fevereiro 10, 2009

O que eu gostaria ?

Ontem amanheci leve, saltitante como um passarinho. Eu que andava meio perdida, acordei depois de um sonho muito bom. Alguém me levando pela mão para um lugar que eu não precisava me preocupar qual seria . Assim, simplesmente, indo, me deixando levar como nunca me permiti. Uma sensação de entrega, confiança naquela mão que me conduzia. Não sou dada a buscar interpretações para sonhos. Acho isto uma bobagem. Mas o sonho me fez pensar que se eu tivesse alguma vez cedido o controle e me deixado levar.... quem sabe não me sentiria melhor. Responsável pelas decisões seria quem me levou ou deixou de me levar. Não sempre eu, sozinha, arcando com as consequências delas, pagando o preço pelos erros. Os últimos dias foram muito atípicos e cheios de sentimentos confusos. A minha autocomiseração chegou a níveis bem elevados. A luz vermelha acendeu quando me lembraram de voltar à terapia .
Tenho que admitir que uma parte do que aconteceu tem a ver com a maneria como conduzo meus relacionamentos, com a necessidade de me sentir querida e com esta busca de felicidade como ideal. Tudo isto junto. E ainda tenho a pretensão de achar que entendo alguns processos e sentimentos, que sei lidar com eles. Continuo, equivocadamente, buscando alternativas fora de mim. Acreditando que os outros é que dão sentido e complementam a minha vida...
Ficando mal por não ter “um projeto” de vida, tenho me esquecido de, simplesmente , viver. Acho que é disto que eu gostaria.Viver!

fevereiro 09, 2009

O amor não tira férias

Nada melhor que esta charmosa comédia romântica para um fim de domingo. Suspirar pelo Jude Law e acreditar que tudo pode acabar bem ...
A troca de casa por temporada, pano de fundo para o desenvolvimento do enredo, é uma idéia que sempre me pareceu simpática e que foi muito bem aproveitada. Mas o que o filme tem de mais marcante é a homenagem da roteirista ao antigo cinema hollywoodiano, além de uma trilha sonora das boas. As duas mulheres solteiras, uma americana e uma inglesa, ambas estressadas e com problemas de relacionamento com seus homens, resolvem sumir durante as férias para descansar a cabeça e o coração. Por meio de um website, trocam de casa entre si por duas semanas, tempo suficiente para começarem a ver a vida com outros olhos e redescobrirem o amor. Mais previsível impossível. Ah! não acredito que o filme agrade a todo tipo de homem...

Nada mudou ?

O 02 Neurônio ( Jô Hallack >> Nina Lemos >> Raq Affonso - http://02neuronio.blog.uol.com.br/) tem coluna semanal na folhateen . Talvez alguém se pergunte o que pode ter o 02 Neurônio a ver comigo. Tudo. Enquanto trabalhei no magistério, em contato com jovens, me espantava que a "problemática" das meninas continuasse a mesma da minha geração: os homens e o fato de eles não haverem acompanhado as transformações por que passaram as mulheres e, na esteira disso, o mundo. Apontar culpados não resolve, mas uma reflexão é inevitável: se são todos filhos da (de uma) mãe, que mulheres são estas que criam e educam filhos que repetem os mesmos comportamentos e valores de que elas próprias se dizem "vítimas"? por que os filhos homens continuam dotados de uma imaturidade quase insuperável?
Ainda hoje, da parte de várias mães (e de um pai!) registro a preocupação de que o filho ("perdido") encontre uma jovem que tenha mais "juízo" e maturidade do que ele.
Em pleno século XXI, o texto abaixo me faz desacreditar que alguma coisa realmente mudou...

Os homens "são assim"
A COMPLACÊNCIA da humanidade com os homens é uma coisa realmente irritante.
Com a revolução sexual, queima de sutiãs, pílula, luta pelo sufrágio universal etc., a mulher mudou seu lugar no mundo. Trabalhamos, não precisamos depender dos homens para sobreviver, temos filhos se quisermos e usamos calça. Parece espantoso, mas nem sempre foi assim. Claro que essas conquistas femininas também têm seu lado negativo. Trabalhamos demais, entramos no drama de ter ou não filhos, fazemos jornada quíntupla de trabalho e ainda lavamos mais a louça de casa do que os homens.
Contradições da vida. O mundo sempre em mudança. Esse tipo de coisa. Não ficamos nos lamuriando por aí. Lamúria, às vezes, é importante. Mas, como rotina, é bem chata. Sabemos que temos que ir à luta, que nem tudo é perfeito, que não existe mundo ideal e por aí vai. Por isso, todos os dias colocamos os óculos escuros e, com ou sem lágrimas, vamos trabalhar e nos divertir.
Os homens, por sua vez, muitas vezes se sentem mais por fora do que umbigo de mulata. Não conseguem se adaptar aos novos tempos, têm draminhas existenciais que são reflexo do mundo (ainda) machista em que vivemos, trocam os pés pelas mãos. E esse é o ponto: em vez de o comportamento masculino ser criticado, todo mundo entende que o homem se sinta perdido. "Ah, coitados, né, eles não sabem mais o que fazer." E perdoa. E sobra para quem? Para a mulher, que é OBRIGADA a entender e aceitar um comportamento "vintage" do alheio.
Claro que a humanidade não tem a mesma complacência com o lado de cá. Mulheres ganharam, com o tempo, fama de sem noção, histéricas e pegajosas. Se elas agem de um jeito bizarro porque realmente o mundo é muito louco -e, logo, às vezes as moças também surtam-, são tratadas como... doidas e malucas.
Enquanto escrevemos esta coluna, muitos homens, coitados, estão perdidos. E muitas mulheres estão sendo chamadas de malucas surtadas. E depois perguntam se a gente ainda tem motivos para ser um pouco feminista...
Revolución, chicas!

