dezembro 29, 2008

F o r t a l e z a


Em se tratando de Fortaleza, surpreende ainda não haverem demolido.
Clube Náutico - 1953

D E U S

"...
A doença não implica necessariamente incapacidade. Pelo contrário, a desordem fisiológica pode abrir portas para percepções incomuns. As religiões antigas bem o sabem, com seus jejuns, poções "mágicas", mantras, orações intermináveis, música, vigílias no deserto e na solidão. Tudo visando estados alterados de consciência. Há uma dimensão da vida que está distante da banalidade cotidiana, e isso nada tem a ver com essa coisa barata chamada "espiritualidade quântica".
Tem gente que jura que Deus morreu. Tentativas de matar Deus foram feitas, e por gente muito capaz. Nietzsche tentou nos convencer que quem crê em Deus tem medo da vida. Ressentimento é a palavra. O horror cósmico faria de nós covardes. E mais: Deus nos tiraria o Eros, o desejo pela vida. Mas você pode ser um brocha diante da vida e ser ateu. Freud quis provar que crer em Deus revela o retardado assustado que vive no adulto. Mas Freud bem sabia que ateus e crentes retardados desfilam pelas ruas em busca dessa coisa superestimada chamada "felicidade". Marx jurou que ganham dinheiro com a fé em Deus. Mas se ganha dinheiro com tudo, amor, sexo, ódio, arte, basta dar sorte, enganar os outros ou trabalhar com afinco.
Infelizmente, há muita teologia que ajuda a matar Deus. Deus me livre da teologia de vanguarda. Se, na arte, a "vanguarda" serviu pra justificar quem não sabia pintar, escrever ou fazer filmes, na teologia, serviu para fazer de Jesus um personagem de novela das oito. Nada contra a teologia, ao contrário, julgo-a uma disciplina essencial para nos ensinar a ver o invisível. Mas, como disse Heine em relação aos teólogos de sua época, "só se é traído pelos seus".
Fernando Pessoa, em seu desassossego, diz que não aderiu ao culto da Humanidade, essa mania dos modernos, porque sendo ela, a humanidade, nada além do que uma espécie animal, adorá-la é adorar um conjunto de corpos humanos com cabeça de bicho. Portanto, uma reles forma de paganismo. Dizia o poeta que sendo Deus improvável, adorá-lo é sempre menos ridículo.
Outro grande escritor português disse recentemente que a Bíblia é um livro ruim e que não deve ser lido. Bobagens desse tipo, cheias de glamour, são repetidas ao sabor da ignorância comum. Mas devemos ter paciência com ele, afinal ninguém precisa entender de tudo.
Mesmo em pessoas inteligentes, Deus se mistura com todo tipo de trauma infantil ou raiva do pai ou da mãe ou do patrão.
Muita gente grande fica com cara de criança brava e mal amada quando se fala de Deus. No fundo é a velha carência humana gritando contra a indiferença cósmica se revelando em "crítica a Deus" e não em "fé em Deus", como diriam os nietzschianos de plantão. Outro erro comum: Deus faz os homens matarem. Mentira: matamos porque gostamos de matar. O século 20 provou de modo cansativo que Deus não é necessário para matarmos milhares de pessoas, basta uma "boa causa".
A teologia feminista diz que "a Deusa" existe para punir o patriarcalismo. A teologia bicha (Queer Theology) se pergunta: por que Jesus viveu entre rapazes, hein? Alguns latino-americanos vêem Nele um primeiro Che, hippies viam um primeiro Lennon, outros, um consultor de sucesso financeiro. Ufólogos espíritas dizem ser Ele um extraterrestre carinhoso.
Prefiro o cristianismo antigo (prefiro sempre as religiões velhas). Um Deus que sente dor e morre por amor a quem não merece é um maravilhoso escândalo ético. O Cristo antigo é um clássico. Melhor do que essas invenções da indústria teológica de vanguarda, feitas para o consumo moderno".

LUIZ FELIPE PONDÉ na FSP hoje

dezembro 28, 2008

Meus pés

Não está reconhecendo?
A fotografia é de Ale Haro - a legenda da foto pode ser vista no seu blog
http://fotoocio.blogspot.com/ onde se chega clicando o título deste post.

Caleidoscópio

dezembro 26, 2008

O "alemão" na área...

