janeiro 18, 2009

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

Rubem Alves na Sinapse da FSP em 2004

Porque não me ufano

Deu na Folha que estrangeiros que vem viver aqui, ao chegar fazem aula de "jeitinho" para se adaptar ao país. Seria um “treinamento para lidar com a informalidade dos brasileiros”.
Será que alguém precisa de curso para isto? Pensemos na situação inversa. Algum país ao acolher brasileiros faz treinamento para ensiná-los, por exemplo, a serem pontuais, a não sujarem as ruas, a não serem barulhentos, a respeitarem filas, a dizerem com licença, por favor e desculpe, a não acharem que o garçom é empregado deles... dentre outras noções elementares de civilização?
A matéria relata casos de pessoas que vieram trabalhar aqui, cuja maior dificuldade que encontraram no país foram “ os brasileiros” .
Uma vergonha :“Para que estrangeiros entendam a malandragem e o "jeitinho brasileiro", uma consultora, formada e com mestrado em relações internacionais, dá aulas e treinamento para que esses "expatriados", como ela diz, aprendam a viver em São Paulo e consigam se adaptar ao Brasil e aos brasileiros.”
Há uma pesquisa com executivos "expatriados" em 110 países que revela que o Brasil é o quarto pior país do mundo para adaptação, atrás apenas de China, Índia e Rússia. Por que seria?
Pasmem :“Depois de um intensivo de dois ou três dias de aulas de história, geografia e cultura brasileira, os treinandos vão às ruas para aprender a andar de ônibus e de metrô” . O que tem de diferente em nosso metrô?!
Ou seriam aulas práticas de jeitinho? De como furar filas, atravessar fora da faixa, não respeitar o sinal fechado, oferecer propina para o guarda, jogar lixo na rua? Deve ter muito mais " traços culturais" que fazem parte do repertório de comportamento a ser aprendido.
Para alguns dos treinandos , o trânsito e a violência seriam os dois maiores problemas. Para outros, a falta de comprometimento dos brasileiros é uma das primeiras lições a ser aprendida.
Eles ainda não viram foi nada!!!!

Resposta ao Tempo

"Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento

Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei"

Este é um trecho da música do Aldir Blanc/Cristovão Bastos de que gosto muito e cantarolo de vez em quando (pode ser encontrada aqui no blog - cantada pela Nana Caymmi).
Quando pensamos que temos respostas para tudo, até para o tempo, surgem novas indagações...
Disseram-me que, ao me referir ao tempo, venho adotando escalas que faço variar conforme a idade das pessoas. Inclusive a minha. Como tenho menos futuro do que passado e digo isto assim desse meu jeito, meio cru e direto, talvez soe pesado.
Será por induzir, de um certo modo, à consciência deste fardo inescapável ? ou por suporem que estou com depressão "senil" (ops!)? Seja por qual razão for, confesso que nem tinha me dado conta. Mas, ainda que não se trate de ter "dois pesos e duas medidas", a realidade se impõe: a medida do tempo muda quando já se gastou, pelo menos, a metade dele.
Uma das minhas avós, que não chegou aos noventa (a outra foi a 103, andando com as próprias pernas e não ficou “desmemoriada”), além de jogar buraco, fazia crochê com as irmãs, a quem ela se referia como “as meninas”. Um dia, contrariando seus hábitos mais arraigados, saiu de casa em pleno meio dia, no maior calor, levando a toalha em que havia acabado de dar o último ponto. Havia apostado com as “meninas” que ia conseguir, não só começar, mas terminar a toalha, enquanto elas sustentavam que só ia dar tempo para fazer um centro de mesa.
Passei grande parte de minha vida insensível ao fato de que, naquele tempo, entre elas (todas em torno dos oitenta), a relação com o tempo ia sendo tecida tendo como medida toalhas ou centros de mesa.
No meu mundo de criança ficava, por ali, sofrendo pela hora de brincar que não chegava, as férias que demoravam, o meu aniversário então...Era ano que não acabava mais até novembro!
Hoje, os meus dias já não tem nomes, o tempo é contado por periodos "entre datas", entre ocorrências. São elas que marcam a minha não rotina. O que se quer, o que se busca, não é suficiente para alterar essa relação. Qualquer luta contra o tempo, já se sabe, é inglória. Não adianta tentar se iludir com liftings ou tesão com cheiro de farmácia. A nossa história, o calendário e o espelho não permitem que a gente se engane. O que considero positivo.
É certo que a perspectiva varia para cada pessoa, mas a verdade, e o tempo que tudo apaga não apaga a verdade, é que ele passa.
Simples assim e sem segunda chance!

janeiro 17, 2009

O u t r a V e z

E U R O P E A N A

Esta boa notícia me foi enviada pelo Tito Livio:
"A biblioteca multimédia online da Europa, "Europeana" está acessível ao público, que através da Internet poderá aceder a mais de dois milhões de obras dos 27 Estados-membros da União Europeia.
Esta biblioteca virtual conta com livros, mapas, gravações, fotografias, documentos de arquivo, pinturas e filmes do acervo das bibliotecas nacionais e instituições culturais dos 27 Estados-Membros da UE, tendo por exemplo de Portugal a Carta plana de parte da Costa do Brasil, um mapa de 1784.
Acessível, em todas as línguas da UE, através do endereço (www.europeana.eu ), a biblioteca multimédia europeia conta com material fornecido por mais de 1000 organizações culturais de toda a Europa, incluindo Museus, como o Louvre de Paris, que forneceram digitalizações de quadros e objectos das suas coleções".


