janeiro 11, 2009
GUEVARA
"Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto." No dia 8 de outubro de 1967, essa frase foi gritada por um guerrilheiro maltrapilho e sujo metido em uma grota nos confins da Bolívia. Nunca mais foi lembrada. Seu esquecimento deve-se ao fato de que o pedido de misericórdia, o apelo desesperado pela própria vida e o reconhecimento sem disfarce da derrota não combinam com a aura mitológica criada em torno de tudo o que se refere à vida e à morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, argentino de Rosário, o Che, que antes, para os companheiros, era apenas "el chancho", o porco, porque não gostava de banho e "tinha cheiro de rim fervido".
(Veja, outubro/2007 - acessar clicando o título desta postagem).
CHE foi transformado numa lenda para os jovens como símbolo de "rebeldia". E, assim, o revolucionário socialista mais famoso do século XX, virou POP, passando a ser mais um " produto" que gera dinheiro para muitos, inclusive para a indústria cinematográfica hollywoodiana.
O retrato de Che feito por Alberto Korda em 1960 é agora uma imagem de múltiplos significados: é pop no biquíni da Cia. Marítima vestido por Gisele Bündchen e uma manifestação de truculência e mau humor nas tatuagens de Maradona e Mike Tyson
No video abaixo, Paquito D'Rivera e Kai Chen, fugitivos do comunismo, sobre o aspecto nefasto do marketing em torno de figuras como Che Guevara e Mao Tsé-Tung.
(Veja, outubro/2007 - acessar clicando o título desta postagem).
CHE foi transformado numa lenda para os jovens como símbolo de "rebeldia". E, assim, o revolucionário socialista mais famoso do século XX, virou POP, passando a ser mais um " produto" que gera dinheiro para muitos, inclusive para a indústria cinematográfica hollywoodiana.
O retrato de Che feito por Alberto Korda em 1960 é agora uma imagem de múltiplos significados: é pop no biquíni da Cia. Marítima vestido por Gisele Bündchen e uma manifestação de truculência e mau humor nas tatuagens de Maradona e Mike Tyson No video abaixo, Paquito D'Rivera e Kai Chen, fugitivos do comunismo, sobre o aspecto nefasto do marketing em torno de figuras como Che Guevara e Mao Tsé-Tung.
janeiro 10, 2009
Retorno à barbárie
"Desde criança fui acostumado a ver os judeus sob duas óticas. A mais antiga estava ligada ao cristianismo conservador que atribuía, erroneamente, a morte de Jesus Cristo aos judeus. Daí o verbo que ainda hoje empregamos no Nordeste: "deixe de judiar com essa criança!". A outra visão, construída a partir do holocausto, mostrava figuras esquálidas de judeus depositados em campos de concentração nazista. Seres humanos reduzidos a farrapos. Desastradamente despedaçados pela ira de Hitler e seus seguidores... As fotos ainda hoje chocam a consciência humana: como é que aquilo foi possível?
Agora, sou tomado de igual surpresa diante da barbárie cometida – pelos mesmos judeus? – em relação ao povo palestino. O olhar desesperado de crianças sendo perseguidas pelos destruidores foguetes israelenses. O grito dilacerado de mães aflitas..
Será que a humanidade não mudou? Será que o ser humano é mesmo mau? O silêncio, quase cúmplice, das grandes nações chega a ser insultante. Por que nos calamos?
A argumentação mais imediata seria a de afirmar que os árabes também praticam iguais atrocidades... Ora, não estou interessado nas razões geopolíticas que possam motivar essas atitudes. A única evidência, que dilacera a humanidade, é a de que o ser humano mata intencionalmente o ser humano. Que as diferenças não podem ser resolvidas numa mesa de negociação, com diálogo e tolerância.
Essas bombas e foguetes, que caem dos dois lados, são atestados contundentes que ainda precisamos evoluir muito para chegar à condição de humanos. Não, esse combate não é glorioso, nem sábio. Nem mesmo uma defesa. Nem caminho para a justiça. A morte não pode ser a contabilidade possível das diferenças entre seres humanos...
Isso é o retorno à barbárie..."
Antonio Mourão Cavalcante - Médico e antropólogo.
O Povo -10 Jan 2009
Agora, sou tomado de igual surpresa diante da barbárie cometida – pelos mesmos judeus? – em relação ao povo palestino. O olhar desesperado de crianças sendo perseguidas pelos destruidores foguetes israelenses. O grito dilacerado de mães aflitas..
Será que a humanidade não mudou? Será que o ser humano é mesmo mau? O silêncio, quase cúmplice, das grandes nações chega a ser insultante. Por que nos calamos?
A argumentação mais imediata seria a de afirmar que os árabes também praticam iguais atrocidades... Ora, não estou interessado nas razões geopolíticas que possam motivar essas atitudes. A única evidência, que dilacera a humanidade, é a de que o ser humano mata intencionalmente o ser humano. Que as diferenças não podem ser resolvidas numa mesa de negociação, com diálogo e tolerância.
Essas bombas e foguetes, que caem dos dois lados, são atestados contundentes que ainda precisamos evoluir muito para chegar à condição de humanos. Não, esse combate não é glorioso, nem sábio. Nem mesmo uma defesa. Nem caminho para a justiça. A morte não pode ser a contabilidade possível das diferenças entre seres humanos...
