é uma idéia que sempre me pareceu simpática e que foi muito bem aproveitada. Mas o que o filme tem de mais marcante é a homenagem da roteirista ao antigo cinema hollywoodiano, além de uma trilha sonora das boas. As duas mulheres solteiras, uma americana e uma inglesa, ambas estressadas e com problemas de relacionamento com seus homens, resolvem sumir durante as férias para descansar a cabeça e o coração. Por meio de um website, trocam de casa entre si por duas semanas, tempo suficiente para começarem a ver a vida com outros olhos e redescobrirem o amor. Mais previsível impossível. Ah! não acredito que o filme agrade a todo tipo de homem...
Nada mudou ?
O 02 Neurônio ( Jô Hallack >> Nina Lemos >> Raq Affonso - http://02neuronio.blog.uol.com.br/) tem coluna semanal na folhateen . Talvez alguém se pergunte o que pode ter o 02 Neurônio a ver comigo. Tudo. Enquanto trabalhei no magistério, em contato com jovens, me espantava que a "problemática" das meninas continuasse a mesma da minha geração: os homens e o fato de eles não haverem acompanhado as transformações por que passaram as mulheres e, na esteira disso, o mundo. Apontar culpados não resolve, mas uma reflexão é inevitável: se são todos filhos da (de uma) mãe, que mulheres são estas que criam e educam filhos que repetem os mesmos comportamentos e valores de que elas próprias se dizem "vítimas"? por que os filhos homens continuam dotados de uma imaturidade quase insuperável?
Ainda hoje, da parte de várias mães (e de um pai!) registro a preocupação de que o filho ("perdido") encontre uma jovem que tenha mais "juízo" e maturidade do que ele.
Em pleno século XXI, o texto abaixo me faz desacreditar que alguma coisa realmente mudou...
Os homens "são assim"
A COMPLACÊNCIA da humanidade com os homens é uma coisa realmente irritante.
Com a revolução sexual, queima de sutiãs, pílula, luta pelo sufrágio universal etc., a mulher mudou seu lugar no mundo. Trabalhamos, não precisamos depender dos homens para sobreviver, temos filhos se quisermos e usamos calça. Parece espantoso, mas nem sempre foi assim. Claro que essas conquistas femininas também têm seu lado negativo. Trabalhamos demais, entramos no drama de ter ou não filhos, fazemos jornada quíntupla de trabalho e ainda lavamos mais a louça de casa do que os homens.
Contradições da vida. O mundo sempre em mudança. Esse tipo de coisa. Não ficamos nos lamuriando por aí. Lamúria, às vezes, é importante. Mas, como rotina, é bem chata. Sabemos que temos que ir à luta, que nem tudo é perfeito, que não existe mundo ideal e por aí vai. Por isso, todos os dias colocamos os óculos escuros e, com ou sem lágrimas, vamos trabalhar e nos divertir.
Os homens, por sua vez, muitas vezes se sentem mais por fora do que umbigo de mulata. Não conseguem se adaptar aos novos tempos, têm draminhas existenciais que são reflexo do mundo (ainda) machista em que vivemos, trocam os pés pelas mãos. E esse é o ponto: em vez de o comportamento masculino ser criticado, todo mundo entende que o homem se sinta perdido. "Ah, coitados, né, eles não sabem mais o que fazer." E perdoa. E sobra para quem? Para a mulher, que é OBRIGADA a entender e aceitar um comportamento "vintage" do alheio.
Claro que a humanidade não tem a mesma complacência com o lado de cá. Mulheres ganharam, com o tempo, fama de sem noção, histéricas e pegajosas. Se elas agem de um jeito bizarro porque realmente o mundo é muito louco -e, logo, às vezes as moças também surtam-, são tratadas como... doidas e malucas.
Enquanto escrevemos esta coluna, muitos homens, coitados, estão perdidos. E muitas mulheres estão sendo chamadas de malucas surtadas. E depois perguntam se a gente ainda tem motivos para ser um pouco feminista...
Revolución, chicas!
Ainda hoje, da parte de várias mães (e de um pai!) registro a preocupação de que o filho ("perdido") encontre uma jovem que tenha mais "juízo" e maturidade do que ele.
Em pleno século XXI, o texto abaixo me faz desacreditar que alguma coisa realmente mudou...
Os homens "são assim"
A COMPLACÊNCIA da humanidade com os homens é uma coisa realmente irritante.
Com a revolução sexual, queima de sutiãs, pílula, luta pelo sufrágio universal etc., a mulher mudou seu lugar no mundo. Trabalhamos, não precisamos depender dos homens para sobreviver, temos filhos se quisermos e usamos calça. Parece espantoso, mas nem sempre foi assim. Claro que essas conquistas femininas também têm seu lado negativo. Trabalhamos demais, entramos no drama de ter ou não filhos, fazemos jornada quíntupla de trabalho e ainda lavamos mais a louça de casa do que os homens.
Contradições da vida. O mundo sempre em mudança. Esse tipo de coisa. Não ficamos nos lamuriando por aí. Lamúria, às vezes, é importante. Mas, como rotina, é bem chata. Sabemos que temos que ir à luta, que nem tudo é perfeito, que não existe mundo ideal e por aí vai. Por isso, todos os dias colocamos os óculos escuros e, com ou sem lágrimas, vamos trabalhar e nos divertir.
Os homens, por sua vez, muitas vezes se sentem mais por fora do que umbigo de mulata. Não conseguem se adaptar aos novos tempos, têm draminhas existenciais que são reflexo do mundo (ainda) machista em que vivemos, trocam os pés pelas mãos. E esse é o ponto: em vez de o comportamento masculino ser criticado, todo mundo entende que o homem se sinta perdido. "Ah, coitados, né, eles não sabem mais o que fazer." E perdoa. E sobra para quem? Para a mulher, que é OBRIGADA a entender e aceitar um comportamento "vintage" do alheio.
