fevereiro 03, 2009

Procrastinação: leia isso hoje, ou, se preferir, amanhã

Procrastinar, postergar decisões, adiar mudanças é tudo quanto venho fazendo... Cheguei a comentar algumas em seguida recuei a fim de poder postergar em sossego. E sem culpa Porque culpa não é a minha praia. No ítem autocondescendência me saio melhor ...(se eu não for condescente comigo mesma quem vai ser? Então eu sou. Pronto.)
Não à toa, fui atraída pelo “....leia isso, ou, se preferir amanhã”. Uma adaptação livre da simpática frase: não faça hoje o que pode ser feito amanhã.
Trata-se de um artigo no The New York Times de hoje, assinado por Alina Tugend de onde pinço as idéias principais. O texto integral está disponível na UOL e o acesso pode ser pelo título, aqui mesmo. Mas, se preferir, pode procrastinar e ler aqui antes:

“Estamos em fevereiro e a maioria de nós, se é que nos demos ao trabalho de fazer resoluções de Ano Novo, já as quebramos. Ou talvez tenhamos apenas adiado o começo delas. Talvez estejamos, sim, procrastinando.
Até que eu começasse a pesquisar sobre isso, não tinha percebido que a procrastinação era um campo de estudo tão fértil para tantas pessoas e que havia tantos tipos diferentes de procrastinadores, procrastinando de muitas maneiras distintas.
Nem eu sabia quando dinheiro isso pode nos custar.
Como? Não guardando dinheiro para a aposentadoria, demorando para atender a necessidades médicas até que elas se tornem muito mais sérias, saindo para fazer as compras de Natal no último minuto com cartão de crédito porque não temos tempo para caçar descontos e, como muitos já descobriram, esperando muito tempo para vender uma ação.
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"toda procrastinação é um atraso, mas nem todo atraso é uma procrastinação".
"É a diferença entre a tristeza e a depressão"... "A procrastinação é um problema complexo de auto-regulação", com ênfase não apenas no fato de adiar algo, mas num atraso irracional autoderrotista - e acontece em algumas, se não tem todas, áreas da vida de uma pessoa.
"A emoção que está mais associada à procrastinação é a culpa, e está claramente relacionada à redução do bem-estar"...
A procrastinação não é nada novo. Os acadêmicos citam referências de documentos militares antigos de gregos e romanos além de textos religiosos do século 15 que a denunciam como um pecado. Mas com a chegada de toda a nossa tecnologia para a distração, incluindo e-mail, telefone celular e sites de redes sociais, ficou cada vez mais fácil passar horas incontáveis evitando fazer aquilo que deveríamos estar fazendo.
Quantas vezes nós já dissemos: "Vou checar o e-mail, vai levar só um minuto", e três horas depois ainda estamos na frente do computador?"... "A tecnologia nos dá recompensas imediatas sem que saiamos de nossas cadeiras. Sabemos que 50% do tempo que as pessoas estão online, elas estão procrastinando".
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Joseph R. Ferrari, professor de psicologia da Universidade DePaul, dividiu os procrastinadores em três categorias gerais e entrelaçadas - excitação, evitação e decisional. Os tipos excitados são viciados em emoções que dizem que precisam da descarga de adrenalina que vem com o fato de esperar até o último minuto. Os procrastinadores da evitação deixam de lado tarefas difíceis e chatas para evitar serem vistos como fracassados. Então eles podem dizer que não tiveram tempo suficiente em vez de dizer que não tinham capacidade. E os procrastinadores decisionais são cronicamente indecisos em todas as áreas de suas vidas.
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Mas a procrastinação crônica pode ser um sintoma de um problema bem mais profundo, que não responde a "apenas ajustar uma variável"...
"Ela pode ser um sintoma de que a pessoa está vivendo uma vida sem autenticidade",
"A pessoa deveria olhar para os objetivos de sua vida e se perguntar:
“É isso o que eu quero fazer?'"
O interessante a respeito da procrastinação é o quanto já foi escrito e a quantidade de citações expressivas que existem, ao longo dos séculos. Na verdade, eu vou deixar para você um pequeno segredo, a estratégia perfeita para postergar o trabalho naquele projeto. Dê uma olhada em todos os ditados sobre procrastinação e escolha o seu favorito. Mande um e-mail para um amigo ou dois. Espere uma resposta.
O quê? Já é hora do almoço?
"
Tradução: Eloise De Vylder

