Nunca confie num homem que não respeita a mulher.
Esta frase, com a qual há de se concordar inteiramente, é do jornalista Caco Barcellos. Foi dita durante uma entrevista a Marília Gabriela no final do ano passado e é absolutamente coerente com o caráter do rapaz, talvez o repórter mais sério, dedicado e correto da TV brasileira, um batalhador incansável pela justiça, tendo o jornalismo como arma, o que lhe valeu inúmeras perseguições e desafetos, sobretudo dentre quem usa outros tipos de armas, muito mais efetivas.
Caco não se referia ao homem que respeita apenas a sua própria mulher, embora tivesse ele mesmo motivo de sobra para isso, posto que é casado com a maravilhosa estilista Bibi Barcellos, uma fada das tesouras especialista em noivas. Não, quis dizer que não se deve confiar no homem que não respeita mulheres, o gênero como um todo, com o que se deve concordar mais ainda.
O desrespeito, muitas vezes derivado do despeito, com que tantos homens (des) tratam mulheres, seja por meio do simples desprezo, de ofensas sexistas ou, infelizmente também frequentemente, por meio da violência, é revelador de fraqueza de caráter e pequenez da alma.
Daí ser entristecedor observar uma realidade em que seja tão usual esse tipo de comportamento, só não mais hediondo do que a ofensa a crianças e idosos, também trivial e repetitivo nos dias de hoje.
Já estava para escrever sobre a frase do Caco, linda e das que devem ser registradas, mas faltava oportunidade ou o chamado "gancho" --ou seja, a motivação jornalística que leva alguém a escrever alguma coisa.
E o gancho veio no dia da posse de Barack Obama. Já havia observado o clima de total cumplicidade e intimidade que permeia o relacionamento público dele e Michele. Olho no olho, atenção permanente, sorriso franco. Ambos sempre lado a lado, nunca o homem na frente da mulher. Isso eu já havia percebido em inúmeras outras aparições públicas do casal, mas ficou muito mais evidente nas diversas oportunidades em que os dois foram flagrados, tão elegantes, cordiais e cordatos, durante as longas cerimônias da posse, das quais participaram também merecendo atenção e carinho, as duas mocinhas filhas de ambos.
É encantador o olhar que Obama sempre dedica à sua mulher, seus gestos delicados e sua deferência. A se fiar no paradigma do Caco Barcellos, este comportamento revela alguém em que se pode confiar.
Um querido amigo, a quem fiz essa observação outro dia, preferiu o ceticismo e lembrou a música de David Bowie dos anos 70, na qual ele afirma "I`m afraid of americans" ("Eu tenho medo de americanos").
Ok, motivos há, basta ter lido o noticiário relativo a eles nos últimos 20 anos.
Nunca, porém, tinha visto naquele posto tão poderoso, não apenas um negro, um jovem multicultural, um político com idéias tão atraentes, mas sobretudo alguém tão respeitoso e delicado com mulheres.
Prefiro, até segunda ordem, portanto, fazer um voto de confiança.
Luiz Caversan, na Folha online
janeiro 24, 2009
janeiro 23, 2009
L O O K


Todos falam de, escrevem sobre, pensam em: PARIS.
Cada um diz do que viu ou ouviu, do que mostram cinemas e revistas, do que vivenciou quando lá esteve, da cidade de seus sonhos, do que pensa em encontrar ao visitá-la . O certo é que todo mundo faz uma idéia e, ao mesmo tempo, alimenta certos mitos. Dentre eles, alguns são verdadeiros. De que os franceses são arrogantes, de que as pessoas não olham umas para outras por exemplo. O que pode ser um traço deles não é exclusividade ( vide curitibanos). Resta saber quem é parisiense naquela babel. Outro mito é o de que lá todo dia tem uma greve (nem sempre), de que os queijos quanto mais fedidos melhores (eca!) e de que se come iogurte como sobremesa (o que é ótimo!alguém no mundo faz melhores?)
Mas tem um mito imbatível que é o que de as pessoas se vestem bem, são chics e elegantes. Sempre tentei explicar que não era bem assim, que como em todas as cidades, tem de tudo. Mas não ia (nem podia) sair por aí fotografando o povo para sustentar o que afirmava. Um parentese: às vezes recomendo não usar tenis para sair. Afinal, tenis não é calçado para fazer atividades físicas? Neste ponto a chata sou eu mesma. O que não siginifica que se tenha que usar scarpins...Tudo isto é para dizer que achei um site com título em ingles! (os franceses realmente não são mais os mesmos), que mostra a moda de rua em Paris e outras coisitas relacionadas. Quer ver? Clique no título da postagem ! Será que tenho que dizer que para ver o corpo inteiro se deve clicar duas vezes no nome e que sobre acessórios os títulos estão à direita? Pronto, tá dito!
Coisas da literatura
Terminei de ler O Jogo do Anjo com a impressão de que vai ser levado ao cinema e de que será um filme sombrio, sinistro, que não me agradará, mesmo tendo gostado tanto do livro. Ou exatamente por isto. Talvez o que tenha me levado a esta idéia não tenha sido nem a história em si,que é muito boa, mas o fato de saber que o Zafon vive de fazer roteiros para cinema, em Los Angeles. Não sei em que medida a mesma pessoa que escreve ficção em literatura consegue adaptá-la para a linguagem do cinema. Há coisas que a literatura tem e o cinema não.
Estes trechos colhi, aleatoriamente, do livro : :
“Abri os olhos. Colinas de pedras grossas como árvores ascendiam na penumbra até uma abóboda nua. Agulhas de luz poeirenta caíam em diagonal e delineavam fileiras intermináveis de caminhas miseráveis. Pequenas gotas d´água se desprendiam das alturas como lágrimas negras , que explodiam em eco ao tocar no chão . A penumbra cheirava a mofo e unidade.
.....
Quando o primeiro suspiro da aurora roçou a janela, abri os olhos e encontrei a cama vazia.
......
Percebia-se sempre a noção da existência terrena como uma espécie de estação de passagem que convidava à docilidade e à aceitação da própria vida edas normas da tribo, pois a recompensa sempre estava num além que prometia paraísos transbordantes de tudo aquilo que havia faltado na vida corpórea.
