
A crônica é de hoje e revela mais um desses olhares...
MEU PIRÃO PRIMEIRO
O olhar estrangeiro costuma enxergar o que nem sempre a gente vê. Algumas das melhores observações sobre o Brasil foram feitas pelos viajantes que têm passado por aqui desde o século XVI. Os forasteiros modernos são os correspondentes e enviados especiais, com muito a nos ensinar sobre nós mesmos.
Conversei com um deles recentemente, o britânico Andrew Downie, que trabalha para duas importantes publicações americanas: a revista "Time" e o jornal "Christian Science Monitor". Com oito anos no país, ele só não é quase brasileiro porque é capaz de chegar para a entrevista com dez minutos de antecedência. Vocês conhecem algum repórter nosso que faz isso? O humor também é típico: "Você esquece que sou inglês?" Ele veio sentir a mudança dos ventos, ver como os governos locais estão trabalhando para pôr ordem na casa (como Downie trocou o Rio por SP por não suportar mais a nossa bagunça, é meio cético).
O papo acaba girando em torno do caráter do brasileiro. Ele defende a tese de que muitas de nossas características se devem ao individualismo, "a começar pelo futebol". Segundo esse representante da terra que inventou o esporte, somos os craques do personalismo dentro e fora de campo. Da mesma maneira que decidimos uma partida num lance individual — um drible desconcertante, uma jogada implausível, um chute que transforma a bola numa folha seca — tentamos resolver todos os problemas dando um jeitinho particular.
Como se fosse um Calazans, passei a falar do que não entendo. Disse para ele que uma de nossas mais criativas invenções era a bicicleta — não a de duas rodas, mas a de duas pernas. Um jogador faz tudo ao contrário: de costas para o gol lança o corpo para cima, dá uma ou duas pedaladas no ar e, quando cai, a bola está no fundo da rede. Seria mais simples ficar de pé e de frente, deve ter pensado um pobre de espírito ao ver pela primeira vez o malabarismo. Só que não teríamos tido Leônidas da Silva, um genial crioulo como tantos outros: Pelé, Didi, Garrincha, Zizinho, Ronaldinho, Robinho.
O individualismo, no entanto, tem também seu lado nocivo, ao preconizar que se leve vantagem em tudo. No domingo mesmo O GLOBO noticiou em manchete: "Judiciário ignora crise e quer mais R$ 7,4 bi para pessoal." Belo exemplo de uma modalidade de individualismo, o corporativo, muito comum onde impera a ética do "farinha pouca, meu pirão primeiro". O mais sintomático é a alegação de um dos líderes do movimento reivindicatório.
Prevendo resistências por causa da situação econômica, ele foi logo avisando: "Não fomos nós que fizemos a crise."
Nem nós. O que se espera das instituições, porém, é que contribuam senão para aliviar a crise, pelo menos para não agravá-la.
Zuenir Ventura
n'O Globo - hoje
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