Claro que a humanidade não tem a mesma complacência com o lado de cá. Mulheres ganharam, com o tempo, fama de sem noção, histéricas e pegajosas. Se elas agem de um jeito bizarro porque realmente o mundo é muito louco -e, logo, às vezes as moças também surtam-, são tratadas como... doidas e malucas.
Enquanto escrevemos esta coluna, muitos homens, coitados, estão perdidos. E muitas mulheres estão sendo chamadas de malucas surtadas. E depois perguntam se a gente ainda tem motivos para ser um pouco feminista...
Revolución, chicas!
A maratona da palavra
"EM BOA hora a Academia Brasileira de Letras baixou, literariamente, decreto instituindo que 2009 passa a ser o Ano Euclides da Cunha, em razão do centenário da morte do escritor (engenheiro, pensador, historiador, geógrafo, sociólogo, ecologista, repórter, poeta...). Ao fazê-lo, a ABL estimula o debate sobre a importância do autor, ajudando a libertá-lo dos estereótipos que marcam sua vida e sua criação artística.
Euclides não foi apenas o escritor de uma obra-prima de difícil leitura ("Os Sertões"), morto pelo amante (Dilermando) da esposa (Anna).
É certo que apenas o grande livro seria suficiente para imortalizar o autor. Afinal, em que pesem o determinismo geográfico e o etnocentrismo reducionista, comuns na época em que a obra foi escrita, seu rico conteúdo continua gerando estudos, reflexões, abordagens múltiplas, a desvelar sua contribuição à compreensão do Brasil e a reiterar seu valor como obra de arte. Cite-se, como exemplo, a métrica poética de diversas passagens do texto, apontada por Guilherme de Almeida e Augusto de Campos, em notáveis estudos. Sem falar na exuberante, riquíssima, genial -escasseiam os adjetivos- montagem que o Grupo Oficina Uzyna Uzona faz de "Os Sertões", em sucessivas apresentações nos últimos anos.
De outro lado, o grande livro é temperado por uma honestidade intelectual a toda prova: na introdução, o autor penitencia-se pelo erro histórico ("um crime", escreve) que se cometeu contra a população sertaneja dizimada em Canudos, afirmando a necessidade de registrar, para a posteridade, os descalabros perpetrados no sertão baiano pela República nascente.
Justamente Euclides, que anos antes escrevera artigos reclamando que o movimento messiânico de Antonio Conselheiro fosse debelado com pulso forte... Mas que, ao testemunhar, pessoalmente, a chacina, horroriza-se e escreve seu libelo antológico, obra sem par na literatura universal.
Na celebração centenária, emergirão, por certo, facetas inumeráveis de Euclides, esmaecidas pelo tempo, como o escritor de artigos e o palestrante de conferências que versavam sobre os mais variados assuntos -do poeta Castro Alves à Revolta da Armada, passando pela ocupação da Amazônia e chegando a análises sublimes sobre política internacional.
É incrível ler Euclides dissertando, por exemplo, sobre as cidades mortas do interior paulista após o auge do café, antecipando reflexões que celebrizariam Monteiro Lobato anos mais tarde. Ou, então, as frequentes denúncias do ecologista indignado, vituperando contra queimadas e desmatamentos -há mais de cem anos! Inquietante é ler, também, estultices de um homem tão ilustrado -por exemplo, quando se refere ao Tibete, em determinado artigo: "Um terço de sua população é de lamas -monges miseráveis e repulsivos, vestidos de trapos de mortalhas, meio idiotas e errantes de mosteiro em mosteiro".
Também virão à baila textos de biógrafos e comentadores de Euclides, em reedições de obras há muito esgotadas e em novas publicações, a traçar o vasto painel de sua contribuição intelectual. Sem falar em exposições, seminários, artigos em torno da vida e da obra (literária e de engenharia). Um aspecto, no que tange a Euclides, parece-me essencial. Seus textos ensejam uma reflexão sobre o estímulo ao ato de ler em um país de baixíssimos índices de leitura. Como animar, sobretudo as novas gerações, a encarar a árdua tarefa de se debruçar sobre os complexos textos euclidianos? Porque ler Euclides não é bolinho... Parece até que ele engoliu um dicionário, de tal forma os vocábulos vão se encachoeirando, caudalosos, numa profusão de termos, refulgindo, aos borbotões, em tom ora árido e parcimonioso, ora torrencial e arrebatado.
Enfim, a leitura para o simples mortal torna-se tormentosa. No caso, prazer do texto, saber com sabor, não são facilidades imediatas, tão propaladas em nossa cultura do consumo.
Via de regra, ler Euclides da Cunha é um exercício árduo, uma maratona, em que o desgaste só é inteiramente recompensado, como em uma corrida, ao final, quando se sente o torpor causado pela endorfina. No começo, alguém pode até sentir azia com a leitura... Mas o bom é que o remédio se obtém com o próprio texto, que, depois de deglutido, provoca um bem-estar inaudito.
Para lê-lo, é preciso treino, para apreender o rico conteúdo escondido nas brenhas de seu linguajar erudito.
Antes de mais nada, aproveitemos que temos todos de recorrer ao dicionário e às gramáticas em tempos de reforma ortográfica. Somem-se mapas geográficos e geológicos. Ademais, o próprio autor, em passagem de seu livro "Contrastes e Confrontos", sugere uma fórmula que bem serve para uma leitura frutuosa: "No remanso das culturas, na disciplina da atividade, adstrita a longos esforços consistentes"."--------------------------------------------------------------------------------
CÁSSIO SCHUBSKY, 43, formado em direito pela USP e em história pela PUC-SP, é editor e historiador.