......
Ao voltar para a casa da torre, tinha aprendido a olhar com outros olhos aquele que tinha sido meu lar e minha prisão durante tantos anos. Entrei pelo portão sentindo que atravessava a goela de um ser de pedras e sombras. Subi a escadaria como se penetrasse em suas entranhas e abri a porta do andar principal para me deparar com um corredor escuro que se perdia na penumbra e que, pela primeira vez, parecia ser a ante-sala de uma mente medrosa e envenenada.
...
Quando saí à rua , fui surpreendido por uma brisa fria e cortante que varria as ruas com impaciência e fiquei sabendo que o outono tinha entrado em Barcelona na ponta dos pés. Na praça Plaácio , peguei um bonde que esperava vazio como uma grande ratoeira de ferro batido.
.......
......encontrei uma porta metálica encaixada no muro de pedra . Um batedor reposusava sobre a lâmina de ferro, soldado por lágrimas de ferrugem...Os vidros refletiam a passagem silenciosa das nuvens.
...
Saí de casa depois do amanhecer. Nuvens escuras se arrastavam sobre os telhados e roubavam a cor das ruas. Estava atravessando o Parque Ciudadela quando vi as primeiras gotas batendo nas folhas das árvores e estalando no caminho, levantando espirais de poeira como se fossem balas. Do outro lado do parque , um bosque de fábricas e torres de gás multiplicava-se até o horizonte, a poeira de carvão de suas chaminés diluindo-se naquela chuva negra que desmoronava do céu em lágrimas de alcatrão.
...
Cristina virou a cabeça e olhou para mim. Tinha a expressão devastada , como se tivessem quebrada sua alma a marteladas.
São imagens que só as palavras qualificam....
Estes trechos colhi, aleatoriamente, do livro : :
“Abri os olhos. Colinas de pedras grossas como árvores ascendiam na penumbra até uma abóboda nua. Agulhas de luz poeirenta caíam em diagonal e delineavam fileiras intermináveis de caminhas miseráveis. Pequenas gotas d´água se desprendiam das alturas como lágrimas negras , que explodiam em eco ao tocar no chão . A penumbra cheirava a mofo e unidade.
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Quando o primeiro suspiro da aurora roçou a janela, abri os olhos e encontrei a cama vazia.
......
Percebia-se sempre a noção da existência terrena como uma espécie de estação de passagem que convidava à docilidade e à aceitação da própria vida edas normas da tribo, pois a recompensa sempre estava num além que prometia paraísos transbordantes de tudo aquilo que havia faltado na vida corpórea.
......
Ao voltar para a casa da torre, tinha aprendido a olhar com outros olhos aquele que tinha sido meu lar e minha prisão durante tantos anos. Entrei pelo portão sentindo que atravessava a goela de um ser de pedras e sombras. Subi a escadaria como se penetrasse em suas entranhas e abri a porta do andar principal para me deparar com um corredor escuro que se perdia na penumbra e que, pela primeira vez, parecia ser a ante-sala de uma mente medrosa e envenenada.
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Quando saí à rua , fui surpreendido por uma brisa fria e cortante que varria as ruas com impaciência e fiquei sabendo que o outono tinha entrado em Barcelona na ponta dos pés. Na praça Plaácio , peguei um bonde que esperava vazio como uma grande ratoeira de ferro batido.
.......
......encontrei uma porta metálica encaixada no muro de pedra . Um batedor reposusava sobre a lâmina de ferro, soldado por lágrimas de ferrugem...Os vidros refletiam a passagem silenciosa das nuvens.
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Saí de casa depois do amanhecer. Nuvens escuras se arrastavam sobre os telhados e roubavam a cor das ruas. Estava atravessando o Parque Ciudadela quando vi as primeiras gotas batendo nas folhas das árvores e estalando no caminho, levantando espirais de poeira como se fossem balas. Do outro lado do parque , um bosque de fábricas e torres de gás multiplicava-se até o horizonte, a poeira de carvão de suas chaminés diluindo-se naquela chuva negra que desmoronava do céu em lágrimas de alcatrão.
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Cristina virou a cabeça e olhou para mim. Tinha a expressão devastada , como se tivessem quebrada sua alma a marteladas.
São imagens que só as palavras qualificam....
janeiro 22, 2009
G E S T O

Gesto é o nome do blog do Rogerio Bessa Gonçalves finalmente instalado no endereço: http://rogbessa.blogspot.com/. Com tanto para mostrar (e dizer), o Rogério não podia se manter fora da blogosfera. Não tanto quanto a Cris, que se declara lindamente envolvida " do dedão do pé até o fio de cabelo", sou suspeita para falar dele. Mas como vcs terão oportunidade de constatar, o Rogério dispensa comentários e conhecer o seu trabalho nos proporciona imenso deleite. Para acessar o seu blog, comece por clicar o título desta postagem que ilustrei com esta amostra de seu talento, neste desenho feito num café, entre muitos papos, em Sampa em nov/2008. O seu perfil no blog:
"Sou arquiteto, ilustrador, gravurista e fotógrafo. Todo ser humano se expressa por algum veículo; música, gastronomia, desenho, canto, filmes, fotografia. A expressão é um caminho de duplo sentido uma vez que toda pessoa só se expressa quando há um interlocutor. Ele é parte da obra tanto quanto o criador. Ele é responsável pelo diálogo entre à obra e o observador. É ele que dá sentido a criação, é quem completa o ciclo da expressão. Uma obra sem o interlocutor não possui razão de ser. Foi esta afirmativa que me conduziu a apresentar o que faço. Sempre desenhei e esta forma de expressão me conduziu à arquitetura, gravura, ilustração e à fotografia. Se meu leitor puder observar, todos os elementos destas minhas formas de expressão poderão perceber que possuem uma forte tendência na busca da linha, superfícies e texturas. Consiste em influências do expressionismo alemão, e da cultura japonesa; especificamente da arquitetura tradicional desse país".
Floripa na moda!
