janeiro 07, 2009

Uma história de amor


Já aconteceu de você, ao olhar pessoas da sua idade, pensar: não posso estar assim tão velho(a)?!!!Comigo já aconteceu de encontrar não só colegas, mas também ex-alunos e os achar muito velhos. E eu, me considerando uma menina, vou saindo de fininho tentando não ser alvo da mesma avaliação.
Esta historinha cruel foi uma amiga que me contou:

"Estava sentada na sala de espera para a minha primeira consulta com um novo dentista, quando observei que o seu diploma estava dependurado na parede. Estava escrito o seu nome e, de repente, recordei de um moreno alto, que tinha esse mesmo nome. Era da minha classe do colegial, uns 30 anos atrás, e eu me perguntava:
Poderia ser o mesmo rapaz por quem eu tinha me apaixonado à época?
Quando entrei na sala de atendimento imediatamente afastei esse pensamento do meu espírito. Este homem grisalho, quase calvo, gordo, com um rosto marcado, profundamente enrugado, era demasiadamente velho para ter sido o meu amor secreto.
Depois que ele examinou o meu dente, perguntei-lhe se ele estudou no Colégio "X".
- Sim, respondeu-me.
- Quando se formou? perguntei.
- 1965 . Por que esta pergunta? Respondeu.
- É que... bem... você era da minha classe, eu exclamei.
E então, aquele velho horrível, cretino, careca, barrigudo, flácido, encarquilhado, lazarento, me perguntou:
- A senhora era professora de quê???"

COMO ARRANJAR UM MARIDO

Quem não viveu no tempo em que estas eram as regras recomendadas pode até não acreditar. No entanto, posso assegurar que era assim mesmo que as coisas funcionavam! Estou entre considerar trágico ou hilário...
As " normas " abaixo não foram publicadas em qualquer revista feminina, mas na Folha de S.Paulo, num domingo, 12 de setembro de 1965, como um tema da maior relevância.
"Como arranjar um marido. Eis um tema que tem apaixonado todos os quadrantes da terra e ocupado longas paginas em revistas, jornais e publicações femininas, de todos os paises. O que uma mulher deve fazer para encontrar um marido, as situações que deve evitar e as ocasiões que não deve perder são, em linhas gerais, o conteudo dessas publicações que interessam às solteiras - jovens ou velhas.
Na verdade existe uma serie de normas que toda a mulher desejosa de casar-se deveria seguir. São elas, em linhas gerais, as seguintes:
1 - Quando uma mulher deseja casar-se não deve ficar ansiosa e sair aflita à caça de um marido. Deve, isso sim, aumentar o mais possivel suas relações sociais. Deve frequentar reuniões, ir a festas, aumentar seus circulos de amigos. Se possivel, oferecer reuniões em sua casa frequentemente.
2 - Para uma mulher solteira é preferivel conhecer dez pessoas do que cinco, melhor conhecer cinquenta do que dez. Assim não só ela terá oportunidade de poder fazer uma justa seleção, como poderá ser mais facilmente cortejada e terá condições para uma boa escolha. Uma moça com um circulo de amizades muito restrito, que conheceu apenas o filho de sua vizinha, acaba por apaixonar-se por ele, porque foi o unico pretendente que surgiu em seu caminho.
3 - Uma jovem que deseja casar-se deve cuidar de sua aparencia e beleza. Deve estar sempre impecavelmente vestida e maquilada. Isso não quer dizer que se apresente "embonecada" todo o tempo. Mas não poderá negligenciar seu aspecto fisico, que deverá ser o melhor possivel. Uma jovem com um simples vestido de algodão e uma sandalia aberta poderá estar linda e impecavel, se sua pele estiver cuidada, seus cabelos penteados e seus pés tratados. Os pequenos detalhes são importantíssimos para despertar o interesse de um admirador. Mãos e unhas bonitas, cabelos de corte elegante e penteado correto, rosto sugestivo, valorizado por uma maquilagem perfeita, vestidos simples mas elegantes, dentes impecaveis.
4 - Uma jovem desejosa de casar-se não se deve comprometer com o primeiro pretendente que aparece. Isso seria um grave erro e uma imprudencia. Lembrem-se de que os noivados repentinos raramente resultam em casamento. E se isso acontece, mais raramente ainda resultarão em casamentos felizes.
5 - Quando uma mulher sentir em seu coração o desabrochar de um terno sentimento por um homem e compreender que o mesmo acontece com ele, espere. Não se precipite. Mesmo que o seu desejo de casar seja grande, não se comprometa, fale-lhe francamente e com serenidade, pois todo o homem fica feliz, quando finalmente encontra uma mulher que lhe fala sinceramente de seus sentimentos sem se agarrar a ele com unhas e dentes, aflita por arrastá-lo ao casamento. Uma mulher que deseja esperar para poder bem aquilatar o seu amor é coisa tão rara que até parecerá um milagre e isso o fará admirá-la e querê-la ainda mais.
Essa espera sem compromisso é excelente e necessaria por um motivo especial. Se com o tempo os dois verificam grandes incompatibilidades que não surgiram nos primeiros arroubos, a mulher poderá deixar partir o namorado, sem ter o ar de que foi abandonada. E poderá então aceitar a corte de um terceiro, sem ser tachada de leviana.
Quando falamos aqui em casamento falamos em casar, bem e não em casar a qualquer custo, apenas para não ficar solteira."

