fevereiro 06, 2009

Desejar o Desejo

"Costumamos querer sem saber o que queremos, costumamos falar de desejo sem saber o que ele significa. Fala-se tanto em desejo que ficamos confusos com seu sentido. Arthur Schopenhauer, no século XIX, pensava que o desejo era o motor do sofrimento. Desejar resultava em ser infeliz. O filósofo tinha certa razão, pois o desejo não vem com o equilíbrio como brinde. E a pergunta, a princípio ingênua, “o desejo é afinal bom ou ruim?” não nos abandona.
Apesar da relação entre desejo e excesso, à sensação de aventura impressionante que uma possível “descoberta” do desejo nos convida, nos tornamos temerosos do desejo. Todavia, permanecemos desejando. Se não estamos às voltas à procura de nosso desejo por conta própria, sempre há quem esteja por perto dizendo que temos que encontra-lo e que isto será uma revolução pessoal.
Há quem fale da diferença entre querer e desejar, uns afirmando que o querer é racional e consciente e o desejo é irracional e inconsciente. É uma boa distinção. De qualquer modo, mesmo confusos, sabemos que o desejo sempre nos põe diante de um abismo que apenas com paciência e atenção somos capazes de atravessar em nosso dia a dia. Este abismo é o outro. É visando-o que descobrimos o que ele realmente é.
Estamos orientados a sempre desejar alguma coisa em relação ao outro, seja ele algo, uma pessoa, a sociedade ou o futuro. Quando desejamos o desejo, a vida vai bem. Nos movemos atentos à beleza, à tragédia, ao sublime da existência e tudo pode ser interessante e motivo de alegria. Baruch Spinoza, no século XVII, falava do desejo como uma espécie de impulso para a vida. A sua melhor qualidade era a produção da alegria como afeto saudável que nos fazia encontrar o outro como dádiva, luz, maravilha.
Para além da felicidade que advém do mero desejar o desejo, desejamos algo diferente dele. Às vezes desejamos as coisas e, como não conquistamos tudo o que queremos, sofremos. Quando desejamos pessoas podemos sofrer mais ainda, já que ao desejar outra pessoa que deseja como nós, nos deparamos com o obstáculo do seu próprio desejo que pode ser avesso ao nosso e nos rejeitar.
Muitas vezes, mesmo desejando alguém e tendo a sorte de uma amizade ou um amor correspondido pomos tudo a perder. Se não desejamos o que o outro é, acabamos por nossa própria conta que ele deveria ser. Mas quem teria este direito de desejar por nós?
Como alguém deveria ser
Não se trata apenas de desejar algo que o outro “deveria” nos dar e chorar porque não fomos contemplados, ou assumir com dignidade a frustração, mas de desejar o modo como alguém “deveria ser”. É como se o outro não fosse o que é, devendo sempre ser diferente para agradar o gosto do seu crítico de plantão. Tornamo-nos críticos exímios socialmente na arte de falar mal, de apontar defeitos, de querer, afinal, que o outro seja como queremos que ele seja. Nunca o que ele é. E se nos casamos com este outro, ou nos tornamos pais, ou precisamos conviver no trabalho?
Em casa, no trabalho, na escola, na empresa, esta postura carrega um gesto de desamor que, em graus variados, pode chegar ao ódio e à intolerância que são o extremo da falta de capacidade de dialogar ou de, simplesmente, deixar que o outro seja o que ele é, a seu modo. Mas e como “eu” deveria ser? Será que esta pergunta teria consistência?
Muitas vezes exigimos das pessoas atitudes e comportamentos que nós mesmos não temos, mas que supomos nossa característica mais essencial. Perguntados, entretanto, nem sempre podemos afirmar com precisão onde, como e quando tais características se manifestam em nós. Qual será a função desta exigência? Se critico o outro por sua preguiça é por que, ao contrário, eu sou trabalhador e esforçado? Se o critico por ignorância, eu sou sábio? Se o critico em sua antipatia, sou eu o simpático? Se o critico por falta de ética, eu sou ético? Falando do outro eu sempre me convenço de que sou melhor do que ele ou, antes, por me considerar perfeito já afirmo minha competência na crítica. Mas, sobretudo, acoberto a chance de que eu esteja na berlinda, sendo o alvo.
Nossos comportamentos geram valores. Não são apenas o fruto de valores preexistentes, mas nós mesmos construímos as bases a partir das quais agimos em nosso futuro e interferimos, sobretudo, no modo de ser de outras pessoas. Este modo de ser leva à decisões e ações mais ou menos livres que moldam a totalidade da vida.
A liberdade do outro é o começo da minha
Nossa sociedade costuma demonstrar seus valores cultuando-os. Este culto mostra duas coisas: que temos uma imensa capacidade de amar símbolos, pessoas ou coisas, e que, justamente por isso, também somos capazes de muita ilusão.
Quando desejamos ilusões não atingimos a profundidade do nosso desejo. Não devemos apenas pensar nas falsas necessidades que fazem operar nosso desejo, as inventadas pela sociedade em seu modo de produção atual. Devemos pensar nos valores que impomos a quem não é como nós somos e que compõem nosso desejo. A atenção crítica a si mesmo e ao outro precisa de óculos cuja lente seja a liberdade de ser que é direito de cada um. A liberdade do outro é onde inicia a minha."

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Marcia Tiburi Vida Simples em 2008.