A maratona da palavra

"EM BOA hora a Academia Brasileira de Letras baixou, literariamente, decreto instituindo que 2009 passa a ser o Ano Euclides da Cunha, em razão do centenário da morte do escritor (engenheiro, pensador, historiador, geógrafo, sociólogo, ecologista, repórter, poeta...). Ao fazê-lo, a ABL estimula o debate sobre a importância do autor, ajudando a libertá-lo dos estereótipos que marcam sua vida e sua criação artística.
Euclides não foi apenas o escritor de uma obra-prima de difícil leitura ("Os Sertões"), morto pelo amante (Dilermando) da esposa (Anna).
É certo que apenas o grande livro seria suficiente para imortalizar o autor. Afinal, em que pesem o determinismo geográfico e o etnocentrismo reducionista, comuns na época em que a obra foi escrita, seu rico conteúdo continua gerando estudos, reflexões, abordagens múltiplas, a desvelar sua contribuição à compreensão do Brasil e a reiterar seu valor como obra de arte. Cite-se, como exemplo, a métrica poética de diversas passagens do texto, apontada por Guilherme de Almeida e Augusto de Campos, em notáveis estudos. Sem falar na exuberante, riquíssima, genial -escasseiam os adjetivos- montagem que o Grupo Oficina Uzyna Uzona faz de "Os Sertões", em sucessivas apresentações nos últimos anos.
De outro lado, o grande livro é temperado por uma honestidade intelectual a toda prova: na introdução, o autor penitencia-se pelo erro histórico ("um crime", escreve) que se cometeu contra a população sertaneja dizimada em Canudos, afirmando a necessidade de registrar, para a posteridade, os descalabros perpetrados no sertão baiano pela República nascente.
Justamente Euclides, que anos antes escrevera artigos reclamando que o movimento messiânico de Antonio Conselheiro fosse debelado com pulso forte... Mas que, ao testemunhar, pessoalmente, a chacina, horroriza-se e escreve seu libelo antológico, obra sem par na literatura universal.
Na celebração centenária, emergirão, por certo, facetas inumeráveis de Euclides, esmaecidas pelo tempo, como o escritor de artigos e o palestrante de conferências que versavam sobre os mais variados assuntos -do poeta Castro Alves à Revolta da Armada, passando pela ocupação da Amazônia e chegando a análises sublimes sobre política internacional.
É incrível ler Euclides dissertando, por exemplo, sobre as cidades mortas do interior paulista após o auge do café, antecipando reflexões que celebrizariam Monteiro Lobato anos mais tarde. Ou, então, as frequentes denúncias do ecologista indignado, vituperando contra queimadas e desmatamentos -há mais de cem anos! Inquietante é ler, também, estultices de um homem tão ilustrado -por exemplo, quando se refere ao Tibete, em determinado artigo: "Um terço de sua população é de lamas -monges miseráveis e repulsivos, vestidos de trapos de mortalhas, meio idiotas e errantes de mosteiro em mosteiro".
Também virão à baila textos de biógrafos e comentadores de Euclides, em reedições de obras há muito esgotadas e em novas publicações, a traçar o vasto painel de sua contribuição intelectual. Sem falar em exposições, seminários, artigos em torno da vida e da obra (literária e de engenharia). Um aspecto, no que tange a Euclides, parece-me essencial. Seus textos ensejam uma reflexão sobre o estímulo ao ato de ler em um país de baixíssimos índices de leitura. Como animar, sobretudo as novas gerações, a encarar a árdua tarefa de se debruçar sobre os complexos textos euclidianos? Porque ler Euclides não é bolinho... Parece até que ele engoliu um dicionário, de tal forma os vocábulos vão se encachoeirando, caudalosos, numa profusão de termos, refulgindo, aos borbotões, em tom ora árido e parcimonioso, ora torrencial e arrebatado.
Enfim, a leitura para o simples mortal torna-se tormentosa. No caso, prazer do texto, saber com sabor, não são facilidades imediatas, tão propaladas em nossa cultura do consumo.
Via de regra, ler Euclides da Cunha é um exercício árduo, uma maratona, em que o desgaste só é inteiramente recompensado, como em uma corrida, ao final, quando se sente o torpor causado pela endorfina. No começo, alguém pode até sentir azia com a leitura... Mas o bom é que o remédio se obtém com o próprio texto, que, depois de deglutido, provoca um bem-estar inaudito.
Para lê-lo, é preciso treino, para apreender o rico conteúdo escondido nas brenhas de seu linguajar erudito.
Antes de mais nada, aproveitemos que temos todos de recorrer ao dicionário e às gramáticas em tempos de reforma ortográfica. Somem-se mapas geográficos e geológicos. Ademais, o próprio autor, em passagem de seu livro "Contrastes e Confrontos", sugere uma fórmula que bem serve para uma leitura frutuosa: "No remanso das culturas, na disciplina da atividade, adstrita a longos esforços consistentes"."
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CÁSSIO SCHUBSKY, 43, formado em direito pela USP e em história pela PUC-SP, é editor e historiador.
FSP hoje