Quando me mudei para Curitiba a cidade ficou na moda. Só dava Curitiba. Era o início da década de 90. Agora a Santa (e bela) Catarina, minha terra por adoção (e, tomara! a definitiva) não sai da mídia. Felizmente, não mais por tragédias como as de novembro. Nem porque os termômetros marcam 7 graus na serra e 16 em Floripa, em pleno verão, como aconteceu esta manhã. Mas por outros bons motivos.
Veja o que diz o Cacau no seu blog hoje:
"Seis catarinenses vão disputar, sábado, em São Paulo, a semifinal do concurso Menina Fantástica, o Avaí já está na semifinal da Copa São Paulo de Futebol Juniores, cujo atual campeão é o Figueirense; o garoto de São Bento do Sul saiu da Bolha e vai disputar com a Carolina do Estreito o prêmio milionário do Big Brother Brasil 9; o New York Times diz que Floripa é a melhor parada para baladas da América Latina e a nossa taxa de emprego foi a mais alta de dezembro. Porque os cães ladram e a caravana passa."
PS: Nada a ver com o assunto, mas esta frase final é um bordão do antigo colunista do RJ, Ibrahim Sued, que é autor ainda de: "De leve", "Sorry periferia", "Depois eu conto", "Bola Branca", "Bola Preta", "Ademã que eu vou em frente", "Olho vivo, que cavalo não desce escada", dentre outras. Ibrahim Sued, em 1993, deixou o jornalismo diário e passou a publicar apenas uma coluna dominical no "O Globo". Faleceu dois anos mais tarde, aos 72 anos de idade.
Veja o que diz o Cacau no seu blog hoje:
"Seis catarinenses vão disputar, sábado, em São Paulo, a semifinal do concurso Menina Fantástica, o Avaí já está na semifinal da Copa São Paulo de Futebol Juniores, cujo atual campeão é o Figueirense; o garoto de São Bento do Sul saiu da Bolha e vai disputar com a Carolina do Estreito o prêmio milionário do Big Brother Brasil 9; o New York Times diz que Floripa é a melhor parada para baladas da América Latina e a nossa taxa de emprego foi a mais alta de dezembro. Porque os cães ladram e a caravana passa."
PS: Nada a ver com o assunto, mas esta frase final é um bordão do antigo colunista do RJ, Ibrahim Sued, que é autor ainda de: "De leve", "Sorry periferia", "Depois eu conto", "Bola Branca", "Bola Preta", "Ademã que eu vou em frente", "Olho vivo, que cavalo não desce escada", dentre outras. Ibrahim Sued, em 1993, deixou o jornalismo diário e passou a publicar apenas uma coluna dominical no "O Globo". Faleceu dois anos mais tarde, aos 72 anos de idade.
L I B E R A D A S

As mulheres de oitenta
Vinícius de Moraes, agora com 90 anos, poderia cantarolar “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é uma velhinha que vem e que passa, no doce balanço, a caminho do lar”. Se ainda existe uma mulher do lar, ela tem oitenta anos. Principalmente no nosso lar.
Me responda: existe alguma coisa mais bonita do que ver uma senhora de oitenta anos, aqueles cabelos brancos (mulher honesta de oitenta não pinta mais os cabelos), caminhando pela rua de mãos dadas com o marido, bem mais trôpego do que ela? Quantas vidas existem naquelas duas mãos entrelaçadas? Quantos filhos, netos e bisnetos? Quanta vida, quanta história. Quanta gente aquela mulher de oitenta colocou no mundo? E agora lá vai ela, caminhando, sem pressa nenhuma, sabe lá pra onde. Ela e o homem dela. Eternos enquanto duraram.
É, já não se fazem mais mulheres como as de 80. Perdemos a fórmula e esquecemos, quase sempre, que elas existem. Mulher de um só amor, de uma só dedicação.
As mulheres de oitenta se dividem basicamente em três categorias: as ainda casadas (como sofreram com seus maridos há algumas décadas), as viúvas (como sofreram com o morte do marido) e as com o mal de Alzhaimer (que não sofrem, porque não sabem mais).
O incrível é que a gente olha para uma velhinha e pensa que ela não saca mais nada. Que está apenas sentada ali na porta esperando o próprio enterro passar. Lêdo e lerdo engano. Aquela que faz aniversário, com filhos, netos e bisnetos em volta. Olha ela lá, na dela, sentada na cadeira, olhando o nada. Engana-se, minha filha. Ela está percebendo tudo. Ela sabe o que está rolando na festinha da bisa. Sabe quem trai quem, quem deve pra quem, quem odeia quem, dentro de seus próprios descendentes. Mas ninguém da bola pra ela.
A mulher de oitenta é a mais sábia das mulheres.
Ela já teve trinta, achando que sabia de tudo. Chegou as quarenta pensando: agora é que eu sei. E aí foi indo até chegar ali. Cada vez conhecendo mais o mundo e as pessoas do mundo. Quando vê o Bush dizendo besteira na televisão, ninguém lhe pergunta o que achou. Têm certeza que ela vai dizer bobagem. Mas se ousarem vão ouvir uma frase curta, perfeita, exata. Quase filosófica. As mulheres de oitenta filosofam. Infelizmente ninguém as ouvem.
Você deve achar que uma velhinha não pensa em sexo. Imagina! Então me diga em que idade ela parou, se sempre pensou cada vez mais, durante os 20, 30, 40 etc. Será que chegou numa idade e ela disse para ela mesma: hoje vou parar de pensar em sexo. Negativo. Pensa, e muito. Tenho uma parente que morreu aos 87 anos se masturbando. Feliz e sem a menor culpa, apesar de ir todo domingo à missa. Sábia, descobriu que o prazer não pode ser pecado. Deve estar no céu, a danadinha. Cantando os anjos com ou sem trombetas.
Quanto àquelas que têm o mal de Alzhaimer (antigamente eram apenas caducas. Pioraram o nome e não arrumaram o remédio) não sabem o que está acontecendo no mundo. Sua mente não guarda nada do presente (o que tem lá suas vantagens), mas se lembram do passado como se fosse ontem. Pergunte sobre o baile de debutantes, como foi que ela conheceu o marido dela, daquela famosa quadrilha, das fofocas familiares dos anos 30. Um diário do passado vai invadir a sua cabeça e seus olhos vão ficar brilhando.