Crepúsculos no olhar

A PIOR IDADE
"DEVE TER SIDO um demônio zombeteiro disfarçado de anjo que inventou que a velhice é a "melhor idade". Chamar velhice de "melhor idade" só pode ser gozação ou ironia.
O que me faz lembrar o acontecido há muitos anos. Naqueles tempos não havia o orgulho em ser negro. As alusões à cor eram tão proibidas quanto as sugestões sexuais. "Ela está grávida" -ninguém dizia isso, a palavra "grávida" era obscena, chula. Em vez da verdade nua e crua, uma expressão que todo mundo entendia sem que a palavra obscena fosse pronunciada era "Ela está num "estado interessante'"...
Pois uma família protestante se preparava para receber a visita de um conhecido pastor negro. (Um parêntese. Nos Estados Unidos, a palavra "negro" era e é ofensiva. Em vez de "negro" ["nigro"] usa-se "black", "black is beautiful". A palavra "negro" era mais ofensiva ainda na sua forma corrompida "niger".
As crianças eram educadas para o racismo como se fosse a coisa mais natural, e eram ensinadas a cantar numa brincadeira "Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by his toe" -"Agarre o crioulo pelo dedão...").
Acontecia que o tal pastor -isso era bem conhecido de todos- sofria de um humilhante complexo por causa da sua cor. Os hospedeiros ficaram angustiados diante da possibilidade de que sua filha de seis anos -um doce de menina- fizesse inocentemente alguma referência a esse fato. Trataram então de adverti-la: "Não diga jamais que o reverendo Clemente é negro...".
A menina ouviu e aprendeu. O hóspede chegou, tudo estava correndo às mil maravilhas, a menina doce se apaixonou pelo reverendo Clemente e, num momento de carinho, assentada no seu joelho, ela tomou a sua grande mão negra nas suas minúsculas mãos brancas e disse: "Sua mão é branquinha, sua mão é branquinha...".
É precisamente isso que acontece quando os alto-falantes das salas de embarque nos aeroportos anunciam: "Terão prioridade para o embarque gestantes, crianças, pessoas com dificuldade de locomoção e pessoas da melhor idade".
Já reclamei com os funcionários, dizendo-lhes a minha irritação. Eles me disseram que nada podiam fazer porque as ordens vinham de cima. Concluo que "em cima" não há nenhum velho.
O que é melhor? Ser respeitado ou ser desejado?
Velhice é quando a gente começa a ser tratado como "objeto de respeito" e não como "objeto de desejo". Mas o que quero não é ser olhado com respeito, mas com desejo...

Aconteceu faz 25 anos, uma tarde, no metrô, vagão cheio, tudo bem, eu me via jovem, pernas fortes, segurei-me num balaústre. Meus olhos começaram a passear pelo rosto dos passageiros -cada rosto é mais misterioso que um universo- até que meus olhos se encontraram com os olhos de uma jovem que me olhava, eles, os seus olhos, sorriam para mim e eu fantasiei que ela me desejava. Ficamos assim por alguns segundos trocando olhares de namorado até que ela, num gesto delicado, se levantou e me ofereceu o seu lugar... Seu gesto me disse sem palavras: "O senhor é velho. Eu o respeito. Eu lhe dou o meu lugar...". Nesse momento percebi que a minha idade era a pior de todas. A melhor idade era a dela, da mocinha que me deu o lugar...
Sugiro um nome diferente para essa idade, que não é ironia, mas poesia: "Pessoas portadoras de crepúsculos no seu olhar...".

Rubem Alves na FSP

fevereiro 02, 2009

O Oscar vai para....