fevereiro 08, 2009

Mais uma vez, Floripa em imagens


Algumas das fotos são do blog do Ricardo Duarte (do DC). As melhores, eu diria, mas a maioria é minha. Foram fotos feitas ao acaso, nas minhas caminhadas solitárias, a partir de meu celular o que pela qualidade(!) dá até para identificar. Outras devem fazer parte dos álbuns de amigos que por aqui passaram em momentos diversos. Estes irão reconhecer e matar a saudade (da ilha) e os que ainda não vieram ficam com este "aperitivo".

Carmem Miranda

Ela faria 100 anos amanhã e é conhecida por seus turbantes e filmes de Hollywood. Veja mais um pouco sobre ela:

"De setembro de 1929 a maio de 1939 (com direito a uma curta prorrogação em setembro de 1940), Carmen Miranda gravou 281 músicas no Brasil, em discos avulsos de 78 rpm -uma música por face, como se dizia. Se na época já existisse o álbum convencional de 12 faixas, isso equivaleria a 23 LPs -mais de dois por ano, durante dez anos. Se se fizer os cálculos baseados nas avaras possibilidades dos 78s, Carmen lançou uma média de 2,5 músicas por mês, todo mês, chovesse ou fizesse sol, durante aqueles dez anos. Nenhuma outra cantora brasileira, antes, durante ou depois, chegou perto de tais números -até hoje.
Noventa por cento desses discos eram de gêneros musicais recém-criados e que ainda estavam se estabelecendo no começo dos anos 30, como o samba -em diversas variações: rasgado, de Carnaval, de breque, samba-choro, samba-jongo, samba-batuque- e a marchinha -idem: de Carnaval, junina, natalina. Esses ritmos não nasceram prontos e acabados. Foram se definindo à medida que eram produzidos e gravados e, nesse caso, a participação de Carmen, cantando-os à sua maneira, foi fundamental para a sua fixação."

.....
trecho da coluna de RUY CASTRO na FSP

fevereiro 07, 2009

M I L K - A Voz da Igualdade


Este é o trailer do filme dirigido por Gus Van Sant que conta a história dos últimos anos da vida de Harvey Milk, ativista gay nos anos 70, o primeiro político homossexual a ser eleito para um cargo público nos EUA, em São Francisco. Indicado para o Oscar de melhor filme, direção, ator (Sean Penn), ator coadjuvante (Brolin), roteiro original, edição, figurino e trilha sonora.
Vale a pena ver!

OS OUTROS

“Futilidades” passou a ser um dos marcadores do blog desde que necessitei classificar assuntos que envolviam moda, etiqueta, cor de batom, modelo de carro, grife etc e que não “cabiam” nos já existentes. Pretendia trazer mais “leveza” aos temas e já que vivemos num mundo em que ser fútil é quase um mandamento de como deve funcionar a vida , pensei haver encontrado a expressão que traduzia o que não é sérío. Sim, porque fútil, frívolo se opõe a sério. Aqui e alhures.
Fútil (futilis significa o que não tem utilidade) seria o que se opõe ao útil e não tem nada a ver com as utilidades das coisas inúteis. Se algo é útil para determinada pessoa, ela passa a ser o oposto de fútil. Com isto não se está querendo justificar o valor do que não tem valor ou reduzindo a importância das coisas sérias.
Mas quem não se encanta com alguma futilidade? Não é uma resposta fácil como parece.
Fútil , como invejoso, é sempre o outro. Quem se admite fútil o faz em tom de ironia ou brincadeira, querendo mostrar o contrário. O fútil esnobe coloca o estilo de vida acima de tudo e passa a viver em nome de rituais vazios de sentido em torno de produtos de grifes, valores estéticos ou pequenos prazeres elevados à condição de essenciais.
Sócrates, que não via nada de bom na futilidade, para falar dela usou um termo que significa algo colorido, faiscante, luminoso, que produz um encantamento enganador. Fútil era, e ainda é, quem se encanta e se deixa seduzir pelo brilho e aparência. A futilidade passa a ser perigosa, na medida em que pode produzir um apego que não vale a pena, captura a consciência e se opõe ao auto conhecimento e a autocrítica sobre modos de ser e de agir.
O fútil, como o invejoso, tem uma percepção distorcida de si mesmo.
“A futilidade seria uma vaidade, o contrário de autoconhecimento.” (M.Tiburi)
Quando dizemos que o outro é fútil tentamos parecer que não somos. Isso de exigir das pessoas atitudes e comportamentos que não temos é uma tentativa de convencer que somos melhores e, pela crítica, tentarmos parecer melhores para não vir a ser o alvo dela. Na inveja funciona sendo nós sempre os invejados.
A futilidade, mesmo não sendo um pecado, também se esconde .