Isso é o retorno à barbárie..."
Antonio Mourão Cavalcante - Médico e antropólogo.
O Povo -10 Jan 2009
JUVENTUDE
"Domingos, Aderbal e Paulo: o elixir da eternidade
Todo mundo falava de "Fatal" ("Elegy"), filme de Isabel Coixet baseado em novela de Philip Roth, como novo suprassumo da filmografia sobre os dilemas do homem velho que se vê diante de um amor jovem. O romance do personagem vivido por Ben Kingsley com a aluna encarnada em Penélope Cruz, contudo, não convence na dramaturgia, e, por falar em drama, é em dramalhão que termina a trama.
Muito melhor é a farsa armada por Domingos de Oliveira em "Juventude", onde o diretor contracena com Paulo José e Aderbal Freire Filho. Transfigurados em personagens ficcionais (Paulo é um ricaço dividido entre a ex-esposa e uma mulher mais jovem; Aderbal, um médico outrora garanhão, hoje solitário na tentativa de salvar a filha do vício em heroína; Domingos, um dramaturgo profundamente amado e atormentado por uma princesa de 20 anos), os três setentões, no decorrer de um longo regabofe, percorrem suas trajetórias, suas agruras existenciais e, sobretudo, seu pânico de que a velhice afaste, no frigir dos ovos, esses quitutes tardios de amor que cismam em enfeitar a vida dos coroas. Instigante no filme é que as jovens mulheres e a filha viciada jamais aparecem em cena.
Suas vozes sequer são ouvidas quando estão ao telefone com os seus velhos. Como se eles estivessem já numa espécie de purgatório terreno, e lhes restasse aquele encontro para resolverem suas questões pendentes: abandonar antes de ser abandonado ou entregar-se aos estertores da lascívia? Dar uma última guinada na vida? Escrever o livro que jamais se escreveu? Pedir dinheiro emprestado para dedicarse à filha doente?
O filme começa num clima de ensaio, ou de um aquecimento de jogo de tênis. A gente tem certeza de que vai ser um documentário, de que é a vida desses três atores e criadores que vamos espreitar na tela, ansiamos até que seja isso. Mas, à medida que a ação se desenrola, os personagens vão se insinuando sorrateiramente e levando o espectador, por ora, à ilusão de jamais tê-los visto. A direção é difícil de classificar, se é que houve uma direção formal. A impressão que se tem é de que, ainda que decorado, o texto passa por um filtro de improviso, o improviso das emoções, o improviso da alma, a inquietação de devorar o texto e o tempo como uma última oportunidade.
Deve ser por isso que as falas são tão velozes e as dicções desmoronam sobre si: é preciso dizer tudo antes que seja tarde, antes que a morte venha e roube o que resta do vinho, o derradeiro suflê, a baforada final, o último pudim.
Como se Paulo, Domingos e Aderbal fossem aprisionados pelo filme e aqueles 72 minutos deliciosos, de repente, se convertessem na reserva do tanque: junto com a fita, acaba a vida; junto com a lâmpada, apaga-se a chama; e a tela branca é o vazio, sendo as próximas sessões meras reproduções, portarretratos em movimento de vidas que já se foram. Esta fala rápida, se por um lado pode confundir os ouvidos em algumas passagens, cria, por outro, uma aura de naturalidade que seria impossível num texto mais cadenciado, numa projeção mais empostada das falas.
Nesse corre-corre vocal, a personalidade dos três atores acaba por se desnudar, deixa o corpo dos personagens como num exorcismo involuntário: paralelamente à ficção, passa, em outra banda, o tal documentário que o filme promete no subtexto, a ponto de muita gente que sai do cinema achar, de novo, que é, no duro, uma tripla biografia em que a gente leva de brinde uma trama ficcional.
Que confusão! Que doce confusão! Quanto humor e quanta amargura esses homens escoam, quanta sacanagem, quanta putaria, quanta grandeza, quanta sordidez, quanto amor, quanta amizade, quanto despeito, quanto maujeito, quanta destreza, quanta decrepitude, quanta beleza, quanta juventude, desde uma radiante manhã na serra até o amanhecer incrédulo após uma noite que se faz súbito sombria e traz a morte a espreitar os corações em polvorosa. Da projeção de "Juventude" saí, assim, com a estranha sensação de que meus 43 anos são mais velhos que os quase 210 vividos por aquelas três expressões de uma arte maior.
Pois a arte é vida eterna."
Arnaldo Bloch (jornal O Globo de hoje)
janeiro 09, 2009
Dançando na chuva
MOMENTOS INCRIVELMENTE MÁGICOS DO CINEMA e uma bela representação do que faz um apaixonado. Andar nas nuvens é pouco...Quando Gene Kelly estava filmando essa cena se encontrava com febre de 39/40 graus. Dá para imaginar que a versão final foi uma dentre as múltiplas tentativas em busca da perfeição. Já vi mil vezes e nunca canso.