É possível o acesso clicando o título desta postagem.
Escolha o idioma e bom proveito!!!
Fotos do outono/inverno em Bayonne e Pirineus do album da Beatriz.

Breve história nasal da França

"Como todos sabem, a França foi fundada por Asterix, o herói narigudo que tinha Obelix como parceiro. Obelix não possuía uma fuça tão avantajada como a de seu comparte, mas compensava o fato com a grandeza de sua pança. Os três, Obelix, Asterix e seu narix, derrotaram os romanos e preservaram a integridade do território gaulês.
A partir da idade média, o país passou a ser governado por reis. Um deles, Luís XIV, adorava enfiar o nariz onde não era chamado. E um dia soltou a famosa frase "quem peidou aqui?", seguida de outra menos conhecida, "o estado sou eu". Mas foi seu herdeiro, Luís XVI, quem pagou o pato, quando veio a Revolução Francesa e o monarca perdeu o nasal e a cabeça. Ao mesmo tempo.
Nesse interim (texto com pretensão histórica tem que ter a palavra interim, para passar um mínimo de credibilidade) nasceu Napoleão. Dizem que ele colocou as ventas pra fora de sua mãe e falou "isso não está cheirando bem". Depois deram um banho na progenitora, o que amenizou um pouco o problema. Mas a impressão de que algo fedia na França continuou nas idéias e nas narinas do sujeito, e ele decidiu que seria imperador. Não contente com aquele cheiro de camembert que imperava no país, Napoleão saiu atrás de novos ares, conquistando tudo o que encontrava pela frente. Exatamente por olhar apenas para as próprias ventas, não percebeu que os ingleses chegavam por trás. E dançou.
Mas os franceses têm uma capacidade de entrar em confusão comparável apenas ao tamanho de suas fuças, e meteram-se em duas guerras mundiais. Na segunda, foram salvos graças à intervenção do General De Gaulle, dotado de uma capacidade estratégica e de uma tromba invejáveis. Dizem que De Gaulle metia muito medo nos seus adversários, principalmente quando ameaçava espirrar.
E após tantas batalhas, eles decidiram investir em outras áreas, como cinema e esportes. Na primeira, o ator Gérard Depardieu fez suspirar metade das mulheres do mundo, com seus dois órgãos sexuais, um deles pendurado entre os olhos. E na segunda, viram surgir o campeão de fórmula 1 Alain Prost, que faturou quatro títulos mundiais. Devido à sua napa, Prost largava sempre em primeiro, mesmo que estivesse na última fila. Depois dele, as regras do esporte foram mudadas. Para ser declarado vencedor, passou a ser exigido que o carro atingisse antes a linha de chegada. E não o piloto.
Hoje em dia, a França continua honrando sua tradição de criar personalidades com um grande sugador de oxigênio, tanto que é presidida por Nicolas Sarkozy. E mesmo que muitos dos franceses já torçam o nariz para ele, ao se casar com a Carla Bruni o baixinho mostrou que pelo menos para as mulheres tem um ótimo faro".

Daniel Cariello
Blog Chéri à Paris

janeiro 16, 2009

R a d i c a i s

Estas "garotas" não sossegam mesmo.
Enquanto a Beatriz leva seus tombos esquiando nos Pirineus...
a Wania se garante pendurada nas cordas
fazendo arvorismo

E me deixam aqui, "planejando o futuro" delas.
Estou muito bem servida de amigas!!!