Faz mais de uma semana que vi o filme. Comentei com alguns amigos, separadamente, que havia sido feito para concorrer a prêmios.E ganhá-los. É daqueles filmes que reunem todos os elementos da fórmula que os velhinhos (sempre penso que são velhinhos) jurados do Oscar adoram. Debite-se a esta opinião uma boa dose de minha incurável (ops!)resistência ao cinema americano. Sobretudo quando leio a propósito, que certos diretores justificam as obviedades que introduzem nos seus trabalhos por terem sido feitos pensando no público americano. Para mim, isto é demais. Fico com as sutilezas do cinema europeu , especialmente os ingleses.
Chegando do cinema (onde entrei meio por acaso) ouvi de minha filha que o filme era indicado para mais de 10 Oscars. Procurei nos contos do Fitzgerald aquele que havia inspirado o filme. Constatei não fazer parte do livro que tenho. Fiquei aliviada. Se fizesse eu havia lido e não me lembrar seria muito grave ( o que passa a a ser objeto de preocupação depois de...uma certa idade!).
Não pretendia comentar o filme. Ia terminar por dizer que algumas cenas podiam ser suprimidas, que o filme continuaria interessante com 30 minutos a menos de duração e o que mais já ouviram os que conversaram comigo depois daquele dia .
Ocorreu-me, o que não é raro, de ler o blog do Daniel Piza, onde encontrei este comentário ao qual não preciso tirar nem por para, como se diz, " assinar em baixo". Apenas os grifos serão meus.
Passagens de Benjamim
É num conto de Scott Fitzgerald que se inspira o ótimo filme O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher. Só que no conto o pai do bebê que nasce velho tenta escondê-lo e o final é muito diferente. No filme, o pai o deixa nos fundos de uma pensão de idosos em Nova Orleans e ele é adotado sem conflitos por uma mulher negra. Mais tarde, enquanto rejuvenesce, Benjamin (Brad Pitt) conhece Daisy (Cate Blanchett), que será o amor de sua vida e estará com ele ao fim. Como em Fitzgerald, a história corre como se fosse realista, capaz de nos envolver e comover mesmo quando inverossímil, e não como uma fábula ou alegoria – e essa linha narrativa é mantida com muita habilidade. Isso, sim, é adaptar literatura, em vez de parasitá-la.
O filme tem todos os itens de supercandidato ao Oscar. A produção é suntuosa, com bela fotografia, trilha sonora e recriação de épocas; os atores estão muito bem; há momentos líricos e cômicos, guerras e acidentes, além dos acréscimos demagógicos (como as reaparições do beija-flor). O recado do filme não é nada mais que aproveite a vida em suas distintas fases em vez de esperar que ela passe”. Mas o que nos prende por quase três horas? Não é só esse capricho todo, o desenrolar do enredo ou a beleza dos atores e das paisagens postais – Brad Pitt como um modelo de grife em um veleiro ao pôr-do-sol. Acho que é justamente a delicadeza com que tudo é tratado; Benjamin e sua mãe adotiva não sofrem por antecipação, anseiam pelo próximo passo mas não se alienam a ele. Não importa a ordem dos fatos, a vida é sempre imprevisível.“
 

XIN NIAN HAO 2009 !!!

2009 é o Ano do Búfalo ou Niu Nian — o 4706 do calendário chinês que começou no dia 27 de janeiro de 2009. Os "parisienses" comemoraram uma semana depois, por razões puramente comerciais da comunidade chinesa.

Mais imagens da comemoração da entrada do Ano Novo Chines em Paris, clicando o título para acesso ao blog da moniquetdany, que editaram um filme lindo!

O LEITOR

Ano passado, era 22 de fevereiro, quando postei sob o título Le Liseur (para quem se interessar o marcador é literatura ou cinema) um comentário sobre o romance do autor alemão BERNHARD SCHLINK e a perspectiva de que viesse a ser adaptado para o cinema. Cogitava-se, na época, da Nicole Kidman para o papel que acabou destinado (felizmente!) à Kate Winslet. O filme já está para estrear e o livro foi traduzido. O trailer:

Johanna Sigurdardottir

Semana passada mostrei, com foto e tudo o mais, a mais linda premier do mundo que é a da Ucrânia.
Enquanto isto, na Islandia, um dos países mais afetados pela crise econômica global, foi confirmada ontem Johanna Sigurdardottir como a nova primeira-ministra. Ela que havia sido ministra do Bem-Estar Social por oito anos, é uma ex-aeromoça e sindicalista, de 66 anos, a primeira líder assumidamente homossexual do mundo - é casada com a jornalista e escritora Jonina Leosdottir, desde 2002.
O cenário político da Islândia tem estado conturbado desde que o país foi duramente atingido pela crise financira internacional, com o colapso de seu mercado de ações e de grandes bancos locais.

Falando com o motorista

"UM TURISTA, ao realizar viagem de ônibus pela Europa e pelo Oriente Médio, observou quatro advertências diferentes na porta que separa os passageiros do motorista em quatro países distintos.
Estas foram as recomendações:
Portugal - é proibido falar com o motorista;
França - quem falar com o motorista será multado;
Rússia - quem falar com o motorista irá se justificar em uma delegacia;
Líbano - o que você ganha falando com o motorista?
Esta é a razão pela qual eu me pergunto: o que eu ganho comentando a saída de John Neschling da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp)?"
.

Este é um trecho do que escreveu o pianista João Carlos Martins ao expressar sua opinião na FSP. Sem ganhar nada, registro as diferenças culturais apontadas por achá-las curiosas. Só isto.