Um país de tolos

Dom Helder Câmara

"Arcebispo vermelho, bispo comunista, santo, místico, poeta, profeta - de tudo isso e muito mais foi chamado Dom Helder Câmara. Amigo de Paulo VI e do cardeal Eugenio Salles, inovador e criativo, ao mesmo tempo em que obediente e dócil a Igreja Católica da qual era pastor, Dom Helder é certamente uma figura impar do século que passou.
Brasileiro ilustre, sem duvida, esse magro cearense que era fiel a Igreja e ao mesmo tempo dialogava com mundo com toda a tranqüilidade e intimidade. Conhecido no Brasil e no exterior, admirado por uns e odiado por outros, Dom Helder em seu centenário de nascimento, celebrado neste ano, não deixa de instigar nossas consciências e provocar admiração. Impossível não tomar posição diante de sua pessoa e sua vida.
Quando, em 20 de abril de 1952, aquele frágil sacerdote nordestino foi nomeado bispo escolheu como lema do seu ministério episcopal "IN MANUS TUAS". Provavelmente intuía, mas não sabia que era ao mesmo tempo uma profecia e um programa de vida. As três
palavras latinas queriam significar sua entrega confiante nas mãos de Deus, seu único Senhor. Essa entrega levou-o longe pelos caminhos de um serviço criativo e profético ao povo de Deus, pelo qual pagou seu preço, mas que desempenhou alegre até o fim.
No dia 7 de fevereiro serão cem anos do nascimento de Dom Helder Câmara, cearense de Fortaleza e décimo primeiro filho de família simples, numerosa e bem constituída. Desde pequeno, brincava de padre, armando altares e oficiando missas em casa. Ao comunicar a seu pai, afastado da Igreja, seu desejo de abraçar a vocação sacerdotal, o jovem Helder ouviu palavras que nunca esqueceu: "Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar, se deixar devorar".
A vida no seminário e os estudos do jovem Helder foram marcados pela firmeza vocacional e o brilho intelectual. Ordenado aos 22 anos, antes da idade mínima requerida para tal e com licença especial da Santa Sé, Pe. Helder reuniu desde o principio qualidades raras em uma mesma pessoa: inteligência, cultura e liderança incontestáveis ao lado de um imenso amor e dedicação integral aos mais pobres.
Ao mesmo tempo em que organizava reuniões com lavadeiras e operarias e assessorava a Juventude Operaria Brasileira (JOC), escrevia artigos em revistas, planejava a catequese a nível estadual e assumia cargos públicos na secretaria de educação do Ceara. A habilidade política foi uma constante em sua vida, assim como a naturalidade que desde sempre teve frente aos meios de comunicação, sendo uma das primeiras personalidades eclesiásticas brasileiras a aparecer constantemente na televisão. Quem é da minha geração certamente não esquecera sua figura de olhos vivos e penetrantes conclamando o país a solidariedade quando estourou o açude de Orós, causando situação de calamidade para a população nordestina. Parece ouvir ainda sua voz de característico sotaque nordestino: Orós precisa de nós.
A sagração episcopal multiplicou à enésima potencia a personalidade fulgurante do nordestino magro e franzino, vestido com uma eterna batina bege. Sua criatividade e capacidade de trabalho inventavam e implantavam sem cessar novas coisas na Igreja do Brasil. Deve-se a Dom Helder quase todas as iniciativas pioneiras em termos eclesiais que o país conheceu durante o século XX, entre elas a criação da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi fundador e secretário geral.
Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro onde era bispo auxiliar, criava a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional situado no coração do Leblon, bairro mais chique da cidade. Também se deve a sua iniciativa o Banco da Providencia, órgão que existe até os dias de hoje e que atende os pobres da diocese do Rio de Janeiro a vários níveis.
No plano internacional, Dom Helder não teve mãos a medir diante dos múltiplos convites que recebia e atendia. Enchia auditórios e praças em Paris, Sidney, Londres, levando até o abastado primeiro mundo a quase sempre ignorada realidade sofrida e oprimida dos pobres brasileiros. Sua presença fez o país e a Igreja conhecidos e respeitados em outras latitudes.
A partir de 1964 o governo militar criou um rígido sistema de censura nos meios de comunicação brasileiros. Pretendia assim calar as vozes daqueles que defendiam os direitos humanos e denunciavam a barbárie perpetrada pelas torturas nos porões da ditadura. Dom Helder foi confinado a um penoso ostracismo. Sobre ele não se falava ou noticiava. Seu acesso à mídia fechou-se. Ele, perplexo com as acusações de comunista que lhe faziam, cunhou uma frase que ficou famosa: Quando ajudo os pobres dizem que sou santo. Quando pergunto sobre as causas da pobreza, me chamam de comunista.
Dom Helder foi reduzido a uma progressiva invisibilidade. Ficou praticamente restrito à atuação intra-eclesial onde incansavelmente continuou trabalhando. Desde Recife, sua sede episcopal a partir de 1964, foi responsável por um dos mais bem sucedidos focos de resistência ao regime militar.
Homem universal, parece não existir um só campo de atividade que Dom Helder não tenha tocado, vivido, atuado. Recebeu inúmeras homenagens e títulos pelo mundo afora: de cidadão honorário, de "doutor honoris causa". Poeta e místico ardente, desde seu pequeno quarto no Recife levantava-se durante a madrugada para renovar seu lema de bispo: "In manus tuas". A entrega incondicional a Deus e a seu povo expressava-se em belos poemas e livros que receberam traduções em vários idiomas. Escreveu sobre a paz, a cidade e o desafio da pastoral urbana, sobre a justiça, sobre a Igreja que nascia das chamadas
minoras abraamicas. Organizou espetáculos no Maracanã sobre os sete pecados capitais, a paixão de Cristo. Gravou discos onde declamava poemas em honra de Nossa Senhora- Mariama, na Missa dos Quilombos composta por Milton Nascimento e Dom Pedro Casaldaliga.
Nas incursões na calada da noite, olhando o céu do Recife coalhado de estrelas, sua alma se expandia em louvor e adoração. Ali estava seu segredo. Ali estava a força da marca indelével que deixou por onde passou. In manus tuas. Nas mãos de seu Senhor, a alma do bispo descansava e cobrava forcas para um novo amanhecer. Hoje, celebrando cem anos de seu nascimento, o Brasil agradece,comovido. E invoca sua proteção para estes tempos tão diferentes e igualmente complexos".