FSP hoje
Euclides não foi apenas o escritor de uma obra-prima de difícil leitura ("Os Sertões"), morto pelo amante (Dilermando) da esposa (Anna).
É certo que apenas o grande livro seria suficiente para imortalizar o autor. Afinal, em que pesem o determinismo geográfico e o etnocentrismo reducionista, comuns na época em que a obra foi escrita, seu rico conteúdo continua gerando estudos, reflexões, abordagens múltiplas, a desvelar sua contribuição à compreensão do Brasil e a reiterar seu valor como obra de arte. Cite-se, como exemplo, a métrica poética de diversas passagens do texto, apontada por Guilherme de Almeida e Augusto de Campos, em notáveis estudos. Sem falar na exuberante, riquíssima, genial -escasseiam os adjetivos- montagem que o Grupo Oficina Uzyna Uzona faz de "Os Sertões", em sucessivas apresentações nos últimos anos.
De outro lado, o grande livro é temperado por uma honestidade intelectual a toda prova: na introdução, o autor penitencia-se pelo erro histórico ("um crime", escreve) que se cometeu contra a população sertaneja dizimada em Canudos, afirmando a necessidade de registrar, para a posteridade, os descalabros perpetrados no sertão baiano pela República nascente.
Justamente Euclides, que anos antes escrevera artigos reclamando que o movimento messiânico de Antonio Conselheiro fosse debelado com pulso forte... Mas que, ao testemunhar, pessoalmente, a chacina, horroriza-se e escreve seu libelo antológico, obra sem par na literatura universal.
Na celebração centenária, emergirão, por certo, facetas inumeráveis de Euclides, esmaecidas pelo tempo, como o escritor de artigos e o palestrante de conferências que versavam sobre os mais variados assuntos -do poeta Castro Alves à Revolta da Armada, passando pela ocupação da Amazônia e chegando a análises sublimes sobre política internacional.
É incrível ler Euclides dissertando, por exemplo, sobre as cidades mortas do interior paulista após o auge do café, antecipando reflexões que celebrizariam Monteiro Lobato anos mais tarde. Ou, então, as frequentes denúncias do ecologista indignado, vituperando contra queimadas e desmatamentos -há mais de cem anos! Inquietante é ler, também, estultices de um homem tão ilustrado -por exemplo, quando se refere ao Tibete, em determinado artigo: "Um terço de sua população é de lamas -monges miseráveis e repulsivos, vestidos de trapos de mortalhas, meio idiotas e errantes de mosteiro em mosteiro".
Também virão à baila textos de biógrafos e comentadores de Euclides, em reedições de obras há muito esgotadas e em novas publicações, a traçar o vasto painel de sua contribuição intelectual. Sem falar em exposições, seminários, artigos em torno da vida e da obra (literária e de engenharia). Um aspecto, no que tange a Euclides, parece-me essencial. Seus textos ensejam uma reflexão sobre o estímulo ao ato de ler em um país de baixíssimos índices de leitura. Como animar, sobretudo as novas gerações, a encarar a árdua tarefa de se debruçar sobre os complexos textos euclidianos? Porque ler Euclides não é bolinho... Parece até que ele engoliu um dicionário, de tal forma os vocábulos vão se encachoeirando, caudalosos, numa profusão de termos, refulgindo, aos borbotões, em tom ora árido e parcimonioso, ora torrencial e arrebatado.
Enfim, a leitura para o simples mortal torna-se tormentosa. No caso, prazer do texto, saber com sabor, não são facilidades imediatas, tão propaladas em nossa cultura do consumo.
Via de regra, ler Euclides da Cunha é um exercício árduo, uma maratona, em que o desgaste só é inteiramente recompensado, como em uma corrida, ao final, quando se sente o torpor causado pela endorfina. No começo, alguém pode até sentir azia com a leitura... Mas o bom é que o remédio se obtém com o próprio texto, que, depois de deglutido, provoca um bem-estar inaudito.
Para lê-lo, é preciso treino, para apreender o rico conteúdo escondido nas brenhas de seu linguajar erudito.
Antes de mais nada, aproveitemos que temos todos de recorrer ao dicionário e às gramáticas em tempos de reforma ortográfica. Somem-se mapas geográficos e geológicos. Ademais, o próprio autor, em passagem de seu livro "Contrastes e Confrontos", sugere uma fórmula que bem serve para uma leitura frutuosa: "No remanso das culturas, na disciplina da atividade, adstrita a longos esforços consistentes"."--------------------------------------------------------------------------------
CÁSSIO SCHUBSKY, 43, formado em direito pela USP e em história pela PUC-SP, é editor e historiador.
FSP hoje
fevereiro 08, 2009
Mais uma vez, Floripa em imagens
Algumas das fotos são do blog do Ricardo Duarte (do DC). As melhores, eu diria, mas a maioria é minha. Foram fotos feitas ao acaso, nas minhas caminhadas solitárias, a partir de meu celular o que pela qualidade(!) dá até para identificar. Outras devem fazer parte dos álbuns de amigos que por aqui passaram em momentos diversos. Estes irão reconhecer e matar a saudade (da ilha) e os que ainda não vieram ficam com este "aperitivo".
Carmem Miranda
Ela faria 100 anos amanhã e é conhecida por seus turbantes e filmes de Hollywood. Veja mais um pouco sobre ela: "De setembro de 1929 a maio de 1939 (com direito a uma curta prorrogação em setembro de 1940), Carmen Miranda gravou 281 músicas no Brasil, em discos avulsos de 78 rpm -uma música por face, como se dizia. Se na época já existisse o álbum convencional de 12 faixas, isso equivaleria a 23 LPs -mais de dois por ano, durante dez anos. Se se fizer os cálculos baseados nas avaras possibilidades dos 78s, Carmen lançou uma média de 2,5 músicas por mês, todo mês, chovesse ou fizesse sol, durante aqueles dez anos. Nenhuma outra cantora brasileira, antes, durante ou depois, chegou perto de tais números -até hoje.