Ah, as mulheres de oitenta com seus cabelos brancos, seus óculos redondos, seu terço e sua caixinha de remédios. Sábias, filósofas, boas. Gente finíssima
Mário Prata
janeiro 21, 2009
M o r r e t e s
Lembra do que estava neste espaço? Resolvi substituir por este filme bem simpatiquinho editado pela Ale Haro com fotos que ela fez em Morretes/Pr, onde passou o reveillon com seus amigos. Vejam se não ficou legal!!! Ainda vou aprender a fazer isto!
Porque a gente é assim
Cazuza - Ney - Bom demais!!! Prescrição de amplo espectro, para todos os credos, sexos ou idade...
Pessimismo
Este é um trecho do artigo do MARCELO COELHO na FSP. Vejam como é isto mesmo.
Os Doutores do Pessimismo.
"NÃO É PRECISO ser um grande gênio para constatar que vivemos num mundo bárbaro.
Que o ser humano é capaz das maiores atrocidades. Que a vida é feita de competição, inveja, egoísmo e crueldade.
Ninguém precisa ter vivido num campo de prisioneiros na Sibéria nem ter sido moleque de rua no Capão Redondo para saber disso. Mas virou moda entre muitos intelectuais e jornalistas anunciar uma espécie de "visão trágica" do mundo, como se se tratasse da mais surpreendente novidade.
Com certeza, há nisso uma reação saudável contra o excesso de otimismo. Durante o século 20, grande parte da esquerda não quis ver as barbaridades cometidas por Stálin e Mao porque, em última instância, "tudo iria dar certo". Belas esperanças tornaram-se pretexto para atos de horror. Nada mais correto do que denunciar o horror.
O que me parece estranho é que, mais do que denunciar o horror, esses pensadores trágicos e jornalistas sombrios gostam de destruir as esperanças.
O reconhecimento do Mal, a crítica à violência da esquerda, a percepção de que ninguém é "bonzinho" e de que a realidade é uma coisa dura e feia vão se transformando em algo próximo do fascínio.
E, com diferentes níveis de elaboração e de cortesia pessoal, esses autores tendem a fazer do fascínio uma estratégia de choque.
Quanto mais chocarem o pensamento corrente (que considera ruim bombardear crianças e bom defender a Amazônia, por exemplo) mais ganharão em originalidade, leitura e cartas de protesto. Parece existir uma competição nas páginas dos jornais e na internet para ver quem conseguirá ser o mais "durão", o mais "realista", o mais desencantado.
....."
Os Doutores do Pessimismo.
"NÃO É PRECISO ser um grande gênio para constatar que vivemos num mundo bárbaro.
Que o ser humano é capaz das maiores atrocidades. Que a vida é feita de competição, inveja, egoísmo e crueldade.
Ninguém precisa ter vivido num campo de prisioneiros na Sibéria nem ter sido moleque de rua no Capão Redondo para saber disso. Mas virou moda entre muitos intelectuais e jornalistas anunciar uma espécie de "visão trágica" do mundo, como se se tratasse da mais surpreendente novidade.
Com certeza, há nisso uma reação saudável contra o excesso de otimismo. Durante o século 20, grande parte da esquerda não quis ver as barbaridades cometidas por Stálin e Mao porque, em última instância, "tudo iria dar certo". Belas esperanças tornaram-se pretexto para atos de horror. Nada mais correto do que denunciar o horror.
O que me parece estranho é que, mais do que denunciar o horror, esses pensadores trágicos e jornalistas sombrios gostam de destruir as esperanças.
O reconhecimento do Mal, a crítica à violência da esquerda, a percepção de que ninguém é "bonzinho" e de que a realidade é uma coisa dura e feia vão se transformando em algo próximo do fascínio.
E, com diferentes níveis de elaboração e de cortesia pessoal, esses autores tendem a fazer do fascínio uma estratégia de choque.
Quanto mais chocarem o pensamento corrente (que considera ruim bombardear crianças e bom defender a Amazônia, por exemplo) mais ganharão em originalidade, leitura e cartas de protesto. Parece existir uma competição nas páginas dos jornais e na internet para ver quem conseguirá ser o mais "durão", o mais "realista", o mais desencantado.
....."
janeiro 20, 2009
C R I S T A I S
A diversidade dos cristais de neve sob o microscópio são as imagens belissimas que podem ser vistas clicando o título da postagem.
O professor de Física do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) Kenneth Libbrecht recolhe e fotografa flocos de neve sob o microscópio.
Foto: Kenneth Libbrecht, SnowCrystals.com
O professor de Física do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) Kenneth Libbrecht recolhe e fotografa flocos de neve sob o microscópio.
Foto: Kenneth Libbrecht, SnowCrystals.com
Aprendo porque amo
Um reparo.A história do filme Assédio se passa em Roma.Detalhe irrelevante na crônica abaixo, mas que faz o filme mais bonito.
(imagem Marcelo Zocchio)
"Recordo a Adélia Prado: "Não quero faca nem queijo; quero é fome". Se estou com fome e gosto de queijo, eu como queijo... Mas e se eu não gostar de queijo? Procuro outra coisa de que goste: banana, pão com manteiga, chocolate... Mas as coisas mudam de figura se minha namorada for mineira, gostar de queijo e for da opinião que gostar de queijo é uma questão de caráter. Aí, por amor à minha namorada, eu trato de aprender a gostar de queijo.
Lembro-me do filme "Assédio", de Bernardo Bertolucci. A história se passa numa cidade do norte da Itália ou da Suíça. Um pianista vivia sozinho numa casa imensa que havia recebido como herança. Ele não conseguia cuidar da casa sozinho nem tinha dinheiro para pagar uma faxineira. Aí ele propôs uma troca: ofereceu moradia para quem se dispusesse a fazer os serviços de limpeza.