"IPSO FACTO"
PORTUGAL CURVA A ESPINHA
"O mais espantoso no acordo ortográfico celebrado entre o Brasil, Portugal e os outros seis países em que se fala o português, que por aqui acaba de entrar em vigor (embora ainda haja prazo até 2012), é que os portugueses tenham concordado em assinálo. Por um motivo simples: é que o assim chamado português de Portugal (quanto à versão escrita do idioma, não haverá mais razão para tal referência, pois agora as ortografias se fundem artificialmente) sai muito mais machucado da reforma do que o português do Brasil. Por isso, Portugal resistiu a aderir ao acordo durante quase vinte anos, mas, de repente, inexplicavelmente, curvou a espinha e perdeu toda a dignidade, digamos, filológica (eu ia dizer mais corretamente "linguística", porém a palavra sem trema é insuportável, soa a linghística).
Um exemplo simples de como Portugal perdeu muito mais: no Brasil jamais se dirá que alguém "foi à festa com seu fato mais elegante". Se o bom leitor ouvir essa frase em alguma boca, pode-se ter certeza rigorosa de que a ouviu vazada no belo sotaque português. Nenhum brasileiro usa tal forma de expressão, pois aqui a palavra "fato" significa apenas "acontecimento". Só em estado de dicionário, como dizia o velho Drummond, poderá ser encontrada como sinônimo de "terno" (embora há muito tempo as peças sejam só duas, pois o colete caiu de moda, a roupa masculina manteve a designação).
Já em Portugal, para designar "acontecimento", o termo é, sempre foi, "facto" — e ninguém, nos últimos cem anos (ou quase isso, pois a ortografia portuguesa ora alterada não sofria qualquer mudança substancial desde 1911, quando entrou em vigor, após trabalho inestimável do foneticista Gonçalves Viana, trabalho que acabou com a balbúrdia ortográfica), pensou em eliminar o "c" medial que no Brasil há muito deixou de existir. Na grafia portuguesa, entretanto, foi mantido porque sempre soou de maneira claríssima na pronúncia, correspondendo ao significado único de "acontecimento".
Pergunta-se: ainda que a equivocada mudança tenha botado abaixo o "c" da palavra "facto", os portugueses deixarão de pronunciá-lo? É de duvidar-se, pois a língua falada, que é a língua primitiva, original, mãe da outra, tem uma força muito superior à da língua escrita (verdade que a atual mudança anticientífica não levou em consideração).
Por essas e por outras é que se disse que o português de Portugal, tal como foi usado no último século, fica muito mais prejudicado graficamente do que o português do Brasil. Não apenas em relação à citada palavra "facto". Lá eles escrevem — e pronunciam, eis o dado básico — "acto", "actor", "director" e dezenas de outras palavras nas mesmas condições.
Entretanto, também os brasileiros sofremos. Nossa "idéia" e muitas palavras com final semelhante perdem o acento gráfico para deixar tudo igual e sem caráter por lá e por aqui. Que diabo, o acento servia exatamente para mostrar que a palavra tem um jeito, um sabor especial aqui e outro lá (em Portugal a pronúncia é muito próxima de algo como idaia)! Assim, eram roupagens diferentes para palavras diferentes com pronúncias rigorosamente diferentes, mas agora enfiaram tudo numa trituradora brutalizante.
Os burocratas que trabalharam pelo acordo insensato sabem muito bem que, na prática, ele é irrealizável. Não se passarão cinquenta (a pronúncia seria cinkenta?) anos para que se reclame a volta do bom senso. No momento a situação é esta: telefono para a responsável pelo setor de revisão de uma grande editora. Minha amiga, competente e habitualmente tranquila, parece perder a respiração, afogada entre hifens que surgem como visita incômoda ou caem como fruta madura. E toda a sua equipe lembra a casa de orates do Dr. Simão Bacamarte, no caso apenas atrás de pulgas que nascem numas palavras e morrem noutras.
Que desejam afinal os autores do acordo? Simples. Querem é impedir nosso prazer de ler Eça e Camilo ou, entre os atuais, Saramago e Miguel Sousa Tavares. Prazer que, entre outras coisas, vem das pequeninas diferenças ortográficas, que não atrapalham em nada o idioma único, mas nos fazem sentir o prazer de ler os portugueses como portugueses. E eles se autodefinem a partir da ortografia. Ou se autodefiniam.
Querem acabar aos poucos com cada um dos nossos pequenos prazeres.
Acabam de matar mais um."
Marcos de Castro (Jornal O Globo, 9.1.2009)
"O mais espantoso no acordo ortográfico celebrado entre o Brasil, Portugal e os outros seis países em que se fala o português, que por aqui acaba de entrar em vigor (embora ainda haja prazo até 2012), é que os portugueses tenham concordado em assinálo. Por um motivo simples: é que o assim chamado português de Portugal (quanto à versão escrita do idioma, não haverá mais razão para tal referência, pois agora as ortografias se fundem artificialmente) sai muito mais machucado da reforma do que o português do Brasil. Por isso, Portugal resistiu a aderir ao acordo durante quase vinte anos, mas, de repente, inexplicavelmente, curvou a espinha e perdeu toda a dignidade, digamos, filológica (eu ia dizer mais corretamente "linguística", porém a palavra sem trema é insuportável, soa a linghística).
Um exemplo simples de como Portugal perdeu muito mais: no Brasil jamais se dirá que alguém "foi à festa com seu fato mais elegante". Se o bom leitor ouvir essa frase em alguma boca, pode-se ter certeza rigorosa de que a ouviu vazada no belo sotaque português. Nenhum brasileiro usa tal forma de expressão, pois aqui a palavra "fato" significa apenas "acontecimento". Só em estado de dicionário, como dizia o velho Drummond, poderá ser encontrada como sinônimo de "terno" (embora há muito tempo as peças sejam só duas, pois o colete caiu de moda, a roupa masculina manteve a designação).