Noventa por cento desses discos eram de gêneros musicais recém-criados e que ainda estavam se estabelecendo no começo dos anos 30, como o samba -em diversas variações: rasgado, de Carnaval, de breque, samba-choro, samba-jongo, samba-batuque- e a marchinha -idem: de Carnaval, junina, natalina. Esses ritmos não nasceram prontos e acabados. Foram se definindo à medida que eram produzidos e gravados e, nesse caso, a participação de Carmen, cantando-os à sua maneira, foi fundamental para a sua fixação."
.....
trecho da coluna de RUY CASTRO na FSP
fevereiro 07, 2009
M I L K - A Voz da Igualdade
Este é o trailer do filme dirigido por Gus Van Sant que conta a história dos últimos anos da vida de Harvey Milk, ativista gay nos anos 70, o primeiro político homossexual a ser eleito para um cargo público nos EUA, em São Francisco. Indicado para o Oscar de melhor filme, direção, ator (Sean Penn), ator coadjuvante (Brolin), roteiro original, edição, figurino e trilha sonora.
Vale a pena ver!
OS OUTROS
“Futilidades” passou a ser um dos marcadores do blog desde que necessitei classificar assuntos que envolviam moda, etiqueta, cor de batom, modelo de carro, grife etc e que não “cabiam” nos já existentes. Pretendia trazer mais “leveza” aos temas e já que vivemos num mundo em que ser fútil é quase um mandamento de como deve funcionar a vida , pensei haver encontrado a expressão que traduzia o que não é sérío. Sim, porque fútil, frívolo se opõe a sério. Aqui e alhures.
Fútil (futilis significa o que não tem utilidade) seria o que se opõe ao útil e não tem nada a ver com as utilidades das coisas inúteis. Se algo é útil para determinada pessoa, ela passa a ser o oposto de fútil. Com isto não se está querendo justificar o valor do que não tem valor ou reduzindo a importância das coisas sérias.
Mas quem não se encanta com alguma futilidade? Não é uma resposta fácil como parece.
Fútil , como invejoso, é sempre o outro. Quem se admite fútil o faz em tom de ironia ou brincadeira, querendo mostrar o contrário. O fútil esnobe coloca o estilo de vida acima de tudo e passa a viver em nome de rituais vazios de sentido em torno de produtos de grifes, valores estéticos ou pequenos prazeres elevados à condição de essenciais.
Sócrates, que não via nada de bom na futilidade, para falar dela usou um termo que significa algo colorido, faiscante, luminoso, que produz um encantamento enganador. Fútil era, e ainda é, quem se encanta e se deixa seduzir pelo brilho e aparência. A futilidade passa a ser perigosa, na medida em que pode produzir um apego que não vale a pena, captura a consciência e se opõe ao auto conhecimento e a autocrítica sobre modos de ser e de agir.
O fútil, como o invejoso, tem uma percepção distorcida de si mesmo.
“A futilidade seria uma vaidade, o contrário de autoconhecimento.” (M.Tiburi)
Quando dizemos que o outro é fútil tentamos parecer que não somos. Isso de exigir das pessoas atitudes e comportamentos que não temos é uma tentativa de convencer que somos melhores e, pela crítica, tentarmos parecer melhores para não vir a ser o alvo dela. Na inveja funciona sendo nós sempre os invejados.
A futilidade, mesmo não sendo um pecado, também se esconde .
Fútil (futilis significa o que não tem utilidade) seria o que se opõe ao útil e não tem nada a ver com as utilidades das coisas inúteis. Se algo é útil para determinada pessoa, ela passa a ser o oposto de fútil. Com isto não se está querendo justificar o valor do que não tem valor ou reduzindo a importância das coisas sérias.
Mas quem não se encanta com alguma futilidade? Não é uma resposta fácil como parece.
Fútil , como invejoso, é sempre o outro. Quem se admite fútil o faz em tom de ironia ou brincadeira, querendo mostrar o contrário. O fútil esnobe coloca o estilo de vida acima de tudo e passa a viver em nome de rituais vazios de sentido em torno de produtos de grifes, valores estéticos ou pequenos prazeres elevados à condição de essenciais.
Sócrates, que não via nada de bom na futilidade, para falar dela usou um termo que significa algo colorido, faiscante, luminoso, que produz um encantamento enganador. Fútil era, e ainda é, quem se encanta e se deixa seduzir pelo brilho e aparência. A futilidade passa a ser perigosa, na medida em que pode produzir um apego que não vale a pena, captura a consciência e se opõe ao auto conhecimento e a autocrítica sobre modos de ser e de agir.
O fútil, como o invejoso, tem uma percepção distorcida de si mesmo.
“A futilidade seria uma vaidade, o contrário de autoconhecimento.” (M.Tiburi)
Quando dizemos que o outro é fútil tentamos parecer que não somos. Isso de exigir das pessoas atitudes e comportamentos que não temos é uma tentativa de convencer que somos melhores e, pela crítica, tentarmos parecer melhores para não vir a ser o alvo dela. Na inveja funciona sendo nós sempre os invejados.
A futilidade, mesmo não sendo um pecado, também se esconde .
Hora do recreio
Para quem pensava já ter visto tudo : Um japa pintado de preto fazendo imitação do Louis Armstrong, cantando “What a Wonderful World”. Bem legal!
fevereiro 06, 2009
Desejar o Desejo
"Costumamos querer sem saber o que queremos, costumamos falar de desejo sem saber o que ele significa. Fala-se tanto em desejo que ficamos confusos com seu sentido. Arthur Schopenhauer, no século XIX, pensava que o desejo era o motor do sofrimento. Desejar resultava em ser infeliz. O filósofo tinha certa razão, pois o desejo não vem com o equilíbrio como brinde. E a pergunta, a princípio ingênua, “o desejo é afinal bom ou ruim?” não nos abandona.
