janeiro 06, 2009

O caos e a beleza

"QUANDO EU ERA seminarista gostava de dormir ouvindo música. Eu tinha um radinho de válvulas e a música vinha sempre misturada com os ruídos da estática. Eu preferia a música às rezas. Se eu fosse Deus, eu também preferiria.
Na verdade eu já não rezava mais por duas razões. Primeiro, as aulas de teologia, pela mediocridade, me fizeram pensar -e o pensamento é um perigoso adversário das ideias religiosas. Eu nem sabia se ainda acreditava em Deus. Segundo, se Deus existia, valia o dito pelo salmista e por Jesus de que, antes que eu falasse qualquer coisa, Deus já sabia o que eu iria falar; o que tornava desnecessária a minha fala. Eu estava mais interessado em ouvir a divina beleza da música que em repetir as minhas mesmices que deveriam dar um tédio infinito ao Criador.
Se Deus existe, a beleza é o seu jeito de se comunicar com os mortais. Disso sabem os poetas, como é o caso da Helena Kolody, que escreveu: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo". Ela poderia ter sido uma amiga da solitária Emily Dickinson, que sentia igual. "Alguns guardam o domingo indo à igreja / Eu o guardo ficando em casa / Tendo um sabiá como cantor / E um pomar por santuário / E, ao invés do repicar dos sinos na igreja / Nosso pássaro canta na palmeira / É Deus que está pregando, pregador admirável / E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final eu o encontro o tempo todo no quintal." Às vezes, Deus se revela como pássaro...
Deitei-me e liguei o radinho. Era uma noite de mau tempo, tempestade. O ar estava carregado de eletricidade -que entrava no rádio sob a forma de ruídos, estática, assobios. Era um caos sem sentido. Mas não perdi a esperança e continuei a procurar. De repente -a estática dominava a audição- ouvi lá no fundo uma música que muito amo: o concerto para piano e orquestra n.º 1, de Chopin. Fiquei ali lutando contra a estática: 90% de ruído caótico, 10% de beleza.
Eu não entendo esse mistério: todos os sons, estática e música chegavam juntos, misturados. Mas a minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza, que me comoviam. Minha alma sabia que a ordem morava no meio do caos e ela estava disposta a suportar o horrendo do caos pela beleza quase inaudível que existia no meio dele.
Aí me veio uma ideia sob a forma de uma pergunta que me pareceu uma revelação: a vida toda não será assim, uma luta contra o caos sem sentido em busca de uma beleza escondida? E essa busca da beleza, não será ela a essência daquilo a que se poderia dar o nome de "sentimento religioso?"
"Sentimento religioso", como eu o entendo, nada tem a ver com ideias sobre o outro mundo. E algo parecido com a experiência que se tem ao ouvir a "valsinha" do Chico, ou a primeira balada de Chopin.
Uma sonata de Mozart... Um crítico musical poderia escrever um livro inteiro analisando e descrevendo a sonata. Mas, ao final da leitura do livro, o leitor continuaria sem nada saber sobre a sua beleza. A beleza está além das palavras, exceto quando as palavras se transformam em música, como na poesia.
Ficou aquela imagem. Uma melodia linda se faz ouvir em meio aos horrores da vida. Ainda que seja uma "marcha fúnebre"..."


RUBEM ALVES na FSP

janeiro 05, 2009

A Grande Mídia quando a noticia é do Oriente

Doze regras de redação da Grande Mídia Internacional quando a noticia é do Oriente. A nossa mídia também segue esta cartilha da manipulação. Preste atenção!

1) No Oriente Médio são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se represália.

2) Os árabes, palestinos ou libaneses não tem o direito de matar civis. Isso se chama “terrorismo”.

3) Israel tem o direito de matar civis. Isso se chama “legítima defesa”.

4) Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isso se chama “Reação da Comunidade Internacional”.

5) Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama “Sequestro de pessoas indefesas”.

6) Israel tem o direito de sequestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente são mais de 10 mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter sequestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinos. Isto se chama “Prisão de terroristas”.

7) Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatória a mesma frase conter a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.

8) Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiada e financiada pelos EUA”. Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.

9) Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “Territórios ocupados”, “Resoluções da ONU”, “Violações dos Direitos Humanos” ou “Convenção de Genebra”.

10) Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre “covardes”, que se escondem entre a população civil, que “não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isso se dá o nome de “Covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso se chama "Ação Cirúrgica de Alta Precisão”.

11) Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes Regras de Redação (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “Neutralidade jornalística”.

12) Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são “Terroristas anti-semitas de Alta Periculosidade”.

(Texto francês anônimo, enviado por leitor ao blog da Carta Maior que vc pode acessar clicando no título desta postagem)

janeiro 04, 2009

Museu Etnográfico de Biguaçu

O Museu Etnográfico de Biguaçu/SC - CASA DOS AÇORES está situado no trajeto entre Curitiba/Floripa, BR 101, na altura do km 189, no Balneário de São Miguel.
Depois de muito tempo passando em frente, hoje tive oportunidade de visitá-la. De arquitetura açoriana, a Casa foi construída na primeira metade do século XIX e em 1979 adquirida pelo Estado de Santa Catarina que a restaurou e transformou em museu. Alguns cômodos da Casa não podem ser visitados em virtude de estarem passando por obras de restauro.
A vinda para o Brasil das famílias açorianas das Ilhas do Pico, Terceira, Faial, Flores e Santa Maria ocorreu no século XVII por sugestão do vigário do Desterro (atual Florianópolis) ao Rei D.João V, objetivando povoar os arredores da Ilha de Santa Catarina que estava ameaçada pelos espanhóis e, ao mesmo tempo, resolver os graves problemas do arquipélago portugues devastado pela fome.

Dentre as inúmeras freguesias fundadas em 1750 estava a de São Miguel. O velho casario desapareceu à medida que São Miguel foi perdendo importância econômica, sobrevivendo apenas o Sobrado, atual sede do museu onde acontece a exposição No Tempo do Brasil Canibal.

VOLTAR À FORMA

Tem muita gente se queixando. Nem me arrisco a subir em uma balança...
Estas " dicas" são sobre o que faz com que não se consiga voltar ao peso de antes das festas:
1-Esquecer de pôr fibras no cardápio.
2- Repetir sempre o mesmo menu.
3- Pular refeições.
4- Estipular metas difíceis de serem atingidas.
5- Beber pouca água Zero calorias e muitos benefícios.
6- Comer depressa demais.
7- Extrapolar na quantidade dos alimentos.
8- Dar importância desmedida ao regime.
9- Beliscar o tempo todo.
10- Dispensar legumes e verduras.
11- Ignorar as informações dos rótulos.
12- Sofrer com a ansiedade pelos resultados.
13- Cometer deslizes nos finais de semana.
14- Não praticar exercícios.
15- Ser fã dos chopinhos nas happy hours.
16- Não substituir as frituras pelos grelhados.
17- Ceder aos doces.
18- Acreditar em dietas milagrosas.
19- Deixar de incluir lanches entre as refeições principais.
20- Exagerar na determinação
21- Tomar refrigerantes
Ninguém pode dizer que não colaborei!

janeiro 03, 2009

C U R I T I B A

Resistindo bravamente à distância do mar e aos longos e rigorosos invernos (que já não acontecem), vivi em Curitiba, por mais de 15 anos, até o momento em que minha filha ingressaria na universidade quando, de um certo modo, a induzi a vir estudar em Floripa. Para mim, foram seis anos de idas e vindas, pois ainda trabalhava.
Atualmente, Curitiba tenta se manter "verde" o que parece cada vez mais difícil e a torna uma cidade muito parecida com as demais, com a diferença de os nativos não tratarem muito bem os seus novos moradores.
A "cidade verde" está ameaçada e tenta firmar as conquistas das décadas passadas.
Interessante o video, clicando no título.

M I L L O R - 1 9 5 9


A charge continua atualíssima!