Já em Portugal, para designar "acontecimento", o termo é, sempre foi, "facto" — e ninguém, nos últimos cem anos (ou quase isso, pois a ortografia portuguesa ora alterada não sofria qualquer mudança substancial desde 1911, quando entrou em vigor, após trabalho inestimável do foneticista Gonçalves Viana, trabalho que acabou com a balbúrdia ortográfica), pensou em eliminar o "c" medial que no Brasil há muito deixou de existir. Na grafia portuguesa, entretanto, foi mantido porque sempre soou de maneira claríssima na pronúncia, correspondendo ao significado único de "acontecimento".
Pergunta-se: ainda que a equivocada mudança tenha botado abaixo o "c" da palavra "facto", os portugueses deixarão de pronunciá-lo? É de duvidar-se, pois a língua falada, que é a língua primitiva, original, mãe da outra, tem uma força muito superior à da língua escrita (verdade que a atual mudança anticientífica não levou em consideração).
Por essas e por outras é que se disse que o português de Portugal, tal como foi usado no último século, fica muito mais prejudicado graficamente do que o português do Brasil. Não apenas em relação à citada palavra "facto". Lá eles escrevem — e pronunciam, eis o dado básico — "acto", "actor", "director" e dezenas de outras palavras nas mesmas condições.
Entretanto, também os brasileiros sofremos. Nossa "idéia" e muitas palavras com final semelhante perdem o acento gráfico para deixar tudo igual e sem caráter por lá e por aqui. Que diabo, o acento servia exatamente para mostrar que a palavra tem um jeito, um sabor especial aqui e outro lá (em Portugal a pronúncia é muito próxima de algo como idaia)! Assim, eram roupagens diferentes para palavras diferentes com pronúncias rigorosamente diferentes, mas agora enfiaram tudo numa trituradora brutalizante.
Os burocratas que trabalharam pelo acordo insensato sabem muito bem que, na prática, ele é irrealizável. Não se passarão cinquenta (a pronúncia seria cinkenta?) anos para que se reclame a volta do bom senso. No momento a situação é esta: telefono para a responsável pelo setor de revisão de uma grande editora. Minha amiga, competente e habitualmente tranquila, parece perder a respiração, afogada entre hifens que surgem como visita incômoda ou caem como fruta madura. E toda a sua equipe lembra a casa de orates do Dr. Simão Bacamarte, no caso apenas atrás de pulgas que nascem numas palavras e morrem noutras.
Que desejam afinal os autores do acordo? Simples. Querem é impedir nosso prazer de ler Eça e Camilo ou, entre os atuais, Saramago e Miguel Sousa Tavares. Prazer que, entre outras coisas, vem das pequeninas diferenças ortográficas, que não atrapalham em nada o idioma único, mas nos fazem sentir o prazer de ler os portugueses como portugueses. E eles se autodefinem a partir da ortografia. Ou se autodefiniam.
Querem acabar aos poucos com cada um dos nossos pequenos prazeres.
Acabam de matar mais um."
Marcos de Castro (Jornal O Globo, 9.1.2009)
F L O R I P A
janeiro 08, 2009
Revista Cult

Revista Cult: "A partir do dia 12 de janeiro de 2009, o conteúdo integral da revista CULT estará disponível na internet. Com isso, estará aberto para pesquisa um dos mais completos acervos do país de textos nas áreas de filosofia, literatura e ciências sociais. Criada em 1997, a revista CULT publica, mensalmente, dossiês sobre pensadores e temas de alta relevância cultural, escritos por estudiosos reconhecidos em âmbito internacional. Para facilitar a dinâmica de navegação, foi estruturado um novo serviço de busca. Além disso, todos os textos têm assinatura do autor, proporcionando credibilidade à pesquisa do conteúdo."
Maysa
Não devia falar de televisão, já que não assisto, mas fiquei sabendo da minisérie (ainda não estou segura se junto ou separo) que o Monjardim fez sobre a cantora Maysa , sua mãe. Estreou esta semana e está sendo muito criticada. Sejam quais forem os problemas apontados, não se pode abstrair que fazer dramaturgia tendo como personagem a própria mãe, não é para qualquer um. Só muito profissionalismo para, sendo filho, conseguir ter o “distanciamento” necessário para contar a história desta mulher que na conservadora década de 50, teve coragem de deixar o marido milionário para dedicar-se exclusivamente à sua carreira como cantora . O filho ficou com o pai e passou grande parte de sua infância interno num colégio na Espanha. Depois de muito tempo sem visitá-lo, a mãe o encontrou doente. Não teria lhe abraçado/beijado com medo de contagio, já que a gripe comprometeria a sua voz. Esta foi a mãe que ele teve.
Maysa viveu um momento importante na história da música brasileira que foi a transição do samba-canção para a moderna MPB. Na sua vida pessoal, além dos problemas que teve com a bebida, a imprensa vivia lhe atribuindo casos tórridos. Como todo mundo, teve seus bons e maus momentos, suas alegrias e suas dores. Foi uma mulher que ousou romper com o bom-mocismo e os preconceitos de sua época. Quaisquer que tenham sido as razões e circiunstâncias, não cabe aqui analisar, o certo é que o filho sempre esteve em segundo plano na sua vida. A maysa- mãe será, a meu ver, o aspecto mais delicado da história que está sendo contada por Monjardim. O que não significa que ele não possa projetar na personagem a mãe que ele gostaria de ter tido.