janeiro 06, 2009

O caos e a beleza

"QUANDO EU ERA seminarista gostava de dormir ouvindo música. Eu tinha um radinho de válvulas e a música vinha sempre misturada com os ruídos da estática. Eu preferia a música às rezas. Se eu fosse Deus, eu também preferiria.
Na verdade eu já não rezava mais por duas razões. Primeiro, as aulas de teologia, pela mediocridade, me fizeram pensar -e o pensamento é um perigoso adversário das ideias religiosas. Eu nem sabia se ainda acreditava em Deus. Segundo, se Deus existia, valia o dito pelo salmista e por Jesus de que, antes que eu falasse qualquer coisa, Deus já sabia o que eu iria falar; o que tornava desnecessária a minha fala. Eu estava mais interessado em ouvir a divina beleza da música que em repetir as minhas mesmices que deveriam dar um tédio infinito ao Criador.
Se Deus existe, a beleza é o seu jeito de se comunicar com os mortais. Disso sabem os poetas, como é o caso da Helena Kolody, que escreveu: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo". Ela poderia ter sido uma amiga da solitária Emily Dickinson, que sentia igual. "Alguns guardam o domingo indo à igreja / Eu o guardo ficando em casa / Tendo um sabiá como cantor / E um pomar por santuário / E, ao invés do repicar dos sinos na igreja / Nosso pássaro canta na palmeira / É Deus que está pregando, pregador admirável / E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final eu o encontro o tempo todo no quintal." Às vezes, Deus se revela como pássaro...
Deitei-me e liguei o radinho. Era uma noite de mau tempo, tempestade. O ar estava carregado de eletricidade -que entrava no rádio sob a forma de ruídos, estática, assobios. Era um caos sem sentido. Mas não perdi a esperança e continuei a procurar. De repente -a estática dominava a audição- ouvi lá no fundo uma música que muito amo: o concerto para piano e orquestra n.º 1, de Chopin. Fiquei ali lutando contra a estática: 90% de ruído caótico, 10% de beleza.
Eu não entendo esse mistério: todos os sons, estática e música chegavam juntos, misturados. Mas a minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza, que me comoviam. Minha alma sabia que a ordem morava no meio do caos e ela estava disposta a suportar o horrendo do caos pela beleza quase inaudível que existia no meio dele.
Aí me veio uma ideia sob a forma de uma pergunta que me pareceu uma revelação: a vida toda não será assim, uma luta contra o caos sem sentido em busca de uma beleza escondida? E essa busca da beleza, não será ela a essência daquilo a que se poderia dar o nome de "sentimento religioso?"
"Sentimento religioso", como eu o entendo, nada tem a ver com ideias sobre o outro mundo. E algo parecido com a experiência que se tem ao ouvir a "valsinha" do Chico, ou a primeira balada de Chopin.
Uma sonata de Mozart... Um crítico musical poderia escrever um livro inteiro analisando e descrevendo a sonata. Mas, ao final da leitura do livro, o leitor continuaria sem nada saber sobre a sua beleza. A beleza está além das palavras, exceto quando as palavras se transformam em música, como na poesia.
Ficou aquela imagem. Uma melodia linda se faz ouvir em meio aos horrores da vida. Ainda que seja uma "marcha fúnebre"..."