Apesar da relação entre desejo e excesso, à sensação de aventura impressionante que uma possível “descoberta” do desejo nos convida, nos tornamos temerosos do desejo. Todavia, permanecemos desejando. Se não estamos às voltas à procura de nosso desejo por conta própria, sempre há quem esteja por perto dizendo que temos que encontra-lo e que isto será uma revolução pessoal.
Há quem fale da diferença entre querer e desejar, uns afirmando que o querer é racional e consciente e o desejo é irracional e inconsciente. É uma boa distinção. De qualquer modo, mesmo confusos, sabemos que o desejo sempre nos põe diante de um abismo que apenas com paciência e atenção somos capazes de atravessar em nosso dia a dia. Este abismo é o outro. É visando-o que descobrimos o que ele realmente é.
Estamos orientados a sempre desejar alguma coisa em relação ao outro, seja ele algo, uma pessoa, a sociedade ou o futuro. Quando desejamos o desejo, a vida vai bem. Nos movemos atentos à beleza, à tragédia, ao sublime da existência e tudo pode ser interessante e motivo de alegria. Baruch Spinoza, no século XVII, falava do desejo como uma espécie de impulso para a vida. A sua melhor qualidade era a produção da alegria como afeto saudável que nos fazia encontrar o outro como dádiva, luz, maravilha.
Para além da felicidade que advém do mero desejar o desejo, desejamos algo diferente dele. Às vezes desejamos as coisas e, como não conquistamos tudo o que queremos, sofremos. Quando desejamos pessoas podemos sofrer mais ainda, já que ao desejar outra pessoa que deseja como nós, nos deparamos com o obstáculo do seu próprio desejo que pode ser avesso ao nosso e nos rejeitar.
Muitas vezes, mesmo desejando alguém e tendo a sorte de uma amizade ou um amor correspondido pomos tudo a perder. Se não desejamos o que o outro é, acabamos por nossa própria conta que ele deveria ser. Mas quem teria este direito de desejar por nós?
Como alguém deveria ser
Não se trata apenas de desejar algo que o outro “deveria” nos dar e chorar porque não fomos contemplados, ou assumir com dignidade a frustração, mas de desejar o modo como alguém “deveria ser”. É como se o outro não fosse o que é, devendo sempre ser diferente para agradar o gosto do seu crítico de plantão. Tornamo-nos críticos exímios socialmente na arte de falar mal, de apontar defeitos, de querer, afinal, que o outro seja como queremos que ele seja. Nunca o que ele é. E se nos casamos com este outro, ou nos tornamos pais, ou precisamos conviver no trabalho?
Em casa, no trabalho, na escola, na empresa, esta postura carrega um gesto de desamor que, em graus variados, pode chegar ao ódio e à intolerância que são o extremo da falta de capacidade de dialogar ou de, simplesmente, deixar que o outro seja o que ele é, a seu modo. Mas e como “eu” deveria ser? Será que esta pergunta teria consistência?
Muitas vezes exigimos das pessoas atitudes e comportamentos que nós mesmos não temos, mas que supomos nossa característica mais essencial. Perguntados, entretanto, nem sempre podemos afirmar com precisão onde, como e quando tais características se manifestam em nós. Qual será a função desta exigência? Se critico o outro por sua preguiça é por que, ao contrário, eu sou trabalhador e esforçado? Se o critico por ignorância, eu sou sábio? Se o critico em sua antipatia, sou eu o simpático? Se o critico por falta de ética, eu sou ético? Falando do outro eu sempre me convenço de que sou melhor do que ele ou, antes, por me considerar perfeito já afirmo minha competência na crítica. Mas, sobretudo, acoberto a chance de que eu esteja na berlinda, sendo o alvo.
Nossos comportamentos geram valores. Não são apenas o fruto de valores preexistentes, mas nós mesmos construímos as bases a partir das quais agimos em nosso futuro e interferimos, sobretudo, no modo de ser de outras pessoas. Este modo de ser leva à decisões e ações mais ou menos livres que moldam a totalidade da vida.
A liberdade do outro é o começo da minha
Nossa sociedade costuma demonstrar seus valores cultuando-os. Este culto mostra duas coisas: que temos uma imensa capacidade de amar símbolos, pessoas ou coisas, e que, justamente por isso, também somos capazes de muita ilusão.
Quando desejamos ilusões não atingimos a profundidade do nosso desejo. Não devemos apenas pensar nas falsas necessidades que fazem operar nosso desejo, as inventadas pela sociedade em seu modo de produção atual. Devemos pensar nos valores que impomos a quem não é como nós somos e que compõem nosso desejo. A atenção crítica a si mesmo e ao outro precisa de óculos cuja lente seja a liberdade de ser que é direito de cada um. A liberdade do outro é onde inicia a minha."
--------------------------------------------------------------------------------
Marcia Tiburi Vida Simples em 2008.
Apesar da relação entre desejo e excesso, à sensação de aventura impressionante que uma possível “descoberta” do desejo nos convida, nos tornamos temerosos do desejo. Todavia, permanecemos desejando. Se não estamos às voltas à procura de nosso desejo por conta própria, sempre há quem esteja por perto dizendo que temos que encontra-lo e que isto será uma revolução pessoal.
Há quem fale da diferença entre querer e desejar, uns afirmando que o querer é racional e consciente e o desejo é irracional e inconsciente. É uma boa distinção. De qualquer modo, mesmo confusos, sabemos que o desejo sempre nos põe diante de um abismo que apenas com paciência e atenção somos capazes de atravessar em nosso dia a dia. Este abismo é o outro. É visando-o que descobrimos o que ele realmente é.