Afinal , arte e catarses nunca foram incompatíveis...
Clicando no título vc pode ler sobre a sua biografia.
Maysa viveu um momento importante na história da música brasileira que foi a transição do samba-canção para a moderna MPB. Na sua vida pessoal, além dos problemas que teve com a bebida, a imprensa vivia lhe atribuindo casos tórridos. Como todo mundo, teve seus bons e maus momentos, suas alegrias e suas dores. Foi uma mulher que ousou romper com o bom-mocismo e os preconceitos de sua época. Quaisquer que tenham sido as razões e circiunstâncias, não cabe aqui analisar, o certo é que o filho sempre esteve em segundo plano na sua vida. A maysa- mãe será, a meu ver, o aspecto mais delicado da história que está sendo contada por Monjardim. O que não significa que ele não possa projetar na personagem a mãe que ele gostaria de ter tido.
Afinal , arte e catarses nunca foram incompatíveis...
Clicando no título vc pode ler sobre a sua biografia.
Meio assim...
Assim...meio sem saber o porque de continuar...como a “arrumar o quarto do filho que já morreu”...Assim, atípica, segue a estação... nem calor faz. Chove uma chuva que também tem vindo para ficar ....não vem como “chuva de verão”...esta metáfora tão boa para as coisas que passam... E eu, meio assim, sem conseguir terminar nada... minha agenda se foi com o celular ... as fotos, mensagens não respondidas. ... quem não tem nada, não tem o que perder... a vida é assim...Alguns sem entender o meu silêncio...não vou me esforçar para explicar...agora seria um esforço...tenho o ano todo ou o resto da vida... quanto da vida? Não concluo nada ...nem pensamentos...abandono os filmes nos primeiros minutos ...os livros nas primeiras folhas...desconcentrada. Penso em televisão...sentar na frente dela...não exige nada...todos gostam...deve ser bom. Impossível! são tantos os horrores que ela mostra...(estou enganada ou acontece sempre nesta mesma época? )...não me faz bem ... me obriga a lembrar que o mundo não tem solução...guerra (de novo ou ainda?) estupidez...muitas crianças ...tragédias...(seriam respostas da natureza?) e a “crise”! (não vou tentar entender.) E agora?
Resta tentar retornar aos mistérios de Barcelona... aos cenários do cemitério dos livros esquecidos...Esquecer, melhor esquecer, tentar esquecer... já quis, não era uma rima mas podia ser uma solução ...hoje dá medo ...esquecer - oublier - dimenticare - olvidar - forget...assim, de várias maneiras.
Se “ler um romance é como passar férias no cérebro do autor" como disse o Zafón, estou indo...embora um pouco assim...
A gente tenta...
Resta tentar retornar aos mistérios de Barcelona... aos cenários do cemitério dos livros esquecidos...Esquecer, melhor esquecer, tentar esquecer... já quis, não era uma rima mas podia ser uma solução ...hoje dá medo ...esquecer - oublier - dimenticare - olvidar - forget...assim, de várias maneiras.
Se “ler um romance é como passar férias no cérebro do autor" como disse o Zafón, estou indo...embora um pouco assim...
A gente tenta...
janeiro 07, 2009
Uma história de amor

Já aconteceu de você, ao olhar pessoas da sua idade, pensar: não posso estar assim tão velho(a)?!!!Comigo já aconteceu de encontrar não só colegas, mas também ex-alunos e os achar muito velhos. E eu, me considerando uma menina, vou saindo de fininho tentando não ser alvo da mesma avaliação.
Esta historinha cruel foi uma amiga que me contou:
"Estava sentada na sala de espera para a minha primeira consulta com um novo dentista, quando observei que o seu diploma estava dependurado na parede. Estava escrito o seu nome e, de repente, recordei de um moreno alto, que tinha esse mesmo nome. Era da minha classe do colegial, uns 30 anos atrás, e eu me perguntava:
Poderia ser o mesmo rapaz por quem eu tinha me apaixonado à época?
Quando entrei na sala de atendimento imediatamente afastei esse pensamento do meu espírito. Este homem grisalho, quase calvo, gordo, com um rosto marcado, profundamente enrugado, era demasiadamente velho para ter sido o meu amor secreto.
Depois que ele examinou o meu dente, perguntei-lhe se ele estudou no Colégio "X".
- Sim, respondeu-me.
- Quando se formou? perguntei.
- 1965 . Por que esta pergunta? Respondeu.
- É que... bem... você era da minha classe, eu exclamei.
E então, aquele velho horrível, cretino, careca, barrigudo, flácido, encarquilhado, lazarento, me perguntou:
- A senhora era professora de quê???"
COMO ARRANJAR UM MARIDO
Quem não viveu no tempo em que estas eram as regras recomendadas pode até não acreditar. No entanto, posso assegurar que era assim mesmo que as coisas funcionavam! Estou entre considerar trágico ou hilário...
As " normas " abaixo não foram publicadas em qualquer revista feminina, mas na Folha de S.Paulo, num domingo, 12 de setembro de 1965, como um tema da maior relevância.