Maria Clara Lucchetti Bingemer
(mais sobre ele clicando no título)

O LEITOR

"Livro original é bem escrito "tour de force"*
Poucas obras têm a capacidade de agregar em torno de si leituras e opiniões tão díspares, quanto O leitor de Bernhard Schlink. Mas uma coisa é certa: para quem se interessa pela relação entre literatura e trabalho da memória do passado violento, este livro é de leitura obrigatória. Primeiro porque ele é bem escrito e tem fina auto-ironia. Em segundo lugar, porque ele realiza um verdadeiro tour de force. Afinal, ele apresenta uma história de amor, carnal e muito intensa, tendo como pano de fundo os campos de concentração nazistas.
O romance apresenta uma tripla temporalidade: o ato de escritura de um jurista, Michael Berg, nos anos 1990, que redige seu livro como um testemunho para "se livrar" de seu passado; o romance entre este narrador quando tinha 15 anos e uma mulher, Hanna, de 36, logo após a Segunda Guerra; e o período do julgamento desta mulher, nos anos 1960. Esta tripla temporalidade é assombrada pelos fatos terríveis que são revelados no julgamento: Hanna havia sido uma guarda em Auschwitz e responsável por uma série de mortes.
O romance de Michael e Hanna era marcado por um original ritual: antes de irem para a cama, ele lia longamente para ela os clássicos da literatura alemã e universal. Após o julgamento, quando Hanna é condenada, este ritual de leitura é prolongado: Michael, que só se dera conta de que Hanna era analfabeta no julgamento, passa a enviar fitas com suas leituras.
Do ponto de vista da história da representação do Holocausto, este livro, de 1995, representou uma guinada: sua estrutura e modo de apresentação da história de Michael e Hanna fazem da figura do guarda de campo de concentração, uma pessoa digna de compaixão, de amor e de tudo mais. Schlink, ele mesmo um jurista, acaba construindo com Michael um alter-ego em busca de resolver a questão da sua relação com o passado da Alemanha.
Ele apresenta o drama da sua geração que, nos anos 1960, se empenhou em julgar e revelar o que ocorrera no nazismo, em denunciar o escândalo dos nazistas que continuavam em altos postos ainda naquele período, e que assumiu de modo radical a culpa e a vergonha pelo que seus "pais" haviam feito. Mesmo se no livro o pai de Michael não tenha de fato feito nada. Ele representa a impotência da Alemanha Iluminista: é um filósofo, autor de obras sobre Kant e Hegel, que fez um exílio interno durante o período nazista. Mas ao longo do julgamento ocorre uma virada na trama: de jurista empenhado nesta revisão e revelação do passado, ele se torna empático com Hanna e cada vez mais anestesiado diante das terríveis histórias que eram narradas no tribunal. A irrepresentabilidade do Holocausto é transformada em impossibilidade de seu julgamento. O efeito catártico do tribunal produz este fruto paradoxal: na medida em que "faz justiça" também permite uma identificação com Hanna. Esta personagem é tanto a figura singular (que permite a compaixão) como também mais de uma vez é apresentada como uma espécie de "mãe-Alemanha", analfabeta e ainda na menoridade, oposta à Alemanha espiritual de Goethe e Schiller. A culpa que Michael sentia com relação ao que a geração anterior havia feito é transformada em culpa com relação a Hanna.
Sexo, amor, escritura e morte dançam aqui uma coreografia da memória que não deixa o leitor incólume."

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA é professor de teoria literária na Unicamp
ESPECIAL PARA A FOLHA

fevereiro 05, 2009

Não enviar

Atualmente, não é raro ouvir alguém dizer que gostaria de se “desconectar”, de não perder tanto tempo em frente ao computador. Para algumas dessas pessoas, que tem programas de estudos a cumprir, aconselho como primeira medida e declaro o meu apoio não lhe enviando e-mails desnecessários, dos que apenas irão roubar seu precioso tempo.
Não estou entre estas pessoas que precisam se desconectar. Sem que isto signifique contar vantagem, mesmo porque não é, tornei-me dona do meu tempo (um eufemismo para me referir ao meu ócio). “Internetar”, para quem é dona de seu tempo, é uma atividade que abrange desde a leitura de jornais, revistas, inclusive as eletrônicas, blogs variados, sinopses e trailers de filmes, ouvir músicas, planejar viagens e, por que não?, blogar o que me parecer interessante, ao ponto de querer “compartilhar” com os amigos que lêem o blog (muitos nem sabem dele ou não se interessam, o que não muda nada na nossa relação). E, finalmente, é via e-mail (não gosto do MSN) que mantenho contato com eles, os próximos e os mais distantes (valendo em todos os sentidos).
Mas será que enviar e-mail para alguém pode ser considerado como fazer-lhe uma visita?
Esta é a reflexão que está me “pegando”. Não sem razão. Fui comunicada por um desses amigos de que iria limitar os seus acessos à internet, reduzi-los a uma vez por semana....
Ou seja, não se pode "visitá-lo" à vontade. Mas como pedir licença para chegar? Como saber se o dia e hora estão adequados? Como não ser inoportuna e inconveniente?
Desde que se tornou viável (e massificado), o correio eletrônico é a melhor forma de “ corresponder-se” com alguém. Tomou o lugar das cartas, bilhetes, mensagens, que sempre existiram, postadas nos correios e que, se indesejadas, eram rasgadas simplesmente. Podia acontecer de não chegar, por qualquer razão se extraviar. Daí se poder alegar não haver recebido. Mas e-mail, em geral, chega e imediatamente.
Não resta dúvida de que houve um desvirtuamento da finalidade (ou seria uma ampliação do uso?) na medida em que pouco ou nada se escreve. O e-mail vem se prestando para o envio de anexos que podem ser filmes, fotos, msg de auto ajuda, de anjos e outras que vc deve enviar para tantas pessoas para não cair em desgraça.....
Quem não tem sua pequena coleção de correspondentes convencidos de que merecem a sua atenção para qualquer piada, inclusive as de mau gosto, ou a enésima denúncia de que os americanos já redesenharam o mapa da Amazônia ? E aquela mulher do câncer de mama que não pode parar de andar ? Quem não recebe todo dia alertas contra um novo golpe? E os manifestos que denunciam injustiças ou mais um escândalo do governo?
Não posso ser considerada uma dessas na lista de contatos do meu amigo.Isto é o que faz me sentir injustamente excluída....