Apresentou-se uma jovem negra, recém-vinda da África, estudante de medicina. Linda! A jovem fazia medicina ocidental com a cabeça, mas o seu coração estava na música da sua terra, os atabaques, o ritmo, a dança. Enquanto varria e limpava, sofria ouvindo o pianista tocando uma música horrível: Bach, Brahms, Debussy... Aconteceu que o pianista se apaixonou por ela. Mas ela não quis saber de namoro. Achou que se tratava de assédio sexual e despachou o pianista falando sobre o horror da música que ele tocava.
O pobre pianista, humilhado, recolheu-se à sua desilusão, mas uma grande transformação aconteceu: ele começou a frequentar os lugares onde se tocava música africana. Até que aquela música diferente entrou no seu corpo e deslizou para os seus dedos. De repente, a jovem de vassoura na mão começou a ouvir uma música diferente, música que mexia com o seu corpo e suas memórias... E foi assim que se iniciou uma estória de amor atravessado: ele, por causa do seu amor pela jovem, aprendendo a amar uma música de que nunca gostara, e a jovem, por causa do seu amor pela música africana, aprendendo a amar o pianista que não amara. Sabedoria da psicanálise: frequentemente, a gente aprende a gostar de queijo por meio do amor pela namorada que gosta de queijo...
Isso me remete a uma inesquecível experiência infantil. Eu estava no primeiro ano do grupo. A professora era a dona Clotilde. Ela fazia o seguinte: sentava-se numa cadeira bem no meio da sala, num lugar onde todos a viam —acho que fazia de propósito, por maldade—, desabotoava a blusa até o estômago, enfiava a mão dentro dela e puxava para fora um seio lindo, liso, branco, aquele mamilo atrevido... E nós, meninos, de boca aberta... Mas isso durava não mais que cinco segundos, porque ela logo pegava o nenezinho e o punha para mamar. E lá ficávamos nós, sentindo coisas estranhas que não entendíamos: o corpo sabe coisas que a cabeça não sabe.
Terminada a aula, os meninos faziam fila junto à dona Clotilde, pedindo para carregar sua pasta. Quem recebia a pasta era um felizardo, invejado. Como diz o velho ditado, "quem não tem seio carrega pasta"... Mas tem mais: o pai da dona Clotilde era dono de um botequim onde se vendia um doce chamado "mata-fome", de que nunca gostei. Mas eu comprava um mata-fome e ia para casa comendo o mata-fome bem devagarzinho... Poeticamente, trata-se de uma metonímia: o "mata-fome" era o seio da dona Clotilde...
Ridendo dicere severum: rindo, dizer as coisas sérias... Pois rindo estou dizendo que frequentemente se aprende uma coisa de que não se gosta por se gostar da pessoa que a ensina. E isso porque —lição da psicanálise e da poesia— o amor faz a magia de ligar coisas separadas, até mesmo contraditórias. Pois a gente não guarda e agrada uma coisa que pertenceu à pessoa amada? Mas a "coisa" não é a pessoa amada! "É sim!", dizem poesia, psicanálise e magia: a "coisa" ficou contagiada com a aura da pessoa amada.
Minha avó guardava uns bichinhos que haviam pertencido a um filho que morrera. Guardo um peso de papel, de vidro, que pertenceu ao meu pai. E os apaixonados guardam uma peça de roupa da pessoa amada e a colocam sobre o travesseiro, ao dormir... Mesmo depois de ela ter morrido. É como se, por meio daquela "coisa" que não é a pessoa amada, fosse possível tocar e acariciar a pessoa amada, ausente.
Pois o mesmo mecanismo acontece na educação. Quando se admira um mestre, o coração dá ordens à inteligência para aprender as coisas que o mestre sabe. Saber o que ele sabe passa a ser uma forma de estar com ele. Aprendo porque amo, aprendo porque admiro. Sabendo o que ele sabe eu carrego a sua pasta, como o "mata-fome", faço amor com ele.
A dona Clotilde nos dá a lição de pedagogia: quem deseja o seio, mas não pode prová-lo, realiza o seu amor poeticamente, por metonímia: carrega a pasta e come "mata-fome"...
Rubem Alves, é educador, psicanalista e escritor.
(imagem Marcelo Zocchio)
"Recordo a Adélia Prado: "Não quero faca nem queijo; quero é fome". Se estou com fome e gosto de queijo, eu como queijo... Mas e se eu não gostar de queijo? Procuro outra coisa de que goste: banana, pão com manteiga, chocolate... Mas as coisas mudam de figura se minha namorada for mineira, gostar de queijo e for da opinião que gostar de queijo é uma questão de caráter. Aí, por amor à minha namorada, eu trato de aprender a gostar de queijo.Lembro-me do filme "Assédio", de Bernardo Bertolucci. A história se passa numa cidade do norte da Itália ou da Suíça. Um pianista vivia sozinho numa casa imensa que havia recebido como herança. Ele não conseguia cuidar da casa sozinho nem tinha dinheiro para pagar uma faxineira. Aí ele propôs uma troca: ofereceu moradia para quem se dispusesse a fazer os serviços de limpeza.
Apresentou-se uma jovem negra, recém-vinda da África, estudante de medicina. Linda! A jovem fazia medicina ocidental com a cabeça, mas o seu coração estava na música da sua terra, os atabaques, o ritmo, a dança. Enquanto varria e limpava, sofria ouvindo o pianista tocando uma música horrível: Bach, Brahms, Debussy... Aconteceu que o pianista se apaixonou por ela. Mas ela não quis saber de namoro. Achou que se tratava de assédio sexual e despachou o pianista falando sobre o horror da música que ele tocava.
O pobre pianista, humilhado, recolheu-se à sua desilusão, mas uma grande transformação aconteceu: ele começou a frequentar os lugares onde se tocava música africana. Até que aquela música diferente entrou no seu corpo e deslizou para os seus dedos. De repente, a jovem de vassoura na mão começou a ouvir uma música diferente, música que mexia com o seu corpo e suas memórias... E foi assim que se iniciou uma estória de amor atravessado: ele, por causa do seu amor pela jovem, aprendendo a amar uma música de que nunca gostara, e a jovem, por causa do seu amor pela música africana, aprendendo a amar o pianista que não amara. Sabedoria da psicanálise: frequentemente, a gente aprende a gostar de queijo por meio do amor pela namorada que gosta de queijo...