Estamos orientados a sempre desejar alguma coisa em relação ao outro, seja ele algo, uma pessoa, a sociedade ou o futuro. Quando desejamos o desejo, a vida vai bem. Nos movemos atentos à beleza, à tragédia, ao sublime da existência e tudo pode ser interessante e motivo de alegria. Baruch Spinoza, no século XVII, falava do desejo como uma espécie de impulso para a vida. A sua melhor qualidade era a produção da alegria como afeto saudável que nos fazia encontrar o outro como dádiva, luz, maravilha.
Para além da felicidade que advém do mero desejar o desejo, desejamos algo diferente dele. Às vezes desejamos as coisas e, como não conquistamos tudo o que queremos, sofremos. Quando desejamos pessoas podemos sofrer mais ainda, já que ao desejar outra pessoa que deseja como nós, nos deparamos com o obstáculo do seu próprio desejo que pode ser avesso ao nosso e nos rejeitar.
Muitas vezes, mesmo desejando alguém e tendo a sorte de uma amizade ou um amor correspondido pomos tudo a perder. Se não desejamos o que o outro é, acabamos por nossa própria conta que ele deveria ser. Mas quem teria este direito de desejar por nós?
Como alguém deveria ser
Não se trata apenas de desejar algo que o outro “deveria” nos dar e chorar porque não fomos contemplados, ou assumir com dignidade a frustração, mas de desejar o modo como alguém “deveria ser”. É como se o outro não fosse o que é, devendo sempre ser diferente para agradar o gosto do seu crítico de plantão. Tornamo-nos críticos exímios socialmente na arte de falar mal, de apontar defeitos, de querer, afinal, que o outro seja como queremos que ele seja. Nunca o que ele é. E se nos casamos com este outro, ou nos tornamos pais, ou precisamos conviver no trabalho?
Em casa, no trabalho, na escola, na empresa, esta postura carrega um gesto de desamor que, em graus variados, pode chegar ao ódio e à intolerância que são o extremo da falta de capacidade de dialogar ou de, simplesmente, deixar que o outro seja o que ele é, a seu modo. Mas e como “eu” deveria ser? Será que esta pergunta teria consistência?
Muitas vezes exigimos das pessoas atitudes e comportamentos que nós mesmos não temos, mas que supomos nossa característica mais essencial. Perguntados, entretanto, nem sempre podemos afirmar com precisão onde, como e quando tais características se manifestam em nós. Qual será a função desta exigência? Se critico o outro por sua preguiça é por que, ao contrário, eu sou trabalhador e esforçado? Se o critico por ignorância, eu sou sábio? Se o critico em sua antipatia, sou eu o simpático? Se o critico por falta de ética, eu sou ético? Falando do outro eu sempre me convenço de que sou melhor do que ele ou, antes, por me considerar perfeito já afirmo minha competência na crítica. Mas, sobretudo, acoberto a chance de que eu esteja na berlinda, sendo o alvo.
Nossos comportamentos geram valores. Não são apenas o fruto de valores preexistentes, mas nós mesmos construímos as bases a partir das quais agimos em nosso futuro e interferimos, sobretudo, no modo de ser de outras pessoas. Este modo de ser leva à decisões e ações mais ou menos livres que moldam a totalidade da vida.
A liberdade do outro é o começo da minha
Nossa sociedade costuma demonstrar seus valores cultuando-os. Este culto mostra duas coisas: que temos uma imensa capacidade de amar símbolos, pessoas ou coisas, e que, justamente por isso, também somos capazes de muita ilusão.
Quando desejamos ilusões não atingimos a profundidade do nosso desejo. Não devemos apenas pensar nas falsas necessidades que fazem operar nosso desejo, as inventadas pela sociedade em seu modo de produção atual. Devemos pensar nos valores que impomos a quem não é como nós somos e que compõem nosso desejo. A atenção crítica a si mesmo e ao outro precisa de óculos cuja lente seja a liberdade de ser que é direito de cada um. A liberdade do outro é onde inicia a minha."
--------------------------------------------------------------------------------
Marcia Tiburi Vida Simples em 2008.
Dom Helder Câmara
"Arcebispo vermelho, bispo comunista, santo, místico, poeta, profeta - de tudo isso e muito mais foi chamado Dom Helder Câmara. Amigo de Paulo VI e do cardeal Eugenio Salles, inovador e criativo, ao mesmo tempo em que obediente e dócil a Igreja Católica da qual era pastor, Dom Helder é certamente uma figura impar do século que passou. Brasileiro ilustre, sem duvida, esse magro cearense que era fiel a Igreja e ao mesmo tempo dialogava com mundo com toda a tranqüilidade e intimidade. Conhecido no Brasil e no exterior, admirado por uns e odiado por outros, Dom Helder em seu centenário de nascimento, celebrado neste ano, não deixa de instigar nossas consciências e provocar admiração. Impossível não tomar posição diante de sua pessoa e sua vida.
Quando, em 20 de abril de 1952, aquele frágil sacerdote nordestino foi nomeado bispo escolheu como lema do seu ministério episcopal "IN MANUS TUAS". Provavelmente intuía, mas não sabia que era ao mesmo tempo uma profecia e um programa de vida. As três
palavras latinas queriam significar sua entrega confiante nas mãos de Deus, seu único Senhor. Essa entrega levou-o longe pelos caminhos de um serviço criativo e profético ao povo de Deus, pelo qual pagou seu preço, mas que desempenhou alegre até o fim.
No dia 7 de fevereiro serão cem anos do nascimento de Dom Helder Câmara, cearense de Fortaleza e décimo primeiro filho de família simples, numerosa e bem constituída. Desde pequeno, brincava de padre, armando altares e oficiando missas em casa. Ao comunicar a seu pai, afastado da Igreja, seu desejo de abraçar a vocação sacerdotal, o jovem Helder ouviu palavras que nunca esqueceu: "Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar, se deixar devorar".