O capacho

A azáfama (ops!) de natal/reveillon/pequenas viagens/visitas não me permitiu enviar nem dar respostas personalizadas às mensagens recebidas. Tive que optar pelas genéricas e impessoais disponíveis na web. Algumas das que recebi também eram desta natureza.
No meio delas porém, havia esta....
“...
Só que neste natal eu me senti diferente, a data em si não importava e sim o que eu sentia. Senti que tanto fazia ser natal, reveilon, páscoa que meus pensamentos e sentimentos seriam os mesmos para com aqueles que amo. Lembrei muito de vc, principalmente por que passava pela sua porta e via o capacho todo sujinho. Ficava mirando toda vida que entrava em casa (uma sadia neurose), o que só acabou quando meu plano se concretizou. Na antevespera de natal eu o peguei, botei pra dentro de casa, coloquei dentro de um balde cheio d´água e sabão omo (não dava pra ser neutro) e no outro dia, na véspera de natal o peguei e lavei com bastante água. O pretume da sujeira saia e as tramas iam ganhando cores que me lembravam vc, simples, harmoniosas e discretas. Coloquei pra secar na nova varanda que tem aquelas redes de proteção e quando cheguei em casa de noite já estava sequinho, lindo.
Aproveitei e limpei o hall de sua porta e somente depois coloquei o capacho lá. Num é que ficou parecendo que vc estava em casa? Foi uma maneira de desejar-lhe feliz natal, ano novo ou páscoa, o que quiser !”


Não dava para simplesmente submetê-la a um DEL. Valeu Sebas!
PS: justificando o pretume: desde agosto não volto ao apt.

janeiro 02, 2009

A AMIZADE


Esta música faz parte da trilha sonora do filme INVASÕES BÁRBARAS que nunca comentei, mas é um dos filmes que revejo de vez em quando. Embora muito se diga sobre ele, o considero uma ode à amizade.
Milan Kundera em seu livro "A Identidade" diz ser a amizade indispensável ao bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado em face de seus inimigos.
Amigos recentes demoram a perceber essa aliança...
São amizades não testadas, não se sabe se enfrentarão as tempestades ou se serão varridas numa chuva de verão.
Só o tempo dirá!

A Elegância do Ouriço

Morar onde os outros passam as férias me dá oportunidade de receber amigos e com eles passear, ir a diferentes praias, descobrir novos lugares...Tudo que não faria se não fosse movida pela curiosidade e interesse deles. Para quem já vive de férias, o farniente dos outros tem um sabor diferente. Além da quebra da rotina, troca-se informações sobre o que se tem visto, feito, lido, planeja-se outras viagens. Há as sessões remembers e também aquelas que chamamos entre nós de botar os fuxicos em dia . Uma delícia! São momentos em que deixo para lá o que faço para preencher os outros dias do ano em que não estou com eles. Tudo pode esperar. Deixei "esperando" este livro e agora, tive um tempinho, vim dar uma olhada nele.
A Elegância do Ouriço (de Muriel Barbery) é uma história que se passa num elegante bairro de Paris, narrada por duas pessoas. Uma adolescente esperta, que percebe mais do mundo à sua volta do que deixa transparecer, principalmente em relação à sua família, aos seus amigos e à sociedade em geral. A outra é a zeladora do edifício, leitora inveterada, bastante mordaz, que tem sempre uma resposta pronta para qualquer ocasião, que também percebe a sua volta muito mais do que os moradores do edifício lhe dão crédito. 
É através dos olhos delas que somos apresentados a uma gama de moradores do prédio, parisienses com suas maneiras de viver, congeladas por séculos de civilização.  
A história se passa quase inteiramente no 7, rue de Grenelle, onde ambas residem e passam a vida preocupadas em  apagar os traços de suas existências e têm bastante sucesso em se tornarem quase invisíveis aos outros, apesar de terem vidas interiores muito ricas e de quase não perderem nada do que acontece ao seu redor, principalmente quanto às intenções das pessoas que conhecem e seus preconceitos.
O texto é jocoso e cheio de observações bem humororadas sobre a vida moderna; divertidas descrições do que é esperado no comportamento de cada um e irônicas coincidências que geram preciosas observações sobre literatura, envelhecimento, psicanálise e muitos outros aspectos do dia a dia .
O comentário abaixo está sem autoria. Quando o registrei pretendia apenas não esquecer de colocar o livro nas dicas para o amigo secreto:
“Muitas vezes, durante a leitura deste livro, eu me encontrei pensando nos quadros do pintor belga René Magritte. As observações de Paloma e Renée são tão bem colocadas que se parecem com a superimposição de imagens característica dos trabalhos de maior humor e ironia do pintor. É só nos lembrarmos de um de seus quadros [ele fez muitas versões do mesmo] mais conhecidos: Ceci n’est pás une pipe, [Isto não é um cachimbo] para entendermos como trabalha o humor presente neste livro de Muriel Barbery. Magritte, assim com Renée e Paloma, está sempre brincando com o significado das palavras ou com o significado das imagens, colocando-as juntas e nos obrigando, frequentemente, a pensar visualmente por causa de suas justaposições.
E me pergunto de a autora não teria homenageado o pintor já que uma das personagens principais se chama Renée, a forma feminina do primeiro nome de Magritte. Tão jocoso quanto os nomes que a autora escolheu para as duas irmãs, moradoras do prédio, Paloma e Colombe, que têm como seus primeiros nomes duas palavras com o mesmo significado: pomba, em línguas diferentes. Esta possibilidade ainda se torna mais crível quando nos lembramos de que a autora é professora de filosofia e certamente estaria familiarizada com os trocadilhos visuais que Magritte se empenhou em aprimorar. No final do século XX, os quadros deste pintor ilustraram muito conceitos de filosofia e lingüística. Tenho certeza que na próxima vez que vier a ler este livro ainda serei capaz de encontrar mais “coincidências” interessantes que me escaparam na primeira leitura.Leio muito. E faz algum tempo que não encontro um livro que me deixasse tão encantada, tão absorvida. Recomendo com muitas estrelas. É definitivamente um livro para quem gosta de livros e de idéias. “