"Como arranjar um marido. Eis um tema que tem apaixonado todos os quadrantes da terra e ocupado longas paginas em revistas, jornais e publicações femininas, de todos os paises. O que uma mulher deve fazer para encontrar um marido, as situações que deve evitar e as ocasiões que não deve perder são, em linhas gerais, o conteudo dessas publicações que interessam às solteiras - jovens ou velhas.
Na verdade existe uma serie de normas que toda a mulher desejosa de casar-se deveria seguir. São elas, em linhas gerais, as seguintes:
1 - Quando uma mulher deseja casar-se não deve ficar ansiosa e sair aflita à caça de um marido. Deve, isso sim, aumentar o mais possivel suas relações sociais. Deve frequentar reuniões, ir a festas, aumentar seus circulos de amigos. Se possivel, oferecer reuniões em sua casa frequentemente.
2 - Para uma mulher solteira é preferivel conhecer dez pessoas do que cinco, melhor conhecer cinquenta do que dez. Assim não só ela terá oportunidade de poder fazer uma justa seleção, como poderá ser mais facilmente cortejada e terá condições para uma boa escolha. Uma moça com um circulo de amizades muito restrito, que conheceu apenas o filho de sua vizinha, acaba por apaixonar-se por ele, porque foi o unico pretendente que surgiu em seu caminho.
3 - Uma jovem que deseja casar-se deve cuidar de sua aparencia e beleza. Deve estar sempre impecavelmente vestida e maquilada. Isso não quer dizer que se apresente "embonecada" todo o tempo. Mas não poderá negligenciar seu aspecto fisico, que deverá ser o melhor possivel. Uma jovem com um simples vestido de algodão e uma sandalia aberta poderá estar linda e impecavel, se sua pele estiver cuidada, seus cabelos penteados e seus pés tratados. Os pequenos detalhes são importantíssimos para despertar o interesse de um admirador. Mãos e unhas bonitas, cabelos de corte elegante e penteado correto, rosto sugestivo, valorizado por uma maquilagem perfeita, vestidos simples mas elegantes, dentes impecaveis.
4 - Uma jovem desejosa de casar-se não se deve comprometer com o primeiro pretendente que aparece. Isso seria um grave erro e uma imprudencia. Lembrem-se de que os noivados repentinos raramente resultam em casamento. E se isso acontece, mais raramente ainda resultarão em casamentos felizes.
5 - Quando uma mulher sentir em seu coração o desabrochar de um terno sentimento por um homem e compreender que o mesmo acontece com ele, espere. Não se precipite. Mesmo que o seu desejo de casar seja grande, não se comprometa, fale-lhe francamente e com serenidade, pois todo o homem fica feliz, quando finalmente encontra uma mulher que lhe fala sinceramente de seus sentimentos sem se agarrar a ele com unhas e dentes, aflita por arrastá-lo ao casamento. Uma mulher que deseja esperar para poder bem aquilatar o seu amor é coisa tão rara que até parecerá um milagre e isso o fará admirá-la e querê-la ainda mais.
Essa espera sem compromisso é excelente e necessaria por um motivo especial. Se com o tempo os dois verificam grandes incompatibilidades que não surgiram nos primeiros arroubos, a mulher poderá deixar partir o namorado, sem ter o ar de que foi abandonada. E poderá então aceitar a corte de um terceiro, sem ser tachada de leviana.
Quando falamos aqui em casamento falamos em casar, bem e não em casar a qualquer custo, apenas para não ficar solteira."
As " normas " abaixo não foram publicadas em qualquer revista feminina, mas na Folha de S.Paulo, num domingo, 12 de setembro de 1965, como um tema da maior relevância.
"Como arranjar um marido. Eis um tema que tem apaixonado todos os quadrantes da terra e ocupado longas paginas em revistas, jornais e publicações femininas, de todos os paises. O que uma mulher deve fazer para encontrar um marido, as situações que deve evitar e as ocasiões que não deve perder são, em linhas gerais, o conteudo dessas publicações que interessam às solteiras - jovens ou velhas.
Na verdade existe uma serie de normas que toda a mulher desejosa de casar-se deveria seguir. São elas, em linhas gerais, as seguintes:
1 - Quando uma mulher deseja casar-se não deve ficar ansiosa e sair aflita à caça de um marido. Deve, isso sim, aumentar o mais possivel suas relações sociais. Deve frequentar reuniões, ir a festas, aumentar seus circulos de amigos. Se possivel, oferecer reuniões em sua casa frequentemente.
2 - Para uma mulher solteira é preferivel conhecer dez pessoas do que cinco, melhor conhecer cinquenta do que dez. Assim não só ela terá oportunidade de poder fazer uma justa seleção, como poderá ser mais facilmente cortejada e terá condições para uma boa escolha. Uma moça com um circulo de amizades muito restrito, que conheceu apenas o filho de sua vizinha, acaba por apaixonar-se por ele, porque foi o unico pretendente que surgiu em seu caminho.
