janeiro 21, 2009

M o r r e t e s


Lembra do que estava neste espaço? Resolvi substituir por este filme bem simpatiquinho editado pela Ale Haro com fotos que ela fez em Morretes/Pr, onde passou o reveillon com seus amigos. Vejam se não ficou legal!!! Ainda vou aprender a fazer isto!

Porque a gente é assim


Cazuza - Ney - Bom demais!!! Prescrição de amplo espectro, para todos os credos, sexos ou idade...

Pessimismo

Este é um trecho do artigo do MARCELO COELHO na FSP. Vejam como é isto mesmo.
Os Doutores do Pessimismo.
"NÃO É PRECISO ser um grande gênio para constatar que vivemos num mundo bárbaro.
Que o ser humano é capaz das maiores atrocidades. Que a vida é feita de competição, inveja, egoísmo e crueldade.
Ninguém precisa ter vivido num campo de prisioneiros na Sibéria nem ter sido moleque de rua no Capão Redondo para saber disso. Mas virou moda entre muitos intelectuais e jornalistas anunciar uma espécie de "visão trágica" do mundo, como se se tratasse da mais surpreendente novidade.
Com certeza, há nisso uma reação saudável contra o excesso de otimismo. Durante o século 20, grande parte da esquerda não quis ver as barbaridades cometidas por Stálin e Mao porque, em última instância, "tudo iria dar certo". Belas esperanças tornaram-se pretexto para atos de horror. Nada mais correto do que denunciar o horror.
O que me parece estranho é que, mais do que denunciar o horror, esses pensadores trágicos e jornalistas sombrios gostam de destruir as esperanças.
O reconhecimento do Mal, a crítica à violência da esquerda, a percepção de que ninguém é "bonzinho" e de que a realidade é uma coisa dura e feia vão se transformando em algo próximo do fascínio.
E, com diferentes níveis de elaboração e de cortesia pessoal, esses autores tendem a fazer do fascínio uma estratégia de choque.
Quanto mais chocarem o pensamento corrente (que considera ruim bombardear crianças e bom defender a Amazônia, por exemplo) mais ganharão em originalidade, leitura e cartas de protesto. Parece existir uma competição nas páginas dos jornais e na internet para ver quem conseguirá ser o mais "durão", o mais "realista", o mais desencantado.
....."

janeiro 20, 2009

Diferenças entre os sexos

No que pensam homens e mulheres quando convidados para beber...


C R I S T A I S

A diversidade dos cristais de neve sob o microscópio são as imagens belissimas que podem ser vistas clicando o título da postagem.
O professor de Física do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) Kenneth Libbrecht recolhe e fotografa flocos de neve sob o microscópio.
Foto: Kenneth Libbrecht, SnowCrystals.com