Hora do recreio


Para quem pensava já ter visto tudo : Um japa pintado de preto fazendo imitação do Louis Armstrong, cantando “What a Wonderful World”. Bem legal!

fevereiro 06, 2009

Desejar o Desejo

"Costumamos querer sem saber o que queremos, costumamos falar de desejo sem saber o que ele significa. Fala-se tanto em desejo que ficamos confusos com seu sentido. Arthur Schopenhauer, no século XIX, pensava que o desejo era o motor do sofrimento. Desejar resultava em ser infeliz. O filósofo tinha certa razão, pois o desejo não vem com o equilíbrio como brinde. E a pergunta, a princípio ingênua, “o desejo é afinal bom ou ruim?” não nos abandona.
Apesar da relação entre desejo e excesso, à sensação de aventura impressionante que uma possível “descoberta” do desejo nos convida, nos tornamos temerosos do desejo. Todavia, permanecemos desejando. Se não estamos às voltas à procura de nosso desejo por conta própria, sempre há quem esteja por perto dizendo que temos que encontra-lo e que isto será uma revolução pessoal.
Há quem fale da diferença entre querer e desejar, uns afirmando que o querer é racional e consciente e o desejo é irracional e inconsciente. É uma boa distinção. De qualquer modo, mesmo confusos, sabemos que o desejo sempre nos põe diante de um abismo que apenas com paciência e atenção somos capazes de atravessar em nosso dia a dia. Este abismo é o outro. É visando-o que descobrimos o que ele realmente é.
Estamos orientados a sempre desejar alguma coisa em relação ao outro, seja ele algo, uma pessoa, a sociedade ou o futuro. Quando desejamos o desejo, a vida vai bem. Nos movemos atentos à beleza, à tragédia, ao sublime da existência e tudo pode ser interessante e motivo de alegria. Baruch Spinoza, no século XVII, falava do desejo como uma espécie de impulso para a vida. A sua melhor qualidade era a produção da alegria como afeto saudável que nos fazia encontrar o outro como dádiva, luz, maravilha.
Para além da felicidade que advém do mero desejar o desejo, desejamos algo diferente dele. Às vezes desejamos as coisas e, como não conquistamos tudo o que queremos, sofremos. Quando desejamos pessoas podemos sofrer mais ainda, já que ao desejar outra pessoa que deseja como nós, nos deparamos com o obstáculo do seu próprio desejo que pode ser avesso ao nosso e nos rejeitar.
Muitas vezes, mesmo desejando alguém e tendo a sorte de uma amizade ou um amor correspondido pomos tudo a perder. Se não desejamos o que o outro é, acabamos por nossa própria conta que ele deveria ser. Mas quem teria este direito de desejar por nós?
Como alguém deveria ser
Não se trata apenas de desejar algo que o outro “deveria” nos dar e chorar porque não fomos contemplados, ou assumir com dignidade a frustração, mas de desejar o modo como alguém “deveria ser”. É como se o outro não fosse o que é, devendo sempre ser diferente para agradar o gosto do seu crítico de plantão. Tornamo-nos críticos exímios socialmente na arte de falar mal, de apontar defeitos, de querer, afinal, que o outro seja como queremos que ele seja. Nunca o que ele é. E se nos casamos com este outro, ou nos tornamos pais, ou precisamos conviver no trabalho?
Em casa, no trabalho, na escola, na empresa, esta postura carrega um gesto de desamor que, em graus variados, pode chegar ao ódio e à intolerância que são o extremo da falta de capacidade de dialogar ou de, simplesmente, deixar que o outro seja o que ele é, a seu modo. Mas e como “eu” deveria ser? Será que esta pergunta teria consistência?
Muitas vezes exigimos das pessoas atitudes e comportamentos que nós mesmos não temos, mas que supomos nossa característica mais essencial. Perguntados, entretanto, nem sempre podemos afirmar com precisão onde, como e quando tais características se manifestam em nós. Qual será a função desta exigência? Se critico o outro por sua preguiça é por que, ao contrário, eu sou trabalhador e esforçado? Se o critico por ignorância, eu sou sábio? Se o critico em sua antipatia, sou eu o simpático? Se o critico por falta de ética, eu sou ético? Falando do outro eu sempre me convenço de que sou melhor do que ele ou, antes, por me considerar perfeito já afirmo minha competência na crítica. Mas, sobretudo, acoberto a chance de que eu esteja na berlinda, sendo o alvo.
Nossos comportamentos geram valores. Não são apenas o fruto de valores preexistentes, mas nós mesmos construímos as bases a partir das quais agimos em nosso futuro e interferimos, sobretudo, no modo de ser de outras pessoas. Este modo de ser leva à decisões e ações mais ou menos livres que moldam a totalidade da vida.
A liberdade do outro é o começo da minha
Nossa sociedade costuma demonstrar seus valores cultuando-os. Este culto mostra duas coisas: que temos uma imensa capacidade de amar símbolos, pessoas ou coisas, e que, justamente por isso, também somos capazes de muita ilusão.
Quando desejamos ilusões não atingimos a profundidade do nosso desejo. Não devemos apenas pensar nas falsas necessidades que fazem operar nosso desejo, as inventadas pela sociedade em seu modo de produção atual. Devemos pensar nos valores que impomos a quem não é como nós somos e que compõem nosso desejo. A atenção crítica a si mesmo e ao outro precisa de óculos cuja lente seja a liberdade de ser que é direito de cada um. A liberdade do outro é onde inicia a minha."