janeiro 01, 2009

Um Ano Novo feliz e desconfiado

"SE VOCÊ quer começar o ano com o pé direito (ou seja, como é costume, com alguns bons propósitos), não perca "Um Homem Bom", de Vicente Amorim. O filme, uma produção anglo-alemã, traz para a tela "Good", de C. P. Taylor -peça de 1981, que é uma das grandes meditações literárias sobre a poltronice que pode levar qualquer um às piores cumplicidades.
Viggo Mortensen é o professor Halder, que, na Berlim dos anos 1930, ensina Proust na universidade e se deita regularmente no divã de um psicanalista freudiano. Junto a seu psicanalista (que é judeu e é também seu melhor amigo), Halder observa o nazismo incipiente com um sarcasmo que se torna desgosto quando os livros de seus autores preferidos são destinados à fogueira.
Em suma, tudo prepara Halder para ser um dissidente (eventualmente morno e pouco heroico, mas, mesmo assim, um dissidente). Ora, eis que, um belo dia, a Chancelaria do Terceiro Reich se interessa por um romance que Halder publicou sem grande sucesso. Nele, é narrada a história de um homem cuja amada sofre de uma doença terminal; por amor, o homem aceita ajudá-la a pôr fim a seus dias. A Chancelaria pede a Halder um ensaio que sirva de fundamento moral para os projetos de "eutanásia" que o regime nazista, "caridosamente", está concebendo para doentes mentais e deficientes graves -na verdade, para todos os "subumanos". Halder não quer o mal de ninguém -ainda menos o de seu amigo judeu. Mas, aos poucos, ele é enredado numa malha de sentimentos pequenos, banais e dificilmente resistíveis: vaidade, ambição, medo e, talvez sobretudo, preguiça e inércia.
Tornando-se membro do partido e da SS, Halder pode festejar sua promoção: ele é agora chefe de seu departamento universitário. Claro, no dito departamento, não se ensina mais Proust. Também, em sua ascensão, Halder substituiu um colega judeu; é uma pena, mas, afinal, se não fosse Halder, seria outro, não é? Assim, à força de covardias aparentemente triviais, homens "bons" e comuns se tornam cúmplices de horrores dos quais, sem mentir propriamente, eles poderão dizer que "não sabiam", "não imaginavam" nada disso.
Ou, melhor ainda, sem mentir propriamente, eles poderão dizer que, se tivessem sabido, se tivessem sido informados, aí sim, eles, "obviamente", não teriam concordado, sua oposição teria sido explícita e vigorosa, mesmo que isso colocasse a perder sua carreira e sua vida. Alguém observará: o fascismo e o nazismo foram derrotados na Segunda Guerra Mundial, e o sistema soviético desmoronou com o Muro de Berlim -por que é que a gente se debruçaria a esta altura sobre a facilidade de nossa complacência com os totalitarismos?
Seria possível responder que a lista é longa dos totalitarismos, grandes e pequenos, que continuam vivos ainda hoje, e não muito longe de nossa casa. Mas o mais importante é que a complacência com o totalitarismo segue sendo a chave mestra que explica quase todas as patologias de nossa relação com as coletividades (nações, torcidas, religiões, culturas, partidos etc). Claro, pertencer a um grupo e se deixar levar por ele é sempre menos cansativo do que decidir por nossa conta. A ponto que as razões para aderir ao grupo se tornam indiferentes: o que importa é o conforto que o grupo oferece a seus membros.
Em outras palavras, para não ter que pensar e agir sozinho, o homem "bom" topa qualquer parada. Por exemplo, pertencer ao partido nazista alivia seriamente meu dever (incômodo) de pensar e agir segundo meu foro íntimo; aceito ser antissemita, homofóbico, defensor da supremacia ariana etc. tanto mais facilmente que tudo isso, no fundo, pouco me importa: é apenas um pedágio que pago para ser membro do clube.
Paradoxo crucial: um grupo pode se unir ao redor de uma ideologia ou de uma convicção na qual quase nenhum de seus membros, em sã consciência, acredita, mas que todos compartilham apenas PARA constituir um grupo -ou seja, pelo prazer de sair quebrando vitrinas, linchando negros e "bichas", torturando calouros, apedrejando o ônibus da torcida oposta. E qual é esse "prazer"?
Simples, é o prazer de esquecer a dificuldade de viver, tirando das costas o fardo e a responsabilidade de julgar com a nossa cabeça. Pois bem, aqui vão meus votos de um Ano-Novo corajoso, livre das pequenas (e terrificantes) complacências do nosso dia-a-dia".