Aprendo porque amo

Um reparo.A história do filme Assédio se passa em Roma.Detalhe irrelevante na crônica abaixo, mas que faz o filme mais bonito.
(imagem Marcelo Zocchio)
"Recordo a Adélia Prado: "Não quero faca nem queijo; quero é fome". Se estou com fome e gosto de queijo, eu como queijo... Mas e se eu não gostar de queijo? Procuro outra coisa de que goste: banana, pão com manteiga, chocolate... Mas as coisas mudam de figura se minha namorada for mineira, gostar de queijo e for da opinião que gostar de queijo é uma questão de caráter. Aí, por amor à minha namorada, eu trato de aprender a gostar de queijo.
Lembro-me do filme "Assédio", de Bernardo Bertolucci. A história se passa numa cidade do norte da Itália ou da Suíça. Um pianista vivia sozinho numa casa imensa que havia recebido como herança. Ele não conseguia cuidar da casa sozinho nem tinha dinheiro para pagar uma faxineira. Aí ele propôs uma troca: ofereceu moradia para quem se dispusesse a fazer os serviços de limpeza.
Apresentou-se uma jovem negra, recém-vinda da África, estudante de medicina. Linda! A jovem fazia medicina ocidental com a cabeça, mas o seu coração estava na música da sua terra, os atabaques, o ritmo, a dança. Enquanto varria e limpava, sofria ouvindo o pianista tocando uma música horrível: Bach, Brahms, Debussy... Aconteceu que o pianista se apaixonou por ela. Mas ela não quis saber de namoro. Achou que se tratava de assédio sexual e despachou o pianista falando sobre o horror da música que ele tocava.
O pobre pianista, humilhado, recolheu-se à sua desilusão, mas uma grande transformação aconteceu: ele começou a frequentar os lugares onde se tocava música africana. Até que aquela música diferente entrou no seu corpo e deslizou para os seus dedos. De repente, a jovem de vassoura na mão começou a ouvir uma música diferente, música que mexia com o seu corpo e suas memórias... E foi assim que se iniciou uma estória de amor atravessado: ele, por causa do seu amor pela jovem, aprendendo a amar uma música de que nunca gostara, e a jovem, por causa do seu amor pela música africana, aprendendo a amar o pianista que não amara. Sabedoria da psicanálise: frequentemente, a gente aprende a gostar de queijo por meio do amor pela namorada que gosta de queijo...
Isso me remete a uma inesquecível experiência infantil. Eu estava no primeiro ano do grupo. A professora era a dona Clotilde. Ela fazia o seguinte: sentava-se numa cadeira bem no meio da sala, num lugar onde todos a viam —acho que fazia de propósito, por maldade—, desabotoava a blusa até o estômago, enfiava a mão dentro dela e puxava para fora um seio lindo, liso, branco, aquele mamilo atrevido... E nós, meninos, de boca aberta... Mas isso durava não mais que cinco segundos, porque ela logo pegava o nenezinho e o punha para mamar. E lá ficávamos nós, sentindo coisas estranhas que não entendíamos: o corpo sabe coisas que a cabeça não sabe.
Terminada a aula, os meninos faziam fila junto à dona Clotilde, pedindo para carregar sua pasta. Quem recebia a pasta era um felizardo, invejado. Como diz o velho ditado, "quem não tem seio carrega pasta"... Mas tem mais: o pai da dona Clotilde era dono de um botequim onde se vendia um doce chamado "mata-fome", de que nunca gostei. Mas eu comprava um mata-fome e ia para casa comendo o mata-fome bem devagarzinho... Poeticamente, trata-se de uma metonímia: o "mata-fome" era o seio da dona Clotilde...
Ridendo dicere severum: rindo, dizer as coisas sérias... Pois rindo estou dizendo que frequentemente se aprende uma coisa de que não se gosta por se gostar da pessoa que a ensina. E isso porque —lição da psicanálise e da poesia— o amor faz a magia de ligar coisas separadas, até mesmo contraditórias. Pois a gente não guarda e agrada uma coisa que pertenceu à pessoa amada? Mas a "coisa" não é a pessoa amada! "É sim!", dizem poesia, psicanálise e magia: a "coisa" ficou contagiada com a aura da pessoa amada.
Minha avó guardava uns bichinhos que haviam pertencido a um filho que morrera. Guardo um peso de papel, de vidro, que pertenceu ao meu pai. E os apaixonados guardam uma peça de roupa da pessoa amada e a colocam sobre o travesseiro, ao dormir... Mesmo depois de ela ter morrido. É como se, por meio daquela "coisa" que não é a pessoa amada, fosse possível tocar e acariciar a pessoa amada, ausente.
Pois o mesmo mecanismo acontece na educação. Quando se admira um mestre, o coração dá ordens à inteligência para aprender as coisas que o mestre sabe. Saber o que ele sabe passa a ser uma forma de estar com ele. Aprendo porque amo, aprendo porque admiro. Sabendo o que ele sabe eu carrego a sua pasta, como o "mata-fome", faço amor com ele.
A dona Clotilde nos dá a lição de pedagogia: quem deseja o seio, mas não pode prová-lo, realiza o seu amor poeticamente, por metonímia: carrega a pasta e come "mata-fome"...

Rubem Alves, é educador, psicanalista e escritor.

janeiro 19, 2009

Efeitos do Tempo

Andei escrevendo que ter um blog era aconselhável como terapia. Apontei uns estudos que sustentavam e comprovavam esta tese. Uns dias depois li que, hoje em dia, um blog é considerado uma ferramenta fundamental na contratação de pessoas. Estas através do blog são avaliadas quanto ao texto, como desenvolvem ideias, de quais temas gostam e como reagem a algumas situações, como a críticas e a ataques nos comentários. A matéria concluía dizendo que "o blog é uma mistura de currículo com dinâmica de grupo".
Evidente que para mim funciona a primeira parte, da terapia, inclusive no aspecto ocupacional e a última da dinâmica de grupo. Quem lê o blog não imagina o que se passa. Eu continuo me surpreendendo a cada dia. O que já é um bom motivo para mantê-lo.
Por exemplo, a postagem sobre o tempo que foi uma resposta (não fosse isso algumas aspas não faziam sentido) não recebeu nenhum comentário no lugar próprio. No entanto, via e- mail, recebi comentários que nos proporcionam uma reflexão muito mais rica e profunda do que o texto que lhes deu origem. Esta foi a razão de transcrevê-los, embora que, por razões óbvias, apenas parte deles:

"Zélia, desculpe te encher com mais um tema, mas a culpa é tua que pões tantas coisas interessantes e/ou instigantes no teu blog. Não podia me passar batido a questão do Tempo. Eu também tenho minhas preocupações ou faço minhas conjecturas sobre o Tempo, não necessariamente iguais às tuas. Tenho, antes de tudo, de dizer que gostei muito do modo como o texto foi tecido. Gostei das histórias das toalhas. Eu, na verdade, não parei direito para pensar como estou contando o Tempo."
.....
"Nas minhas relações, sobretudo amorosas, com gente muito mais jovem que eu, o que mais me maltrata ou intriga é a pouca [ou nenhuma] importância que dão ao tempo, acham que todas as oportunidades voltarão ou não acham nada, pois seu tempo parece não ter ainda medida nenhuma. Mas para mim, aquela ida ao cinema não-realizada, aquele abraço impedido, aquela troca de notícias evitada, tudo significa(va) perda de tempo, só que no seguinte sentido: o tempo não volta, ele se foi.
......
....vou te mandar uma música muito bonita da Rita Ribeira em que ela sugere fazer um acordo com esse Senhor do Universo tão implacável. Eu mesmo o coloco como o verdadeiro Deus, vejo-o na mesma imagem, ou, por que não?, na mesma linha de um Mefistófeles, da necessidade de um faustiano acordo com o diabo para podermos gozar um pouco mais do que ele, nos permita. Daí eu insistir nas histórias de intensidade, coisa que sei que já puseste muito em prática. Viver de forma intensa pode ser uma das saídas para tentar viver o máximo de coisas possíveis."
......
"A Busca da Verdade, como máxima filosófica, deveria, antes de mais nada, passar por uma compreensão do tempo. Busca de Amor deveria pressupor entender o que ou quem é o Tempo. Busca da cura de doenças deveria passar com mais rigor por uma análise bem acurada dos comandos do tempo.
"

O significado do tempo exerce muito fascínio sobre todos nós. E não podia ser diferente visto que está intimamente ligado à preocupação mais profunda e inquietante da humanidade: a mortalidade. A consciência que temos de que nosso tempo de vida é finito está por trás de todas as angústias que nos afligem.

A ilha vista de uma ângulo inusitado, a ponte Hercílio Luz, seu eterno cartão postal. Foto do DC.

Lavazza - Calendário de 2009 - fotos de Annie Leibovitz

janeiro 18, 2009

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

Rubem Alves na Sinapse da FSP em 2004

Porque não me ufano

Deu na Folha que estrangeiros que vem viver aqui, ao chegar fazem aula de "jeitinho" para se adaptar ao país. Seria um “treinamento para lidar com a informalidade dos brasileiros”.
Será que alguém precisa de curso para isto? Pensemos na situação inversa. Algum país ao acolher brasileiros faz treinamento para ensiná-los, por exemplo, a serem pontuais, a não sujarem as ruas, a não serem barulhentos, a respeitarem filas, a dizerem com licença, por favor e desculpe, a não acharem que o garçom é empregado deles... dentre outras noções elementares de civilização?
A matéria relata casos de pessoas que vieram trabalhar aqui, cuja maior dificuldade que encontraram no país foram “ os brasileiros” .
Uma vergonha :“Para que estrangeiros entendam a malandragem e o "jeitinho brasileiro", uma consultora, formada e com mestrado em relações internacionais, dá aulas e treinamento para que esses "expatriados", como ela diz, aprendam a viver em São Paulo e consigam se adaptar ao Brasil e aos brasileiros.”
Há uma pesquisa com executivos "expatriados" em 110 países que revela que o Brasil é o quarto pior país do mundo para adaptação, atrás apenas de China, Índia e Rússia. Por que seria?
Pasmem :“Depois de um intensivo de dois ou três dias de aulas de história, geografia e cultura brasileira, os treinandos vão às ruas para aprender a andar de ônibus e de metrô” . O que tem de diferente em nosso metrô?!
Ou seriam aulas práticas de jeitinho? De como furar filas, atravessar fora da faixa, não respeitar o sinal fechado, oferecer propina para o guarda, jogar lixo na rua? Deve ter muito mais " traços culturais" que fazem parte do repertório de comportamento a ser aprendido.
Para alguns dos treinandos , o trânsito e a violência seriam os dois maiores problemas. Para outros, a falta de comprometimento dos brasileiros é uma das primeiras lições a ser aprendida.
Eles ainda não viram foi nada!!!!