RUBEM ALVES na FSP

janeiro 05, 2009

A Grande Mídia quando a noticia é do Oriente

Doze regras de redação da Grande Mídia Internacional quando a noticia é do Oriente. A nossa mídia também segue esta cartilha da manipulação. Preste atenção!

1) No Oriente Médio são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se represália.

2) Os árabes, palestinos ou libaneses não tem o direito de matar civis. Isso se chama “terrorismo”.

3) Israel tem o direito de matar civis. Isso se chama “legítima defesa”.

4) Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isso se chama “Reação da Comunidade Internacional”.

5) Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama “Sequestro de pessoas indefesas”.

6) Israel tem o direito de sequestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente são mais de 10 mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter sequestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinos. Isto se chama “Prisão de terroristas”.

7) Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatória a mesma frase conter a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.

8) Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiada e financiada pelos EUA”. Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.

9) Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “Territórios ocupados”, “Resoluções da ONU”, “Violações dos Direitos Humanos” ou “Convenção de Genebra”.

10) Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre “covardes”, que se escondem entre a população civil, que “não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isso se dá o nome de “Covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso se chama "Ação Cirúrgica de Alta Precisão”.

11) Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes Regras de Redação (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “Neutralidade jornalística”.

12) Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são “Terroristas anti-semitas de Alta Periculosidade”.

(Texto francês anônimo, enviado por leitor ao blog da Carta Maior que vc pode acessar clicando no título desta postagem)

janeiro 04, 2009

Museu Etnográfico de Biguaçu

O Museu Etnográfico de Biguaçu/SC - CASA DOS AÇORES está situado no trajeto entre Curitiba/Floripa, BR 101, na altura do km 189, no Balneário de São Miguel.
Depois de muito tempo passando em frente, hoje tive oportunidade de visitá-la. De arquitetura açoriana, a Casa foi construída na primeira metade do século XIX e em 1979 adquirida pelo Estado de Santa Catarina que a restaurou e transformou em museu. Alguns cômodos da Casa não podem ser visitados em virtude de estarem passando por obras de restauro.
A vinda para o Brasil das famílias açorianas das Ilhas do Pico, Terceira, Faial, Flores e Santa Maria ocorreu no século XVII por sugestão do vigário do Desterro (atual Florianópolis) ao Rei D.João V, objetivando povoar os arredores da Ilha de Santa Catarina que estava ameaçada pelos espanhóis e, ao mesmo tempo, resolver os graves problemas do arquipélago portugues devastado pela fome.

Dentre as inúmeras freguesias fundadas em 1750 estava a de São Miguel. O velho casario desapareceu à medida que São Miguel foi perdendo importância econômica, sobrevivendo apenas o Sobrado, atual sede do museu onde acontece a exposição No Tempo do Brasil Canibal.

VOLTAR À FORMA

Tem muita gente se queixando. Nem me arrisco a subir em uma balança...
Estas " dicas" são sobre o que faz com que não se consiga voltar ao peso de antes das festas:
1-Esquecer de pôr fibras no cardápio.
2- Repetir sempre o mesmo menu.
3- Pular refeições.
4- Estipular metas difíceis de serem atingidas.
5- Beber pouca água Zero calorias e muitos benefícios.
6- Comer depressa demais.
7- Extrapolar na quantidade dos alimentos.
8- Dar importância desmedida ao regime.
9- Beliscar o tempo todo.
10- Dispensar legumes e verduras.
11- Ignorar as informações dos rótulos.
12- Sofrer com a ansiedade pelos resultados.
13- Cometer deslizes nos finais de semana.
14- Não praticar exercícios.
15- Ser fã dos chopinhos nas happy hours.
16- Não substituir as frituras pelos grelhados.
17- Ceder aos doces.
18- Acreditar em dietas milagrosas.
19- Deixar de incluir lanches entre as refeições principais.
20- Exagerar na determinação
21- Tomar refrigerantes
Ninguém pode dizer que não colaborei!