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Marcia Tiburi Vida Simples em 2008.

Um país de tolos

Dom Helder Câmara

"Arcebispo vermelho, bispo comunista, santo, místico, poeta, profeta - de tudo isso e muito mais foi chamado Dom Helder Câmara. Amigo de Paulo VI e do cardeal Eugenio Salles, inovador e criativo, ao mesmo tempo em que obediente e dócil a Igreja Católica da qual era pastor, Dom Helder é certamente uma figura impar do século que passou.
Brasileiro ilustre, sem duvida, esse magro cearense que era fiel a Igreja e ao mesmo tempo dialogava com mundo com toda a tranqüilidade e intimidade. Conhecido no Brasil e no exterior, admirado por uns e odiado por outros, Dom Helder em seu centenário de nascimento, celebrado neste ano, não deixa de instigar nossas consciências e provocar admiração. Impossível não tomar posição diante de sua pessoa e sua vida.
Quando, em 20 de abril de 1952, aquele frágil sacerdote nordestino foi nomeado bispo escolheu como lema do seu ministério episcopal "IN MANUS TUAS". Provavelmente intuía, mas não sabia que era ao mesmo tempo uma profecia e um programa de vida. As três
palavras latinas queriam significar sua entrega confiante nas mãos de Deus, seu único Senhor. Essa entrega levou-o longe pelos caminhos de um serviço criativo e profético ao povo de Deus, pelo qual pagou seu preço, mas que desempenhou alegre até o fim.
No dia 7 de fevereiro serão cem anos do nascimento de Dom Helder Câmara, cearense de Fortaleza e décimo primeiro filho de família simples, numerosa e bem constituída. Desde pequeno, brincava de padre, armando altares e oficiando missas em casa. Ao comunicar a seu pai, afastado da Igreja, seu desejo de abraçar a vocação sacerdotal, o jovem Helder ouviu palavras que nunca esqueceu: "Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar, se deixar devorar".
A vida no seminário e os estudos do jovem Helder foram marcados pela firmeza vocacional e o brilho intelectual. Ordenado aos 22 anos, antes da idade mínima requerida para tal e com licença especial da Santa Sé, Pe. Helder reuniu desde o principio qualidades raras em uma mesma pessoa: inteligência, cultura e liderança incontestáveis ao lado de um imenso amor e dedicação integral aos mais pobres.
Ao mesmo tempo em que organizava reuniões com lavadeiras e operarias e assessorava a Juventude Operaria Brasileira (JOC), escrevia artigos em revistas, planejava a catequese a nível estadual e assumia cargos públicos na secretaria de educação do Ceara. A habilidade política foi uma constante em sua vida, assim como a naturalidade que desde sempre teve frente aos meios de comunicação, sendo uma das primeiras personalidades eclesiásticas brasileiras a aparecer constantemente na televisão. Quem é da minha geração certamente não esquecera sua figura de olhos vivos e penetrantes conclamando o país a solidariedade quando estourou o açude de Orós, causando situação de calamidade para a população nordestina. Parece ouvir ainda sua voz de característico sotaque nordestino: Orós precisa de nós.
A sagração episcopal multiplicou à enésima potencia a personalidade fulgurante do nordestino magro e franzino, vestido com uma eterna batina bege. Sua criatividade e capacidade de trabalho inventavam e implantavam sem cessar novas coisas na Igreja do Brasil. Deve-se a Dom Helder quase todas as iniciativas pioneiras em termos eclesiais que o país conheceu durante o século XX, entre elas a criação da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi fundador e secretário geral.
Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro onde era bispo auxiliar, criava a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional situado no coração do Leblon, bairro mais chique da cidade. Também se deve a sua iniciativa o Banco da Providencia, órgão que existe até os dias de hoje e que atende os pobres da diocese do Rio de Janeiro a vários níveis.
No plano internacional, Dom Helder não teve mãos a medir diante dos múltiplos convites que recebia e atendia. Enchia auditórios e praças em Paris, Sidney, Londres, levando até o abastado primeiro mundo a quase sempre ignorada realidade sofrida e oprimida dos pobres brasileiros. Sua presença fez o país e a Igreja conhecidos e respeitados em outras latitudes.
A partir de 1964 o governo militar criou um rígido sistema de censura nos meios de comunicação brasileiros. Pretendia assim calar as vozes daqueles que defendiam os direitos humanos e denunciavam a barbárie perpetrada pelas torturas nos porões da ditadura. Dom Helder foi confinado a um penoso ostracismo. Sobre ele não se falava ou noticiava. Seu acesso à mídia fechou-se. Ele, perplexo com as acusações de comunista que lhe faziam, cunhou uma frase que ficou famosa: Quando ajudo os pobres dizem que sou santo. Quando pergunto sobre as causas da pobreza, me chamam de comunista.
Dom Helder foi reduzido a uma progressiva invisibilidade. Ficou praticamente restrito à atuação intra-eclesial onde incansavelmente continuou trabalhando. Desde Recife, sua sede episcopal a partir de 1964, foi responsável por um dos mais bem sucedidos focos de resistência ao regime militar.
Homem universal, parece não existir um só campo de atividade que Dom Helder não tenha tocado, vivido, atuado. Recebeu inúmeras homenagens e títulos pelo mundo afora: de cidadão honorário, de "doutor honoris causa". Poeta e místico ardente, desde seu pequeno quarto no Recife levantava-se durante a madrugada para renovar seu lema de bispo: "In manus tuas". A entrega incondicional a Deus e a seu povo expressava-se em belos poemas e livros que receberam traduções em vários idiomas. Escreveu sobre a paz, a cidade e o desafio da pastoral urbana, sobre a justiça, sobre a Igreja que nascia das chamadas
minoras abraamicas. Organizou espetáculos no Maracanã sobre os sete pecados capitais, a paixão de Cristo. Gravou discos onde declamava poemas em honra de Nossa Senhora- Mariama, na Missa dos Quilombos composta por Milton Nascimento e Dom Pedro Casaldaliga.
Nas incursões na calada da noite, olhando o céu do Recife coalhado de estrelas, sua alma se expandia em louvor e adoração. Ali estava seu segredo. Ali estava a força da marca indelével que deixou por onde passou. In manus tuas. Nas mãos de seu Senhor, a alma do bispo descansava e cobrava forcas para um novo amanhecer. Hoje, celebrando cem anos de seu nascimento, o Brasil agradece,comovido. E invoca sua proteção para estes tempos tão diferentes e igualmente complexos".