A rua da revolução

"ÀS VEZES, conversava com meu pai sobre sonhos que eu acalentava e que implicariam mudanças grandes na minha vida.
Ele me escutava e, em geral, concluía: "Só que não basta sonhar, é preciso ter coragem". Em suma, havia uma infelicidade específica que ele não queria para mim, a de quem cultiva seus desejos como se fossem "apenas um sonho", sem ter a ousadia de tentar vivê-los. É por isso que não achei ruim o título em português que foi escolhido para o novo filme de Sam Mendes e para o grande romance que o inspira, de Richard Yates (de 1961, agora traduzido pela editora Alfaguara): "Foi Apenas um Sonho".
O título original de ambos era "Revolutionary Road" (rua da revolução). Não é raro que, nos pacatos subúrbios americanos de classe média, o nome de uma rua lembre a revolução pela qual os EUA se constituíram independentes e republicanos. Por uma ideia e um futuro de liberdade, os revolucionários de 1776 arriscaram tudo, apostaram "sua vida, sua fortuna e sua honra sagrada". E o título original de Yates perguntava (ironicamente) se algo daquela coragem sobraria num subúrbio dos anos 50, em que quase todos, como Frank e April, o casal do livro e do filme, vivem sorrindo ou fazendo de conta, embora convencidos de que a vida deveria trazer outras aventuras.
Poucos anos depois da história de April e Frank, aliás, uma nova geração fez outra revolução -desta vez, em nome dos desejos silenciados. Seu moto, inventado por Jerry Rubin (estranha cumplicidade entre ele e meu pai), foi "Do it!", faça-o, ou seja: "Seja lá o que for, não deixe que fique apenas um sonho". Mas voltemos ao tema central do livro e do filme, ou seja, digamos assim, à suposta covardia do desejo.
Para começar, uma curiosidade: eu tinha a sensação de já ter escrito sobre o romance de Yates, mas não sabia quando. Graças ao Google, descobri que, em 1999, na bibliografia de meu livro "Adolescência" (Publifolha), eu citava "Revolutionary Road", de Richard Yates, como "um dos maiores romances americanos do pós-guerra", "em que a monotonia da vida suburbana se torna intolerável por causa da urgência de interromper a rotina adulta para poder "se achar'".
Na época, o livro não existia em português, e eu sugeria que quem não pudesse lê-lo em inglês recorresse ao filme "Beleza Americana", de Sam Mendes, cuja "personagem principal é um herdeiro direto do herói de Yates". Palavras proféticas: logo Sam Mendes acabou adaptando o romance de Yates.
Agora, a inspiração no romance de Yates torna "Foi Apenas um Sonho" um filme menos caricatural e mais tocante do que "Beleza Americana".
De onde vem a infelicidade de Frank e April? Tudo bem, April esperava ser atriz e não é (talvez por falta de talento). Quanto a Frank, ele não tem nenhuma aspiração concreta. Por que razão, então, viver numa casa agradável, trabalhando e criando os filhos, levaria a um "vazio sem esperança"? Sem esperança de quê?
Claro, na saída do cinema, parece óbvio o destino de quem habita o estereótipo de um cartão-postal: apenas seria possível escolher entre a insatisfação existencial e o kitsch melado no qual vive "feliz", no filme e no livro, a corretora de imóveis.
Mas paira no ar uma pergunta: e se o problema não fosse o sossego da Revolutionary Road, mas o próprio desejo insano de viver outra vida? A insatisfação abstrata que assombra April e Frank é o cemitério do amor. A escolha de DiCaprio e Winslet (excelentes) parece querer nos contar o que teria acontecido se DiCaprio tivesse sobrevivido ao naufrágio do Titanic: a vida do casal se tornaria uma misteriosa prisão, em que o cotidiano imporia renúncias covardes a sonhos e desejos "livres".
Mas a qual liberdade eles renunciariam? Nada a ver com a que preocupava os revolucionários de 76: é a liberdade de ir viver em Paris. Sarcasmo: a "loucura" é tão enlatada quanto a realidade. Mais um detalhe. É April que exige de Frank uma coragem sem a qual talvez ela deixe de amá-lo e de reconhecê-lo como (seu) homem. A "trivialidade" das conquistas profissionais não basta; Frank deve inventar outros desejos (que, na verdade, ele mal tem). April se torna assim uma representante feroz daquelas expectativas monstruosas com as quais qualquer homem lida como pode -as expectativas maternas: "Seja extraordinário, meu filho".
Tudo bem, serei extraordinário, mas como? Pois é, caro Frank, ser homem não é mole.
"

CONTARDO CALLIGARIS na FSP de hoje.

fevereiro 04, 2009

A Costa dos Murmúrios

A leitura deste romance não me despertou maior interesse pela guerra colonial portuguesa tanto quanto por sua autora LIDIA JORGE. Sobre este romance já se disse tudo. Foi objeto de inúmeros trabalhos acadêmicos, além de haver sido adaptado para o cinema. A Costa dos Murmúrios é de 1988, mas não é o seu primeiro romance. A sua primeira obra foi O Dia dos Prodígios, uma alegoria ao que era Portugal sob o regime anterior à revolução de Abril de 1974. Depois deste, a sua rica produção literária vem sendo reconhecida, premiada e traduzida em diversas línguas. Os seus romances mantêm uma grande variedade temática, mas estão ligados sobretudo aos problemas do povo português, às circunstâncias históricas e mudanças da sociedade após o 25 de Abril, assim como à problemática da mulher.
Um trecho da análise d' A Costa dos Murmúrios por Fernanda Massebeuf:
"Lídia Jorge pode ser considerada transgressora quando dá a palavra aos marginais da História Portuguesa, protagonizada por homens, e quando põe em causa a visão histórica tradicional da guerra colonial portuguesa na obra A Costa dos Murmúrios. O leitor vai tomar conhecimento da guerra a partir do olhar periférico e subalterno de uma mulher que não a viveu diretamente, mas que tem dela idéias bem específicas, p.80: pobres daqueles que, tendo vocação para imitarem alguém, nunca encontraram o modelo na vida. Hibridez, duplicidade, ambiguidade são inerentes ao relato que tenta desmisticar os fatos ocorridos em Moçambique.
A autora cofessa ser muito jovem na época em que se deparou pela primeira vez com a guerra, a morte e violência extremas e que tudo isso fez dela a mulher na qual se transformou"
....
(a continuação clicando no título)

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Já andei fazendo uns desabafos a propósito da reforma ortográfica até em forma de lamento pelas perdas de alguns acentos e pela minha preguiça de aprender quando junta e dobra a consoante, nos casos onde antes eram prefixos, enfim.... Reticências. Sei que também abuso delas. Mas neste post trago as exclamações que tirei dos meus textos anteriores. E olhe que foi só de alguns (já ia colocando uma aqui, devolvi a tempo lá para cima). Estou sempre querendo enfatizar evidências, colocando uma exclamação. Não é subestimando (esta sempre se escreveu assim) sua inteligência. Apenas tento fazer com que percebam a graça ou a ironia que já deveria vir embutida nas palavras, que me parecem insuficientes (já sei, ampliar o vocabulário pode ser uma solução). O resultado é que o texto, ainda que até aqui ninguém tenha reclamado, fica insuportável. Tenho que admitir. E blog não tem revisor. Minha filha, de quando em vez, me envia emails denunciando alguns horrores que cometo, mas fica por aí. Nunca me falou dos excessos no uso de exclamações . Nas comunicações via emails a exclamação reduz o risco de mal-entendidos (se escreve assim?), serve para dar o tom da mensagem. Com uma exclamação se pode tornar menos séria uma frase. Evita que seja interpretada de forma enviesada. Mas tantas exclamações aqui no blog não se justificam....
Prometo que irei pensar a cada vez que estiver tentada a usar uma.