Resposta ao Tempo

"Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento

Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei"

Este é um trecho da música do Aldir Blanc/Cristovão Bastos de que gosto muito e cantarolo de vez em quando (pode ser encontrada aqui no blog - cantada pela Nana Caymmi).
Quando pensamos que temos respostas para tudo, até para o tempo, surgem novas indagações...
Disseram-me que, ao me referir ao tempo, venho adotando escalas que faço variar conforme a idade das pessoas. Inclusive a minha. Como tenho menos futuro do que passado e digo isto assim desse meu jeito, meio cru e direto, talvez soe pesado.
Será por induzir, de um certo modo, à consciência deste fardo inescapável ? ou por suporem que estou com depressão "senil" (ops!)? Seja por qual razão for, confesso que nem tinha me dado conta. Mas, ainda que não se trate de ter "dois pesos e duas medidas", a realidade se impõe: a medida do tempo muda quando já se gastou, pelo menos, a metade dele.
Uma das minhas avós, que não chegou aos noventa (a outra foi a 103, andando com as próprias pernas e não ficou “desmemoriada”), além de jogar buraco, fazia crochê com as irmãs, a quem ela se referia como “as meninas”. Um dia, contrariando seus hábitos mais arraigados, saiu de casa em pleno meio dia, no maior calor, levando a toalha em que havia acabado de dar o último ponto. Havia apostado com as “meninas” que ia conseguir, não só começar, mas terminar a toalha, enquanto elas sustentavam que só ia dar tempo para fazer um centro de mesa.
Passei grande parte de minha vida insensível ao fato de que, naquele tempo, entre elas (todas em torno dos oitenta), a relação com o tempo ia sendo tecida tendo como medida toalhas ou centros de mesa.
No meu mundo de criança ficava, por ali, sofrendo pela hora de brincar que não chegava, as férias que demoravam, o meu aniversário então...Era ano que não acabava mais até novembro!
Hoje, os meus dias já não tem nomes, o tempo é contado por periodos "entre datas", entre ocorrências. São elas que marcam a minha não rotina. O que se quer, o que se busca, não é suficiente para alterar essa relação. Qualquer luta contra o tempo, já se sabe, é inglória. Não adianta tentar se iludir com liftings ou tesão com cheiro de farmácia. A nossa história, o calendário e o espelho não permitem que a gente se engane. O que considero positivo.
É certo que a perspectiva varia para cada pessoa, mas a verdade, e o tempo que tudo apaga não apaga a verdade, é que ele passa.
Simples assim e sem segunda chance!

janeiro 17, 2009

O u t r a V e z

E U R O P E A N A

Esta boa notícia me foi enviada pelo Tito Livio:
"A biblioteca multimédia online da Europa, "Europeana" está acessível ao público, que através da Internet poderá aceder a mais de dois milhões de obras dos 27 Estados-membros da União Europeia.
Esta biblioteca virtual conta com livros, mapas, gravações, fotografias, documentos de arquivo, pinturas e filmes do acervo das bibliotecas nacionais e instituições culturais dos 27 Estados-Membros da UE, tendo por exemplo de Portugal a Carta plana de parte da Costa do Brasil, um mapa de 1784.
Acessível, em todas as línguas da UE, através do endereço (www.europeana.eu ), a biblioteca multimédia europeia conta com material fornecido por mais de 1000 organizações culturais de toda a Europa, incluindo Museus, como o Louvre de Paris, que forneceram digitalizações de quadros e objectos das suas coleções".


É possível o acesso clicando o título desta postagem.
Escolha o idioma e bom proveito!!!
Fotos do outono/inverno em Bayonne e Pirineus do album da Beatriz.