G a t o s

"Na semana passada, sem medir as consequências da cobertura, os jornais se atiraram com unhas e dentes à história do gato Billy, que recebeu R$ 20 por mês do Bolsa Família, em Mato Grosso do Sul, durante cinco meses. Resultou que Billy teve o seu bom nome manchado pela história, porque houve quem o imaginasse cúmplice do malandro que se dizia seu dono, o qual embolsou R$ 100 e nem usou parte do dinheiro para lhe comprar um grão de ração.
Não que Billy topasse se locupletar. Os gatos são caçadores, não precisam do Bolsa Família. São também altivos e independentes, dispensam esmolas suspeitas. Um gato nascido e criado em apartamento, se solto de repente na rua, encontrará o que matar para comer, nos parques ou nos quintais. Jamais irá mendigar comida na porta dos fundos dos restaurantes.
E precisamos parar com essa história de chamar de "gato" as ligações clandestinas. O nome certo é "gatilho" -"gato" é uma corruptela que leva a confusões perigosas, como, há anos, um infeliz comercial de TV que mostrava uma caçada a gatos de morro por linchadores equipados com cães.
Não também que os gatos estejam aflitos com isso. Eles são valentes, sabem se defender e, em situações de risco, recuperam de estalo a cultura de seus ancestrais selvagens. Aliás, o gato não deixou de ser selvagem. Aconteceu apenas que, como o neourbanoide que se tornou, ele desenvolveu uma nova e deliciosa identidade doméstica.
Alguém me perguntou -já que acho o gato tão esperto e safo- por que ele não consegue descer da árvore e tem de chamar o bombeiro. "Mas espere aí, não é o gato que chama o bombeiro", argumentei. É o dono dele, que fica afobado à toa e não vê que o gato só não desceu da árvore porque ainda não achou que fosse hora."


Ruy Castro (na FSP)

A estética do frio

A Sutil, companhia de teatro de Curitiba que tem a cara da cidade (em suas peças sempre parece estar chovendo) está fazendo 15 anos. Com o "vento cortante que sopra dos escritos” de Arthur Miller, Will Eno, Dalton Trevisan, Will Eisner e seus personagens urbanos melancólicos e soltários, celebra a " estética do frio". Durante dois meses, serão apresentadas "Avenida Dropsie"(inspirada nos quadrinhos de Eisner e seus urbanóides tristonhos), "Não sobre o Amor" (em que o grupo funde teatro, cinema e artes plásticas) e "Thom Pain -Lady Grey" (vista no festival de Curitiba).
A próxima a experimentar o inverno da Sutil será Fernanda Montenegro, em monólogo inspirado nas cartas de Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre que estreia entre março e abril. Nada disso acontece em Curitiba. Por que será?
Na foto - da FSP, Felipe Hirsch, Erica Migon e Guilherme Weber no cenário de "Avenida Dropsie". Um belo espetáculo!

fevereiro 01, 2009

D O I S em U M



Sem preconceitos

Roy e Silo, dois pingüins nativos da Antártida, se encontraram num tanque do zoológico Central Park, em Nova York. Tão logo se viram, começaram a se exibir um para o outro. Primeiro se empoleiraram numas pedras, de onde mergulhavam na água. Depois se aproximaram, enroscaram os pescoços, emitiram grunhidos e acasalaram. Por fim, construíram um ninho e, juntos, esperaram pelo ovo que nunca viria: afinal, ambos são machos.
O zelador do zoológico assistiu a tudo com curiosidade e resolveu colaborar roubando um ovo de um casal de pingüins heterossexual, que não estava conseguindo chocá-lo, e o colocou no ninho de Roy e Silo. Eles se alternaram na tarefa de aquecer a futura cria debaixo de seus ventres gordos, até que depois de 34 dias, o filhote rompeu a casca e enxergou pela primeira vez o mundo. Era uma fêmea cinza e penugenta, que recebeu aconchego e alimento com a mesma dedicação observada em duplas formadas por machos e fêmeas.
Os pesquisadores estão descobrindo que este tipo de casal, constituído por indivíduos do mesmo sexo, é surpreendentemente comum no reino animal. Roy e Silo pertencem a uma das cerca de 1.500 espécies de animais já observadas, em que há evidências de homossexualidade, seja no ambiente selvagem, seja em cativeiro. Alguns estudos indicam ainda que essas relações podem acontecer tanto entre machos, como entre fêmeas, jovens e idosos, espécies de hábitos solitários ou sociais, e em todos os níveis da escala evolutiva animal: de insetos a mamíferos.
.......