Isso me remete a uma inesquecível experiência infantil. Eu estava no primeiro ano do grupo. A professora era a dona Clotilde. Ela fazia o seguinte: sentava-se numa cadeira bem no meio da sala, num lugar onde todos a viam —acho que fazia de propósito, por maldade—, desabotoava a blusa até o estômago, enfiava a mão dentro dela e puxava para fora um seio lindo, liso, branco, aquele mamilo atrevido... E nós, meninos, de boca aberta... Mas isso durava não mais que cinco segundos, porque ela logo pegava o nenezinho e o punha para mamar. E lá ficávamos nós, sentindo coisas estranhas que não entendíamos: o corpo sabe coisas que a cabeça não sabe.
Terminada a aula, os meninos faziam fila junto à dona Clotilde, pedindo para carregar sua pasta. Quem recebia a pasta era um felizardo, invejado. Como diz o velho ditado, "quem não tem seio carrega pasta"... Mas tem mais: o pai da dona Clotilde era dono de um botequim onde se vendia um doce chamado "mata-fome", de que nunca gostei. Mas eu comprava um mata-fome e ia para casa comendo o mata-fome bem devagarzinho... Poeticamente, trata-se de uma metonímia: o "mata-fome" era o seio da dona Clotilde...
Ridendo dicere severum: rindo, dizer as coisas sérias... Pois rindo estou dizendo que frequentemente se aprende uma coisa de que não se gosta por se gostar da pessoa que a ensina. E isso porque —lição da psicanálise e da poesia— o amor faz a magia de ligar coisas separadas, até mesmo contraditórias. Pois a gente não guarda e agrada uma coisa que pertenceu à pessoa amada? Mas a "coisa" não é a pessoa amada! "É sim!", dizem poesia, psicanálise e magia: a "coisa" ficou contagiada com a aura da pessoa amada.
Minha avó guardava uns bichinhos que haviam pertencido a um filho que morrera. Guardo um peso de papel, de vidro, que pertenceu ao meu pai. E os apaixonados guardam uma peça de roupa da pessoa amada e a colocam sobre o travesseiro, ao dormir... Mesmo depois de ela ter morrido. É como se, por meio daquela "coisa" que não é a pessoa amada, fosse possível tocar e acariciar a pessoa amada, ausente.
Pois o mesmo mecanismo acontece na educação. Quando se admira um mestre, o coração dá ordens à inteligência para aprender as coisas que o mestre sabe. Saber o que ele sabe passa a ser uma forma de estar com ele. Aprendo porque amo, aprendo porque admiro. Sabendo o que ele sabe eu carrego a sua pasta, como o "mata-fome", faço amor com ele.
A dona Clotilde nos dá a lição de pedagogia: quem deseja o seio, mas não pode prová-lo, realiza o seu amor poeticamente, por metonímia: carrega a pasta e come "mata-fome"...
Rubem Alves, é educador, psicanalista e escritor.
janeiro 19, 2009
Efeitos do Tempo
Andei escrevendo que ter um blog era aconselhável como terapia. Apontei uns estudos que sustentavam e comprovavam esta tese. Uns dias depois li que, hoje em dia, um blog é considerado uma ferramenta fundamental na contratação de pessoas. Estas através do blog são avaliadas quanto ao texto, como desenvolvem ideias, de quais temas gostam e como reagem a algumas situações, como a críticas e a ataques nos comentários. A matéria concluía dizendo que "o blog é uma mistura de currículo com dinâmica de grupo".
Evidente que para mim funciona a primeira parte, da terapia, inclusive no aspecto ocupacional e a última da dinâmica de grupo. Quem lê o blog não imagina o que se passa. Eu continuo me surpreendendo a cada dia. O que já é um bom motivo para mantê-lo.
Por exemplo, a postagem sobre o tempo que foi uma resposta (não fosse isso algumas aspas não faziam sentido) não recebeu nenhum comentário no lugar próprio. No entanto, via e- mail, recebi comentários que nos proporcionam uma reflexão muito mais rica e profunda do que o texto que lhes deu origem. Esta foi a razão de transcrevê-los, embora que, por razões óbvias, apenas parte deles:
"Zélia, desculpe te encher com mais um tema, mas a culpa é tua que pões tantas coisas interessantes e/ou instigantes no teu blog. Não podia me passar batido a questão do Tempo. Eu também tenho minhas preocupações ou faço minhas conjecturas sobre o Tempo, não necessariamente iguais às tuas. Tenho, antes de tudo, de dizer que gostei muito do modo como o texto foi tecido. Gostei das histórias das toalhas. Eu, na verdade, não parei direito para pensar como estou contando o Tempo."
.....
"Nas minhas relações, sobretudo amorosas, com gente muito mais jovem que eu, o que mais me maltrata ou intriga é a pouca [ou nenhuma] importância que dão ao tempo, acham que todas as oportunidades voltarão ou não acham nada, pois seu tempo parece não ter ainda medida nenhuma. Mas para mim, aquela ida ao cinema não-realizada, aquele abraço impedido, aquela troca de notícias evitada, tudo significa(va) perda de tempo, só que no seguinte sentido: o tempo não volta, ele se foi.
......
....vou te mandar uma música muito bonita da Rita Ribeira em que ela sugere fazer um acordo com esse Senhor do Universo tão implacável. Eu mesmo o coloco como o verdadeiro Deus, vejo-o na mesma imagem, ou, por que não?, na mesma linha de um Mefistófeles, da necessidade de um faustiano acordo com o diabo para podermos gozar um pouco mais do que ele, nos permita. Daí eu insistir nas histórias de intensidade, coisa que sei que já puseste muito em prática. Viver de forma intensa pode ser uma das saídas para tentar viver o máximo de coisas possíveis."
......