Certos gestos

Anos atrás, conheci na academia - em Curitiba, (um dia ainda conto uma estória boa de lá) uma mulher, mais nova do que eu, que me falou que era viuva. Contou-me que não saía de casa , não ia ao cinema, nem às festas na família, por uma razão que para ela era básica: não tinha um marido com quem entrar de braços dados.
Imaginei que a perda era recente e que ela ainda não tinha se acostumado com a nova situação e que, com o tempo, iria voltar a viver normalmente. No decorrer da conversa (estávamos em esteiras vizinhas) fiquei sabendo que fazia nove anos que o marido tinha morrido. Eu que vinha tentando consolá-la , fiquei sem palavras! Estava diante daquele tipo de mulher que não existe senão à sombra de um homem. Não preciso dizer que passei a evitá-la.
No entanto, mesmo não querendo ninguém para chamar de meu, morro de inveja dos casais que andam de mãos dadas. Esta é a primeira coisa que presto atenção num casal. Sou capaz de dizer em relação a todos os que conheço, como se comportam quando se trata de darem-se as mãos.
Talvez eu atribua a este gesto um siginificado exagerado , sobretudo entre aqueles casais que não são meros namorados.Não acredito que o casamento, ou a duração da relação, deva ser critério ( ou a justificativa), já que observo casais bem velhinhos caminhando na calçada, de mãos entrelaçadas, como tem que ser.
Mãos dadas devia ser uma regra universal. Com as exceções de sempre, já que em certas culturas as mulheres são obrigadas a andar atrás de seus “senhores”. Mas ninguém que tenha juízo vai querer um desses.
Não funciona mais assim, mas o toque das mãos era o começo do amor. Vinha antes do beijo e só perdia para o encontro dos olhares. Este ainda deixava margem a dúvida. Já as mãos, não. Se eram acariciadas e retribuído o toque, o enlace estava caracterizado. Depois disto, a mão podia até passear um pouco. O encontro de mãos se dava também de supetão, por iniciativa masculina cheia de determinação, quando a promessa de namoro era logo compreendida.
Mas por que um dia as mãos não mais se juntam, permanecem penduradas, lado a lado? Terá sido a pressa dele, uma distração que ela não perdoou, mas também não cobrou, porque tantas mágoas já estavam acumuladas? Ou teria sido ela própria quem recusou o aconchego mecânico, entediada ou irritada que estava? Nunca se sabe...
Não vejo com bons olhos as relações em que as mãos foram largadas, não se unem mais. Podem até durar (e duram), manter algum tipo de cumplicidade, mas uma distância sempre estará separando aquelas duas pessoas. Uma distância de apenas alguns centímetros que revela um tipo de não-entrega.
Por sua vez, nada me comove mais do que as mãos dadas de um casal homossexual. Neste gesto simples e banal, entre eles, além da manifestação de afeto, é um desafio e a expressão de uma luta que ainda está por ser vencida

Pode me chamar de gay

Pode me chamar de gay, não está me ofendendo. Pode me chamar de gay, é um elogio. Pode me chamar de gay, apesar de ser heterossexual, não me importo de ser confundido. Ser gay me favorece, me amplia, me liberta dos condicionamentos. Não é um julgamento, é uma referência. Pode me chamar de gay, não me sinto desaforado, não me sinto incomodado, não me sinto diminuído, não me sinto constrangido.
Pode me chamar de gay, está dizendo que sou inteligente. Está dizendo que converso com ênfase. Está dizendo que sou sensível.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que me preocupo com os detalhes. Está dizendo que dou água para as samambaias. Está dizendo que me preocupo com a vaidade. Está dizendo que me preocupo com a verdade. Pode me chamar de gay. Está dizendo que guardo segredo. Está dizendo que me importo com as palavras que não foram ditas. Está dizendo que tenho senso de humor. Está dizendo que sou carente pelo futuro. Está dizendo que sei escolher as roupas.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que cuido do corpo, afino as cordas dos traços. Está dizendo que falo sobre sexo sem vergonha. Está dizendo que danço levantando os braços. Pode me chamar de gay. Está dizendo que choro sem o consolo dos lenços. Está dizendo que meus pesadelos passaram na infância. Está dizendo que dobro toalha de mesa como se fosse um pijama de seda.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou aberto e me livrei dos preconceitos. Está dizendo que posso andar de mãos dadas com os anéis. Está dizendo que assisto a um filme para me organizar no escuro.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que reinventei minha sexualidade, reinventei
meus princípios, reinventei meu rosto de noite.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que não morri no ventre, na cor da íris, no castanho dos cílios.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou o melhor amigo da mulher,
que aceno ao máximo no aeroporto, que chamo o táxi com grito.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que me importo com o sofrimento do outro, com a rejeição, com o medo do isolamento. Está dizendo que não tolero a omissão, a inveja, o rancor. Pode me chamar de gay. Está dizendo que vou esperar sua primeira garfada antes de comer. Está dizendo que não palito os dentes. Está dizendo que desabafo os sentimentos diante de um copo de vinho.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou generoso com as perdas,que não economizo elogios, que coleciono sapatos.
Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou educado, que sou espontâneo, que estou vivo para não me reprimir na hora de escrever. Pode me chamar de gay.
Que seja bem alto.
A fragilidade do vidro nasce da força e do ímpeto do fogo.

Fabrício Carpinejar

DEZ MOTIVOS PARA BLOGAR

1. Você pode (quase) tudo. Quando faltar inspiração, escreva uma lista de dez motivos para fazer alguma coisa. No final, acabará se divertindo.
2. É bom ter audiência, mesmo sem fazer idéia de quem são os leitores. Você apenas precisa aprender a lidar com essa relação meio íntima com leitores tão anônimos.
3. Com o tempo você percebe que sobrevive sem comentários. Segundo as estatísticas, apenas 1% dos leitores deixa um. Então pare de implorar pelos comentários dos amigos.
4. Blogar ajuda a organizar as idéias, exercitar a escrita e você ainda corre o risco de escrever algo realmente bom.
5. Amigos distantes, ou distanciados, se sentem próximos ao ler o seu blog. Você não precisa de orkut para se relacionar, e só se expõe se, e o quanto, quiser.
6. Você está deixando um registro histórico, da sua vida ou da sua época, embora isso pareça uma grande pretensão agora.
7. O fato de blog não dar dinheiro não é motivo para parar. Pense bem: você realmente não começou porque havia essa possibilidade.
8. Provavelmente você terá mais leitores do que se publicar um livro.
9. Você pode terminar uma lista de dez com nove itens e nenhum editor vai chamar a sua atenção.
Marta Barcellos
Blog Espuminha de leite

janeiro 15, 2009

“Seis bilhões de outros”