Três velhinhas estavam reunidas para um chá da tarde, quando a primeira falou:
- Puxa, acho que estou ficando esclerosada. Ontem, me peguei com a vassoura na mão e não me lembrava se já tinha varrido a casa ou não.
- Isso não é nada - diz a segunda. Outro dia eu me vi de pé, ao lado da cama, de camisola, e não sabia se tinha acabado de acordar ou estava me preparando para dormir.
- Cruz credo! fez a terceira. Deus me livre ficar assim! Isola!
E deu três batidinhas na mesa: toc-toc-toc.
Olhou para a cara das outras e emendou:
- Esperem um pouco que eu já volto! Tem gente batendo na porta!

D e s e j o

Preciso dizer onde gostaria de estar?

The Puppini Sisters


Com imagens de cartoons do Pernalonga!

D U R A R

Fui presenteda pelo Artur Brito com A Vida Humana do A.Comte-SPONVILLE. O livro retrata doze etapas da vida humana ilustradas cada uma delas pelos desenhos de Sylvie Thybert que vem a ser a sua mulher.
Do capítulo X (fls 86) colhi este trecho de um tema que tem me ocupado o pensamento com uma certa frequência ...

"...Durar? É estar no tempo,mas na continuidade do tempo. É ter um passado que cresce. É ter cada vez menos futuro.É levar a peito o presente, em vez de ser levado por ele como uma criança. É levar a peito a própria morte. É amadurecer, caso se consiga. É envelhecer, pois é preciso. É continuar vivendo, lutando, agindo, amando. É superar a fadiga, o tédio, o desgosto, o pavor, o horror.E de quanta coragem precisamos apesar de tudo! Banalidade de tudo, exceto do pior. Fastio de tudo, exceto do melhor.Isso não impede a felicidade, aquela de que continuamos capazes, ou de que nos tornamos capazes (bem mais, para alguns, do que 20 anos antes). Isso não impede a doçura, a alegria, a curiosidade, a emoção, o afeto e o desejo. Não impede, às vezes, alguma descoberta ou ruptura, algum remanejamento ou reviravolta ...
....
No entanto, sentimos claramente que o essencial já aconteceu, que é inútil esperar por ele, que, no melhor dos casos, ele pode apenas continuar ..."

dezembro 25, 2008

Ótima notícia!


Dos 12 feriados de 2009 , dois serão na terça, dois na quinta, quatro na segunda e dois na sexta.
Não se preocupe com o que você vai ouvir sobre os efeitos nefastos na economia e outros blas, blas, blas. Além de não serem verdadeiros ( há sempre os que ganham com turismo e lazer), não cabe a você solucionar os problemas do mundo! Portanto, “enforque” , “ emende” , “ imprense” os que puder. Nem que seja para ficar em casa fazendo uma "sessão desapego", enquanto arruma seus armários ou lendo aqueles livros que estão se empilhando desde o ano passado. Se estiver bem de grana, comece a planejar aquelas viagens curtas que vinham sendo adiadas ou vá mais longe, saindo ou chegando num dos “feriadões” para “esticar” as suas preciosas férias.
Não fique pensando que isto é mais uma das “coisas de brasileiros”.
Na França, por exemplo, só no mês de maio serão tres os feriados.
Voilá!

A salvação da humanidade

Ontem jurei para mim mesma que não postaria a respeito da declaração do Papa noticiada pela BBC. No entanto, comentar com uma amiga enquanto arrumávamos a cozinha após a ceia, não foi suficiente para me aquietar e conter.
Vejam até onde vai e talvez me darão razão.
"...salvar a humanidade do comportamento homossexual ou transexual é tão importante quanto salvar as florestas da destruição”. Esta questão de “ecologia do homem” foi a tônica do discurso que fez para os funcionários do Vaticano.
“As florestas tropicais merecem a nossa proteção. Mas o homem, como criatura, não merece nada menos (do que isso)”,
Segundo ele, tornar menos clara a distinção entre masculino e feminino pode levar à “destruição da raça humana” (a teoria de eliminação dos gêneros é defendida como chave para a tolerância).
É de deixar católicos envergonhados e a mim de juramento quebrado...