janeiro 03, 2009

C U R I T I B A

Resistindo bravamente à distância do mar e aos longos e rigorosos invernos (que já não acontecem), vivi em Curitiba, por mais de 15 anos, até o momento em que minha filha ingressaria na universidade quando, de um certo modo, a induzi a vir estudar em Floripa. Para mim, foram seis anos de idas e vindas, pois ainda trabalhava.
Atualmente, Curitiba tenta se manter "verde" o que parece cada vez mais difícil e a torna uma cidade muito parecida com as demais, com a diferença de os nativos não tratarem muito bem os seus novos moradores.
A "cidade verde" está ameaçada e tenta firmar as conquistas das décadas passadas.
Interessante o video, clicando no título.

M I L L O R - 1 9 5 9


A charge continua atualíssima!

O capacho

A azáfama (ops!) de natal/reveillon/pequenas viagens/visitas não me permitiu enviar nem dar respostas personalizadas às mensagens recebidas. Tive que optar pelas genéricas e impessoais disponíveis na web. Algumas das que recebi também eram desta natureza.
No meio delas porém, havia esta....
“...
Só que neste natal eu me senti diferente, a data em si não importava e sim o que eu sentia. Senti que tanto fazia ser natal, reveilon, páscoa que meus pensamentos e sentimentos seriam os mesmos para com aqueles que amo. Lembrei muito de vc, principalmente por que passava pela sua porta e via o capacho todo sujinho. Ficava mirando toda vida que entrava em casa (uma sadia neurose), o que só acabou quando meu plano se concretizou. Na antevespera de natal eu o peguei, botei pra dentro de casa, coloquei dentro de um balde cheio d´água e sabão omo (não dava pra ser neutro) e no outro dia, na véspera de natal o peguei e lavei com bastante água. O pretume da sujeira saia e as tramas iam ganhando cores que me lembravam vc, simples, harmoniosas e discretas. Coloquei pra secar na nova varanda que tem aquelas redes de proteção e quando cheguei em casa de noite já estava sequinho, lindo.
Aproveitei e limpei o hall de sua porta e somente depois coloquei o capacho lá. Num é que ficou parecendo que vc estava em casa? Foi uma maneira de desejar-lhe feliz natal, ano novo ou páscoa, o que quiser !”


Não dava para simplesmente submetê-la a um DEL. Valeu Sebas!
PS: justificando o pretume: desde agosto não volto ao apt.

janeiro 02, 2009

A AMIZADE


Esta música faz parte da trilha sonora do filme INVASÕES BÁRBARAS que nunca comentei, mas é um dos filmes que revejo de vez em quando. Embora muito se diga sobre ele, o considero uma ode à amizade.
Milan Kundera em seu livro "A Identidade" diz ser a amizade indispensável ao bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado em face de seus inimigos.
Amigos recentes demoram a perceber essa aliança...
São amizades não testadas, não se sabe se enfrentarão as tempestades ou se serão varridas numa chuva de verão.
Só o tempo dirá!