Neste caldeirão de culturas, raças e religiões em que se transformou o mundo, globalizado não só na economia (pelos mercados), nas comunicações (pela internet), mas também pela mobilidade da população, malgrado as barreiras criadas pela UE e pelos EUA, o momento (histórico) é de aprender a aceitar o outro e entender que o diferente não é bom nem ruim. É apenas diferente.
Contribui decisivamente para isto iniciativas como esta da exposição “Seis bilhões de outros”, que acontece em Paris, no Grand Palais que a gente pode não só ver como até participar, sem ter que ir lá .
Basta clicar no título da postagem ! Uma experiência imperdível.
Assinada pelo jornalista Yann Arthus-Bertrand, é o resultado de viagens por 75 países, onde mais de cinco mil entrevistas foram realizadas com pessoas comuns, que responderam perguntas como : O que é o amor para você? Qual seu último ataque de riso? O que você aprendeu com seus pais? Ao todo são 40 perguntas cujos temas revelam o quanto somos diferentes uns dos outros e, ao mesmo tempo, tão iguais.
Foi muito bem gasto o tempo que passei ouvindo o que pensam tantas (algumas!) pessoas espalhadas por este mundão.
SOMOS OS MESMOS!!!

Pensar-se

Administrar bem o tempo não é tarefa fácil para algumas pessoas. Como consequência, estão sempre atrasadas e, via de regra, tensas e ansiosas. Quando se trata de administrar o tempo livre, o problema se agrava. Algumas, simplesmente, não sabem o que fazer com ele e todos os projetos adiados para "quando tiver tempo” são esquecidos ou boicotados (o que é quase a mesma coisa). Dentre elas, há ainda as que não se permitem " ficar à toa", sentem-se culpadas. Como se ócio fosse pecado.
Em qualquer caso, saber o que fazer com o tempo livre é uma preocupante questão. Não sendo treinadas, embora anseiem por um tempo livre, em geral, não sabem o que fazer com ele. Quando se trata de natal, carnaval e páscoa o mundo se encarrega de sugerir o que deve ser feito e para onde (não) ir. Mas o que dizer dos muitos feriados como os deste ano? das férias? E na aposentadoria? o que fazer? (tenho amigas a quem aconselhei a continuar trabalhando)
Quem tem que dar forma ao uso do tempo livre somos nós e poucas pessoas estão preparados para fazer isto. É no lazer, quando somos livres para fazer nossas escolhas, que elaboramos as nossas experiências pessoais mais ricas, quando temos oportunidade de nos pensar e de nos construir. Pensar-se não se dá enquanto trabalhamos. Isso a que chamamos, meio sem pensar, de "recarregar as baterias" é vital.
Com a longevidade, a administração do tempo livre tem sido atribuída a instituições que organizam o comportamento da “ melhor idade” (detesto esta expressão). A meu ver, isto acontece, dentre outras razões, porque essas pessoas não foram treinadas para se pensar, não foram ensinadas a se tornar adultas, fazer escolhas nesta área.
Nos tornamos nós mesmos pensando e o lazer no tempo livre, segundo os especialistas, é o melhor caminho.
É aprender, enquanto há tempo, e aproveitar.

janeiro 14, 2009

Na praia

Finquei minha maravilhosa cadeira/espreguiçadeira nas areais do Jurerê às 9 horas . Mesmo considerando o horário de verão, o sol estava tinindo e uns 70% do espaço já estava ocupado. Em “ mesa de pista”, me detive a assitir o desfile dos que fazem caminhadas na pequena faixa de areia (em declive - nada pode ser mais desaconselhável). Sunga ou biquini/maiô + tênis é uma combinação com a qual nunca me acertei, mas sempre tem adeptos. Na variedade de formas, idades e roupas se entrevê estilos de vida, hábitos alimentares, origens...
O “ Diário” de ontem alardeou em manchete que a quantidade de argentinos por aqui superava as expectativas. De fato, à tarde no supermercado não se ouvia português. Não faço idéia de como essa “ crise” repercute por lá. A presença deles por aqui sempre foi o termômetro da economia, cujas flutuações sempre são mais visíveis do que as nossas. Numa delas amarguei um bom tempo para vender um imóvel, em virtude do excesso de ofertas. Eles haviam colocado à venda suas residências de veraneio. Quando começam os “panelaços” por lá já se sabe que respingará aqui. Ainda que os catarinenses colecionem piadas de argentinos, eles são sempre bem-vindos pois deixam dinheiro...
Voltando à praia. Não demorou para que a revista dos corpos se tornasse monótona. Deixei-os em paz e fui para o meu livro.
Pouco tempo depois, me dei conta do quanto havia aumentado o número de pessoas, enquanto estive distraída. Do meu lado, “instalaram-se” duas famílias francesas: uma delas com criança e outra com a sogra que não era a avó. Sem detalhes, mas imagens como as que vi é que me fazem acreditar que o amor existe. E é cego!
Picolé de limão, água de côco, água água, nada deu jeito. Tinha que dar um mergulho. Escolhi um casal que estava um pouco mais atrás para “ dar uma olhada” na minha bolsa. Ela estava me observando há algum tempo...Uma delícia a água. Na volta, pretendia esticar a cadeira e deitar de bruços...Mal cheguei da água, a criatura “baixou” ao meu lado e conversou mais de uma hora. Tive que ir embora.
A caminho do estacionamento passei pelo medidor de UV que marcava 30. Pensei que estava empate com o meu protetor. Fiz a foto e em seguida verifiquei haver alterado para o nível 50. Ao chegar em casa constatei que a minha foto registrou o momento da alteração, ou seja, não marca nada.
Estava mais para os 50 mesmo ....