Maria Clara Lucchetti Bingemer
(mais sobre ele clicando no título)

O LEITOR

"Livro original é bem escrito "tour de force"*
Poucas obras têm a capacidade de agregar em torno de si leituras e opiniões tão díspares, quanto O leitor de Bernhard Schlink. Mas uma coisa é certa: para quem se interessa pela relação entre literatura e trabalho da memória do passado violento, este livro é de leitura obrigatória. Primeiro porque ele é bem escrito e tem fina auto-ironia. Em segundo lugar, porque ele realiza um verdadeiro tour de force. Afinal, ele apresenta uma história de amor, carnal e muito intensa, tendo como pano de fundo os campos de concentração nazistas.
O romance apresenta uma tripla temporalidade: o ato de escritura de um jurista, Michael Berg, nos anos 1990, que redige seu livro como um testemunho para "se livrar" de seu passado; o romance entre este narrador quando tinha 15 anos e uma mulher, Hanna, de 36, logo após a Segunda Guerra; e o período do julgamento desta mulher, nos anos 1960. Esta tripla temporalidade é assombrada pelos fatos terríveis que são revelados no julgamento: Hanna havia sido uma guarda em Auschwitz e responsável por uma série de mortes.
O romance de Michael e Hanna era marcado por um original ritual: antes de irem para a cama, ele lia longamente para ela os clássicos da literatura alemã e universal. Após o julgamento, quando Hanna é condenada, este ritual de leitura é prolongado: Michael, que só se dera conta de que Hanna era analfabeta no julgamento, passa a enviar fitas com suas leituras.
Do ponto de vista da história da representação do Holocausto, este livro, de 1995, representou uma guinada: sua estrutura e modo de apresentação da história de Michael e Hanna fazem da figura do guarda de campo de concentração, uma pessoa digna de compaixão, de amor e de tudo mais. Schlink, ele mesmo um jurista, acaba construindo com Michael um alter-ego em busca de resolver a questão da sua relação com o passado da Alemanha.
Ele apresenta o drama da sua geração que, nos anos 1960, se empenhou em julgar e revelar o que ocorrera no nazismo, em denunciar o escândalo dos nazistas que continuavam em altos postos ainda naquele período, e que assumiu de modo radical a culpa e a vergonha pelo que seus "pais" haviam feito. Mesmo se no livro o pai de Michael não tenha de fato feito nada. Ele representa a impotência da Alemanha Iluminista: é um filósofo, autor de obras sobre Kant e Hegel, que fez um exílio interno durante o período nazista. Mas ao longo do julgamento ocorre uma virada na trama: de jurista empenhado nesta revisão e revelação do passado, ele se torna empático com Hanna e cada vez mais anestesiado diante das terríveis histórias que eram narradas no tribunal. A irrepresentabilidade do Holocausto é transformada em impossibilidade de seu julgamento. O efeito catártico do tribunal produz este fruto paradoxal: na medida em que "faz justiça" também permite uma identificação com Hanna. Esta personagem é tanto a figura singular (que permite a compaixão) como também mais de uma vez é apresentada como uma espécie de "mãe-Alemanha", analfabeta e ainda na menoridade, oposta à Alemanha espiritual de Goethe e Schiller. A culpa que Michael sentia com relação ao que a geração anterior havia feito é transformada em culpa com relação a Hanna.
Sexo, amor, escritura e morte dançam aqui uma coreografia da memória que não deixa o leitor incólume."