Esta é a reportagem da MENTE & CÉREBRO (jan/2009).
Para ler a continuação clique no título.

Pausa para um cafezinho

janeiro 31, 2009

Revolutionary Road



Não faça descabidas comparações com Beleza Americana e esqueça o par romântico do Titanic. Foi apenas um sonho é outro filme.
Preste atenção nos diálogos iniciais que, de um certo modo, já definem a trama. Na década de 50, jovens interessantes se conhecem e se apaixonam, na mesma noite . Na cena seguinte já formam um casal que mora num subúrbio de Connecticut (arredores de NY). O título em inglês diz respeito ao nome da rua onde moram e a tensão se dá exatamente pela distância entre a "via da revolução" e o cotidiano pequeno-burguês de quem vive ali. O marido viaja de trem todas as manhãs, para trabalhar em um escritório em Manhattan, enquanto ela é a típica “rainha do lar" .
E é para fugir desse "vazio sem esperança " que ela o convence a sair dali, buscar seus sonhos. No caso dele, descobrir o que gostaria de ser ou de fazer. Decidem se mudar para Paris, onde ela trabalharia como secretária e ele ficaria livre para estudar, viver e descobrir algo que o agrade verdadeiramente. Estão convencidos de que a vida pode ter mais sentido e ser menos limitada.
Curioso detalhe do enredo é ser o personagem que tem sérios problemas psiquiátricos o único a, não só ver com naturalidade, mas vibrar com o sonho do casal, entender suas buscas e necessidades, diferentemente dos demais conservadores e acomodados amigos/vizinhos. A desilusão que os domina não pode ser atribuída nem a uma determinada geração nem reduzida a algo particular que ocorre a quem se aproximou pelos motivos certos e se manteve junto pelos errados. O sonho que se corrói e desgasta é algo atemporal e universal. Disto ninguém se safa, nem no filme nem na vida, alguns apenas não tem consciência...
Como não é raro acontecer, mudaram o título para "Foi Apenas um Sonho". Se por um lado poupa o espectador do mínimo esforço intectual, caso não compreenda o sentido da história, por outro se perde a ironia do original "Revolutionary Road".
Fazer o que? A cena final é sensacional!

V ó r t i c e s



Recebi este filme com um texto que trazia uma séria prescrição:“para ser lido antes de ver o filme.” Minha veia transgressora, embora há muito inativa, não está morta. Vi antes o filme, enquanto imaginava qual explicação científica, (claro!), estariam dando para aquela tarefa em que se empenhavam os golfinhos. Construir anéis prateados de ar, lindos, sem a menor utilidade, nem para eles próprios, nem para a sua espécie, nem para a humanidade.Para ninguém e para nada! Só para brincar? Adorei!
Como supus, no texto vinha algo sério: “Uma provável explicação de como eles fazem estes anéis prateados de ar é que estes são vórtices. Invisíveis vórtices giratórios são gerados a partir das costas do golfinho quando ele se move rapidamente e em seguida se volta. Quando os golfinhos partem a linha, as pontas são atraídas para um anel fechado; o fluido de alta velocidade à volta do centro do vórtice está a uma pressão mais baixa do que o fluido que circula mais distante. É injetado ar nos anéis através das bolhas que são liberadas pelo orifício por onde o golfinho expele o ar. A energia do vórtice de água é suficiente para evitar que as bolhas subam, durante os segundos que duram as brincadeiras.”
Ninguém precisa saber disto. Ou precisa?

JOHN UPDIKE


TERRORISTA é o livro mais vendido de John Updike. Foi escrito depois do 11 de setembro. É a história de um adolescente de origem árabe que vive entre dois mundos: a pequena burguesia americana e o Oriente Médio que ele não conhece mas o fascina. Filho de um intercambista egípcio e de uma americana de origem irlandesa que o criou sozinha após ser abandonada pelo marido, o jovem constrói para si próprio uma identidade islâmica, manipulado pelo imã da mesquita que frequenta.
Até onde cheguei o autor faz a análise psicológica dos EUA atual, das questões de segurança que os levam a recrutar funcionários entre as minorias étnicas, o que despertaria " o gigante adormecido do racismo, agora que os afro-americanos e hispânicos ganharam a autoridade de revistar, interrogar, conceder ou negar o direito de entrar num prédio ou embarcar num avião". São aspectos relevantes que o autor conhece e desenvolve muito bem. É inevitável atualizar-se suas reflexões acrescentando a elas o dado novo: a eleição do Obama.
Ainda estou pela metade do livro...
Na TV Estadão o crítico literário do Caderno 2 fala sobre o escritor (falecido esta semana) e sua obra. Um vídeo a que se acessa clicando o título desta postagem. Bem interessante!