Sol e serotonina

Apesar de bem informados, os chamados "viciados" em sol insistem em passar horas se bronzeando mesmo sabendo sobre os riscos, como envelhecimento precoce e câncer de pele. Os problemas causados pela exposição contínua aos raios ultravioleta UVA e UVB e os cuidados a serem tomados - especialmente durante o verão - não são novidades mas a teimosia pode ser explicada pela serotonina.
O sol é um estimulante da produção de serotonina, um neurotransmissor responsável por levar os estímulos de um neurônio ao outro, também a responsável pela sensação de bem-estar. Por isso, sol e bem-estar são constantemente associados.
Filtro solar e bom senso são recomendações simples dos especialistas.
Leia mais no Ciência e Saúde clicando no título.

Quero ou preciso?


De tanto ouvir falar em crise, recessão e quebradeira, era para todo mundo estar mais preocupado com o que se prenuncia para 2009.
Tenho visto projetos de troca de carro, compra de imóvel e viagem para o exterior sendo adiados. Com a exceção óbvia do ignorante de sempre, quem vive do seu trabalho começa a pensar um pouco mais antes de dar passos mais largos e assumir compromissos maiores, de médio ou longo prazo.
Mudanças radicais já são registradas no comportamento dos consumidores em países mais diretamente afetados. Entre nós, alterações ainda não se fazem notar. Que o digam os números das vendas de natal e o fato de os shoppings continuarem cheios de gente comprando e comprando. Ainda não houve tempo nem para pagar a fatura do cartão de crédito nem para desfrutar do que foi adquirido ou ganho de presente natalino, no entanto as lojas estão (continuam) cheias. Comentei isto aqui em casa e ouvi que não sendo uma jovem, não desejo tantas coisas. Será verdade? Aqui não se doura a pílula, nossa autoestima está sempre posta à prova. Mas não é bem assim. Tenho meus "sonhos de consumo". Apenas não são mais os mesmos. Por exemplo, passei semanas procurando pastis. Isto não conta?
Por outro lado, se estivesse nestas alturas comprando por impulso, algo estaria errado comigo. Em outra área pode até estar, mas isto é outra conversa...
Ensaiei pensar que se essa gente enquanto está nas filas (para o provador, para o caixa, tem fila para tudo) aproveitasse para procurar saber o que está acontecendo na sua cabeça. Se na hora de se decidir por uma compra, se perguntasse: "eu quero porque sim" ou "eu quero porque preciso"?
Seria de grande efeito. Fiquei imaginando as pessoas desistindo, saindo das filas, largando as tão disputadas peças (a mulherada trava uma verdadeira batalha).
Seria um fenômeno a ser objeto de estudo!
Isso sem colocar em questão o conceito de “necessidade”, nem tampouco querendo classificar as coisas como “supérfluas” e “essenciais”. Aí sim, teria sempre alguém para achar que o supérfluo é necessário o que levaria a uma discussão interminável, sobre o sexo dos anjos.
A única conclusão plausível é a de que realmente não entendo nada quando o assunto é consumir. Logo eu que tenho tantos sapatos que tenho até vergonha de contá-los.
Deve ser por isso.

janeiro 13, 2009

E la nave va


Fragmento do filme de Fellini - de 1983 - em que se interpreta Schubert em copos de cristal. Leia mais clicando no título da postagem.

HOMEM SEM BARRIGA

Este texto me foi enviado por um amigo fofinho que tem esta imprescindível barriguinha, cujo melhor efeito é nos dispensar de ir a extremos lutando contra a nossa.