3 - Uma jovem que deseja casar-se deve cuidar de sua aparencia e beleza. Deve estar sempre impecavelmente vestida e maquilada. Isso não quer dizer que se apresente "embonecada" todo o tempo. Mas não poderá negligenciar seu aspecto fisico, que deverá ser o melhor possivel. Uma jovem com um simples vestido de algodão e uma sandalia aberta poderá estar linda e impecavel, se sua pele estiver cuidada, seus cabelos penteados e seus pés tratados. Os pequenos detalhes são importantíssimos para despertar o interesse de um admirador. Mãos e unhas bonitas, cabelos de corte elegante e penteado correto, rosto sugestivo, valorizado por uma maquilagem perfeita, vestidos simples mas elegantes, dentes impecaveis.
4 - Uma jovem desejosa de casar-se não se deve comprometer com o primeiro pretendente que aparece. Isso seria um grave erro e uma imprudencia. Lembrem-se de que os noivados repentinos raramente resultam em casamento. E se isso acontece, mais raramente ainda resultarão em casamentos felizes.
5 - Quando uma mulher sentir em seu coração o desabrochar de um terno sentimento por um homem e compreender que o mesmo acontece com ele, espere. Não se precipite. Mesmo que o seu desejo de casar seja grande, não se comprometa, fale-lhe francamente e com serenidade, pois todo o homem fica feliz, quando finalmente encontra uma mulher que lhe fala sinceramente de seus sentimentos sem se agarrar a ele com unhas e dentes, aflita por arrastá-lo ao casamento. Uma mulher que deseja esperar para poder bem aquilatar o seu amor é coisa tão rara que até parecerá um milagre e isso o fará admirá-la e querê-la ainda mais.
Essa espera sem compromisso é excelente e necessaria por um motivo especial. Se com o tempo os dois verificam grandes incompatibilidades que não surgiram nos primeiros arroubos, a mulher poderá deixar partir o namorado, sem ter o ar de que foi abandonada. E poderá então aceitar a corte de um terceiro, sem ser tachada de leviana.
Quando falamos aqui em casamento falamos em casar, bem e não em casar a qualquer custo, apenas para não ficar solteira."
janeiro 06, 2009
O caos e a beleza
"QUANDO EU ERA seminarista gostava de dormir ouvindo música. Eu tinha um radinho de válvulas e a música vinha sempre misturada com os ruídos da estática. Eu preferia a música às rezas. Se eu fosse Deus, eu também preferiria.
Na verdade eu já não rezava mais por duas razões. Primeiro, as aulas de teologia, pela mediocridade, me fizeram pensar -e o pensamento é um perigoso adversário das ideias religiosas. Eu nem sabia se ainda acreditava em Deus. Segundo, se Deus existia, valia o dito pelo salmista e por Jesus de que, antes que eu falasse qualquer coisa, Deus já sabia o que eu iria falar; o que tornava desnecessária a minha fala. Eu estava mais interessado em ouvir a divina beleza da música que em repetir as minhas mesmices que deveriam dar um tédio infinito ao Criador.
Se Deus existe, a beleza é o seu jeito de se comunicar com os mortais. Disso sabem os poetas, como é o caso da Helena Kolody, que escreveu: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo". Ela poderia ter sido uma amiga da solitária Emily Dickinson, que sentia igual. "Alguns guardam o domingo indo à igreja / Eu o guardo ficando em casa / Tendo um sabiá como cantor / E um pomar por santuário / E, ao invés do repicar dos sinos na igreja / Nosso pássaro canta na palmeira / É Deus que está pregando, pregador admirável / E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final eu o encontro o tempo todo no quintal." Às vezes, Deus se revela como pássaro...
Deitei-me e liguei o radinho. Era uma noite de mau tempo, tempestade. O ar estava carregado de eletricidade -que entrava no rádio sob a forma de ruídos, estática, assobios. Era um caos sem sentido. Mas não perdi a esperança e continuei a procurar. De repente -a estática dominava a audição- ouvi lá no fundo uma música que muito amo: o concerto para piano e orquestra n.º 1, de Chopin. Fiquei ali lutando contra a estática: 90% de ruído caótico, 10% de beleza.
Eu não entendo esse mistério: todos os sons, estática e música chegavam juntos, misturados. Mas a minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza, que me comoviam. Minha alma sabia que a ordem morava no meio do caos e ela estava disposta a suportar o horrendo do caos pela beleza quase inaudível que existia no meio dele.
Aí me veio uma ideia sob a forma de uma pergunta que me pareceu uma revelação: a vida toda não será assim, uma luta contra o caos sem sentido em busca de uma beleza escondida? E essa busca da beleza, não será ela a essência daquilo a que se poderia dar o nome de "sentimento religioso?"
"Sentimento religioso", como eu o entendo, nada tem a ver com ideias sobre o outro mundo. E algo parecido com a experiência que se tem ao ouvir a "valsinha" do Chico, ou a primeira balada de Chopin.
Uma sonata de Mozart... Um crítico musical poderia escrever um livro inteiro analisando e descrevendo a sonata. Mas, ao final da leitura do livro, o leitor continuaria sem nada saber sobre a sua beleza. A beleza está além das palavras, exceto quando as palavras se transformam em música, como na poesia.
Ficou aquela imagem. Uma melodia linda se faz ouvir em meio aos horrores da vida. Ainda que seja uma "marcha fúnebre"..."