Breve história nasal da França

"Como todos sabem, a França foi fundada por Asterix, o herói narigudo que tinha Obelix como parceiro. Obelix não possuía uma fuça tão avantajada como a de seu comparte, mas compensava o fato com a grandeza de sua pança. Os três, Obelix, Asterix e seu narix, derrotaram os romanos e preservaram a integridade do território gaulês.
A partir da idade média, o país passou a ser governado por reis. Um deles, Luís XIV, adorava enfiar o nariz onde não era chamado. E um dia soltou a famosa frase "quem peidou aqui?", seguida de outra menos conhecida, "o estado sou eu". Mas foi seu herdeiro, Luís XVI, quem pagou o pato, quando veio a Revolução Francesa e o monarca perdeu o nasal e a cabeça. Ao mesmo tempo.
Nesse interim (texto com pretensão histórica tem que ter a palavra interim, para passar um mínimo de credibilidade) nasceu Napoleão. Dizem que ele colocou as ventas pra fora de sua mãe e falou "isso não está cheirando bem". Depois deram um banho na progenitora, o que amenizou um pouco o problema. Mas a impressão de que algo fedia na França continuou nas idéias e nas narinas do sujeito, e ele decidiu que seria imperador. Não contente com aquele cheiro de camembert que imperava no país, Napoleão saiu atrás de novos ares, conquistando tudo o que encontrava pela frente. Exatamente por olhar apenas para as próprias ventas, não percebeu que os ingleses chegavam por trás. E dançou.
Mas os franceses têm uma capacidade de entrar em confusão comparável apenas ao tamanho de suas fuças, e meteram-se em duas guerras mundiais. Na segunda, foram salvos graças à intervenção do General De Gaulle, dotado de uma capacidade estratégica e de uma tromba invejáveis. Dizem que De Gaulle metia muito medo nos seus adversários, principalmente quando ameaçava espirrar.
E após tantas batalhas, eles decidiram investir em outras áreas, como cinema e esportes. Na primeira, o ator Gérard Depardieu fez suspirar metade das mulheres do mundo, com seus dois órgãos sexuais, um deles pendurado entre os olhos. E na segunda, viram surgir o campeão de fórmula 1 Alain Prost, que faturou quatro títulos mundiais. Devido à sua napa, Prost largava sempre em primeiro, mesmo que estivesse na última fila. Depois dele, as regras do esporte foram mudadas. Para ser declarado vencedor, passou a ser exigido que o carro atingisse antes a linha de chegada. E não o piloto.
Hoje em dia, a França continua honrando sua tradição de criar personalidades com um grande sugador de oxigênio, tanto que é presidida por Nicolas Sarkozy. E mesmo que muitos dos franceses já torçam o nariz para ele, ao se casar com a Carla Bruni o baixinho mostrou que pelo menos para as mulheres tem um ótimo faro".

Daniel Cariello
Blog Chéri à Paris

janeiro 16, 2009

R a d i c a i s

Estas "garotas" não sossegam mesmo.
Enquanto a Beatriz leva seus tombos esquiando nos Pirineus...
a Wania se garante pendurada nas cordas
fazendo arvorismo

E me deixam aqui, "planejando o futuro" delas.
Estou muito bem servida de amigas!!!