Namore um barrigudinho!
Tenho um conselho valioso para dar aqui: se você acabou de conhecer um rapaz, ficou com ele algumas vezes e já está começando a imaginar o dia do seu casamento e o nome dos seus filhos, pare agora e me escute! Na próxima vez que encontrá-lo, tente disfarçadamente descobrir como é sua barriga.
Se for musculosa, torneada, estilo `tanquinho´, fuja! Comece a correr agora e só pare quando estiver a uma distância segura. É fria, vai por mim. Homem bom de verdade precisa, obrigatoriamente, ostentar uma barriguinha de chopp.
Se não, não presta. Estou me referindo àqueles que, por não colocarem a beleza física acima de tudo (como fazem os malditos metrossexuais), acabaram cultivando uma pancinha adorável. Esses, sim, são pra manter por perto. E eu digo por quê. Você nunca verá um homem barrigudinho tirando a camisa dentro de uma boate e dançando como um idiota, em cima do balcão.
Se fizer isso, é pra fazer graça pra turma e provavelmente será engraçado, mesmo. Já os `tanquinhos´ farão isso esperando que todas as mulheres do recinto caiam de amores - e eu tenho dó das que caem.
Quando sentam em um boteco, numa tarde de calor, adivinha o que os pançudos pedem pra beber? Cerveja! Ou coca-cola, tudo bem também. Mas você nunca os verá pedindo suco. Ou, pior ainda, um copo com gelo, pra beber a mistura patética de vodka com `clight´ que trouxe de casa.
E você não será informada sobre quantas calorias tem no seu copo de cerveja, porque eles não sabem e nem se importam com essa informação.
E no quesito comida, os homens com barriguinha também não deixam a desejar. Você nunca irá ouvir um ah, amor, `Quarteirão´ é gostoso, mas você podia provar uma `Mc Salada´ com água de coco. Nunca! Esses homens entendem que, se eles não estão em forma perfeita o tempo todo, você também não precisa estar.
Mais uma vez, repito: não é pra chegar ao exagero total e mamar leite condensado na lata todo dia! Mas uma gordurinha aqui e ali não matará um relacionamento. Se ele souber cozinhar, então, bingo! Encontrou a sorte grande, amiga.
Ele vai fazer pra você todas as delícias que sabe, e nunca torcerá o nariz quando você repetir o prato. Pelo contrário, ficará feliz.
Outra coisa fundamental: homens barrigudinhos são confortáveis!
Experimente pegar a tábua de passar roupas e deitar em cima dela. Pois essa é a sensação de se deitar no peito de um musculoso besta. Terrível!
Gostoso mesmo é se encaixar no ombro de um fofinho, isso que é conforto. E na hora de dormir de conchinha, então? Parece que a barriga se encaixa perfeitamente na nossa lombar, e fica sensacional.
Homens com barriga não são metidos, nem prepotentes, nem donos do mundo.
Eles sabem conquistar as mulheres por maneiras que excedem a barreira do físico.
E eles aprenderam a conversar, a ser bem humorados, a usar o olhar e o sorriso pra conquistar.
É por isso que eu digo que homens com barriguinha sabem fazer uma mulher feliz.

C. MOURA
Psicóloga e Terapeuta de casais.

Recebi do TL - via orkut. O fato de a origem ser Vila do Conde é mera coincidência.

A poética da biologia

Em que pese me encontrar na cidade recomendada pelo NYT , passei os últimos tres dias na janela para o mundo, que é o meu laptop, ou na Barcelona maldita e misteriosa d ' O Jogo do Anjo que começa assim:
“Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história...
Um escritor está condenado a recordar esse momento porque, a partir daí, ele está perdido e sua alma já tem um preço
.”

A encomenda do “anjo” é um livro com potencial de influenciar milhões de vidas. Dentre muitos, escolhi este diálogo entre o anjo e o escritor, a propósito da fé:
“....
- Gostaria de começar perguntando o que é a fé para você?
Refleti alguns instantes.
- Nunca fui uma pessoa religiosa. Mais do que acreditar ou não acreditar, tenho dúvidas. A dúvida é minha fé.
- Muito prudente e muito burguês. Mas jogando a bola para fora não se ganha a partida. Que explicação daria para o fato de crenças de todo tipo aparecerem e desaparecerem ao longo da história ?
- Não sei. Suponho que serão os fatores sociais, econômicos e políticos . Está falando com alguém que deixou de frequentar a escola aos 10 anos. História não é o meu forte.
- A História é onde a biologia deságua, Mártin.
- Acho que não fui à aula no dia que deram essa lição.
- Essa lição não se aprende ma escola, Mártin. Ela nos é dada pela razão e pela observação da realidade. Essa é a lição que ninguém quer aprender e, portanto, a que devemos analisar melhor para poder fazer nosso trabalho direito. Toda oportunidade de negócio tem seu ponto de partida na incapacidade de uma outra pessoa para resolver um problema simples e inevitável.
- Estamos falando de religião ou de economia?
- Pode escolher a nomenclatura.
- Se entendi bem, está sugerindo que a fé, o ato de acreditar em mitos, ideologias ou lendas sobrenaturais, é consequência da biologia.
- Nem mais nem menos.
- Uma visão um tanto cínica para um editor de livros religiosos - comentei.
- Uma visão profissional e desapaixonada - amenizou Corelli. - O ser humano acredita como respira, para sobreviver.
- Essa teoria é sua?
- Não é uma teoria, é uma estatística.
- Ocorreu-me que tres quartos do mundo, pelo menos, estariam em desacordo com essa afirmação – comentei.
- Claro. Se estivessem de acordo, não seriam crentes potenciais. Não se convence ninguém da verdade de alguma coisa na qual não precisa acreditar por imperativo biológico.
- Está sugerindo então que viver na ilusão faz parte de nossa natureza?
- Sobreviver faz parte de nossa natureza . A fé é uma resposta instintiva a certos aspectos da existência que não podemos explicar de outra forma , seja isso o vazio moral que percebemos no universo, a certeza da morte, o mistério da origem das coisas ou o sentido da própria vida, ou ainda a completa ausência dele. São aspectos elementares e de extraordinária simplicidade, mas nossas próprias limtações nos impedem de responder de modo compreensível a tais perguntas e por isso criamos, como defesa uma resposta emocional. É pura e simples biologia."