CONTARDO CALLIGARIS na FSP

LOVE FOR ALL


A empresa de marketing sueca Björn Borg publicou recentemente essa polêmica campanha com a promessa de fazer qualquer um encontrar um amor, paixão, aventura. Os valores sobre as formas que se pode amar ainda são rígidos, cabendo questionar: quem ganha e quem perde com todos esses critérios e dogmas?

dezembro 31, 2008

Talvez o último desejo

Com esta tão velha e tão nova crônica da Raquel de Queiroz penso haver encerrado as postagens deste ano. Que venha 2009!!!!

"Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?
Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!
Sim, te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.
Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!
Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!
Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.
Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.
Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.
Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.
Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.
E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.
E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.
E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.
E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.
E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.
E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.
Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?
O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!"


Rachel de Queiroz
dezembro de 1949.
Do livro:Um alpendre, uma rede, um açude.

D E S B U N D E

Estou fechando 1968 sobre o qual muito se falou, aqui e alhures, com a última do Ruy Castro em que registra o início do desbunde...

Ligado no dane-se
À zero hora de 1969, todos os quartos do Solar da Fossa estavam iluminados. Havia 80 festas de Réveillon ardendo ao mesmo tempo. Em várias, a música que saudou o ano novo foi "Also Sprach Zarathustra", de Richard Strauss, famosa por "2001 - Uma Odisséia no Espaço", o filme do ano. O fornecedor da trilha sonora era eu, levando o LP de quarto em quarto e assuntando o universo feminino de cada um.
O Solar era um lindo casarão colonial em Botafogo, perto da igrejinha do Túnel Novo. No século 19, fora um convento. Mas, em 1968, seus moradores -aspirantes a artistas, poetas e jornalistas, como Gal Costa, Paulinho da Viola, Betty Faria, Itala Nandi, Paulo Leminsky, Maria Gladys- não eram muito religiosos. Nem Zé Kéti, o único já famoso.
Quase ninguém tinha televisão -não se perdia tempo assistindo-a. Toca-discos, sim, nem que fosse uma vitrolinha Sonata. No meu hit parade particular estavam "Vou te Contar (Wave)", com o Quarteto 004, e "Light My Fire", com José Feliciano. Para fins imorais, o Modern Jazz Quartet era perfeito -abafava o som ambiente e não perturbava os vizinhos.
Naquela última noite de 1968, o AI-5 ainda não completara três semanas. Vários amigos estavam presos; outros tinham se escondido e só então começavam a reaparecer. Que eu saiba, não ocorreu aos homens dar uma batida no Solar. Ainda bem -90% dos inquilinos eram inimigos do regime.
Mas, mesmo ali, 1969 seria outra história. Bertrand Russell ficaria out; Herman Hesse, in. Passeatas na avenida Rio Branco dariam lugar a idas a Arembepe, na Bahia. Peritos em coquetéis Molotov passariam a ferver cogumelos. Uma palavra tomou conta: desbunde. Surgia um mundo novo, irreconhecível e, bem ao contrário de 1968, ligado no dane-se e movido a cada um na sua.