A sombra de Vinicius


"Diminutivos servem para identificar, como se sabe, coisas de pequeno porte ou, por extensão, coisas pelas quais temos carinho. Em certo sentido, as duas formas se conjugam no equívoco que fez com que Vinicius de Moraes passasse à história da literatura brasileira como "poetinha". Quase como a dizer: gostamos muito dele, de seus versos sobre o amor e a paixão - mas poetas sérios, "poetões" mesmo, são os outros. Para certa crítica acadêmica, o existencialismo prosaico de Carlos Drummond de Andrade, o lirismo de Manuel Bandeira e os versos duros da poesia engajada de João Cabral de Melo Neto encerram tudo o que de melhor e mais diverso o modernismo poderia produzir. A verdade, contudo, é que o cânone modernista não tinha como enquadrar a poesia de Vinicius, construída numa trajetória absolutamente singular, que foi das formas mais tradicionais da poesia ao trabalho como letrista da bossa nova". (BRAVO! de janeiro - clic no título).
Na mesma edição José Castelo escreve Uma Alma Duplicada:
"Oscilando entre o prazer e o desamparo, Vinicius viveu os seus nove casamentos como um “escravo da paixão”, para quem o amor, mais que alegria, era fardo
Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, foi também o poeta do desespero. Sob a máscara do artista feliz, em eterno galanteio com a vida, escondeu-se, durante 67 anos, um homem atormentado, para quem o amor foi não só alegria, mas fardo, e a vida, uma sucessão de decepções.
........"
Todo mundo gosta do " poetinha" e de uma certa maneira, pensava conhecer a sua alma!

janeiro 30, 2009

Pas sur la bouche


Pas sur la Bouche” é um musical baseado no libreto de uma opereta que foi sucesso em 1925, de autoria de André Barde, com música de Maurice Yvain, um dos mestres do gênero nas década de 1920 e 1930.
Dirigida por Alain Resnais que de tão fascinado por música sempre dá um jeito de incorporá-la na própria matéria de seus filmes, neste "Beijo na Boca, Não!" (2003) ele retoma esse namoro. Tudo se passa em dois belos cenários, vistosamente decorados. E, como é próprio do gênero, as canções são engraçadas e tem letras de duplo sentido. Resulta numa agradável e elegante comédia musical. O elenco não podia ser melhor!

Geri' s Game

Política e politesse: cotidiano e vida urbana

"A convivialidade na Ágora antiga era presidida por Afrodite, a “deusa dos sorrisos”, com o que os gregos reuniam política e graça. Entre a moral e o direito, as boas maneiras nascem da necessidade de atenção ao Outro e consistem em uma “arte da convivência”.

As maneiras,os modos, a “boa-educação” constituem um Ideal de Ego referido à vida em comum, conformado na palavra politesse. Cortesia, amabilidade, delicadeza e atenção estabeleciam o convívio no espaço que define a coabitação e a cidade. Vida política é vida na polis. Se há a vida rude, o ruralis e a rusticitas, a vida na polis é polida, é civitas e urbanitas. Por isso, a convivialidade na Ágora antiga era presidida por Afrodite, a “deusa dos sorrisos”, com o que os gregos reuniam política e graça. A charis grega é “atratividade e beleza”, “serenidade e reconhecimento”. Daqui derivam “grato” e “ingrato”, a inclinação para “fazer o bem”, de um lado; a designação daquele que “não merece reconhecimento”, de outro."
....
A autora Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo. Acesso ao texto integral clicando no seu título.

janeiro 29, 2009

E S T R É I A

Quem me conhece sabe de minhas limitações (dentre outras) no manuseio de equipamentos, máquinas e aparelhos em geral. Foram-se os filmes de bobina sem que eu aprendesse a colocá-los na máquina. Controles remotos e eu não fomos feitos um para o outro. E as incompatibilidades se estendem aos alarmes, segredos e travas que se incorporaram à nossa vida. De uns tempos para cá, como todo mundo, vivo às voltas com esta parafernália de cabos... Certas operações já se faz sem eles. A estas ainda estou resistindo, mas não vou longe, preciso me garantir. Ainda vibro a cada avanço e descoberta. As coisas nunca me parecem tão óbvias como para quem tem um "chip" que penso faltar na minha cabeça. Ou ela é embotada mesmo.
Esta foi uma primeira (e solitária) tentativa de, juntando audio (Imprevisível - na voz de Mafalda Sacheti) e imagens (Vila do Conde), montar meu primeiro filme. Como se pode ver, ainda tenho muito a aprender...Mas gostei da brincadeira.