dezembro 24, 2008

Escrever como terapia


Quando o remédio é escrever - Efeitos terapêuticos de manter blogs é objeto de atenção dos pesquisadores. A matéria da revista mente&cérebro de janeiro de 2009, assinada pela jornalista Jessica Wapner, pode ser lida clicando o título desta postagem.
"...Cientistas e escritores há anos conhecem os benefícios terapêuticos de escrever sobre experiências pessoais, pensamentos e sentimentos. Mas, além de servir como um mecanismo para aliviar o stress, expressar-se por meio da escrita traz muitos benefícios fisiológicos. Pesquisas mostram que com a prática da escrita é possível aprimorar a memória e o sono, estimular a atividade dos leucócitos e reduzir a carga viral de pacientes com aids e até mesmo acelerar a cicatrização após uma cirurgia. Um estudo publicado na revista científica Oncologist mostra que pessoas com câncer que escreviam para relatar seus sentimentos logo depois, se sentiam muito melhor, tanto mental quanto fisicamente, em comparação a pacientes que não se deram a esse trabalho"
Mãos à obra!!!

dezembro 23, 2008

O Presépio

MENINA , lá em Sobral, não tive inveja dos católicos, mas na minha casa não tinha presépio. Para o meu pai, o JC cujo aniversário se comemorava, não passava de um revolucionário que deu certo. Hoje eu diria, metaforicamente, que conseguiu se manter na mídia. Um danado!
Não conheci o ritual de beijar a fita na visita aos presépios, lá as estrebarias eram de palha de carnaúba e faziam lagos de pedaços de espelho. Numa "lapinha" (era assim que chamávamos o presépio) montada na mesa ao centro da sala da casa de umas velhas que moravam na mesma praça que nós, havia, dentre os animais comuns aos demais presépios, uma barata enorme feita de flandre (o mesmo material de que eram feitas as latas). Seu tamanho era absolutamente desproporcional mas nunca me pareceu inadequada a sua presença naquele ambiente. Era, digamos, um diferencial, na mesmice dos presépios que só variavam no serem mais ou menos ricos. Não sei se a barata era fascinante para as outras crianças. Todo ano voltava para ver se ela ainda estava lá...
Nosso olhar para os presépios, como para todas as coisas da nossa infância, vai se modificando com o tempo. Muito sintomático!

A crônica do Rubem Alves:


"MENINO, LÁ EM MINAS , eu tinha inveja dos católicos. Eu era protestante sem saber o que fosse isso. Sabia que, pelo Natal, a gente armava árvores com flocos de algodão imitando neve que não sabíamos o que fosse. Já os católicos faziam presépios.
Os pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.
Até os católicos mais humildes faziam um presépio. As despidas salas de visita se transformavam em lugares sagrados. As casas ficavam abertas para quem quisesse se juntar aos reis, pastores e bichos. E nós, meninos, pés descalços, peregrinávamos de casa em casa, para ver a mesma cena repetida e beijar a fita.
Nós fazíamos os nossos próprios presépios. Os preparativos começavam bem antes do Natal. Enchíamos latas vazias de goiabada com areia, e nelas semeávamos alpiste ou arroz. Logo os brotos verdes começavam a aparecer. O cenário do nascimento do Menino Jesus tinha de ser verdejante.
Sobre os brotos verdes espalhávamos bichinhos de celulóide. Naquele tempo ainda não havia plástico. Tigres, leões, bois, vacas, macacos, elefantes, girafas. Sem saber, estávamos representando o sonho do profeta que anunciava o dia em que os leões haveriam de comer capim junto com os bois e as crianças haveriam de brincar com as serpentes venenosas. A estrebaria, nós mesmos a fazíamos com bambus. E as figuras que faltavam, nós as completávamos artesanalmente com bonequinhos de argila.
Tinha também de haver um laguinho onde nadavam patos e cisnes, que se fazia com um pedaço de espelho quebrado. Não importava que os patos fossem maiores que os elefantes. No mundo mágico tudo é possível. Era uma cena "naif". Um presépio verdadeiro tem de ser infantil.
E as figuras mais desproporcionais nessa cena tranqüila éramos nós mesmos. Porque, se construímos o presépio, era porque nós mesmos gostaríamos de estar dentro da cena. (Não é possível estar dentro da árvore!).
Éramos adoradores do Menino, juntamente com os bichos, as estrelas, os reis e os pastores.
Será que essa estória aconteceu de verdade? Foi daquele jeito descrito pelas escrituras sagradas? As crianças sabem que isso é irrelevante. Elas ouvem a estória e a estória acontece de novo. Não querem explicações. Não querem interpretações. A beleza da estória lhes basta. O belo é verdadeiro. Os teólogos que fiquem longe do presépio. Suas interpretações complicam o mundo.
O presépio nos faz querer "voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de um outro mundo." (Octávio Paz )
Seria tão bom se os pais contassem essa estória para os seus filhos!"


Rubem Alves