A vida no seminário e os estudos do jovem Helder foram marcados pela firmeza vocacional e o brilho intelectual. Ordenado aos 22 anos, antes da idade mínima requerida para tal e com licença especial da Santa Sé, Pe. Helder reuniu desde o principio qualidades raras em uma mesma pessoa: inteligência, cultura e liderança incontestáveis ao lado de um imenso amor e dedicação integral aos mais pobres.
Ao mesmo tempo em que organizava reuniões com lavadeiras e operarias e assessorava a Juventude Operaria Brasileira (JOC), escrevia artigos em revistas, planejava a catequese a nível estadual e assumia cargos públicos na secretaria de educação do Ceara. A habilidade política foi uma constante em sua vida, assim como a naturalidade que desde sempre teve frente aos meios de comunicação, sendo uma das primeiras personalidades eclesiásticas brasileiras a aparecer constantemente na televisão. Quem é da minha geração certamente não esquecera sua figura de olhos vivos e penetrantes conclamando o país a solidariedade quando estourou o açude de Orós, causando situação de calamidade para a população nordestina. Parece ouvir ainda sua voz de característico sotaque nordestino: Orós precisa de nós.
A sagração episcopal multiplicou à enésima potencia a personalidade fulgurante do nordestino magro e franzino, vestido com uma eterna batina bege. Sua criatividade e capacidade de trabalho inventavam e implantavam sem cessar novas coisas na Igreja do Brasil. Deve-se a Dom Helder quase todas as iniciativas pioneiras em termos eclesiais que o país conheceu durante o século XX, entre elas a criação da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi fundador e secretário geral.
Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro onde era bispo auxiliar, criava a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional situado no coração do Leblon, bairro mais chique da cidade. Também se deve a sua iniciativa o Banco da Providencia, órgão que existe até os dias de hoje e que atende os pobres da diocese do Rio de Janeiro a vários níveis.
No plano internacional, Dom Helder não teve mãos a medir diante dos múltiplos convites que recebia e atendia. Enchia auditórios e praças em Paris, Sidney, Londres, levando até o abastado primeiro mundo a quase sempre ignorada realidade sofrida e oprimida dos pobres brasileiros. Sua presença fez o país e a Igreja conhecidos e respeitados em outras latitudes.
A partir de 1964 o governo militar criou um rígido sistema de censura nos meios de comunicação brasileiros. Pretendia assim calar as vozes daqueles que defendiam os direitos humanos e denunciavam a barbárie perpetrada pelas torturas nos porões da ditadura. Dom Helder foi confinado a um penoso ostracismo. Sobre ele não se falava ou noticiava. Seu acesso à mídia fechou-se. Ele, perplexo com as acusações de comunista que lhe faziam, cunhou uma frase que ficou famosa: Quando ajudo os pobres dizem que sou santo. Quando pergunto sobre as causas da pobreza, me chamam de comunista.
Dom Helder foi reduzido a uma progressiva invisibilidade. Ficou praticamente restrito à atuação intra-eclesial onde incansavelmente continuou trabalhando. Desde Recife, sua sede episcopal a partir de 1964, foi responsável por um dos mais bem sucedidos focos de resistência ao regime militar.
Homem universal, parece não existir um só campo de atividade que Dom Helder não tenha tocado, vivido, atuado. Recebeu inúmeras homenagens e títulos pelo mundo afora: de cidadão honorário, de "doutor honoris causa". Poeta e místico ardente, desde seu pequeno quarto no Recife levantava-se durante a madrugada para renovar seu lema de bispo: "In manus tuas". A entrega incondicional a Deus e a seu povo expressava-se em belos poemas e livros que receberam traduções em vários idiomas. Escreveu sobre a paz, a cidade e o desafio da pastoral urbana, sobre a justiça, sobre a Igreja que nascia das chamadas
minoras abraamicas. Organizou espetáculos no Maracanã sobre os sete pecados capitais, a paixão de Cristo. Gravou discos onde declamava poemas em honra de Nossa Senhora- Mariama, na Missa dos Quilombos composta por Milton Nascimento e Dom Pedro Casaldaliga.
Nas incursões na calada da noite, olhando o céu do Recife coalhado de estrelas, sua alma se expandia em louvor e adoração. Ali estava seu segredo. Ali estava a força da marca indelével que deixou por onde passou. In manus tuas. Nas mãos de seu Senhor, a alma do bispo descansava e cobrava forcas para um novo amanhecer. Hoje, celebrando cem anos de seu nascimento, o Brasil agradece,comovido. E invoca sua proteção para estes tempos tão diferentes e igualmente complexos".
Maria Clara Lucchetti Bingemer
(mais sobre ele clicando no título)
O LEITOR
"Livro original é bem escrito "tour de force"*
Poucas obras têm a capacidade de agregar em torno de si leituras e opiniões tão díspares, quanto O leitor de Bernhard Schlink. Mas uma coisa é certa: para quem se interessa pela relação entre literatura e trabalho da memória do passado violento, este livro é de leitura obrigatória. Primeiro porque ele é bem escrito e tem fina auto-ironia. Em segundo lugar, porque ele realiza um verdadeiro tour de force. Afinal, ele apresenta uma história de amor, carnal e muito intensa, tendo como pano de fundo os campos de concentração nazistas.
O romance apresenta uma tripla temporalidade: o ato de escritura de um jurista, Michael Berg, nos anos 1990, que redige seu livro como um testemunho para "se livrar" de seu passado; o romance entre este narrador quando tinha 15 anos e uma mulher, Hanna, de 36, logo após a Segunda Guerra; e o período do julgamento desta mulher, nos anos 1960. Esta tripla temporalidade é assombrada pelos fatos terríveis que são revelados no julgamento: Hanna havia sido uma guarda em Auschwitz e responsável por uma série de mortes.