A Elegância do Ouriço

Morar onde os outros passam as férias me dá oportunidade de receber amigos e com eles passear, ir a diferentes praias, descobrir novos lugares...Tudo que não faria se não fosse movida pela curiosidade e interesse deles. Para quem já vive de férias, o farniente dos outros tem um sabor diferente. Além da quebra da rotina, troca-se informações sobre o que se tem visto, feito, lido, planeja-se outras viagens. Há as sessões remembers e também aquelas que chamamos entre nós de botar os fuxicos em dia . Uma delícia! São momentos em que deixo para lá o que faço para preencher os outros dias do ano em que não estou com eles. Tudo pode esperar. Deixei "esperando" este livro e agora, tive um tempinho, vim dar uma olhada nele.
A Elegância do Ouriço (de Muriel Barbery) é uma história que se passa num elegante bairro de Paris, narrada por duas pessoas. Uma adolescente esperta, que percebe mais do mundo à sua volta do que deixa transparecer, principalmente em relação à sua família, aos seus amigos e à sociedade em geral. A outra é a zeladora do edifício, leitora inveterada, bastante mordaz, que tem sempre uma resposta pronta para qualquer ocasião, que também percebe a sua volta muito mais do que os moradores do edifício lhe dão crédito. 
É através dos olhos delas que somos apresentados a uma gama de moradores do prédio, parisienses com suas maneiras de viver, congeladas por séculos de civilização.  
A história se passa quase inteiramente no 7, rue de Grenelle, onde ambas residem e passam a vida preocupadas em  apagar os traços de suas existências e têm bastante sucesso em se tornarem quase invisíveis aos outros, apesar de terem vidas interiores muito ricas e de quase não perderem nada do que acontece ao seu redor, principalmente quanto às intenções das pessoas que conhecem e seus preconceitos.
O texto é jocoso e cheio de observações bem humororadas sobre a vida moderna; divertidas descrições do que é esperado no comportamento de cada um e irônicas coincidências que geram preciosas observações sobre literatura, envelhecimento, psicanálise e muitos outros aspectos do dia a dia .
O comentário abaixo está sem autoria. Quando o registrei pretendia apenas não esquecer de colocar o livro nas dicas para o amigo secreto:
“Muitas vezes, durante a leitura deste livro, eu me encontrei pensando nos quadros do pintor belga René Magritte. As observações de Paloma e Renée são tão bem colocadas que se parecem com a superimposição de imagens característica dos trabalhos de maior humor e ironia do pintor. É só nos lembrarmos de um de seus quadros [ele fez muitas versões do mesmo] mais conhecidos: Ceci n’est pás une pipe, [Isto não é um cachimbo] para entendermos como trabalha o humor presente neste livro de Muriel Barbery. Magritte, assim com Renée e Paloma, está sempre brincando com o significado das palavras ou com o significado das imagens, colocando-as juntas e nos obrigando, frequentemente, a pensar visualmente por causa de suas justaposições.
E me pergunto de a autora não teria homenageado o pintor já que uma das personagens principais se chama Renée, a forma feminina do primeiro nome de Magritte. Tão jocoso quanto os nomes que a autora escolheu para as duas irmãs, moradoras do prédio, Paloma e Colombe, que têm como seus primeiros nomes duas palavras com o mesmo significado: pomba, em línguas diferentes. Esta possibilidade ainda se torna mais crível quando nos lembramos de que a autora é professora de filosofia e certamente estaria familiarizada com os trocadilhos visuais que Magritte se empenhou em aprimorar. No final do século XX, os quadros deste pintor ilustraram muito conceitos de filosofia e lingüística. Tenho certeza que na próxima vez que vier a ler este livro ainda serei capaz de encontrar mais “coincidências” interessantes que me escaparam na primeira leitura.Leio muito. E faz algum tempo que não encontro um livro que me deixasse tão encantada, tão absorvida. Recomendo com muitas estrelas. É definitivamente um livro para quem gosta de livros e de idéias. “