Certos gestos

Anos atrás, conheci na academia - em Curitiba, (um dia ainda conto uma estória boa de lá) uma mulher, mais nova do que eu, que me falou que era viuva. Contou-me que não saía de casa , não ia ao cinema, nem às festas na família, por uma razão que para ela era básica: não tinha um marido com quem entrar de braços dados.
Imaginei que a perda era recente e que ela ainda não tinha se acostumado com a nova situação e que, com o tempo, iria voltar a viver normalmente. No decorrer da conversa (estávamos em esteiras vizinhas) fiquei sabendo que fazia nove anos que o marido tinha morrido. Eu que vinha tentando consolá-la , fiquei sem palavras! Estava diante daquele tipo de mulher que não existe senão à sombra de um homem. Não preciso dizer que passei a evitá-la.
No entanto, mesmo não querendo ninguém para chamar de meu, morro de inveja dos casais que andam de mãos dadas. Esta é a primeira coisa que presto atenção num casal. Sou capaz de dizer em relação a todos os que conheço, como se comportam quando se trata de darem-se as mãos.
Talvez eu atribua a este gesto um siginificado exagerado , sobretudo entre aqueles casais que não são meros namorados.Não acredito que o casamento, ou a duração da relação, deva ser critério ( ou a justificativa), já que observo casais bem velhinhos caminhando na calçada, de mãos entrelaçadas, como tem que ser.
Mãos dadas devia ser uma regra universal. Com as exceções de sempre, já que em certas culturas as mulheres são obrigadas a andar atrás de seus “senhores”. Mas ninguém que tenha juízo vai querer um desses.
Não funciona mais assim, mas o toque das mãos era o começo do amor. Vinha antes do beijo e só perdia para o encontro dos olhares. Este ainda deixava margem a dúvida. Já as mãos, não. Se eram acariciadas e retribuído o toque, o enlace estava caracterizado. Depois disto, a mão podia até passear um pouco. O encontro de mãos se dava também de supetão, por iniciativa masculina cheia de determinação, quando a promessa de namoro era logo compreendida.
Mas por que um dia as mãos não mais se juntam, permanecem penduradas, lado a lado? Terá sido a pressa dele, uma distração que ela não perdoou, mas também não cobrou, porque tantas mágoas já estavam acumuladas? Ou teria sido ela própria quem recusou o aconchego mecânico, entediada ou irritada que estava? Nunca se sabe...
Não vejo com bons olhos as relações em que as mãos foram largadas, não se unem mais. Podem até durar (e duram), manter algum tipo de cumplicidade, mas uma distância sempre estará separando aquelas duas pessoas. Uma distância de apenas alguns centímetros que revela um tipo de não-entrega.
Por sua vez, nada me comove mais do que as mãos dadas de um casal homossexual. Neste gesto simples e banal, entre eles, além da manifestação de afeto, é um desafio e a expressão de uma luta que ainda está por ser vencida

Pode me chamar de gay

Pode me chamar de gay, não está me ofendendo. Pode me chamar de gay, é um elogio. Pode me chamar de gay, apesar de ser heterossexual, não me importo de ser confundido. Ser gay me favorece, me amplia, me liberta dos condicionamentos. Não é um julgamento, é uma referência. Pode me chamar de gay, não me sinto desaforado, não me sinto incomodado, não me sinto diminuído, não me sinto constrangido.
Pode me chamar de gay, está dizendo que sou inteligente. Está dizendo que converso com ênfase. Está dizendo que sou sensível.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que me preocupo com os detalhes. Está dizendo que dou água para as samambaias. Está dizendo que me preocupo com a vaidade. Está dizendo que me preocupo com a verdade. Pode me chamar de gay. Está dizendo que guardo segredo. Está dizendo que me importo com as palavras que não foram ditas. Está dizendo que tenho senso de humor. Está dizendo que sou carente pelo futuro. Está dizendo que sei escolher as roupas.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que cuido do corpo, afino as cordas dos traços. Está dizendo que falo sobre sexo sem vergonha. Está dizendo que danço levantando os braços. Pode me chamar de gay. Está dizendo que choro sem o consolo dos lenços. Está dizendo que meus pesadelos passaram na infância. Está dizendo que dobro toalha de mesa como se fosse um pijama de seda.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou aberto e me livrei dos preconceitos. Está dizendo que posso andar de mãos dadas com os anéis. Está dizendo que assisto a um filme para me organizar no escuro.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que reinventei minha sexualidade, reinventei
meus princípios, reinventei meu rosto de noite.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que não morri no ventre, na cor da íris, no castanho dos cílios.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou o melhor amigo da mulher,
que aceno ao máximo no aeroporto, que chamo o táxi com grito.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que me importo com o sofrimento do outro, com a rejeição, com o medo do isolamento. Está dizendo que não tolero a omissão, a inveja, o rancor. Pode me chamar de gay. Está dizendo que vou esperar sua primeira garfada antes de comer. Está dizendo que não palito os dentes. Está dizendo que desabafo os sentimentos diante de um copo de vinho.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou generoso com as perdas,que não economizo elogios, que coleciono sapatos.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou educado, que sou espontâneo, que estou vivo para não me reprimir na hora de escrever. Pode me chamar de gay.
Que seja bem alto.
A fragilidade do vidro nasce da força e do ímpeto do fogo.