Agroglyphes (Cropcircles)


Impressionante! (não encontrei nada na web em portugues)

fevereiro 03, 2009

Procrastinação: leia isso hoje, ou, se preferir, amanhã

Procrastinar, postergar decisões, adiar mudanças é tudo quanto venho fazendo... Cheguei a comentar algumas em seguida recuei a fim de poder postergar em sossego. E sem culpa Porque culpa não é a minha praia. No ítem autocondescendência me saio melhor ...(se eu não for condescente comigo mesma quem vai ser? Então eu sou. Pronto.)
Não à toa, fui atraída pelo “....leia isso, ou, se preferir amanhã”. Uma adaptação livre da simpática frase: não faça hoje o que pode ser feito amanhã.
Trata-se de um artigo no The New York Times de hoje, assinado por Alina Tugend de onde pinço as idéias principais. O texto integral está disponível na UOL e o acesso pode ser pelo título, aqui mesmo. Mas, se preferir, pode procrastinar e ler aqui antes:

“Estamos em fevereiro e a maioria de nós, se é que nos demos ao trabalho de fazer resoluções de Ano Novo, já as quebramos. Ou talvez tenhamos apenas adiado o começo delas. Talvez estejamos, sim, procrastinando.
Até que eu começasse a pesquisar sobre isso, não tinha percebido que a procrastinação era um campo de estudo tão fértil para tantas pessoas e que havia tantos tipos diferentes de procrastinadores, procrastinando de muitas maneiras distintas.
Nem eu sabia quando dinheiro isso pode nos custar.
Como? Não guardando dinheiro para a aposentadoria, demorando para atender a necessidades médicas até que elas se tornem muito mais sérias, saindo para fazer as compras de Natal no último minuto com cartão de crédito porque não temos tempo para caçar descontos e, como muitos já descobriram, esperando muito tempo para vender uma ação.
.......
"toda procrastinação é um atraso, mas nem todo atraso é uma procrastinação".
"É a diferença entre a tristeza e a depressão"... "A procrastinação é um problema complexo de auto-regulação", com ênfase não apenas no fato de adiar algo, mas num atraso irracional autoderrotista - e acontece em algumas, se não tem todas, áreas da vida de uma pessoa.
"A emoção que está mais associada à procrastinação é a culpa, e está claramente relacionada à redução do bem-estar"...
A procrastinação não é nada novo. Os acadêmicos citam referências de documentos militares antigos de gregos e romanos além de textos religiosos do século 15 que a denunciam como um pecado. Mas com a chegada de toda a nossa tecnologia para a distração, incluindo e-mail, telefone celular e sites de redes sociais, ficou cada vez mais fácil passar horas incontáveis evitando fazer aquilo que deveríamos estar fazendo.
Quantas vezes nós já dissemos: "Vou checar o e-mail, vai levar só um minuto", e três horas depois ainda estamos na frente do computador?"... "A tecnologia nos dá recompensas imediatas sem que saiamos de nossas cadeiras. Sabemos que 50% do tempo que as pessoas estão online, elas estão procrastinando".
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Joseph R. Ferrari, professor de psicologia da Universidade DePaul, dividiu os procrastinadores em três categorias gerais e entrelaçadas - excitação, evitação e decisional. Os tipos excitados são viciados em emoções que dizem que precisam da descarga de adrenalina que vem com o fato de esperar até o último minuto. Os procrastinadores da evitação deixam de lado tarefas difíceis e chatas para evitar serem vistos como fracassados. Então eles podem dizer que não tiveram tempo suficiente em vez de dizer que não tinham capacidade. E os procrastinadores decisionais são cronicamente indecisos em todas as áreas de suas vidas.
....
Mas a procrastinação crônica pode ser um sintoma de um problema bem mais profundo, que não responde a "apenas ajustar uma variável"...
"Ela pode ser um sintoma de que a pessoa está vivendo uma vida sem autenticidade",
"A pessoa deveria olhar para os objetivos de sua vida e se perguntar:
“É isso o que eu quero fazer?'"
O interessante a respeito da procrastinação é o quanto já foi escrito e a quantidade de citações expressivas que existem, ao longo dos séculos. Na verdade, eu vou deixar para você um pequeno segredo, a estratégia perfeita para postergar o trabalho naquele projeto. Dê uma olhada em todos os ditados sobre procrastinação e escolha o seu favorito. Mande um e-mail para um amigo ou dois. Espere uma resposta.
O quê? Já é hora do almoço?
"
Tradução: Eloise De Vylder