As fotos maravilhosas são do Antonio Neves. Umas poucas são minhas. As que não são maravilhosas.

Cheirinho de livro

Há algum tempo anunciam que os livros de papel irão se acabar. Exagero ou catastrofismo, a afirmação ganha mais peso quando parte de uma das maiores livrarias do mundo (Amazon), que está apostando ser uma questão de tempo para que os livros virtuais substituam inteiramente os de papel. Alguns arautos profetizam que os livros “ físicos” , como fazem com os discos de vinil, serão mantidos apenas por um valor emocional.
As próximas gerações irão ler num aparelho do tamanho de um livro pequeno onde serão armazenadas muitas obras ao mesmo tempo. O e-book dispõe de um teclado, possibilitando que se faça anotações como num bloco, ou que se marque alguma página do livro virtual, dentre outras “vantagens” em relação ao papel. As outras seriam: aproximar mais os leitores dos autores e tornar a leitura mais agradável (!?).
Privar o leitor do manuseio do livro, da experiência sensorial de tocá-lo e cheirá-lo, é a principal ressalva que faço à leitura digital. Ler é uma experiência muito diferente de ouvir música. Troquei a fita cassete pelo CD e este por um iPod, mais portátil e capaz de baixar músicas da web, sem problemas. Até filme assisto aqui na telinha. Mas enquanto existir alternativa, darei preferência ao livro tradicional.
Com direito a toque e cheirinho.

janeiro 28, 2009

um mundo de todas as cores

Paz, liberdade, dignidade, justiça, terra. Como os desejos e quereres unem-se numa só frente humana. Um e todos. Todos em um. Um lugar de toda gente.
Índios, negros, brancos, amarelos, azuis, furta-cores. Um balaio que cabe todo o mundo: brasileiros com as batucadas, americanos com bermudas cáqui e camisa estampada, africanos com roupas tipicamente belas e coloridas, palestinos com os característicos keffieh brancos e preto, japoneses com suas máquinas fotográficas…
A cidade das mangueiras assistiu ontem, dia 27 de janeiro, uma mescla de cores, que chuva nenhuma conseguiu desbotar. Mais de 100 mil gostos, sabores, cores, gentes juntaram-se na marcha de abertura da nona edição do Fórum Social Mundial – Belém 2009. Uniram-se em torno de um só querer: um mundo melhor.
Bandeiras, faixas, gritos de guerra, informativos, performances, rezas, cantigas e fantasias retratavam os objetivos e desejos mundiais: paz, liberdade, justiça e ética; igualdade de gêneros . direitos iguais aos gays; libertação do capital e do imperialismo; economia solidária e sustentável; defesa do meio ambiente; garantia dos direitos sociais, culturais, humanos,e conômicos;
Os gritos de protesto, as músicas de alegria e graça, o silêncio. Diferentes formas de expressar uma busca diversa, mas comum aos povos. Mais do que uma dimensão política, o Fórum Social Mundial mostra e grita a humanidade. Humano, por isso político.

Carolina Gutierrez no Le Monde Diplomatique

E x i s t ê n c i a

Basta uma simples fotografia (já estou digitalizando as de 1998). Certas coisas retornam e ficam, por ali, pairando...
Tenho andado em ebulição. Memórias se destamparam, tenho entrado em contato com meus mistérios, com meus sonhos esquecidos. O que eu queria era conversar com as pessoas, explorar o mundo e, se soubesse que teria que optar por algo que me exigisse longos períodos a sós comigo mesma, certamente teria eleito as palavras. Estudei direito e as palavras com que me ocupei foram todas limitadas pelas cercas desse saber. Quando iniciei a faculdade , pensava que seria apenas um meio para outro fim, acabei gostando. A liberdade não pude ver, romanticamente, como “ uma calça velha azul e desbotada”. Para mim era, antes de qualquer outra coisa, independência financeira (com estabilidade). Assim equipada, podia ter me dedicado a compreender melhor a existência humana e a mim mesma. Ter tentado descobrir nexos e siginificados que, se não teriam mudado a minha realidade, quem sabe teriam me levado a fazer outras escolhas...Não queria ser séria demais e acabei sendo. Tenho refeito certos caminhos...a alma nos prega peças quando não a ouvimos. Somos mesmo insondáveis, tanto quanto são insondáveis os nossos destinos.