RUBEM ALVES na FSP
Na verdade eu já não rezava mais por duas razões. Primeiro, as aulas de teologia, pela mediocridade, me fizeram pensar -e o pensamento é um perigoso adversário das ideias religiosas. Eu nem sabia se ainda acreditava em Deus. Segundo, se Deus existia, valia o dito pelo salmista e por Jesus de que, antes que eu falasse qualquer coisa, Deus já sabia o que eu iria falar; o que tornava desnecessária a minha fala. Eu estava mais interessado em ouvir a divina beleza da música que em repetir as minhas mesmices que deveriam dar um tédio infinito ao Criador.
Se Deus existe, a beleza é o seu jeito de se comunicar com os mortais. Disso sabem os poetas, como é o caso da Helena Kolody, que escreveu: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo". Ela poderia ter sido uma amiga da solitária Emily Dickinson, que sentia igual. "Alguns guardam o domingo indo à igreja / Eu o guardo ficando em casa / Tendo um sabiá como cantor / E um pomar por santuário / E, ao invés do repicar dos sinos na igreja / Nosso pássaro canta na palmeira / É Deus que está pregando, pregador admirável / E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final eu o encontro o tempo todo no quintal." Às vezes, Deus se revela como pássaro...
Deitei-me e liguei o radinho. Era uma noite de mau tempo, tempestade. O ar estava carregado de eletricidade -que entrava no rádio sob a forma de ruídos, estática, assobios. Era um caos sem sentido. Mas não perdi a esperança e continuei a procurar. De repente -a estática dominava a audição- ouvi lá no fundo uma música que muito amo: o concerto para piano e orquestra n.º 1, de Chopin. Fiquei ali lutando contra a estática: 90% de ruído caótico, 10% de beleza.
Eu não entendo esse mistério: todos os sons, estática e música chegavam juntos, misturados. Mas a minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza, que me comoviam. Minha alma sabia que a ordem morava no meio do caos e ela estava disposta a suportar o horrendo do caos pela beleza quase inaudível que existia no meio dele.
Aí me veio uma ideia sob a forma de uma pergunta que me pareceu uma revelação: a vida toda não será assim, uma luta contra o caos sem sentido em busca de uma beleza escondida? E essa busca da beleza, não será ela a essência daquilo a que se poderia dar o nome de "sentimento religioso?"
"Sentimento religioso", como eu o entendo, nada tem a ver com ideias sobre o outro mundo. E algo parecido com a experiência que se tem ao ouvir a "valsinha" do Chico, ou a primeira balada de Chopin.
Uma sonata de Mozart... Um crítico musical poderia escrever um livro inteiro analisando e descrevendo a sonata. Mas, ao final da leitura do livro, o leitor continuaria sem nada saber sobre a sua beleza. A beleza está além das palavras, exceto quando as palavras se transformam em música, como na poesia.
Ficou aquela imagem. Uma melodia linda se faz ouvir em meio aos horrores da vida. Ainda que seja uma "marcha fúnebre"..."
RUBEM ALVES na FSP
janeiro 05, 2009
A Grande Mídia quando a noticia é do Oriente
Doze regras de redação da Grande Mídia Internacional quando a noticia é do Oriente. A nossa mídia também segue esta cartilha da manipulação. Preste atenção!
1) No Oriente Médio são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se represália.
2) Os árabes, palestinos ou libaneses não tem o direito de matar civis. Isso se chama “terrorismo”.
3) Israel tem o direito de matar civis. Isso se chama “legítima defesa”.
4) Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isso se chama “Reação da Comunidade Internacional”.
5) Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama “Sequestro de pessoas indefesas”.
6) Israel tem o direito de sequestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente são mais de 10 mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter sequestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinos. Isto se chama “Prisão de terroristas”.
7) Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatória a mesma frase conter a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.
8) Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiada e financiada pelos EUA”. Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.
9) Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “Territórios ocupados”, “Resoluções da ONU”, “Violações dos Direitos Humanos” ou “Convenção de Genebra”.
10) Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre “covardes”, que se escondem entre a população civil, que “não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isso se dá o nome de “Covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso se chama "Ação Cirúrgica de Alta Precisão”.
11) Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes Regras de Redação (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “Neutralidade jornalística”.
12) Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são “Terroristas anti-semitas de Alta Periculosidade”.
(Texto francês anônimo, enviado por leitor ao blog da Carta Maior que vc pode acessar clicando no título desta postagem)
1) No Oriente Médio são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se represália.
2) Os árabes, palestinos ou libaneses não tem o direito de matar civis. Isso se chama “terrorismo”.
3) Israel tem o direito de matar civis. Isso se chama “legítima defesa”.
4) Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isso se chama “Reação da Comunidade Internacional”.
5) Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama “Sequestro de pessoas indefesas”.
6) Israel tem o direito de sequestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente são mais de 10 mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter sequestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinos. Isto se chama “Prisão de terroristas”.
7) Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatória a mesma frase conter a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.
8) Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiada e financiada pelos EUA”. Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.
9) Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “Territórios ocupados”, “Resoluções da ONU”, “Violações dos Direitos Humanos” ou “Convenção de Genebra”.
10) Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre “covardes”, que se escondem entre a população civil, que “não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isso se dá o nome de “Covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso se chama "Ação Cirúrgica de Alta Precisão”.
11) Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes Regras de Redação (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “Neutralidade jornalística”.
12) Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são “Terroristas anti-semitas de Alta Periculosidade”.
(Texto francês anônimo, enviado por leitor ao blog da Carta Maior que vc pode acessar clicando no título desta postagem)
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