Crepúsculos no olhar

A PIOR IDADE
"DEVE TER SIDO um demônio zombeteiro disfarçado de anjo que inventou que a velhice é a "melhor idade". Chamar velhice de "melhor idade" só pode ser gozação ou ironia.
O que me faz lembrar o acontecido há muitos anos. Naqueles tempos não havia o orgulho em ser negro. As alusões à cor eram tão proibidas quanto as sugestões sexuais. "Ela está grávida" -ninguém dizia isso, a palavra "grávida" era obscena, chula. Em vez da verdade nua e crua, uma expressão que todo mundo entendia sem que a palavra obscena fosse pronunciada era "Ela está num "estado interessante'"...
Pois uma família protestante se preparava para receber a visita de um conhecido pastor negro. (Um parêntese. Nos Estados Unidos, a palavra "negro" era e é ofensiva. Em vez de "negro" ["nigro"] usa-se "black", "black is beautiful". A palavra "negro" era mais ofensiva ainda na sua forma corrompida "niger".
As crianças eram educadas para o racismo como se fosse a coisa mais natural, e eram ensinadas a cantar numa brincadeira "Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by his toe" -"Agarre o crioulo pelo dedão...").
Acontecia que o tal pastor -isso era bem conhecido de todos- sofria de um humilhante complexo por causa da sua cor. Os hospedeiros ficaram angustiados diante da possibilidade de que sua filha de seis anos -um doce de menina- fizesse inocentemente alguma referência a esse fato. Trataram então de adverti-la: "Não diga jamais que o reverendo Clemente é negro...".
A menina ouviu e aprendeu. O hóspede chegou, tudo estava correndo às mil maravilhas, a menina doce se apaixonou pelo reverendo Clemente e, num momento de carinho, assentada no seu joelho, ela tomou a sua grande mão negra nas suas minúsculas mãos brancas e disse: "Sua mão é branquinha, sua mão é branquinha...".
É precisamente isso que acontece quando os alto-falantes das salas de embarque nos aeroportos anunciam: "Terão prioridade para o embarque gestantes, crianças, pessoas com dificuldade de locomoção e pessoas da melhor idade".
Já reclamei com os funcionários, dizendo-lhes a minha irritação. Eles me disseram que nada podiam fazer porque as ordens vinham de cima. Concluo que "em cima" não há nenhum velho.
O que é melhor? Ser respeitado ou ser desejado?
Velhice é quando a gente começa a ser tratado como "objeto de respeito" e não como "objeto de desejo". Mas o que quero não é ser olhado com respeito, mas com desejo...

Aconteceu faz 25 anos, uma tarde, no metrô, vagão cheio, tudo bem, eu me via jovem, pernas fortes, segurei-me num balaústre. Meus olhos começaram a passear pelo rosto dos passageiros -cada rosto é mais misterioso que um universo- até que meus olhos se encontraram com os olhos de uma jovem que me olhava, eles, os seus olhos, sorriam para mim e eu fantasiei que ela me desejava. Ficamos assim por alguns segundos trocando olhares de namorado até que ela, num gesto delicado, se levantou e me ofereceu o seu lugar... Seu gesto me disse sem palavras: "O senhor é velho. Eu o respeito. Eu lhe dou o meu lugar...". Nesse momento percebi que a minha idade era a pior de todas. A melhor idade era a dela, da mocinha que me deu o lugar...
Sugiro um nome diferente para essa idade, que não é ironia, mas poesia: "Pessoas portadoras de crepúsculos no seu olhar...".

Rubem Alves na FSP

fevereiro 02, 2009

O Oscar vai para....

Faz mais de uma semana que vi o filme. Comentei com alguns amigos, separadamente, que havia sido feito para concorrer a prêmios.E ganhá-los. É daqueles filmes que reunem todos os elementos da fórmula que os velhinhos (sempre penso que são velhinhos) jurados do Oscar adoram. Debite-se a esta opinião uma boa dose de minha incurável (ops!)resistência ao cinema americano. Sobretudo quando leio a propósito, que certos diretores justificam as obviedades que introduzem nos seus trabalhos por terem sido feitos pensando no público americano. Para mim, isto é demais. Fico com as sutilezas do cinema europeu , especialmente os ingleses.
Chegando do cinema (onde entrei meio por acaso) ouvi de minha filha que o filme era indicado para mais de 10 Oscars. Procurei nos contos do Fitzgerald aquele que havia inspirado o filme. Constatei não fazer parte do livro que tenho. Fiquei aliviada. Se fizesse eu havia lido e não me lembrar seria muito grave ( o que passa a a ser objeto de preocupação depois de...uma certa idade!).
Não pretendia comentar o filme. Ia terminar por dizer que algumas cenas podiam ser suprimidas, que o filme continuaria interessante com 30 minutos a menos de duração e o que mais já ouviram os que conversaram comigo depois daquele dia .
Ocorreu-me, o que não é raro, de ler o blog do Daniel Piza, onde encontrei este comentário ao qual não preciso tirar nem por para, como se diz, " assinar em baixo". Apenas os grifos serão meus.
Passagens de Benjamim
É num conto de Scott Fitzgerald que se inspira o ótimo filme O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher. Só que no conto o pai do bebê que nasce velho tenta escondê-lo e o final é muito diferente. No filme, o pai o deixa nos fundos de uma pensão de idosos em Nova Orleans e ele é adotado sem conflitos por uma mulher negra. Mais tarde, enquanto rejuvenesce, Benjamin (Brad Pitt) conhece Daisy (Cate Blanchett), que será o amor de sua vida e estará com ele ao fim. Como em Fitzgerald, a história corre como se fosse realista, capaz de nos envolver e comover mesmo quando inverossímil, e não como uma fábula ou alegoria – e essa linha narrativa é mantida com muita habilidade. Isso, sim, é adaptar literatura, em vez de parasitá-la.
O filme tem todos os itens de supercandidato ao Oscar. A produção é suntuosa, com bela fotografia, trilha sonora e recriação de épocas; os atores estão muito bem; há momentos líricos e cômicos, guerras e acidentes, além dos acréscimos demagógicos (como as reaparições do beija-flor). O recado do filme não é nada mais que aproveite a vida em suas distintas fases em vez de esperar que ela passe”. Mas o que nos prende por quase três horas? Não é só esse capricho todo, o desenrolar do enredo ou a beleza dos atores e das paisagens postais – Brad Pitt como um modelo de grife em um veleiro ao pôr-do-sol. Acho que é justamente a delicadeza com que tudo é tratado; Benjamin e sua mãe adotiva não sofrem por antecipação, anseiam pelo próximo passo mas não se alienam a ele. Não importa a ordem dos fatos, a vida é sempre imprevisível.“
 

XIN NIAN HAO 2009 !!!

2009 é o Ano do Búfalo ou Niu Nian — o 4706 do calendário chinês que começou no dia 27 de janeiro de 2009. Os "parisienses" comemoraram uma semana depois, por razões puramente comerciais da comunidade chinesa.

Mais imagens da comemoração da entrada do Ano Novo Chines em Paris, clicando o título para acesso ao blog da moniquetdany, que editaram um filme lindo!