"A Busca da Verdade, como máxima filosófica, deveria, antes de mais nada, passar por uma compreensão do tempo. Busca de Amor deveria pressupor entender o que ou quem é o Tempo. Busca da cura de doenças deveria passar com mais rigor por uma análise bem acurada dos comandos do tempo."
O significado do tempo exerce muito fascínio sobre todos nós. E não podia ser diferente visto que está intimamente ligado à preocupação mais profunda e inquietante da humanidade: a mortalidade. A consciência que temos de que nosso tempo de vida é finito está por trás de todas as angústias que nos afligem.
Evidente que para mim funciona a primeira parte, da terapia, inclusive no aspecto ocupacional e a última da dinâmica de grupo. Quem lê o blog não imagina o que se passa. Eu continuo me surpreendendo a cada dia. O que já é um bom motivo para mantê-lo.
Por exemplo, a postagem sobre o tempo que foi uma resposta (não fosse isso algumas aspas não faziam sentido) não recebeu nenhum comentário no lugar próprio. No entanto, via e- mail, recebi comentários que nos proporcionam uma reflexão muito mais rica e profunda do que o texto que lhes deu origem. Esta foi a razão de transcrevê-los, embora que, por razões óbvias, apenas parte deles:
"Zélia, desculpe te encher com mais um tema, mas a culpa é tua que pões tantas coisas interessantes e/ou instigantes no teu blog. Não podia me passar batido a questão do Tempo. Eu também tenho minhas preocupações ou faço minhas conjecturas sobre o Tempo, não necessariamente iguais às tuas. Tenho, antes de tudo, de dizer que gostei muito do modo como o texto foi tecido. Gostei das histórias das toalhas. Eu, na verdade, não parei direito para pensar como estou contando o Tempo."
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"Nas minhas relações, sobretudo amorosas, com gente muito mais jovem que eu, o que mais me maltrata ou intriga é a pouca [ou nenhuma] importância que dão ao tempo, acham que todas as oportunidades voltarão ou não acham nada, pois seu tempo parece não ter ainda medida nenhuma. Mas para mim, aquela ida ao cinema não-realizada, aquele abraço impedido, aquela troca de notícias evitada, tudo significa(va) perda de tempo, só que no seguinte sentido: o tempo não volta, ele se foi.
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....vou te mandar uma música muito bonita da Rita Ribeira em que ela sugere fazer um acordo com esse Senhor do Universo tão implacável. Eu mesmo o coloco como o verdadeiro Deus, vejo-o na mesma imagem, ou, por que não?, na mesma linha de um Mefistófeles, da necessidade de um faustiano acordo com o diabo para podermos gozar um pouco mais do que ele, nos permita. Daí eu insistir nas histórias de intensidade, coisa que sei que já puseste muito em prática. Viver de forma intensa pode ser uma das saídas para tentar viver o máximo de coisas possíveis."
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"A Busca da Verdade, como máxima filosófica, deveria, antes de mais nada, passar por uma compreensão do tempo. Busca de Amor deveria pressupor entender o que ou quem é o Tempo. Busca da cura de doenças deveria passar com mais rigor por uma análise bem acurada dos comandos do tempo."
O significado do tempo exerce muito fascínio sobre todos nós. E não podia ser diferente visto que está intimamente ligado à preocupação mais profunda e inquietante da humanidade: a mortalidade. A consciência que temos de que nosso tempo de vida é finito está por trás de todas as angústias que nos afligem.
janeiro 18, 2009
A complicada arte de ver
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
Rubem Alves na Sinapse da FSP em 2004
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
Rubem Alves na Sinapse da FSP em 2004
Porque não me ufano
Deu na Folha que estrangeiros que vem viver aqui, ao chegar fazem aula de "jeitinho" para se adaptar ao país. Seria um “treinamento para lidar com a informalidade dos brasileiros”.
Será que alguém precisa de curso para isto? Pensemos na situação inversa. Algum país ao acolher brasileiros faz treinamento para ensiná-los, por exemplo, a serem pontuais, a não sujarem as ruas, a não serem barulhentos, a respeitarem filas, a dizerem com licença, por favor e desculpe, a não acharem que o garçom é empregado deles... dentre outras noções elementares de civilização?
A matéria relata casos de pessoas que vieram trabalhar aqui, cuja maior dificuldade que encontraram no país foram “ os brasileiros” .
Uma vergonha :“Para que estrangeiros entendam a malandragem e o "jeitinho brasileiro", uma consultora, formada e com mestrado em relações internacionais, dá aulas e treinamento para que esses "expatriados", como ela diz, aprendam a viver em São Paulo e consigam se adaptar ao Brasil e aos brasileiros.”
Há uma pesquisa com executivos "expatriados" em 110 países que revela que o Brasil é o quarto pior país do mundo para adaptação, atrás apenas de China, Índia e Rússia. Por que seria?
Pasmem :“Depois de um intensivo de dois ou três dias de aulas de história, geografia e cultura brasileira, os treinandos vão às ruas para aprender a andar de ônibus e de metrô” . O que tem de diferente em nosso metrô?!
Ou seriam aulas práticas de jeitinho? De como furar filas, atravessar fora da faixa, não respeitar o sinal fechado, oferecer propina para o guarda, jogar lixo na rua? Deve ter muito mais " traços culturais" que fazem parte do repertório de comportamento a ser aprendido.
Para alguns dos treinandos , o trânsito e a violência seriam os dois maiores problemas. Para outros, a falta de comprometimento dos brasileiros é uma das primeiras lições a ser aprendida.
Eles ainda não viram foi nada!!!!
Será que alguém precisa de curso para isto? Pensemos na situação inversa. Algum país ao acolher brasileiros faz treinamento para ensiná-los, por exemplo, a serem pontuais, a não sujarem as ruas, a não serem barulhentos, a respeitarem filas, a dizerem com licença, por favor e desculpe, a não acharem que o garçom é empregado deles... dentre outras noções elementares de civilização?
A matéria relata casos de pessoas que vieram trabalhar aqui, cuja maior dificuldade que encontraram no país foram “ os brasileiros” .