O romance de Michael e Hanna era marcado por um original ritual: antes de irem para a cama, ele lia longamente para ela os clássicos da literatura alemã e universal. Após o julgamento, quando Hanna é condenada, este ritual de leitura é prolongado: Michael, que só se dera conta de que Hanna era analfabeta no julgamento, passa a enviar fitas com suas leituras.
Do ponto de vista da história da representação do Holocausto, este livro, de 1995, representou uma guinada: sua estrutura e modo de apresentação da história de Michael e Hanna fazem da figura do guarda de campo de concentração, uma pessoa digna de compaixão, de amor e de tudo mais. Schlink, ele mesmo um jurista, acaba construindo com Michael um alter-ego em busca de resolver a questão da sua relação com o passado da Alemanha.
Ele apresenta o drama da sua geração que, nos anos 1960, se empenhou em julgar e revelar o que ocorrera no nazismo, em denunciar o escândalo dos nazistas que continuavam em altos postos ainda naquele período, e que assumiu de modo radical a culpa e a vergonha pelo que seus "pais" haviam feito. Mesmo se no livro o pai de Michael não tenha de fato feito nada. Ele representa a impotência da Alemanha Iluminista: é um filósofo, autor de obras sobre Kant e Hegel, que fez um exílio interno durante o período nazista. Mas ao longo do julgamento ocorre uma virada na trama: de jurista empenhado nesta revisão e revelação do passado, ele se torna empático com Hanna e cada vez mais anestesiado diante das terríveis histórias que eram narradas no tribunal. A irrepresentabilidade do Holocausto é transformada em impossibilidade de seu julgamento. O efeito catártico do tribunal produz este fruto paradoxal: na medida em que "faz justiça" também permite uma identificação com Hanna. Esta personagem é tanto a figura singular (que permite a compaixão) como também mais de uma vez é apresentada como uma espécie de "mãe-Alemanha", analfabeta e ainda na menoridade, oposta à Alemanha espiritual de Goethe e Schiller. A culpa que Michael sentia com relação ao que a geração anterior havia feito é transformada em culpa com relação a Hanna.
Sexo, amor, escritura e morte dançam aqui uma coreografia da memória que não deixa o leitor incólume."
MÁRCIO SELIGMANN-SILVA é professor de teoria literária na Unicamp
ESPECIAL PARA A FOLHA
Poucas obras têm a capacidade de agregar em torno de si leituras e opiniões tão díspares, quanto O leitor de Bernhard Schlink. Mas uma coisa é certa: para quem se interessa pela relação entre literatura e trabalho da memória do passado violento, este livro é de leitura obrigatória. Primeiro porque ele é bem escrito e tem fina auto-ironia. Em segundo lugar, porque ele realiza um verdadeiro tour de force. Afinal, ele apresenta uma história de amor, carnal e muito intensa, tendo como pano de fundo os campos de concentração nazistas.
O romance apresenta uma tripla temporalidade: o ato de escritura de um jurista, Michael Berg, nos anos 1990, que redige seu livro como um testemunho para "se livrar" de seu passado; o romance entre este narrador quando tinha 15 anos e uma mulher, Hanna, de 36, logo após a Segunda Guerra; e o período do julgamento desta mulher, nos anos 1960. Esta tripla temporalidade é assombrada pelos fatos terríveis que são revelados no julgamento: Hanna havia sido uma guarda em Auschwitz e responsável por uma série de mortes.
O romance de Michael e Hanna era marcado por um original ritual: antes de irem para a cama, ele lia longamente para ela os clássicos da literatura alemã e universal. Após o julgamento, quando Hanna é condenada, este ritual de leitura é prolongado: Michael, que só se dera conta de que Hanna era analfabeta no julgamento, passa a enviar fitas com suas leituras.
Do ponto de vista da história da representação do Holocausto, este livro, de 1995, representou uma guinada: sua estrutura e modo de apresentação da história de Michael e Hanna fazem da figura do guarda de campo de concentração, uma pessoa digna de compaixão, de amor e de tudo mais. Schlink, ele mesmo um jurista, acaba construindo com Michael um alter-ego em busca de resolver a questão da sua relação com o passado da Alemanha.
Ele apresenta o drama da sua geração que, nos anos 1960, se empenhou em julgar e revelar o que ocorrera no nazismo, em denunciar o escândalo dos nazistas que continuavam em altos postos ainda naquele período, e que assumiu de modo radical a culpa e a vergonha pelo que seus "pais" haviam feito. Mesmo se no livro o pai de Michael não tenha de fato feito nada. Ele representa a impotência da Alemanha Iluminista: é um filósofo, autor de obras sobre Kant e Hegel, que fez um exílio interno durante o período nazista. Mas ao longo do julgamento ocorre uma virada na trama: de jurista empenhado nesta revisão e revelação do passado, ele se torna empático com Hanna e cada vez mais anestesiado diante das terríveis histórias que eram narradas no tribunal. A irrepresentabilidade do Holocausto é transformada em impossibilidade de seu julgamento. O efeito catártico do tribunal produz este fruto paradoxal: na medida em que "faz justiça" também permite uma identificação com Hanna. Esta personagem é tanto a figura singular (que permite a compaixão) como também mais de uma vez é apresentada como uma espécie de "mãe-Alemanha", analfabeta e ainda na menoridade, oposta à Alemanha espiritual de Goethe e Schiller. A culpa que Michael sentia com relação ao que a geração anterior havia feito é transformada em culpa com relação a Hanna.
Sexo, amor, escritura e morte dançam aqui uma coreografia da memória que não deixa o leitor incólume."
MÁRCIO SELIGMANN-SILVA é professor de teoria literária na Unicamp
ESPECIAL PARA A FOLHA
Assinar:
Postagens (Atom)