O LEITOR

Ano passado, era 22 de fevereiro, quando postei sob o título Le Liseur (para quem se interessar o marcador é literatura ou cinema) um comentário sobre o romance do autor alemão BERNHARD SCHLINK e a perspectiva de que viesse a ser adaptado para o cinema. Cogitava-se, na época, da Nicole Kidman para o papel que acabou destinado (felizmente!) à Kate Winslet. O filme já está para estrear e o livro foi traduzido. O trailer:

Johanna Sigurdardottir

Semana passada mostrei, com foto e tudo o mais, a mais linda premier do mundo que é a da Ucrânia.
Enquanto isto, na Islandia, um dos países mais afetados pela crise econômica global, foi confirmada ontem Johanna Sigurdardottir como a nova primeira-ministra. Ela que havia sido ministra do Bem-Estar Social por oito anos, é uma ex-aeromoça e sindicalista, de 66 anos, a primeira líder assumidamente homossexual do mundo - é casada com a jornalista e escritora Jonina Leosdottir, desde 2002.
O cenário político da Islândia tem estado conturbado desde que o país foi duramente atingido pela crise financira internacional, com o colapso de seu mercado de ações e de grandes bancos locais.

Falando com o motorista

"UM TURISTA, ao realizar viagem de ônibus pela Europa e pelo Oriente Médio, observou quatro advertências diferentes na porta que separa os passageiros do motorista em quatro países distintos.
Estas foram as recomendações:
Portugal - é proibido falar com o motorista;
França - quem falar com o motorista será multado;
Rússia - quem falar com o motorista irá se justificar em uma delegacia;
Líbano - o que você ganha falando com o motorista?
Esta é a razão pela qual eu me pergunto: o que eu ganho comentando a saída de John Neschling da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp)?"
.

Este é um trecho do que escreveu o pianista João Carlos Martins ao expressar sua opinião na FSP. Sem ganhar nada, registro as diferenças culturais apontadas por achá-las curiosas. Só isto.

G a t o s

"Na semana passada, sem medir as consequências da cobertura, os jornais se atiraram com unhas e dentes à história do gato Billy, que recebeu R$ 20 por mês do Bolsa Família, em Mato Grosso do Sul, durante cinco meses. Resultou que Billy teve o seu bom nome manchado pela história, porque houve quem o imaginasse cúmplice do malandro que se dizia seu dono, o qual embolsou R$ 100 e nem usou parte do dinheiro para lhe comprar um grão de ração.
Não que Billy topasse se locupletar. Os gatos são caçadores, não precisam do Bolsa Família. São também altivos e independentes, dispensam esmolas suspeitas. Um gato nascido e criado em apartamento, se solto de repente na rua, encontrará o que matar para comer, nos parques ou nos quintais. Jamais irá mendigar comida na porta dos fundos dos restaurantes.
E precisamos parar com essa história de chamar de "gato" as ligações clandestinas. O nome certo é "gatilho" -"gato" é uma corruptela que leva a confusões perigosas, como, há anos, um infeliz comercial de TV que mostrava uma caçada a gatos de morro por linchadores equipados com cães.
Não também que os gatos estejam aflitos com isso. Eles são valentes, sabem se defender e, em situações de risco, recuperam de estalo a cultura de seus ancestrais selvagens. Aliás, o gato não deixou de ser selvagem. Aconteceu apenas que, como o neourbanoide que se tornou, ele desenvolveu uma nova e deliciosa identidade doméstica.
Alguém me perguntou -já que acho o gato tão esperto e safo- por que ele não consegue descer da árvore e tem de chamar o bombeiro. "Mas espere aí, não é o gato que chama o bombeiro", argumentei. É o dono dele, que fica afobado à toa e não vê que o gato só não desceu da árvore porque ainda não achou que fosse hora."


Ruy Castro (na FSP)

A estética do frio

A Sutil, companhia de teatro de Curitiba que tem a cara da cidade (em suas peças sempre parece estar chovendo) está fazendo 15 anos. Com o "vento cortante que sopra dos escritos” de Arthur Miller, Will Eno, Dalton Trevisan, Will Eisner e seus personagens urbanos melancólicos e soltários, celebra a " estética do frio". Durante dois meses, serão apresentadas "Avenida Dropsie"(inspirada nos quadrinhos de Eisner e seus urbanóides tristonhos), "Não sobre o Amor" (em que o grupo funde teatro, cinema e artes plásticas) e "Thom Pain -Lady Grey" (vista no festival de Curitiba).
A próxima a experimentar o inverno da Sutil será Fernanda Montenegro, em monólogo inspirado nas cartas de Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre que estreia entre março e abril. Nada disso acontece em Curitiba. Por que será?
Na foto - da FSP, Felipe Hirsch, Erica Migon e Guilherme Weber no cenário de "Avenida Dropsie". Um belo espetáculo!

fevereiro 01, 2009

D O I S em U M



Sem preconceitos

Roy e Silo, dois pingüins nativos da Antártida, se encontraram num tanque do zoológico Central Park, em Nova York. Tão logo se viram, começaram a se exibir um para o outro. Primeiro se empoleiraram numas pedras, de onde mergulhavam na água. Depois se aproximaram, enroscaram os pescoços, emitiram grunhidos e acasalaram. Por fim, construíram um ninho e, juntos, esperaram pelo ovo que nunca viria: afinal, ambos são machos.
O zelador do zoológico assistiu a tudo com curiosidade e resolveu colaborar roubando um ovo de um casal de pingüins heterossexual, que não estava conseguindo chocá-lo, e o colocou no ninho de Roy e Silo. Eles se alternaram na tarefa de aquecer a futura cria debaixo de seus ventres gordos, até que depois de 34 dias, o filhote rompeu a casca e enxergou pela primeira vez o mundo. Era uma fêmea cinza e penugenta, que recebeu aconchego e alimento com a mesma dedicação observada em duplas formadas por machos e fêmeas.
Os pesquisadores estão descobrindo que este tipo de casal, constituído por indivíduos do mesmo sexo, é surpreendentemente comum no reino animal. Roy e Silo pertencem a uma das cerca de 1.500 espécies de animais já observadas, em que há evidências de homossexualidade, seja no ambiente selvagem, seja em cativeiro. Alguns estudos indicam ainda que essas relações podem acontecer tanto entre machos, como entre fêmeas, jovens e idosos, espécies de hábitos solitários ou sociais, e em todos os níveis da escala evolutiva animal: de insetos a mamíferos.
.......