E por aí vai...
Ainda não terminei. Ontem, para desenferrujar, andei quatro kms e puxei os ferros na academia.

janeiro 12, 2009

Floripa no New York Times

The Place to Be: Florianópolis, Brazil
Florianópolis é um dos melhores destinos para 2009, segundo o The New York Times. O único destino no Brasil, de acordo com a publicação, Floripa representa o local mais badalado para se visitar. E para quem ficou curioso para saber quais são os outros 43 locais para se fazer roteiros culturais, gastronômicos, familiares, ecológicos, luxuosos e até econômicos, pode conferir clicando no título da postagem.

Gonzaguinha - O que é? O que é?

Souvenir


Fiquei alegremente surpreendida por haver encontrado esta foto!
Passei uns dias lamentando que, não só ela como outras também interessantes, estivessem no meu cel perdido/roubado no fim do ano. Não estavam...É que tinha escolhido esta imagem do banheiro, o suprassumo do kitsch, como símbolo da casa alugada na praia da Daniela, onde temos passado (Ro,Cris,André, Juju, Ted, Juca, Ale, Artur e Wania) ótimos momentos, sempre em dezembro.
Saudades...

A MULATA DO GOIS

Obama coisa nenhuma. Ela vai salvar o mundo
"Eu quero a mulata do Gois, a mais radical de todas, que do alto de seu salto plataforma dez, nota dez, sapateie no tamborim do juízo que ainda me resta e, sem dó, orgulhosa de sua superioridade, de sua beleza tremebunda, não deixe trema sobre trema, despreze todos os hifens acadêmicos e promova no âmago amargo, na minha triste correção ortográfica, um sacode de alegria.
Que arrepie o salgueiro.
Que grite chegou a hora, mocidade! Que promova a reforma da língua, buliverse os costumes e fundemos, mestre-sala e portabandeira de uma nova civilização, a vida pautada no descontrole das sensações.
A mulata do Gois, é disso que se precisa. Poesia numa hora dessas. Voto nela, com todo o respeito.
A mulata do Gois é a contrapartida brasileira aos mísseis do Hammas. Talvez não seja exatamente o que se compreenda — base de torpedos sensuais, furacão dois mil — como um projeto de paz na Terra. Mas é tudo de bom quando cai, explode o coração na maior felicidade, entre os homens de boa vontade.
Obama sabe do que estou falando. Ela rima, dá sentido ao enredo de 2009 e levanta a arquibancada democrata, judaica ou palestina.
É ecumênica. Respeita a Convenção de Genebra, não estoura o tempo de desfile e quer dizer apenas o que está em seu baticumbum miraculoso.
Seja feliz. Ela não finge discursos, não desfila alegorias proustianas. Diz no pé.
Finalmente a graça de uma mulher sem subtexto intelectual. Direto ao que interessa.
Ela veio do cais dourado da velha Bahia, subiu mais de 1.800 colinas, até balançar todos os chocalhos em nossas retinas cansadas de brancaranas azedas, branquelas anoréxicas desfilando um eterno Fashion Rio de tédio e depressão. A alegria é a prova dos nove, a carne é o alimento dos homens. Sinto que a mulata do Gois vai saber compreender — aquelas sandálias romanas subindo pelas coxas da imaginação nacional — quando eu lhe sussurrar no ouvido o mantra da espécie macha que ela invoca: "Chora, cavaco".
Quero a mulata do Gois au grand complet, na língua nagô, com tudo que lhe for harmonia, paio, evolução e bateria.
A trufa branca do Gero, o azul-piscina do Copacabana Palace, o verde do dólar, o quarteirão amarelo-ouro da H. Stern em Ipanema.
Tudo bobagem. Meu reino, todas as cores do meu grêmio recreativo, pela mulata do Gois.
Voto na que tenha o óbvio mais ululante e o apresente alvissareiro, da cor do pecado, da jabuticaba, entre os tantãs do meu sambódromo já tão devagar, tão devagarzinho. Que atravesse o samba dessa vida tão segundo grupo, chegue na apoteose de mim, ó pedaço arrancado de mim, e volte tudo de novo com os propósitos mais terríveis e antigos. Bagunce o coreto do velho. Bote o barraco abaixo.
Eu nasci cem anos atrás, no ventre de uma revista "Fon-Fon", e não tem nada desta galeria de belezas que me seja de mais espanto.
Havia o footing da avenida, na porta da Colombo — e eu estava lá. Vestido de almofadinha, cofiando os bigodes ao lado de Bilac, eu vi passar, saiote acima do joelho, as melindrosas do J. Carlos — e ele atrás delas, entre outras preces, também fazia fiu-fiu.