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA é professor de teoria literária na Unicamp
ESPECIAL PARA A FOLHA

fevereiro 05, 2009

Não enviar

Atualmente, não é raro ouvir alguém dizer que gostaria de se “desconectar”, de não perder tanto tempo em frente ao computador. Para algumas dessas pessoas, que tem programas de estudos a cumprir, aconselho como primeira medida e declaro o meu apoio não lhe enviando e-mails desnecessários, dos que apenas irão roubar seu precioso tempo.
Não estou entre estas pessoas que precisam se desconectar. Sem que isto signifique contar vantagem, mesmo porque não é, tornei-me dona do meu tempo (um eufemismo para me referir ao meu ócio). “Internetar”, para quem é dona de seu tempo, é uma atividade que abrange desde a leitura de jornais, revistas, inclusive as eletrônicas, blogs variados, sinopses e trailers de filmes, ouvir músicas, planejar viagens e, por que não?, blogar o que me parecer interessante, ao ponto de querer “compartilhar” com os amigos que lêem o blog (muitos nem sabem dele ou não se interessam, o que não muda nada na nossa relação). E, finalmente, é via e-mail (não gosto do MSN) que mantenho contato com eles, os próximos e os mais distantes (valendo em todos os sentidos).
Mas será que enviar e-mail para alguém pode ser considerado como fazer-lhe uma visita?
Esta é a reflexão que está me “pegando”. Não sem razão. Fui comunicada por um desses amigos de que iria limitar os seus acessos à internet, reduzi-los a uma vez por semana....
Ou seja, não se pode "visitá-lo" à vontade. Mas como pedir licença para chegar? Como saber se o dia e hora estão adequados? Como não ser inoportuna e inconveniente?
Desde que se tornou viável (e massificado), o correio eletrônico é a melhor forma de “ corresponder-se” com alguém. Tomou o lugar das cartas, bilhetes, mensagens, que sempre existiram, postadas nos correios e que, se indesejadas, eram rasgadas simplesmente. Podia acontecer de não chegar, por qualquer razão se extraviar. Daí se poder alegar não haver recebido. Mas e-mail, em geral, chega e imediatamente.
Não resta dúvida de que houve um desvirtuamento da finalidade (ou seria uma ampliação do uso?) na medida em que pouco ou nada se escreve. O e-mail vem se prestando para o envio de anexos que podem ser filmes, fotos, msg de auto ajuda, de anjos e outras que vc deve enviar para tantas pessoas para não cair em desgraça.....
Quem não tem sua pequena coleção de correspondentes convencidos de que merecem a sua atenção para qualquer piada, inclusive as de mau gosto, ou a enésima denúncia de que os americanos já redesenharam o mapa da Amazônia ? E aquela mulher do câncer de mama que não pode parar de andar ? Quem não recebe todo dia alertas contra um novo golpe? E os manifestos que denunciam injustiças ou mais um escândalo do governo?
Não posso ser considerada uma dessas na lista de contatos do meu amigo.Isto é o que faz me sentir injustamente excluída....

A rua da revolução

"ÀS VEZES, conversava com meu pai sobre sonhos que eu acalentava e que implicariam mudanças grandes na minha vida.
Ele me escutava e, em geral, concluía: "Só que não basta sonhar, é preciso ter coragem". Em suma, havia uma infelicidade específica que ele não queria para mim, a de quem cultiva seus desejos como se fossem "apenas um sonho", sem ter a ousadia de tentar vivê-los. É por isso que não achei ruim o título em português que foi escolhido para o novo filme de Sam Mendes e para o grande romance que o inspira, de Richard Yates (de 1961, agora traduzido pela editora Alfaguara): "Foi Apenas um Sonho".
O título original de ambos era "Revolutionary Road" (rua da revolução). Não é raro que, nos pacatos subúrbios americanos de classe média, o nome de uma rua lembre a revolução pela qual os EUA se constituíram independentes e republicanos. Por uma ideia e um futuro de liberdade, os revolucionários de 1776 arriscaram tudo, apostaram "sua vida, sua fortuna e sua honra sagrada". E o título original de Yates perguntava (ironicamente) se algo daquela coragem sobraria num subúrbio dos anos 50, em que quase todos, como Frank e April, o casal do livro e do filme, vivem sorrindo ou fazendo de conta, embora convencidos de que a vida deveria trazer outras aventuras.
Poucos anos depois da história de April e Frank, aliás, uma nova geração fez outra revolução -desta vez, em nome dos desejos silenciados. Seu moto, inventado por Jerry Rubin (estranha cumplicidade entre ele e meu pai), foi "Do it!", faça-o, ou seja: "Seja lá o que for, não deixe que fique apenas um sonho". Mas voltemos ao tema central do livro e do filme, ou seja, digamos assim, à suposta covardia do desejo.
Para começar, uma curiosidade: eu tinha a sensação de já ter escrito sobre o romance de Yates, mas não sabia quando. Graças ao Google, descobri que, em 1999, na bibliografia de meu livro "Adolescência" (Publifolha), eu citava "Revolutionary Road", de Richard Yates, como "um dos maiores romances americanos do pós-guerra", "em que a monotonia da vida suburbana se torna intolerável por causa da urgência de interromper a rotina adulta para poder "se achar'".
Na época, o livro não existia em português, e eu sugeria que quem não pudesse lê-lo em inglês recorresse ao filme "Beleza Americana", de Sam Mendes, cuja "personagem principal é um herdeiro direto do herói de Yates". Palavras proféticas: logo Sam Mendes acabou adaptando o romance de Yates.
Agora, a inspiração no romance de Yates torna "Foi Apenas um Sonho" um filme menos caricatural e mais tocante do que "Beleza Americana".
De onde vem a infelicidade de Frank e April? Tudo bem, April esperava ser atriz e não é (talvez por falta de talento). Quanto a Frank, ele não tem nenhuma aspiração concreta. Por que razão, então, viver numa casa agradável, trabalhando e criando os filhos, levaria a um "vazio sem esperança"? Sem esperança de quê?
Claro, na saída do cinema, parece óbvio o destino de quem habita o estereótipo de um cartão-postal: apenas seria possível escolher entre a insatisfação existencial e o kitsch melado no qual vive "feliz", no filme e no livro, a corretora de imóveis.
Mas paira no ar uma pergunta: e se o problema não fosse o sossego da Revolutionary Road, mas o próprio desejo insano de viver outra vida? A insatisfação abstrata que assombra April e Frank é o cemitério do amor. A escolha de DiCaprio e Winslet (excelentes) parece querer nos contar o que teria acontecido se DiCaprio tivesse sobrevivido ao naufrágio do Titanic: a vida do casal se tornaria uma misteriosa prisão, em que o cotidiano imporia renúncias covardes a sonhos e desejos "livres".
Mas a qual liberdade eles renunciariam? Nada a ver com a que preocupava os revolucionários de 76: é a liberdade de ir viver em Paris. Sarcasmo: a "loucura" é tão enlatada quanto a realidade. Mais um detalhe. É April que exige de Frank uma coragem sem a qual talvez ela deixe de amá-lo e de reconhecê-lo como (seu) homem. A "trivialidade" das conquistas profissionais não basta; Frank deve inventar outros desejos (que, na verdade, ele mal tem). April se torna assim uma representante feroz daquelas expectativas monstruosas com as quais qualquer homem lida como pode -as expectativas maternas: "Seja extraordinário, meu filho".
Tudo bem, serei extraordinário, mas como? Pois é, caro Frank, ser homem não é mole.
"