Esta é a reportagem da MENTE & CÉREBRO (jan/2009).
Para ler a continuação clique no título.

Pausa para um cafezinho

janeiro 31, 2009

Revolutionary Road



Não faça descabidas comparações com Beleza Americana e esqueça o par romântico do Titanic. Foi apenas um sonho é outro filme.
Preste atenção nos diálogos iniciais que, de um certo modo, já definem a trama. Na década de 50, jovens interessantes se conhecem e se apaixonam, na mesma noite . Na cena seguinte já formam um casal que mora num subúrbio de Connecticut (arredores de NY). O título em inglês diz respeito ao nome da rua onde moram e a tensão se dá exatamente pela distância entre a "via da revolução" e o cotidiano pequeno-burguês de quem vive ali. O marido viaja de trem todas as manhãs, para trabalhar em um escritório em Manhattan, enquanto ela é a típica “rainha do lar" .
E é para fugir desse "vazio sem esperança " que ela o convence a sair dali, buscar seus sonhos. No caso dele, descobrir o que gostaria de ser ou de fazer. Decidem se mudar para Paris, onde ela trabalharia como secretária e ele ficaria livre para estudar, viver e descobrir algo que o agrade verdadeiramente. Estão convencidos de que a vida pode ter mais sentido e ser menos limitada.
Curioso detalhe do enredo é ser o personagem que tem sérios problemas psiquiátricos o único a, não só ver com naturalidade, mas vibrar com o sonho do casal, entender suas buscas e necessidades, diferentemente dos demais conservadores e acomodados amigos/vizinhos. A desilusão que os domina não pode ser atribuída nem a uma determinada geração nem reduzida a algo particular que ocorre a quem se aproximou pelos motivos certos e se manteve junto pelos errados. O sonho que se corrói e desgasta é algo atemporal e universal. Disto ninguém se safa, nem no filme nem na vida, alguns apenas não tem consciência...
Como não é raro acontecer, mudaram o título para "Foi Apenas um Sonho". Se por um lado poupa o espectador do mínimo esforço intectual, caso não compreenda o sentido da história, por outro se perde a ironia do original "Revolutionary Road".
Fazer o que? A cena final é sensacional!

V ó r t i c e s



Recebi este filme com um texto que trazia uma séria prescrição:“para ser lido antes de ver o filme.” Minha veia transgressora, embora há muito inativa, não está morta. Vi antes o filme, enquanto imaginava qual explicação científica, (claro!), estariam dando para aquela tarefa em que se empenhavam os golfinhos. Construir anéis prateados de ar, lindos, sem a menor utilidade, nem para eles próprios, nem para a sua espécie, nem para a humanidade.Para ninguém e para nada! Só para brincar? Adorei!
Como supus, no texto vinha algo sério: “Uma provável explicação de como eles fazem estes anéis prateados de ar é que estes são vórtices. Invisíveis vórtices giratórios são gerados a partir das costas do golfinho quando ele se move rapidamente e em seguida se volta. Quando os golfinhos partem a linha, as pontas são atraídas para um anel fechado; o fluido de alta velocidade à volta do centro do vórtice está a uma pressão mais baixa do que o fluido que circula mais distante. É injetado ar nos anéis através das bolhas que são liberadas pelo orifício por onde o golfinho expele o ar. A energia do vórtice de água é suficiente para evitar que as bolhas subam, durante os segundos que duram as brincadeiras.”
Ninguém precisa saber disto. Ou precisa?

JOHN UPDIKE


TERRORISTA é o livro mais vendido de John Updike. Foi escrito depois do 11 de setembro. É a história de um adolescente de origem árabe que vive entre dois mundos: a pequena burguesia americana e o Oriente Médio que ele não conhece mas o fascina. Filho de um intercambista egípcio e de uma americana de origem irlandesa que o criou sozinha após ser abandonada pelo marido, o jovem constrói para si próprio uma identidade islâmica, manipulado pelo imã da mesquita que frequenta.
Até onde cheguei o autor faz a análise psicológica dos EUA atual, das questões de segurança que os levam a recrutar funcionários entre as minorias étnicas, o que despertaria " o gigante adormecido do racismo, agora que os afro-americanos e hispânicos ganharam a autoridade de revistar, interrogar, conceder ou negar o direito de entrar num prédio ou embarcar num avião". São aspectos relevantes que o autor conhece e desenvolve muito bem. É inevitável atualizar-se suas reflexões acrescentando a elas o dado novo: a eleição do Obama.
Ainda estou pela metade do livro...
Na TV Estadão o crítico literário do Caderno 2 fala sobre o escritor (falecido esta semana) e sua obra. Um vídeo a que se acessa clicando o título desta postagem. Bem interessante!

A sombra de Vinicius


"Diminutivos servem para identificar, como se sabe, coisas de pequeno porte ou, por extensão, coisas pelas quais temos carinho. Em certo sentido, as duas formas se conjugam no equívoco que fez com que Vinicius de Moraes passasse à história da literatura brasileira como "poetinha". Quase como a dizer: gostamos muito dele, de seus versos sobre o amor e a paixão - mas poetas sérios, "poetões" mesmo, são os outros. Para certa crítica acadêmica, o existencialismo prosaico de Carlos Drummond de Andrade, o lirismo de Manuel Bandeira e os versos duros da poesia engajada de João Cabral de Melo Neto encerram tudo o que de melhor e mais diverso o modernismo poderia produzir. A verdade, contudo, é que o cânone modernista não tinha como enquadrar a poesia de Vinicius, construída numa trajetória absolutamente singular, que foi das formas mais tradicionais da poesia ao trabalho como letrista da bossa nova". (BRAVO! de janeiro - clic no título).
Na mesma edição José Castelo escreve Uma Alma Duplicada:
"Oscilando entre o prazer e o desamparo, Vinicius viveu os seus nove casamentos como um “escravo da paixão”, para quem o amor, mais que alegria, era fardo
Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, foi também o poeta do desespero. Sob a máscara do artista feliz, em eterno galanteio com a vida, escondeu-se, durante 67 anos, um homem atormentado, para quem o amor foi não só alegria, mas fardo, e a vida, uma sucessão de decepções.
........"
Todo mundo gosta do " poetinha" e de uma certa maneira, pensava conhecer a sua alma!