janeiro 01, 2009

Um Ano Novo feliz e desconfiado

"SE VOCÊ quer começar o ano com o pé direito (ou seja, como é costume, com alguns bons propósitos), não perca "Um Homem Bom", de Vicente Amorim. O filme, uma produção anglo-alemã, traz para a tela "Good", de C. P. Taylor -peça de 1981, que é uma das grandes meditações literárias sobre a poltronice que pode levar qualquer um às piores cumplicidades.
Viggo Mortensen é o professor Halder, que, na Berlim dos anos 1930, ensina Proust na universidade e se deita regularmente no divã de um psicanalista freudiano. Junto a seu psicanalista (que é judeu e é também seu melhor amigo), Halder observa o nazismo incipiente com um sarcasmo que se torna desgosto quando os livros de seus autores preferidos são destinados à fogueira.
Em suma, tudo prepara Halder para ser um dissidente (eventualmente morno e pouco heroico, mas, mesmo assim, um dissidente). Ora, eis que, um belo dia, a Chancelaria do Terceiro Reich se interessa por um romance que Halder publicou sem grande sucesso. Nele, é narrada a história de um homem cuja amada sofre de uma doença terminal; por amor, o homem aceita ajudá-la a pôr fim a seus dias. A Chancelaria pede a Halder um ensaio que sirva de fundamento moral para os projetos de "eutanásia" que o regime nazista, "caridosamente", está concebendo para doentes mentais e deficientes graves -na verdade, para todos os "subumanos". Halder não quer o mal de ninguém -ainda menos o de seu amigo judeu. Mas, aos poucos, ele é enredado numa malha de sentimentos pequenos, banais e dificilmente resistíveis: vaidade, ambição, medo e, talvez sobretudo, preguiça e inércia.
Tornando-se membro do partido e da SS, Halder pode festejar sua promoção: ele é agora chefe de seu departamento universitário. Claro, no dito departamento, não se ensina mais Proust. Também, em sua ascensão, Halder substituiu um colega judeu; é uma pena, mas, afinal, se não fosse Halder, seria outro, não é? Assim, à força de covardias aparentemente triviais, homens "bons" e comuns se tornam cúmplices de horrores dos quais, sem mentir propriamente, eles poderão dizer que "não sabiam", "não imaginavam" nada disso.
Ou, melhor ainda, sem mentir propriamente, eles poderão dizer que, se tivessem sabido, se tivessem sido informados, aí sim, eles, "obviamente", não teriam concordado, sua oposição teria sido explícita e vigorosa, mesmo que isso colocasse a perder sua carreira e sua vida. Alguém observará: o fascismo e o nazismo foram derrotados na Segunda Guerra Mundial, e o sistema soviético desmoronou com o Muro de Berlim -por que é que a gente se debruçaria a esta altura sobre a facilidade de nossa complacência com os totalitarismos?
Seria possível responder que a lista é longa dos totalitarismos, grandes e pequenos, que continuam vivos ainda hoje, e não muito longe de nossa casa. Mas o mais importante é que a complacência com o totalitarismo segue sendo a chave mestra que explica quase todas as patologias de nossa relação com as coletividades (nações, torcidas, religiões, culturas, partidos etc). Claro, pertencer a um grupo e se deixar levar por ele é sempre menos cansativo do que decidir por nossa conta. A ponto que as razões para aderir ao grupo se tornam indiferentes: o que importa é o conforto que o grupo oferece a seus membros.
Em outras palavras, para não ter que pensar e agir sozinho, o homem "bom" topa qualquer parada. Por exemplo, pertencer ao partido nazista alivia seriamente meu dever (incômodo) de pensar e agir segundo meu foro íntimo; aceito ser antissemita, homofóbico, defensor da supremacia ariana etc. tanto mais facilmente que tudo isso, no fundo, pouco me importa: é apenas um pedágio que pago para ser membro do clube.
Paradoxo crucial: um grupo pode se unir ao redor de uma ideologia ou de uma convicção na qual quase nenhum de seus membros, em sã consciência, acredita, mas que todos compartilham apenas PARA constituir um grupo -ou seja, pelo prazer de sair quebrando vitrinas, linchando negros e "bichas", torturando calouros, apedrejando o ônibus da torcida oposta. E qual é esse "prazer"?
Simples, é o prazer de esquecer a dificuldade de viver, tirando das costas o fardo e a responsabilidade de julgar com a nossa cabeça. Pois bem, aqui vão meus votos de um Ano-Novo corajoso, livre das pequenas (e terrificantes) complacências do nosso dia-a-dia".

CONTARDO CALLIGARIS na FSP

LOVE FOR ALL


A empresa de marketing sueca Björn Borg publicou recentemente essa polêmica campanha com a promessa de fazer qualquer um encontrar um amor, paixão, aventura. Os valores sobre as formas que se pode amar ainda são rígidos, cabendo questionar: quem ganha e quem perde com todos esses critérios e dogmas?