Uma vergonha :“Para que estrangeiros entendam a malandragem e o "jeitinho brasileiro", uma consultora, formada e com mestrado em relações internacionais, dá aulas e treinamento para que esses "expatriados", como ela diz, aprendam a viver em São Paulo e consigam se adaptar ao Brasil e aos brasileiros.”
Há uma pesquisa com executivos "expatriados" em 110 países que revela que o Brasil é o quarto pior país do mundo para adaptação, atrás apenas de China, Índia e Rússia. Por que seria?
Pasmem :“Depois de um intensivo de dois ou três dias de aulas de história, geografia e cultura brasileira, os treinandos vão às ruas para aprender a andar de ônibus e de metrô” . O que tem de diferente em nosso metrô?!
Ou seriam aulas práticas de jeitinho? De como furar filas, atravessar fora da faixa, não respeitar o sinal fechado, oferecer propina para o guarda, jogar lixo na rua? Deve ter muito mais " traços culturais" que fazem parte do repertório de comportamento a ser aprendido.
Para alguns dos treinandos , o trânsito e a violência seriam os dois maiores problemas. Para outros, a falta de comprometimento dos brasileiros é uma das primeiras lições a ser aprendida.
Eles ainda não viram foi nada!!!!
Resposta ao Tempo
"Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei"
Este é um trecho da música do Aldir Blanc/Cristovão Bastos de que gosto muito e cantarolo de vez em quando (pode ser encontrada aqui no blog - cantada pela Nana Caymmi).
Quando pensamos que temos respostas para tudo, até para o tempo, surgem novas indagações...
Disseram-me que, ao me referir ao tempo, venho adotando escalas que faço variar conforme a idade das pessoas. Inclusive a minha. Como tenho menos futuro do que passado e digo isto assim desse meu jeito, meio cru e direto, talvez soe pesado.
Será por induzir, de um certo modo, à consciência deste fardo inescapável ? ou por suporem que estou com depressão "senil" (ops!)? Seja por qual razão for, confesso que nem tinha me dado conta. Mas, ainda que não se trate de ter "dois pesos e duas medidas", a realidade se impõe: a medida do tempo muda quando já se gastou, pelo menos, a metade dele.
Uma das minhas avós, que não chegou aos noventa (a outra foi a 103, andando com as próprias pernas e não ficou “desmemoriada”), além de jogar buraco, fazia crochê com as irmãs, a quem ela se referia como “as meninas”. Um dia, contrariando seus hábitos mais arraigados, saiu de casa em pleno meio dia, no maior calor, levando a toalha em que havia acabado de dar o último ponto. Havia apostado com as “meninas” que ia conseguir, não só começar, mas terminar a toalha, enquanto elas sustentavam que só ia dar tempo para fazer um centro de mesa.
Passei grande parte de minha vida insensível ao fato de que, naquele tempo, entre elas (todas em torno dos oitenta), a relação com o tempo ia sendo tecida tendo como medida toalhas ou centros de mesa.
No meu mundo de criança ficava, por ali, sofrendo pela hora de brincar que não chegava, as férias que demoravam, o meu aniversário então...Era ano que não acabava mais até novembro!
Hoje, os meus dias já não tem nomes, o tempo é contado por periodos "entre datas", entre ocorrências. São elas que marcam a minha não rotina. O que se quer, o que se busca, não é suficiente para alterar essa relação. Qualquer luta contra o tempo, já se sabe, é inglória. Não adianta tentar se iludir com liftings ou tesão com cheiro de farmácia. A nossa história, o calendário e o espelho não permitem que a gente se engane. O que considero positivo.
É certo que a perspectiva varia para cada pessoa, mas a verdade, e o tempo que tudo apaga não apaga a verdade, é que ele passa.
Simples assim e sem segunda chance!
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei"
Este é um trecho da música do Aldir Blanc/Cristovão Bastos de que gosto muito e cantarolo de vez em quando (pode ser encontrada aqui no blog - cantada pela Nana Caymmi).
Quando pensamos que temos respostas para tudo, até para o tempo, surgem novas indagações...
Disseram-me que, ao me referir ao tempo, venho adotando escalas que faço variar conforme a idade das pessoas. Inclusive a minha. Como tenho menos futuro do que passado e digo isto assim desse meu jeito, meio cru e direto, talvez soe pesado.
Será por induzir, de um certo modo, à consciência deste fardo inescapável ? ou por suporem que estou com depressão "senil" (ops!)? Seja por qual razão for, confesso que nem tinha me dado conta. Mas, ainda que não se trate de ter "dois pesos e duas medidas", a realidade se impõe: a medida do tempo muda quando já se gastou, pelo menos, a metade dele.
Uma das minhas avós, que não chegou aos noventa (a outra foi a 103, andando com as próprias pernas e não ficou “desmemoriada”), além de jogar buraco, fazia crochê com as irmãs, a quem ela se referia como “as meninas”. Um dia, contrariando seus hábitos mais arraigados, saiu de casa em pleno meio dia, no maior calor, levando a toalha em que havia acabado de dar o último ponto. Havia apostado com as “meninas” que ia conseguir, não só começar, mas terminar a toalha, enquanto elas sustentavam que só ia dar tempo para fazer um centro de mesa.
Passei grande parte de minha vida insensível ao fato de que, naquele tempo, entre elas (todas em torno dos oitenta), a relação com o tempo ia sendo tecida tendo como medida toalhas ou centros de mesa.
No meu mundo de criança ficava, por ali, sofrendo pela hora de brincar que não chegava, as férias que demoravam, o meu aniversário então...Era ano que não acabava mais até novembro!
Hoje, os meus dias já não tem nomes, o tempo é contado por periodos "entre datas", entre ocorrências. São elas que marcam a minha não rotina. O que se quer, o que se busca, não é suficiente para alterar essa relação. Qualquer luta contra o tempo, já se sabe, é inglória. Não adianta tentar se iludir com liftings ou tesão com cheiro de farmácia. A nossa história, o calendário e o espelho não permitem que a gente se engane. O que considero positivo.
É certo que a perspectiva varia para cada pessoa, mas a verdade, e o tempo que tudo apaga não apaga a verdade, é que ele passa.
Simples assim e sem segunda chance!
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