Opinião


Do blog Frases Ilustradas...(no título)

O k t a p o d i


No dia 22 de fevereiro, Oktapodi estará disputando o Oscar na categoria Curta Metragem de Animação. Os seus criadores são jovens estudantes da Escola de Desenhos Animados de Gobelins em Paris (acesso clicando o título).
Oktapodi, que levou sete meses para ser realizado, é historia de um casal de polvos apaixonados que vive em um aquário, em uma ilha do Arquipélago das Cíclades, no sul do Mar Egeu. Um peixeiro compra a fêmea para vender a um cozinheiro local. O macho tenta salvar a namorada do destino trágico. A ação se desenrola nas ruelas e escadarias brancas da ilha grega, tal qual nas perseguições de filmes à la James Bond. Vejam como é bonitinho!

Brasil-Brasis

Acabei de ganhar de um amigo O BRASIL DOS CORRESPONDENTES, uma coleção de textos e imagens que relatam fragmentos de nossa história nos últimos 30 anos pelo olhar dos correspondentes estrangeiros. Desde Pero Vaz de Caminha que olhares forasteiros se espantam com nossa singularidade e multiculturalismo e soltam suas veias de cronistas para mostrar os aspectos que mais os impressionam. O livro, publicado pela ACE- Assoociação dos Correespondentes Estrangeiros, mostra aspectos interessantes e curiosos de nosso comportamento em todos os setores da sociedade, sob a ótica deles. Um visão descomprometida. Muito bom!

A crônica é de hoje e revela mais um desses olhares...

MEU PIRÃO PRIMEIRO
O olhar estrangeiro costuma enxergar o que nem sempre a gente vê. Algumas das melhores observações sobre o Brasil foram feitas pelos viajantes que têm passado por aqui desde o século XVI. Os forasteiros modernos são os correspondentes e enviados especiais, com muito a nos ensinar sobre nós mesmos.
Conversei com um deles recentemente, o britânico Andrew Downie, que trabalha para duas importantes publicações americanas: a revista "Time" e o jornal "Christian Science Monitor". Com oito anos no país, ele só não é quase brasileiro porque é capaz de chegar para a entrevista com dez minutos de antecedência. Vocês conhecem algum repórter nosso que faz isso? O humor também é típico: "Você esquece que sou inglês?" Ele veio sentir a mudança dos ventos, ver como os governos locais estão trabalhando para pôr ordem na casa (como Downie trocou o Rio por SP por não suportar mais a nossa bagunça, é meio cético).
O papo acaba girando em torno do caráter do brasileiro. Ele defende a tese de que muitas de nossas características se devem ao individualismo, "a começar pelo futebol". Segundo esse representante da terra que inventou o esporte, somos os craques do personalismo dentro e fora de campo. Da mesma maneira que decidimos uma partida num lance individual — um drible desconcertante, uma jogada implausível, um chute que transforma a bola numa folha seca — tentamos resolver todos os problemas dando um jeitinho particular.
Como se fosse um Calazans, passei a falar do que não entendo. Disse para ele que uma de nossas mais criativas invenções era a bicicleta — não a de duas rodas, mas a de duas pernas. Um jogador faz tudo ao contrário: de costas para o gol lança o corpo para cima, dá uma ou duas pedaladas no ar e, quando cai, a bola está no fundo da rede. Seria mais simples ficar de pé e de frente, deve ter pensado um pobre de espírito ao ver pela primeira vez o malabarismo. Só que não teríamos tido Leônidas da Silva, um genial crioulo como tantos outros: Pelé, Didi, Garrincha, Zizinho, Ronaldinho, Robinho.
O individualismo, no entanto, tem também seu lado nocivo, ao preconizar que se leve vantagem em tudo. No domingo mesmo O GLOBO noticiou em manchete: "Judiciário ignora crise e quer mais R$ 7,4 bi para pessoal." Belo exemplo de uma modalidade de individualismo, o corporativo, muito comum onde impera a ética do "farinha pouca, meu pirão primeiro". O mais sintomático é a alegação de um dos líderes do movimento reivindicatório.
Prevendo resistências por causa da situação econômica, ele foi logo avisando: "Não fomos nós que fizemos a crise."
Nem nós. O que se espera das instituições, porém, é que contribuam senão para aliviar a crise, pelo menos para não agravá-la.


Zuenir Ventura
n'O Globo - hoje