CONTARDO CALLIGARIS na FSP de hoje.

fevereiro 04, 2009

A Costa dos Murmúrios

A leitura deste romance não me despertou maior interesse pela guerra colonial portuguesa tanto quanto por sua autora LIDIA JORGE. Sobre este romance já se disse tudo. Foi objeto de inúmeros trabalhos acadêmicos, além de haver sido adaptado para o cinema. A Costa dos Murmúrios é de 1988, mas não é o seu primeiro romance. A sua primeira obra foi O Dia dos Prodígios, uma alegoria ao que era Portugal sob o regime anterior à revolução de Abril de 1974. Depois deste, a sua rica produção literária vem sendo reconhecida, premiada e traduzida em diversas línguas. Os seus romances mantêm uma grande variedade temática, mas estão ligados sobretudo aos problemas do povo português, às circunstâncias históricas e mudanças da sociedade após o 25 de Abril, assim como à problemática da mulher.
Um trecho da análise d' A Costa dos Murmúrios por Fernanda Massebeuf:
"Lídia Jorge pode ser considerada transgressora quando dá a palavra aos marginais da História Portuguesa, protagonizada por homens, e quando põe em causa a visão histórica tradicional da guerra colonial portuguesa na obra A Costa dos Murmúrios. O leitor vai tomar conhecimento da guerra a partir do olhar periférico e subalterno de uma mulher que não a viveu diretamente, mas que tem dela idéias bem específicas, p.80: pobres daqueles que, tendo vocação para imitarem alguém, nunca encontraram o modelo na vida. Hibridez, duplicidade, ambiguidade são inerentes ao relato que tenta desmisticar os fatos ocorridos em Moçambique.
A autora cofessa ser muito jovem na época em que se deparou pela primeira vez com a guerra, a morte e violência extremas e que tudo isso fez dela a mulher na qual se transformou"
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(a continuação clicando no título)

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Já andei fazendo uns desabafos a propósito da reforma ortográfica até em forma de lamento pelas perdas de alguns acentos e pela minha preguiça de aprender quando junta e dobra a consoante, nos casos onde antes eram prefixos, enfim.... Reticências. Sei que também abuso delas. Mas neste post trago as exclamações que tirei dos meus textos anteriores. E olhe que foi só de alguns (já ia colocando uma aqui, devolvi a tempo lá para cima). Estou sempre querendo enfatizar evidências, colocando uma exclamação. Não é subestimando (esta sempre se escreveu assim) sua inteligência. Apenas tento fazer com que percebam a graça ou a ironia que já deveria vir embutida nas palavras, que me parecem insuficientes (já sei, ampliar o vocabulário pode ser uma solução). O resultado é que o texto, ainda que até aqui ninguém tenha reclamado, fica insuportável. Tenho que admitir. E blog não tem revisor. Minha filha, de quando em vez, me envia emails denunciando alguns horrores que cometo, mas fica por aí. Nunca me falou dos excessos no uso de exclamações . Nas comunicações via emails a exclamação reduz o risco de mal-entendidos (se escreve assim?), serve para dar o tom da mensagem. Com uma exclamação se pode tornar menos séria uma frase. Evita que seja interpretada de forma enviesada. Mas tantas exclamações aqui no blog não se justificam....
Prometo que irei pensar a cada vez que estiver tentada a usar uma.

Agroglyphes (Cropcircles)


Impressionante! (não encontrei nada na web em portugues)