Fabrício Carpinejar

DEZ MOTIVOS PARA BLOGAR

1. Você pode (quase) tudo. Quando faltar inspiração, escreva uma lista de dez motivos para fazer alguma coisa. No final, acabará se divertindo.
2. É bom ter audiência, mesmo sem fazer idéia de quem são os leitores. Você apenas precisa aprender a lidar com essa relação meio íntima com leitores tão anônimos.
3. Com o tempo você percebe que sobrevive sem comentários. Segundo as estatísticas, apenas 1% dos leitores deixa um. Então pare de implorar pelos comentários dos amigos.
4. Blogar ajuda a organizar as idéias, exercitar a escrita e você ainda corre o risco de escrever algo realmente bom.
5. Amigos distantes, ou distanciados, se sentem próximos ao ler o seu blog. Você não precisa de orkut para se relacionar, e só se expõe se, e o quanto, quiser.
6. Você está deixando um registro histórico, da sua vida ou da sua época, embora isso pareça uma grande pretensão agora.
7. O fato de blog não dar dinheiro não é motivo para parar. Pense bem: você realmente não começou porque havia essa possibilidade.
8. Provavelmente você terá mais leitores do que se publicar um livro.
9. Você pode terminar uma lista de dez com nove itens e nenhum editor vai chamar a sua atenção.
Marta Barcellos
Blog Espuminha de leite

janeiro 15, 2009

“Seis bilhões de outros”


Neste caldeirão de culturas, raças e religiões em que se transformou o mundo, globalizado não só na economia (pelos mercados), nas comunicações (pela internet), mas também pela mobilidade da população, malgrado as barreiras criadas pela UE e pelos EUA, o momento (histórico) é de aprender a aceitar o outro e entender que o diferente não é bom nem ruim. É apenas diferente.
Contribui decisivamente para isto iniciativas como esta da exposição “Seis bilhões de outros”, que acontece em Paris, no Grand Palais que a gente pode não só ver como até participar, sem ter que ir lá .
Basta clicar no título da postagem ! Uma experiência imperdível.
Assinada pelo jornalista Yann Arthus-Bertrand, é o resultado de viagens por 75 países, onde mais de cinco mil entrevistas foram realizadas com pessoas comuns, que responderam perguntas como : O que é o amor para você? Qual seu último ataque de riso? O que você aprendeu com seus pais? Ao todo são 40 perguntas cujos temas revelam o quanto somos diferentes uns dos outros e, ao mesmo tempo, tão iguais.
Foi muito bem gasto o tempo que passei ouvindo o que pensam tantas (algumas!) pessoas espalhadas por este mundão.
SOMOS OS MESMOS!!!

Pensar-se

Administrar bem o tempo não é tarefa fácil para algumas pessoas. Como consequência, estão sempre atrasadas e, via de regra, tensas e ansiosas. Quando se trata de administrar o tempo livre, o problema se agrava. Algumas, simplesmente, não sabem o que fazer com ele e todos os projetos adiados para "quando tiver tempo” são esquecidos ou boicotados (o que é quase a mesma coisa). Dentre elas, há ainda as que não se permitem " ficar à toa", sentem-se culpadas. Como se ócio fosse pecado.
Em qualquer caso, saber o que fazer com o tempo livre é uma preocupante questão. Não sendo treinadas, embora anseiem por um tempo livre, em geral, não sabem o que fazer com ele. Quando se trata de natal, carnaval e páscoa o mundo se encarrega de sugerir o que deve ser feito e para onde (não) ir. Mas o que dizer dos muitos feriados como os deste ano? das férias? E na aposentadoria? o que fazer? (tenho amigas a quem aconselhei a continuar trabalhando)
Quem tem que dar forma ao uso do tempo livre somos nós e poucas pessoas estão preparados para fazer isto. É no lazer, quando somos livres para fazer nossas escolhas, que elaboramos as nossas experiências pessoais mais ricas, quando temos oportunidade de nos pensar e de nos construir. Pensar-se não se dá enquanto trabalhamos. Isso a que chamamos, meio sem pensar, de "recarregar as baterias" é vital.
Com a longevidade, a administração do tempo livre tem sido atribuída a instituições que organizam o comportamento da “ melhor idade” (detesto esta expressão). A meu ver, isto acontece, dentre outras razões, porque essas pessoas não foram treinadas para se pensar, não foram ensinadas a se tornar adultas, fazer escolhas nesta área.
Nos tornamos nós mesmos pensando e o lazer no tempo livre, segundo os especialistas, é o melhor caminho.
É aprender, enquanto há tempo, e aproveitar.