Eu vi as polacas do Noel, as escurinhas do Geraldo Pereira e as prostitutas do Jorge Amado. Quero a mulata do Gois aos meus pés.
Quarenta anos depois, eu ainda estava lá, coração aos pulos, degrau em degrau, e subi ao estúdio do fotógrafo Valentim. Eternamente boquiaberto com a capacidade de elas se reinventarem, vi as certinhas do Lalau serem eternizadas de frente, de costas e de perfil para as páginas da "Última Hora". Dançamos o hully-gully. Depois fui à redação de "O Cruzeiro", na Praça Mauá, ver as garotas do Alceu.
Passei pela porta do Instituto de Educação para carimbar as cadernetas e entronizar as normalistas no panteon das curvas nacionais.
Tomamos uma vaca-preta no Bob's.
Dei um banho de cuba-libre no violão das vedetes que rebolavam na Tiradentes, ofereci o frontispício como alvo para que as chacretes arredondadas mirassem o bacalhau do velho guerreiro. Todas inesquecíveis, azeitonas verdes, cebolas louras, servidas com um fio de azeite português.
As boletes paulistas, as deusas safadinhas da pornochanchada, as coelhinhas ora glabras, ora com florestas amazônicas, as cocotas, as uvas, os aviões, as cachorras, as estagiárias de calcanhar sujo da PUC e a Miss Brasil 2000.
A todas essas musas acompanhei neste século e lá vai fumaça de alucinações calipígias, decotes abissais e espartilhos atochados. Saudades sinceras. Hoje derramo todo o meu capilé de alumbramento aos pés, ao lombo e às curvas da estrada que vai dar no avarandado, no puxadinho da mulata do Gois. Ela não deixa dúvidas. Felicidade, passou no vestibular do novo padrão de beleza. A saúde venceu. É a mulher de volta aos básicos instintos do paraíso divino. A mulata do Gois convoca os da sua espécie para celebrar a alegria de estar vivo e, depois de concentrados em tamanha euforia, sair por aí, batendo tambor num novo carnaval de êxtases e sabores.
Quero a mulata do Gois até o fim do meu período, a chave-de-ouro do texto, o filé idem do meu banquete magro, o marrom-glacê desta quarta-feira de cinzas. Quero, repito, bato o pé e reclamo, a mais tremebunda de todas, aquela que não deixa qualquer dúvida sobre seus despropósitos para com nós outros, tristes escravos de sua alegria. Ela vai acabar com a guerra na Faixa de Gaza, equilibrar o mercado financeiro, dar um choque de ordem na Rio Branco.
Depois, jamais extenuada, ela cuidará de quem mais precisa. Quando eu achar que acabou a crônica, a mulata do Gois vai afinar o reco-reco, pegar no ganzê, pegar no ganzá, e dar um choque de desordem, instaurar a sua Sapucaí de delícias na minha cidade ortográfica tão arrumadinha. Urge. Careço. Preciso.
Quero a mulata do Gois, suas redondilhas, seus adereços e, "delira, meu povo", seu maravilhoso grito de libertação.
"

Joaquim Ferreira dos Santos
(O Globo de hoje)

Sorriso difícil

Veja a que ponto chegamos: deu no NYTimes que o sorriso está em falta .
Quando tudo vai mal na economia, além das guerras, as catástrofes, inclusive as pessoais, os ânimos em baixa, não há como sair por aí sorrindo.
"Alegria ou tristeza, arrependimento ou expectativa, triunfo ou constrangimento, afeto ou maldade, o importante -e o mais difícil hoje em dia- é continuar sorrindo".
Para melhorar o humor dos motoristas, na Tailândia os policiais-motociclistas passaram a usar um sorriso vermelho pintado sobre a habitual máscara branca contra a poluição, enquanto Cingapura promoveu uma campanha Quatro Milhões de Sorrisos e, no Japão, onde a seriedade da vida pode ser esmagadora, os trabalhadores estão sendo treinados para segurar os "hashis" nos dentes de modo a simular um rosto risonho.
Com a queda das Bolsas, muitos se divertem com a desgraça alheia e fazem piadas com os poderosos e suas perdas. Mas não está fácil sorrir. Há gente buscando na plenitude da ioga uma oportunidade para rir. Os instrutores estariam dando uma ajudinha, imprimindo mais leveza a esta prática que é sempre solene. "A verdade está lá no fundo daquele lugar que ri."
Talvez seja justamente nesse lugar que o mundo precisaria estar agora.
Rir é saudável, a alegria é saudável, um pouco de patetice faz bem.